{"id":245968,"date":"2018-06-06T04:00:09","date_gmt":"2018-06-06T07:00:09","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=245968"},"modified":"2018-06-06T04:00:09","modified_gmt":"2018-06-06T07:00:09","slug":"por-que-adoramos-assistir-a-novelas-series-e-filmes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/por-que-adoramos-assistir-a-novelas-series-e-filmes\/","title":{"rendered":"Por que adoramos assistir a novelas, s\u00e9ries e filmes?"},"content":{"rendered":"<div class=\"story-body\">\n<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"byline\"><span class=\"byline__name\">David Robson<\/span><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share-row\">\n<div class=\"share-tools--no-event-tag\">\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-twite\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/887A\/production\/_101783943_16.jpg\" alt=\"T\u00e1bua de pedra\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">A &#8216;Epopeia de Gilgamesh&#8217; perdura por 4 mil anos, com elementos narrativos que nos ensinam a cooperar<\/span><\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">Parece o roteiro do blockbuster perfeito: um rei atraente \u00e9 aben\u00e7oado com uma for\u00e7a sobre-humana, mas sua arrog\u00e2ncia insuport\u00e1vel pode amea\u00e7ar seu reinado. Entra em cena um viajante &#8220;p\u00e9 no ch\u00e3o&#8221; que o desafia \u00e0 luta. O rei termina a batalha humilhado, os dois se tornam amigos pr\u00f3ximos e embarcam numa s\u00e9rie de perigosas miss\u00f5es pelo reino.<\/p>\n<p>Trata-se, no entanto, da<i>\u00a0Epopeia de Gilgamesh,<\/i>\u00a0esculpida em t\u00e1buas da antiga Babil\u00f4nia h\u00e1 4 mil anos, e que se tornou a obra liter\u00e1ria mais antiga remanescente. Pode-se afirmar que a hist\u00f3ria foi bastante popular na \u00e9poca, visto que transcri\u00e7\u00f5es do poema podem ser encontradas ao longo do mil\u00eanio seguinte.<\/p>\n<p>O que impressiona \u00e9 o fato de a epopeia ser lida e apreciada ainda hoje, e que muitos de seus elementos b\u00e1sicos &#8211; incluindo a calorosa rela\u00e7\u00e3o entre os dois amigos &#8211; podem ser encontrados em v\u00e1rias hist\u00f3rias populares que surgiram depois.<\/p>\n<p>Essas caracter\u00edsticas em comum s\u00e3o o interesse principal de especialistas em &#8220;darwinismo liter\u00e1rio&#8221;, que se perguntam o que exatamente \u00e9 uma boa hist\u00f3ria, e as raz\u00f5es evolutivas para certas narrativas &#8211; desde a\u00a0<i>Odisseia<\/i>\u00a0de Homero a\u00a0<i>Harry Potter<\/i>\u00a0&#8211; terem tanto apelo popular.<\/p>\n<p><strong>Escapismo?<\/strong><\/p>\n<p>Embora n\u00e3o tenhamos nenhuma grande evid\u00eancia de narrativas existentes antes do advento da escrita, podemos assegurar que elas foram centrais para a vida humana por milhares de anos. As pinturas nas cavernas em lugares como Chauvet e Lascaux, na Fran\u00e7a, que datam de 30 mil anos, parecem mostrar cenas dram\u00e1ticas provavelmente acompanhadas de narrativa.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/D69A\/production\/_101783945_17.jpg\" alt=\"Pinturas rupestres\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">Pinturas nas cavernas como Chauvet revelam formas de narrativa que datam de 30 mil anos<\/span><\/figure>\n<p>&#8220;Se voc\u00ea olhar ao redor da caverna, ver\u00e1 uma s\u00e9rie de imagens diferentes que parecem ser de uma narrativa relacionada a uma expedi\u00e7\u00e3o de ca\u00e7a&#8221;, diz Daniel Kruger, da Universidade de Michigan, no Reino Unido &#8211; narrativas que podem ser acompanhadas de li\u00e7\u00f5es importantes para o grupo. Alguns contos da Era Glacial podem perdurar at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>O adulto m\u00e9dio