{"id":244102,"date":"2018-05-18T18:47:35","date_gmt":"2018-05-18T21:47:35","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=244102"},"modified":"2018-05-18T18:47:35","modified_gmt":"2018-05-18T21:47:35","slug":"o-canibalismo-e-tipicamente-humano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-canibalismo-e-tipicamente-humano\/","title":{"rendered":"\u201cO canibalismo \u00e9 tipicamente humano\u201d"},"content":{"rendered":"<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\"><em>A pr\u00e9-historiadora francesa, especialista em neandertais, se recusa a estabelecer hierarquias entre grupos humanos: nenhum deles \u00e9 inferior aos outros<\/em><\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"firma firma--vertical\">\n<div class=\"autor\">\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Guillermo Altares\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/guillermo_altares\/a\/\">Guillermo Altares<\/a><\/span><\/p>\n<div class=\"autor-perfiles\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<figure class=\"foto centro foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2018\/05\/09\/eps\/1525880214_414706_1525880631_noticia_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2018\/05\/09\/eps\/1525880214_414706_1525880631_noticia_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2018\/05\/09\/eps\/1525880214_414706_1525880631_noticia_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2018\/05\/09\/eps\/1525880214_414706_1525880631_noticia_normal.jpg 980w\" alt=\"Marylene Patou Mathis\" width=\"980\" height=\"735\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Maryl\u00e8ne Patou-Mathis, no Museu do Homem em Paris.<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">LEA CRESPI<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"articulo-datos\"><\/div>\n<div id=\"articulo-introduccion\" class=\"articulo-introduccion\">\n<p>A pr\u00e9-historiadora francesa \u00e9 especialista em\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/homo_neanderthalensis\/a\">neandertais<\/a>, ancestrais t\u00e3o remotos quanto desconhecidos. Desapareceram h\u00e1 40 mil anos, mas h\u00e1 cada vez mais provas do muito que compartilhamos. Ela se recusa a estabelecer hierarquias entre grupos humanos: nenhum deles \u00e9 inferior aos outros. E nada indica que as mulheres n\u00e3o ca\u00e7avam.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\" style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p>N\u00e3o \u00e9 comum um cientista se tornar uma estrela da m\u00eddia, mas foi o que aconteceu com a pesquisadora francesa Maryl\u00e8ne Patou-Mathis. O senso de humor e a maneira franca e direta de explicar temas delicados como a antiga inclina\u00e7\u00e3o humana de comer seus semelhantes fizeram dela uma personagem conhecida na\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/francia\/a\">Fran\u00e7a<\/a>. No entanto, o mundo sobre o qual mais sabe n\u00e3o poderia ser mais remoto: \u00e9 uma arque\u00f3loga especialista em neandertais,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2014\/10\/22\/ciencia\/1413996522_421044.html\">a esp\u00e9cie humana mais pr\u00f3xima a n\u00f3s<\/a>, que desapareceu h\u00e1 cerca de 40.000 anos, e nos primeiros Homo sapiens que chegaram \u00e0 Europa por volta daquela \u00e9poca. Pesquisadora do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) e do Museu de Hist\u00f3ria Natural, em Paris, \u00e9 uma arque\u00f3loga renomada, autora de diversos livros, consultora de filmes, e acaba de participar da organiza\u00e7\u00e3o de uma exposi\u00e7\u00e3o sobre os neandertais em Paris.