{"id":242320,"date":"2018-05-04T08:02:16","date_gmt":"2018-05-04T11:02:16","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=242320"},"modified":"2018-05-04T08:02:16","modified_gmt":"2018-05-04T11:02:16","slug":"a-universidade-publica-e-as-transformacoes-que-estao-por-vir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/a-universidade-publica-e-as-transformacoes-que-estao-por-vir\/","title":{"rendered":"A universidade p\u00fablica e as transforma\u00e7\u00f5es que est\u00e3o por vir"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"bigtitle\" style=\"text-align: justify;\" data-section=\"EDUCA\u00c7\u00c3O\"><\/h1>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><time class=\"time d-b\" datetime=\"2018-05-04BRT07:05\">Alexandre de Freitas Barbosa\u00a0<\/time><\/strong><\/p>\n<div class=\"subtitle\" style=\"text-align: justify;\"><em>Os professores que montaram os cursos sobre o golpe formam uma gera\u00e7\u00e3o que apostou no potencial de mudan\u00e7a da sociedade brasileira: agora, novos agentes de mudan\u00e7a est\u00e3o nas salas de aula e nas ruas<\/em><\/div>\n<div class=\"social pc\" style=\"text-align: justify;\">\n<\/div>\n<div class=\"newsaside no600\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"cf\">\n<form action=\"http:\/\/operamundi.uol.com.br\/mailling\/cadastrar.shtml\" method=\"post\">\n<div class=\"newsaside--input col-6\"><\/div>\n<div class=\"col-2\"><\/div>\n<\/form>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"descript\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><strong>Quem somos<\/strong><\/p>\n<p>Escrevo no plural, pois acredito ser esta a hist\u00f3ria de muitos e de muitas colegas. \u00c9 um depoimento sobre um espa\u00e7o social onde convivi e interagi durante toda uma vida. Portanto, \u201cn\u00f3s\u201d \u00e9ramos os jovens e as jovens que ingressaram na universidade p\u00fablica brasileira nos anos 1980.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Hoje somos quase todos grisalhos e muitos atuamos como professores das universidades p\u00fablicas onde nos criamos. Formaram-nos para que f\u00f4ssemos agentes hist\u00f3ricos. Hoje contribu\u00edmos para a forma\u00e7\u00e3o de agentes hist\u00f3ricos \u2013 (trans)formadores da sociedade movidos por olhares cr\u00edticos e inovadores.<\/p>\n<p>A maioria de n\u00f3s se considera \u201cde esquerda\u201d, cabendo nesta defini\u00e7\u00e3o pessoas dos mais variados matizes ideol\u00f3gicos. Nosso partido \u00e9 a defesa da universidade p\u00fablica e integral, inclusiva e de qualidade, internacionalizada e brasileir\u00edssima.<\/p>\n<p>Obviamente, nem todos os professores e pesquisadores das universidades p\u00fablicas comungam dessa concep\u00e7\u00e3o. Mesmo nos cursos de ci\u00eancias humanas, muita gente aderiu ao \u201cprodutivismo\u201d como \u00fanica forma de fazer pesquisa ou preferiu a ascens\u00e3o social dentro ou fora da universidade. Por outro lado, uma parte expressiva dos que se formaram na universidade p\u00fablica atua, de maneira obstinada e militante, em outros espa\u00e7os: juntos aos movimentos sociais, diretamente ou por meio das ONGs, na burocracia do setor p\u00fablico e at\u00e9 mesmo no mercado ou nas universidades privadas.<\/p>\n<p>N\u00f3s resistimos nas nossas cidadelas\u00a0<a href=\"http:\/\/operamundi.uol.com.br\/conteudo\/geral\/49319\/a+universidade+publica+e+as+transformacoes+que+estao+por+vir.shtml#ref1\" name=\"ref1-1\">[1]<\/a>\u00a0e, tal como nossos mestres, n\u00e3o queremos e nem podemos ficar nelas encastelados, como eles tamb\u00e9m n\u00e3o ficaram. Buscamos estabelecer pontes com a sociedade e participar da hist\u00f3ria em movimento.