gasta 6% do dia envolvido com hist\u00f3rias fict\u00edcias em v\u00e1rios formatos. Do ponto de vista evolutivo, seria muito tempo e energia gastos em puro escapismo, mas psic\u00f3logos e te\u00f3ricos liter\u00e1rios agora identificaram potenciais benef\u00edcios desse &#8220;v\u00edcio&#8221; em fic\u00e7\u00e3o. Uma ideia comum \u00e9 que a narrativa \u00e9 uma forma de jogo cognitivo que agu\u00e7a nossa mente, o que nos permite simular o mundo ao redor e imaginar estrat\u00e9gias diferentes, particularmente em situa\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>&#8220;Ele nos ensina sobre outras pessoas, \u00e9 uma pr\u00e1tica da empatia e da teoria da mente&#8221;, diz Joseph Carroll, da Universidade Missouri-St Louis, nos Estados Unidos.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/11204\/production\/_101784107_18.jpg\" alt=\"Pintura filipina\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">Os Agta, uma popula\u00e7\u00e3o filipina de ca\u00e7adores e coletores, h\u00e1 muito tempo compartilham contos com mensagens de igualdade entre homens e mulheres<\/span><\/figure>\n<p>Como uma prova dessa teoria, testes com imagens cerebrais mostraram que ler ou ouvir hist\u00f3rias ativa v\u00e1rias \u00e1reas do c\u00f3rtex que est\u00e3o envolvidas com o processamento social e emocional; e quanto mais as pessoas leem fic\u00e7\u00e3o, mais f\u00e1cil torna-se empatizar com outras pessoas.<\/p>\n<p><strong>Pol\u00edtica paleontol\u00f3gica<\/strong><\/p>\n<p>Psic\u00f3logos evolutivos acreditam que nossas preocupa\u00e7\u00f5es pr\u00e9-hist\u00f3ricas ainda influenciam o tipo de hist\u00f3ria que nos atrai. Como humanos que evolu\u00edram para viver em sociedade, por exemplo, n\u00f3s precisamos aprender a cooperar e n\u00e3o agirmos como algu\u00e9m que tira vantagens sem dar nada em troca &#8211; ou como indiv\u00edduos dominadores que abusam do poder em detrimento do bem-estar do grupo.<\/p>\n<p>Nossa capacidade de contar hist\u00f3rias tamb\u00e9m pode ter evolu\u00eddo como uma forma de comunicar as normas sociais corretas. &#8220;A li\u00e7\u00e3o \u00e9 resistir \u00e0 tirania e n\u00e3o se tornar tamb\u00e9m um tirano&#8221;, diz Kruger.<\/p>\n<p>Dessa forma, v\u00e1rios estudos identificaram a coopera\u00e7\u00e3o como um tema central em narrativas populares ao redor do mundo. O antrop\u00f3logo Daniel Smith, da UCL (University College London), visitou 18 grupos de ca\u00e7adores-coletores das Filipinas. Ele descobriu que quase 80% de seus contos dizem respeito a tomadas de decis\u00e3o moral e dilemas sociais.<\/p>\n<p>Isto parece, portanto, traduzir-se em seu comportamento na vida real: os grupos que pareceram investir mais em contar hist\u00f3rias tamb\u00e9m provaram ser os mais cooperativos durante v\u00e1rias tarefas experimentais &#8211; exatamente como a teoria evolutiva sugere.<\/p>\n<p>A<i>\u00a0Epopeia de Gilgamesh<\/i>\u00a0traz um exemplo da literatura antiga. No come\u00e7o do conto, o Rei Gilgamesh parece ser o her\u00f3i perfeito em termos de for\u00e7a f\u00edsica e coragem, mas tamb\u00e9m \u00e9 um tirano arrogante que abusa do poder, usando seu &#8220;droit du seigneur&#8221; (ou &#8220;direito do senhor&#8221;) para dormir com qualquer mulher por quem se interesse. S\u00f3 depois de ser desafiado pelo estranho Enkidu ele finalmente aprende o valor da coopera\u00e7\u00e3o e da amizade. A mensagem para o p\u00fablico parece estar em alto e bom som: se at\u00e9 o rei her\u00f3ico precisa respeitar os outros, ent\u00e3o, isso serve para voc\u00ea tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 a hist\u00f3ria mais antiga?