<\/p>\n<div id=\"elpais_gpt-INTEXT\" data-google-query-id=\"CM2Iw9CdkNsCFdE3hwodXeUG_w\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/eps\/intext_0__container__\"><iframe id=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/eps\/intext_0\" title=\"3rd party ad content\" name=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/eps\/intext_0\" width=\"1\" height=\"1\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n<p>Seu \u00faltimo livro \u00e9\u00a0<em>Neanderthal de A \u00e0 Z<\/em>\u00a0e seus t\u00edtulos mais divulgados s\u00e3o\u00a0<em>Histoires de Mammouth<\/em>(2015),\u00a0<em>Pr\u00e9histoire de la Violence et de la Guerre<\/em>(2013) e\u00a0<em>Mangeurs de Viande: de la Pr\u00e9histoire \u00e0 Nos Jours<\/em>\u00a0(2009). Nascida em Paris, ela se recusa a confessar a idade \u2013 \u201c\u00c9 um dado que nunca divulgo\u201d \u2013 embora possa servir de pista que se graduou em 1981 e defendeu sua tese em 1984. A conversa ocorreu em abril no Museu do Homem, que abriga a exposi\u00e7\u00e3o sobre nossos primos pr\u00e9-hist\u00f3ricos desaparecidos.<\/p>\n<p><strong>A\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/02\/22\/opinion\/1519312781_587587.html\">vis\u00e3o dos neandertais<\/a>\u00a0mudou muito nos \u00faltimos anos, porque os cientistas descobriram que eram muito mais pr\u00f3ximos de n\u00f3s do que pens\u00e1vamos. A dificuldade de entender essa esp\u00e9cie humana por tanto tempo reflete a dificuldade de entender o outro?<\/strong><\/p>\n<section id=\"sumario_2|html\" class=\"sumario_html izquierda\"><a name=\"sumario_2\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\"><i>\u201cO que nos torna humanos n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a tecnologia. Afirmar que os ca\u00e7adores-coletores s\u00e3o inferiores \u00e9 um erro. O homem \u00e9 singular\u201d<\/i><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Sem d\u00favida. Sempre acreditei que n\u00e3o deveriam ser feitas compara\u00e7\u00f5es. Eu pesquiso os neandertais, mas tamb\u00e9m os primeiros Homo sapiens europeus, os aurignacianos. No entanto, acho errado julgar em fun\u00e7\u00e3o do outro. Minha pesquisa n\u00e3o procura saber quem era superior. O interessante \u00e9 sermos capazes de reconstruir os comportamentos: a hierarquiza\u00e7\u00e3o nunca deve ser o foco. At\u00e9 mesmo por raz\u00f5es \u00e9ticas, n\u00e3o devemos hierarquizar. Vivi com os n\u00f4mades do Kalahari e eles tinham tecnologia de ca\u00e7adores-coletores com instrumentos como o arco. Poder\u00edamos pensar que, tecnologicamente, eram menos evolu\u00eddos que outras sociedades, mas mostravam uma riqueza enorme em suas hist\u00f3rias, na maneira como conheciam a natureza. O que nos torna humanos n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a tecnologia. Afirmar que os ca\u00e7adores-coletores s\u00e3o inferiores \u00e9 um erro. O homem \u00e9 sempre singular. N\u00e3o querer aceitar a diferen\u00e7a do outro, inferioriz\u00e1-lo, \u00e9 muito ruim e tem sido um problema h\u00e1 muito tempo.<\/p>\n<section id=\"sumario_1|foto\" class=\"sumario_foto izquierda\"><a name=\"sumario_1\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w360\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2018\/05\/09\/eps\/1525880214_414706_1525880721_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2018\/05\/09\/eps\/1525880214_414706_1525880721_sumario_normal_recorte1.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2018\/05\/09\/eps\/1525880214_414706_1525880721_sumario_normal.jpg 360w\" alt=\"Maryl\u00e8ne Patou-Mathis.\" width=\"360\" height=\"480\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Maryl\u00e8ne Patou-Mathis.