<\/p>\n<p><strong>Os cursos sobre o golpe<\/strong><\/p>\n<p>Estimo, com base no Censo do INEP, que somos no Brasil em torno de 25 mil professores<a title=\"\" href=\"http:\/\/operamundi.uol.com.br\/conteudo\/geral\/49319\/a+universidade+publica+e+as+transformacoes+que+estao+por+vir.shtml#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>\u00a0com o perfil que procuro analisar ao longo deste texto. Muitos ministramos, no presente momento, o curso sobre o \u201cgolpe de 2016\u201d \u2013 cuja iniciativa pioneira partiu da UnB \u2013 em dezenas de universidades p\u00fablicas brasileiras.<\/p>\n<p>No atual clima de radicaliza\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira, temos ficado cada vez mais expostos. \u00c9 como se dissessem sobre \u201cn\u00f3s\u201d: \u201celes\u201d falam de \u201cgolpe\u201d porque s\u00e3o professores. Ou s\u00e3o professores porque s\u00e3o \u201cpetistas\u201d, \u201cradicais\u201d, \u201clun\u00e1ticos\u201d, \u201cidealistas\u201d ou \u201cmanipuladores de c\u00e9rebros ing\u00eanuos\u201d, conforme a prefer\u00eancia de quem olha de fora. A experi\u00eancia de quem nunca passou pela universidade p\u00fablica; ou \u201capenas\u201d passou \u2013 pois muitos frequentaram seus cursos e obtiveram o diploma e se foram como se gozassem de um privil\u00e9gio adquirido \u2013, \u00e9 bem diferente da nossa. Da\u00ed o estranhamento. Eles n\u00e3o entendem o que somos e o que fazemos.<\/p>\n<p>Viver integralmente a universidade p\u00fablica brasileira exige uma entrega de corpo e alma \u00e0quilo que configura a sua marca, para al\u00e9m da excel\u00eancia acad\u00eamica e cient\u00edfica, e que n\u00e3o faz parte do curr\u00edculo.<\/p>\n<p>O \u201caquilo\u201d se adquire pela socializa\u00e7\u00e3o na universidade. Uma ruptura ent\u00e3o se processa, trazendo um novo sentido para a vida dos jovens e das jovens de classe m\u00e9dia. Sim, porque a universidade p\u00fablica brasileira dos anos 1980, quando nela ingressamos, ainda era bastante elitista, bem mais do que hoje, bem menos do que no passado.<\/p>\n<p>Esse processo de socializa\u00e7\u00e3o se d\u00e1 de v\u00e1rias formas. N\u00e3o existe doutrina\u00e7\u00e3o. Eu pelo menos nunca fui doutrinado, nem doutrinei ningu\u00e9m. Sei que existe, mas s\u00e3o tantas as op\u00e7\u00f5es que s\u00f3 o \u00e9 quem se deixar ser.<\/p>\n<p>A primeira camada de socializa\u00e7\u00e3o na universidade p\u00fablica \u00e9 o exerc\u00edcio do aprendizado dentro e fora de sala de aula: ler um texto, apreender as categorias, debater interpreta\u00e7\u00f5es alternativas com os colegas, transformar o m\u00e9todo em ferramenta de trabalho, confrontar os autores, mas sempre com perspectiva hist\u00f3rica. Isso faz de n\u00f3s \u201ctrabalhadores do pensamento\u201d, termo cunhado por Celso Furtado<a title=\"\" href=\"http:\/\/operamundi.uol.com.br\/conteudo\/geral\/49319\/a+universidade+publica+e+as+transformacoes+que+estao+por+vir.shtml#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>\u00a0numa de suas obras.<\/p>\n<p>Esse aprendizado extravasa para a rep\u00fablica onde os jovens e as jovens de diferentes cursos moram (juntando gentes das exatas e das humanas) e, n\u00e3o menos importante, invade os bares e as festas, onde existe muito debate sobre o que se l\u00ea em sala de aula.