<\/strong><\/p>\n<p>Embora n\u00e3o tenhamos provas, \u00e9 poss\u00edvel que alguns contos que ainda lemos hoje tenham origem na Pr\u00e9-Hist\u00f3ria. Daniel Kruger ressalta que hist\u00f3rias como a<i>Epopeia de Gilgamesh<\/i>, e o\u00a0<i>Livro do G\u00eanesis<\/i>, no Antigo Testamento, cont\u00eam detalhes de um dil\u00favio m\u00edtico que pode ter rela\u00e7\u00e3o com mem\u00f3rias culturais remanescentes de eventos geol\u00f3gicos reais no Oriente M\u00e9dio do final da Era Glacial.<\/p>\n<p>Popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas na ilha de Flores, na Indon\u00e9sia, enquanto isto, h\u00e1 muito tempo guardam mitos dos Ebu Gogo &#8211; criaturas pequenas e sem idioma, que parecem ter rela\u00e7\u00e3o com a subesp\u00e9cie humana que viveu concomitantemente com a popula\u00e7\u00e3o de\u00a0<i>Homo sapiens<\/i>\u00a0antes de ser extinta h\u00e1 mais de 10 mil anos.<\/p>\n<p>&#8220;Os moradores locais t\u00eam hist\u00f3rias desses pequenos indiv\u00edduos que n\u00e3o conseguiam compreender a linguagem humana, mas podiam repetir palavras que eram ditas a eles. E o que me impressiona \u00e9 que uma hist\u00f3ria como essa pode persistir por literalmente dezenas de milhares de anos&#8221;, diz Kruger. Isso tudo demonstra outro importante prop\u00f3sito da narrativa &#8211; o de oferecer mem\u00f3ria coletiva do passado distante.<\/p>\n<p>Ao mapear a dispers\u00e3o de contos populares orais ao redor de diferentes grupos culturais na Europa e na \u00c1sia, alguns antrop\u00f3logos tamb\u00e9m perceberam que certos contos populares &#8211; como\u00a0<i>O Ferreiro e o Diabo<\/i>\u00a0(<i>The Smith And The Devil<\/i>, em ingl\u00eas) &#8211; pode ter chegado h\u00e1 mais de 6 mil anos com os primeiros colonos indo-europeus, que depois se espalharam e conquistaram o continente.<\/p>\n<p><strong>Passado e presente: tem\u00e1ticas comuns<\/strong><\/p>\n<p>Em seu livro\u00a0<i>On the Origin of Stories\u00a0<\/i>(<i>Sobre a origem das hist\u00f3rias<\/i>, em tradu\u00e7\u00e3o livre), Brian Boyd, da Universidade de Auckland, da Nova Zel\u00e2ndia, descreve como esses temas tamb\u00e9m s\u00e3o evidentes na\u00a0<i>Odisseia<\/i>, de Homero. Enquanto Pen\u00e9lope espera o retorno de Ulisses, seus pretendentes passam o dia todo comendo e bebendo em sua casa. Quando ele finalmente retorna disfar\u00e7ado de um mendigo pobre, no entanto, eles se recusam a oferecer-lhe abrigo em sua pr\u00f3pria casa. Eles acabam tendo um castigo merecido quando Ulisses revela seu disfarce e cumpre uma vingan\u00e7a sangrenta.<\/p>\n<p>Voc\u00ea deve supor que nosso interesse na coopera\u00e7\u00e3o pode ter diminu\u00eddo com o aumento do individualismo da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, mas Kruger e Carroll descobriram que o tema ainda \u00e9 prevalente em alguns dos mais populares romances brit\u00e2nicos dos s\u00e9culos 19 e in\u00edcio do 20.<\/p>\n<p>Ao pedir a um painel de leitores para avaliar os personagens principais em mais de 200 romances brit\u00e2nicos (come\u00e7ando por Jane Austen e terminando em Edward Morgan Forster), os pesquisadores notaram que a principal falha apontada num antagonista era sua busca pelo dom\u00ednio \u00e0s custas dos outros ou o abuso de seu poder, enquanto os protagonistas pareciam ser menos individualistas e ambiciosos.<\/p>\n<p>Tenha como exemplo\u00a0<i>Orgulho e Preconceito<\/i>, de Jane Austen. A calculista e trai\u00e7oeira Srta. Bingley visa a aumentar seu status se aproximando do rico mas arrogante Sr. Darcy e unindo seu irm\u00e3o e a irm\u00e3 de Darcy &#8211; enquanto menospreza qualquer um de uma classe social mais baixa. A hero\u00edna Elizabeth Bennett, ao contr\u00e1rio, mostra pouco interesse em ascender socialmente dessa forma e at\u00e9 rejeita o Sr. Darcy em sua primeira proposta.