<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">LEA CRESPI<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p><strong>Voc\u00ea disse em uma entrevista que o fato de os neandertais serem canibais n\u00e3o os afasta de n\u00f3s, mas aproxima&#8230; Isso n\u00e3o \u00e9 um pouco perturbador?<\/strong><\/p>\n<p>O canibalismo \u00e9 tipicamente humano, por exemplo em sua ritualiza\u00e7\u00e3o, porque o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/canibalismo\/a\">canibalismo<\/a>\u00a0ritual \u00e9 algo muito sofisticado. At\u00e9 muito recentemente, em lugares como a Nova Guin\u00e9 sobreviviam ritos funer\u00e1rios que consistiam, basicamente, em comer um peda\u00e7o da av\u00f3. \u00c9 algo muito complexo. \u00c9 um comportamento muito humano, que come\u00e7ou em Atapuerca h\u00e1 800 mil anos e continua com o canibalismo como forma de aterrorizar os inimigos que ainda existe hoje em alguns conflitos. \u00c9 algo t\u00e3o forte que o transformamos em um s\u00edmbolo com a eucaristia, quando falamos em comer o sangue e o corpo de Cristo. E isso deixou vest\u00edgios em nosso vocabul\u00e1rio: dizemos que algu\u00e9m \u00e9 \u201cgostoso\u201d ou, inversamente, que \u00e9 \u201cintrag\u00e1vel\u201d. \u00c9 muito interessante, mas tamb\u00e9m muito forte.<\/p>\n<p><strong>Em seu \u00faltimo livro,\u00a0<em>Neanderthal de A \u00e0 Z<\/em>, voc\u00ea explica que a pr\u00e9-hist\u00f3ria \u00e9 sempre representada com mulheres trabalhando na caverna e homens ca\u00e7ando, mas que n\u00e3o h\u00e1 provas de que tenha existido essa separa\u00e7\u00e3o de sexos.<\/strong><\/p>\n<section id=\"sumario_3|html\" class=\"sumario_html izquierda\"><a name=\"sumario_3\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\"><i>\u201cA arte parietal \u00e9 muito complexa: n\u00e3o pintavam os animais que seriam comidos. O imagin\u00e1rio dos mamutes \u00e9 t\u00e3o forte que, mesmo quando n\u00e3o conviviam mais com eles, continuavam retratando-os\u201d<\/i><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Nenhuma. \u00c9 algo que me interessa muit\u00edssimo. S\u00e3o imagens que refletem preconceitos. Por que n\u00e3o podemos conceber que as mulheres talhassem os utens\u00edlios? Quando representamos um pintor, por exemplo em Lascaux, sempre colocamos um homem. Por que tem de ser assim? S\u00e3o preconceitos sexistas. Quem disse que \u00e9 imposs\u00edvel? Muitos xam\u00e3s s\u00e3o mulheres, muitos pintores de popula\u00e7\u00f5es abor\u00edgines da Austr\u00e1lia s\u00e3o mulheres. \u00c9 algo que me deixa muito irritada. Quando me dizem que em grupos de ca\u00e7adoras-coletores as mulheres n\u00e3o ca\u00e7am, primeiro \u00e9 algo que n\u00e3o \u00e9 verdade: o que elas n\u00e3o fazem \u00e9 ferir o animal e deixar seu sangue correr. Mas participam da ca\u00e7a de muitas outras maneiras. E os povos de que falamos hoje t\u00eam uma hist\u00f3ria muito longa, n\u00e3o s\u00e3o homens pr\u00e9-hist\u00f3ricos que ficaram parados no tempo. N\u00e3o gosto de interpretar a pr\u00e9-hist\u00f3ria a partir do comportamento das tribos atuais. Eu amo etnografia, mas s\u00e3o povos que, como n\u00f3s, t\u00eam uma hist\u00f3ria. Podemos aprender com assuntos t\u00e9cnicos, ver como eles resolvem problemas em um determinado ambiente. A vis\u00e3o da mulher na\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/prehistoria\/a\">pr\u00e9-hist\u00f3ria<\/a>\u00a0\u00e9 algo em que pretendo trabalhar, para mostrar que se trata de uma quest\u00e3o ideol\u00f3gica.<\/p>\n<p><strong>O que a levou ao deserto africano do Kalahari quando terminou seus estudos? O que voc\u00ea aprendeu convivendo com ca\u00e7adores-coletores?