<\/p>\n<p>Mas isso n\u00e3o \u00e9 tudo. Existe uma segunda camada: o est\u00edmulo ao livre pensar. Ler de tudo e sobre tudo e jamais se conformar com o que se l\u00ea em sala de aula. Os jovens e as jovens criados na universidade p\u00fablica brasileira adoram literatura e pol\u00edtica. Isso parece n\u00e3o ter mudado pelo que observo nos meus alunos e alunas. H\u00e1 um clima de curiosidade incessante. S\u00e3o estimulados pelos seus colegas e pelos professores a ir al\u00e9m dos textos. Esta camada talvez seja mais importante que a primeira, mas inexiste sem aquela. Permite inclusive questionar o conte\u00fado acad\u00eamico, ressignificando-o.<\/p>\n<p>Da conjun\u00e7\u00e3o dessas duas camadas de socializa\u00e7\u00e3o, nos transmutamos como indiv\u00edduos, alunos e professores. Reprocessamos nossas origens, incorporamos alteridades e promovemos rupturas internas que se enra\u00edzam no tecido social de que somos parte.<\/p>\n<p>A terceira camada \u2013 especialmente importante nas ci\u00eancias humanas \u2013 \u00e9 composta pela interpreta\u00e7\u00e3o (na verdade, s\u00e3o muitas) do processo hist\u00f3rico, que n\u00f3s recebemos, mas tamb\u00e9m ajudamos a construir. Tais interpreta\u00e7\u00f5es sobre a expans\u00e3o do capitalismo no Brasil, suas tens\u00f5es e conflitos, n\u00e3o podem ser neutras, pois a universidade p\u00fablica participou do processo e foi derrotada (parcialmente) pelo regime militar.<\/p>\n<p>Parcialmente, porque \u2013 adaptando de forma livre a formula\u00e7\u00e3o de Roberto Schwarz<a title=\"\" href=\"http:\/\/operamundi.uol.com.br\/conteudo\/geral\/49319\/a+universidade+publica+e+as+transformacoes+que+estao+por+vir.shtml#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>, depois por ele retificada \u2013 havia uma \u201crelativa hegemonia cultural\u201d da esquerda durante o regime militar, especialmente na esfera acad\u00eamica, mas n\u00e3o apenas, pois ela se alastrava para outras esferas da sociedade. Muitos intelectuais, artistas e jornalistas compartilhavam da mesma ferida, o que permitia uma compreens\u00e3o mais ou menos consensual do processo hist\u00f3rico. Essa narrativa, por sua vez, servia como uma esp\u00e9cie de disponibilidade dos professores e estudantes para as transforma\u00e7\u00f5es (e para as lutas) que haveriam de vir.<\/p>\n<p><strong>A expans\u00e3o dos cursos de humanas<\/strong><\/p>\n<p>No final dos anos 1970 e durante os anos 1980, os cursos de ci\u00eancias humanas se expandiram pelo Brasil afora e as v\u00e1rias leituras cr\u00edticas fornecidas pela universidade se enraizaram. Ou melhor, elas eram hegem\u00f4nicas no seu peda\u00e7o e se arvoravam a ocupar espa\u00e7os nas esferas da pol\u00edtica, da sociedade e da cultura, no sentido de mudar o curso da hist\u00f3ria, incorporando os atores renegados.<\/p>\n<p>Paradoxalmente, a universidade p\u00f4de faz\u00ea-lo na medida em que os programas de gradua\u00e7\u00e3o e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o nas ci\u00eancias humanas se ampliavam, j\u00e1 que, mesmo com as crises, havia recursos financeiros para a expans\u00e3o do ensino superior durante os governos militares. Portanto, a universidade ganhava musculatura por dentro do regime que combatia, criticava e pretendia superar.<\/p>\n<p>V\u00e1rios processos ent\u00e3o se somaram, adquirindo energia hist\u00f3rica. Jovens formados nas melhores escolas do pa\u00eds (que naquele momento vinham, n\u00e3o apenas, mas especialmente das escolas particulares); com \u00e2nsia de conhecimento e dispostos a uma socializa\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o p\u00fablico universit\u00e1rio; num momento em que o PT se organizava a partir de baixo, na onda das Diretas-J\u00e1 e da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988; culminando com as elei\u00e7\u00f5es de 1989, quando a minha gera\u00e7\u00e3o votou pela primeira vez para presidente na idade em que se costuma votar pela primeira vez numa democracia: entre 18 e 20 anos. Para completar, muitos de n\u00f3s votamos pela primeira vez no l\u00edder popular hoje injustamente encarcerado em Curitiba.<\/p>\n<section class=\"noticias-relevantes cf\">\n<h4 class=\"subtitle\"><\/h4>\n<\/section>\n<div><\/div>\n<p>J\u00falio Minasi\/Secom UnB<br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.operamundi.com.br\/media\/images\/31562023_1854403451271048_2776455344774184960_o.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nUniversidade de Bras\u00edlia: pioneira na iniciativa de criar curso sobre golpe de 2016<\/p>\n<p>N\u00f3s, os universit\u00e1rios, n\u00e3o form\u00e1vamos mais uma pequena elite como nos anos 1960 e 1970. Uma elite de massa engrossaria os programas de mestrado e doutorado nos anos subsequentes. A agenda era a da democracia e da cidadania, da recupera\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico e do combate \u00e0 desigualdade. Tratava-se de um acerto de contas com a hist\u00f3ria. Apenas hoje me dou conta de que esse era um fato social radicalmente novo.<\/p>\n<p>Luiz Werneck Vianna quantifica essa expans\u00e3o: saltamos de 100 mil estudantes no ensino superior em 1960 para cerca de 1,4 milh\u00e3o em 1986. Para o cientista pol\u00edtico, a interven\u00e7\u00e3o dos intelectuais na vida p\u00fablica passou a se dar a partir da universidade, que contava com as bolsas concedidas pela Capes e pelo CNPq. Mas diferentemente do passado, os intelectuais n\u00e3o dispunham mais de um \u201cmandato p\u00fablico\u201d para se dirigir \u00e0 na\u00e7\u00e3o<a title=\"\" href=\"http:\/\/operamundi.uol.com.br\/conteudo\/geral\/49319\/a+universidade+publica+e+as+transformacoes+que+estao+por+vir.shtml#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. Eram v\u00e1rios os intelectuais e v\u00e1rios os atores sociais em busca da amplia\u00e7\u00e3o da cidadania, enquanto as for\u00e7as da rea\u00e7\u00e3o reorganizavam seus m\u00e9todos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Paralelamente, Vianna revela novas tend\u00eancias emergentes na universidade dos anos 1990. De um lado, havia uma \u201ccomunidade cient\u00edfica eticamente organizada\u201d interagindo com as v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es (Congresso, empresas, partidos e movimentos sociais organizados); de outro, vigorava a \u201cpervers\u00e3o corporativa em torno dos pequenos objetos de pesquisa\u201d.<\/p>\n<p>A universidade fazia agora parte de uma sociedade mais complexa com a qual interagia, de maneira cada vez mais fragmentada, ou ent\u00e3o se isolava na consagra\u00e7\u00e3o de um pequeno grupo de her\u00f3is \u2013exclusivamente voltados para a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e tomando como medida do seu sucesso a chancela obtida junto aos grandes centros internacionais. Os anos 1990 tamb\u00e9m se caracterizaram pela escassez de novos concursos para professores e pela estabiliza\u00e7\u00e3o do n\u00famero de matr\u00edculas de gradua\u00e7\u00e3o nas universidades p\u00fablicas, compensada pelo crescimento exponencial das universidades privadas.