<\/strong><\/p>\n<p>Antes de entrar no CNRS, recebi uma bolsa de estudos para viajar para l\u00e1. O que eu queria comprovar era a press\u00e3o do meio ambiente sobre o comportamento humano. Eu adorava estudar a rela\u00e7\u00e3o dos humanos com a ca\u00e7a e com os animais, mas eu morava em Paris, estava pesquisando em uma sala. Eu queria ir a campo. H\u00e1 coisas que acreditamos serem imposs\u00edveis na ca\u00e7a e ainda assim ocorrem. Aprendi que um povo \u00e9 rico por coisas que nada t\u00eam a ver com sua tecnologia. Rela\u00e7\u00f5es sociais, mitos: tudo isso \u00e9 muito importante. Mudou minha vis\u00e3o das coisas.<\/p>\n<section id=\"sumario_4|foto\" class=\"sumario_foto izquierda\"><a name=\"sumario_4\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w360\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2018\/05\/09\/eps\/1525880214_414706_1525881744_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2018\/05\/09\/eps\/1525880214_414706_1525881744_sumario_normal_recorte1.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2018\/05\/09\/eps\/1525880214_414706_1525881744_sumario_normal.jpg 360w\" alt=\"Maryl\u00e8ne Patou-Mathis.\" width=\"360\" height=\"480\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Maryl\u00e8ne Patou-Mathis.<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">LEA CRESPI<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p><strong>Ent\u00e3o, a capacidade de construir e gerenciar tecnologia n\u00e3o nos torna mais inteligentes?<\/strong><\/p>\n<p>De forma alguma. Al\u00e9m disso, quem \u00e9 que sabe hoje como funcionam as coisas, a eletricidade, que seja? Quem sabe como funciona a televis\u00e3o? Simplesmente apertamos bot\u00f5es, e s\u00f3 um punhado de gente sabe construir essas m\u00e1quinas. Quem entende os algoritmos? No entanto, se nos soltassem na natureza, morrer\u00edamos imediatamente. \u00c9 por isso que concordo com Claude L\u00e9vi-Strauss quando ele diz que n\u00e3o existem povos inferiores, apenas povos que responderam de forma diferente a problemas semelhantes.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea acha que o que nos fascina\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/09\/06\/eps\/1504722155_726280.html\">sobre os neandertais \u00e9 o desaparecimento deles<\/a>, que coincide com a chegada de nossa esp\u00e9cie, o Homo sapiens, \u00e0 Europa?<\/strong><\/p>\n<p>Acho que desapareceram principalmente por causa de um problema demogr\u00e1fico. N\u00e3o temos provas de que, quando os Homo sapiens chegaram, tenha havido contatos entre as duas esp\u00e9cies, pelo menos nas regi\u00f5es onde trabalhei, especialmente na Crimeia e na Ucr\u00e2nia. Minha impress\u00e3o \u00e9 que se evitavam. Em per\u00edodos anteriores, v\u00edamos um pequeno nomadismo de ver\u00e3o, mas, mais tarde, os vest\u00edgios arqueol\u00f3gicos indicam que as ocupa\u00e7\u00f5es foram muito curtas, como se estivessem em constante movimento.<\/p>\n<p><strong>E h\u00e1 vest\u00edgios arqueol\u00f3gicos de viol\u00eancia entre as duas esp\u00e9cies?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o. Nesse per\u00edodo n\u00e3o h\u00e1 nada. Constatamos de forma clara que at\u00e9 o Neol\u00edtico n\u00e3o aparecem conflitos aut\u00eanticos. O que encontramos de vez em quando \u00e9 uma pessoa que sofreu um golpe na cabe\u00e7a. O que quer dizer? N\u00e3o sabemos, pode ser um acidente. A maioria est\u00e1 cicatrizada, ent\u00e3o a pessoa n\u00e3o morreu. N\u00e3o h\u00e1 restos de matan\u00e7as, nem mesmo de v\u00e1rios corpos juntos. Os \u00fanicos vest\u00edgios de viol\u00eancia que temos, como na caverna de El Sidr\u00f3n, nas Ast\u00farias, correspondem ao canibalismo.