<\/p>\n<p>Em s\u00edntese, a universidade p\u00fablica surgiu como um movimento de \u201cservidores da sociedade no processo de transforma\u00e7\u00e3o da cultura\u201d, enfrentando-se com a sua \u201cimpregna\u00e7\u00e3o elitista\u201d, e sem abdicar de um \u201cexcelente padr\u00e3o cient\u00edfico\u201d<a title=\"\" href=\"http:\/\/operamundi.uol.com.br\/conteudo\/geral\/49319\/a+universidade+publica+e+as+transformacoes+que+estao+por+vir.shtml#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>\u00a0\u2013 tal como indicado por Florestan, ao revelar a tens\u00e3o constitutiva da USP em particular, mas que serve tamb\u00e9m, no meu entender, para situar os dilemas da universidade p\u00fablica no Brasil durante o seu nascedouro. Em 1964, a universidade foi golpeada, mas se recuperou como espa\u00e7o de reflex\u00e3o cr\u00edtica e forma\u00e7\u00e3o de novos quadros, chegando inclusive a exercer uma \u201crelativa hegemonia cultural\u201d na vida da sociedade brasileira.<\/p>\n<p><strong>Marielle e a renova\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Se isso n\u00e3o mudou radicalmente a partir dos anos 1990, outro espa\u00e7o (antis)social se cristalizou no seio da universidade p\u00fablica, conciliando elitismo, que mostra a sua cara no discurso pretensamente meritocr\u00e1tico anticotas; reifica\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, tida como \u00fanico crit\u00e9rio de avalia\u00e7\u00e3o docente; e internacionaliza\u00e7\u00e3o passiva, por meio da ades\u00e3o a problemas de pesquisa distantes da nossa realidade ou sem a adapta\u00e7\u00e3o criteriosa necess\u00e1ria.<\/p>\n<p>Tal conflito interno no seio da universidade p\u00fablica brasileira assume uma nova configura\u00e7\u00e3o a partir dos governos do PT, que contribu\u00edram para um novo padr\u00e3o de expans\u00e3o da universidade p\u00fablica, ao criar novos centros e novos cursos, e adotar uma pr\u00e1tica voltada para a inclus\u00e3o de segmentos sociais at\u00e9 ent\u00e3o marginalizados do acesso ao ensino superior. Marielle Franco \u00e9 o exemplo t\u00edpico da capacidade de renova\u00e7\u00e3o da universidade p\u00fablica brasileira. Esta fornece o lugar para a combust\u00e3o, mas a chama vem de fora da cidadela, que dela vive e renasce.<\/p>\n<p>O fragmento dos jovens e das jovens de classe m\u00e9dia que se socializaram na universidade p\u00fablica no final dos anos 1980 \u2013 e que hoje se tornaram professores, encarregados de formar as novas gera\u00e7\u00f5es e de se deixar por elas trans(formar) \u2013 sente que \u00e9 o momento de resgatar a miss\u00e3o origin\u00e1ria da universidade p\u00fablica, tal como formulada pelos nossos mestres.<\/p>\n<p>Nesses trinta anos, ou seja, desde que ingressamos na universidade p\u00fablica, muita coisa mudou. Por exemplo, n\u00e3o existe mais uma cultura universit\u00e1ria \u201cpetista\u201d, mas at\u00e9 certo rep\u00fadio pelos quadros do partido. Isso porque os anos 2000 foram palco de diverg\u00eancias sobre o significado dos governos do PT para a resolu\u00e7\u00e3o dos nossos impasses enquanto sociedade capitalista da periferia, que cria e recria novas hierarquias sociais e desigualdades de maneira incessante.<\/p>\n<p>O contexto agora \u00e9 outro, em virtude do retrocesso que vivemos depois de 2016. O fr\u00e1gil consenso inscrito na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 foi em poucos meses rasgado, algo somente poss\u00edvel a partir da atua\u00e7\u00e3o coligada das classes dominantes. Se os m\u00e9todos s\u00e3o hoje diferentes, o objetivo \u00e9 o mesmo: retomar as bases do capitalismo selvagem no Brasil, eliminando as for\u00e7as de dissenso.<\/p>\n<p>A descaracteriza\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas sociais e da legisla\u00e7\u00e3o trabalhista, o desmonte programado das empresas e bancos estatais, a defesa de um ajuste fiscal que preserva os ganhos do setor financeiro e de uma reforma educacional autorit\u00e1ria em todos os n\u00edveis de ensino, al\u00e9m da ofensiva contra os direitos humanos, demonstraram a esses antigos jovens \u2013 hoje cidad\u00e3os de meia idade, alguns inclusive gozando de certo prest\u00edgio e aderindo ao comodismo vigente \u2013 que a posi\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria conquistada se tornou menos importante do que a resist\u00eancia contra o novo \u201cgolpe\u201d.<\/p>\n<p><strong>Resist\u00eancia e constru\u00e7\u00e3o do futuro<\/strong><\/p>\n<p>O processo de socializa\u00e7\u00e3o por que passamos no passado, e os espa\u00e7os que hoje ocupamos motivados por esses valores sedimentados na universidade p\u00fablica, nos transformaram em obst\u00e1culos \u00e0 pol\u00edtica de terra arrasada que impera hoje no pa\u00eds. Nascemos para a vida pol\u00edtica num momento de virada, que nos impulsionou como atores hist\u00f3ricos potenciais. Neste outro momento de virada, s\u00f3 nos resta agir como elementos de resist\u00eancia, empenhados numa nova atividade construtiva e movidos pela ousadia propositiva.<\/p>\n<p>Faltou e falta ainda uma autocr\u00edtica sobre a nossa condi\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria, at\u00e9 para que n\u00e3o nos conformemos com certa tend\u00eancia \u00e0 vitimiza\u00e7\u00e3o, que nos coloca fora da cena hist\u00f3rica. Ficamos, por muito tempo, divididos e distantes da sociedade. Se n\u00e3o formos capazes de beber da realidade pujante e multifacetada ao nosso redor, ficaremos acuados entre a sanha produtivista e as demandas corporativistas internas.<\/p>\n<p>Uma nova intera\u00e7\u00e3o entre a universidade p\u00fablica e o processo hist\u00f3rico brasileiro est\u00e1 em vias de se gestar. Chegou o momento de fazermos a hist\u00f3ria tal como nos foi ensinado e passamos a ensinar. A sala de aula, o projeto de pesquisa e os semin\u00e1rios coletivos \u2013 espa\u00e7os nos quais se exercita a excel\u00eancia acad\u00eamica e cient\u00edfica \u2013 n\u00e3o podem mais estar descolados da participa\u00e7\u00e3o ativa nas transforma\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas do nosso tempo.<\/p>\n<p>Se perdermos essa luta onde nos cabe influir resistindo, forjando alternativas e formando as novas gera\u00e7\u00f5es como fomos formados, n\u00e3o ficar\u00e1 ningu\u00e9m para contar a hist\u00f3ria complexa, contradit\u00f3ria, e cheia de idas e vindas, da universidade p\u00fablica originariamente criada pelas elites e para as elites; mas que n\u00e3o aceitou o figurino e decidiu partir para a linha de frente, abrindo brechas no sistema e construindo perspectivas contra-hegem\u00f4nicas.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os professores que montaram os cursos sobre o golpe formam uma gera\u00e7\u00e3o que apostou no potencial de mudan\u00e7a da sociedade brasileira: agora, novos agentes de mudan\u00e7a est\u00e3o nas salas de aula e nas ruas<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":58194,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1175,6],"tags":[],"class_list":["post-242320","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-educacao","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/assembleia-faculdade.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/242320","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=242320"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/242320\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58194"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=242320"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=242320"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=242320"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}