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea tamb\u00e9m afirma que, na pr\u00e9-hist\u00f3ria, a aus\u00eancia de evid\u00eancias n\u00e3o significa nada&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o significa nada e nem a aus\u00eancia de provas pode ser usada para provar alguma coisa. N\u00e3o podemos dizer que os neandertais n\u00e3o fizeram arte parietal porque n\u00e3o foi encontrado&#8230;<\/p>\n<p><strong>Na verdade, acabaram de demonstrar que fizeram&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 algo que j\u00e1 suspeitava. Acho que nossa vis\u00e3o mudar\u00e1 ainda mais porque cada vez mais pessoas est\u00e3o convencidas de que muitas coisas eram poss\u00edveis com os neandertais. Quando pensamos que algo \u00e9 imposs\u00edvel, n\u00e3o o encontramos. Foi Pasteur quem pensou assim. Tudo come\u00e7ou a mudar em 2010,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/02\/23\/ciencia\/1487868615_293495.html\">quando se descobriu que t\u00ednhamos genes neandertais<\/a>, porque ningu\u00e9m quer ter os genes de um macaco.<\/p>\n<p><strong>A pr\u00e9-hist\u00f3ria \u00e9 o per\u00edodo do passado que cont\u00e9m mais surpresas \u00e0 medida que a ci\u00eancia avan\u00e7a, por exemplo, com o DNA e os novos m\u00e9todos de data\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Tudo pode mudar a qualquer momento, apesar de tamb\u00e9m haver um fundo que permanece. Por mais trabalhos que sejam feitos, por exemplo, na China, os humanos mais antigos continuam sendo africanos. Muitas coisas s\u00e3o confirmadas: por exemplo, que os neandertais tinham uma tecnologia muito desenvolvida e que sua capacidade de adapta\u00e7\u00e3o era enorme porque estiveram aqui por 400.000 anos.<\/p>\n<p><strong>E o clima n\u00e3o teve nada a ver com seu desaparecimento?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o acredito. \u00c9 uma hip\u00f3tese que agora \u00e9 muito falada, que tem a ver com uma vis\u00e3o geral de que a exist\u00eancia humana est\u00e1 intimamente relacionada ao meio ambiente. Mas n\u00e3o devemos esquecer que as tradi\u00e7\u00f5es culturais nos ajudam a nos adaptar, por exemplo, migrando para o sul quando est\u00e1 frio demais, como \u00e9 o caso dos animais. N\u00e3o \u00e9 algo que possa explicar o desaparecimento dos neandertais, porque eles tamb\u00e9m conheceram muitos per\u00edodos frios e quentes.<\/p>\n<p><strong>E \u00e9 poss\u00edvel que tenha sido a soma da nossa chegada mais um per\u00edodo particularmente frio?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o faz muito sentido, porque eles tamb\u00e9m desaparecem de \u00e1reas que nunca sofreram per\u00edodos glaciais, como o Oriente M\u00e9dio e Gibraltar. \u00c9 um problema demogr\u00e1fico. N\u00e3o eram suficientes para manter uma popula\u00e7\u00e3o est\u00e1vel e podemos ver uma fraqueza em sua diversidade gen\u00e9tica. Eu acho que o principal problema foi a falta de indiv\u00edduos. \u00c9 o mesmo que aconteceu com os mamutes, que \u00e9 um assunto sobre o qual trabalhei muito. Em um momento os grupos s\u00e3o muito pequenos e est\u00e3o muito dispersos, e esses animais acabam desaparecendo&#8230;<\/p>\n<p><strong>Por falar em mamutes, por que voc\u00ea acha que,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/02\/01\/ciencia\/1517500178_509234.html\">em lugares como o sul da Fran\u00e7a, onde havia muito poucos mamutes<\/a>, esses animais aparecem desenhados nas paredes das cavernas?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 muito interessante. Estou convencida de que havia pessoas que desenhavam mamutes, apesar de nunca terem visto um, era algo que estava em sua cultura, em sua imagina\u00e7\u00e3o. Eu acho que a arte parietal \u00e9 muito complexa: n\u00e3o desenhavam os animais que seriam comidos, era outra coisa. Fiz escava\u00e7\u00f5es em Lascaux e descobri que seu principal alimento era a rena, mas n\u00e3o pintavam renas nas paredes. O imagin\u00e1rio dos mamutes \u00e9 t\u00e3o forte que, mesmo quando n\u00e3o conviviam mais com eles, continuavam retratando-os.<\/p>\n<p><strong>Isso significa que na pr\u00e9-hist\u00f3ria havia muito mais interc\u00e2mbios do que imaginamos? Porque tamb\u00e9m apareceram estatuetas feitas com presas de mamutes em \u00e1reas onde n\u00e3o existiam.<\/strong><\/p>\n<p>Podemos imaginar que houve trocas entre alguns grupos e outros de coisas como o marfim. Os objetos viajaram enormes dist\u00e2ncias de um grupo para outro&#8230;<\/p>\n<p><strong>Por que voc\u00ea acha que estamos t\u00e3o interessados na pr\u00e9-hist\u00f3ria? Tanto na Espanha como na Fran\u00e7a h\u00e1 cada vez mais publica\u00e7\u00f5es, museus, exposi\u00e7\u00f5es&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Acredito que entre as pessoas que t\u00eam tempo e dinheiro para refletir, existe um mal-estar, uma inquieta\u00e7\u00e3o, uma desilus\u00e3o com o que nos tornamos. O sucesso do livro\u00a0<em>Sapiens<\/em>, de Yuval Noah Harari, tem a ver com isso. N\u00f3s nos vemos como uma esp\u00e9cie que destruiu a natureza, sempre em guerra, quando talvez poder\u00edamos n\u00e3o ter seguido esse caminho. Muitas pessoas n\u00e3o gostam disso e \u00e9 por isso que se refugiam em um mundo que idealizam, quando viv\u00edamos em harmonia com a natureza.<\/p>\n<p><strong>Quando e por que voc\u00ea decidiu se dedicar \u00e0 pr\u00e9-hist\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n<p>Sou ge\u00f3loga de forma\u00e7\u00e3o. Da\u00ed pulei para a paleontologia e percebi, que quando o homem estava envolvido, era muito mais interessante. O que me fascinou depois foi a rela\u00e7\u00e3o entre o homem e os animais, por isso escrevi\u00a0<em>Mangeurs de Viande<\/em>, justamente porque acredito que temos uma rela\u00e7\u00e3o muito profunda com o animal. O lado cultural \u00e9 muito importante: me interessa ver como nascem e se formam certos comportamentos como a constru\u00e7\u00e3o do outro. Eu acho que existem coisas em n\u00f3s que remontam a um longo caminho em nossa hist\u00f3ria e que est\u00e3o sempre presentes, de forma consciente ou n\u00e3o. Isso nos for\u00e7a a considerar muitas coisas e, acima de tudo, nos obriga a ser modestos, porque sabemos que n\u00e3o somos os primeiros e tamb\u00e9m n\u00e3o somos os \u00faltimos. Somos mais um elo de uma cadeia.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pr\u00e9-historiadora francesa, especialista em neandertais, se recusa a estabelecer hierarquias entre grupos humanos: nenhum deles \u00e9 inferior aos outros<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":244103,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[12],"tags":[],"class_list":["post-244102","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-saude"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/historiadora.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/244102","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=244102"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/244102\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/244103"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=244102"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=244102"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=244102"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}