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/16024\/production\/_101784109_19.jpg\" alt=\"Reese Witherspoon\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">Em &#8216;Feira das Vaidades&#8217;, a implacavelmente ambiciosa Becky Sharp (interpretada por Reese Witherspoon no filme de 2004) \u00e9 a protagonista &#8211; seu castigo \u00e9 um aviso para os espectadores<\/span><\/figure>\n<p>William Thackeray, de\u00a0<i>Feira das Vaidades<\/i>, enquanto isso, brinca com nossas expectativas sobre um protagonista ao colocar a implacavelmente ambiciosa (e possivelmente assassina) Becky Sharp no centro do romance, enquanto sua amiga am\u00e1vel (mas sem gra\u00e7a) Am\u00e9lia \u00e9 um personagem secund\u00e1rio. Era, na pr\u00f3pria fala de Thackeray, &#8220;um romance sem um her\u00f3i&#8221;, mas em termos evolutivos o castigo de Becky &#8211; j\u00e1 que ao final ela \u00e9 rejeitada pela sociedade &#8211; ainda sinaliza uma forte advert\u00eancia \u00e0queles que sejam tentados a se colocar na frente dos outros.<\/p>\n<p><strong>A li\u00e7\u00e3o dos bonobos<\/strong><\/p>\n<p>A teoria evolutiva tamb\u00e9m pode lan\u00e7ar luz sobre o elemento b\u00e1sico da fic\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica, como o da prefer\u00eancia de hero\u00ednas por figuras paternais e est\u00e1veis (como o Sr. Darcy em\u00a0<i>Orgulho e Preconceito<\/i>\u00a0ou Edward Ferrars em\u00a0<i>Raz\u00e3o e Sensibilidade<\/i>) ou canalhas vol\u00faveis (como os mulherengos covardes Sr. Wickham ou Willoughby).<\/p>\n<p>Os &#8220;pais&#8221; s\u00e3o op\u00e7\u00f5es melhores para a seguran\u00e7a a longo prazo e prote\u00e7\u00e3o de suas crian\u00e7as, mas de acordo com a teoria evolutiva conhecida como a &#8220;hip\u00f3tese do filho sexy&#8221;, apaixonar-se por um canalha infiel tem suas vantagens, desde que ele possam transmitir sua boa apar\u00eancia, ast\u00facia e charme para seus filhos, que tamb\u00e9m poderiam aproveitar o sucesso sexual.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/2B8C\/production\/_101784111_20.jpg\" alt=\"Matthew Macfadyen\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">Apesar de seu comportamento distante, o Sr. Darcy, de &#8216;Orgulho e Preconceito&#8217; (interpretado por Matthew Macfadyen no filme de 2005) acaba sendo um homem honrado<\/span><\/figure>\n<p>O resultado \u00e9 a maior chance de seus genes serem transmitidos para um maior n\u00famero de netos &#8211; mesmo que o mulherengo de seu parceiro tenha lhe causado desgosto pelo caminho. \u00c9 por essa raz\u00e3o que os malvados da literatura ainda nos entusiasmam, mesmo que saibamos de seu mau comportamento.<\/p>\n<p>Dessa forma, escritores como Austen s\u00e3o psic\u00f3logos evolutivos intuitivos com uma compreens\u00e3o &#8220;extremamente precisa&#8221; sobre a din\u00e2mica sexual e que antecipa nossas teorias recentes, diz Kruger. &#8220;Acredito que essa seja parte da resposta para a longevidade dessas hist\u00f3rias. \u00c9 por isso que os romances que Jane Austen escreveu h\u00e1 200 anos ainda s\u00e3o temas de filmes sendo rodados hoje&#8221;.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitas outras compreens\u00f5es que se podem tirar desse leituras, como por exemplo a recente an\u00e1lise das figuras mal\u00e9volas em narrativas de fantasia e terror &#8211; como o Lord Voldemort, inimigo de Harry Potter, e o Leatherface, de\u00a0<i>O Massacre da Serra El\u00e9trica<\/i>.<\/p>\n<p>Caracter\u00edsticas comuns incluem uma apar\u00eancia grotesca que seria projetada para desencadear nosso medo evolutivo de cont\u00e1gio de doen\u00e7a; e dado o nosso tribalismo inato, os vil\u00f5es geralmente t\u00eam sinais de que s\u00e3o de fora do grupo &#8211; a raz\u00e3o por que tantos malvados de Hollywood t\u00eam sotaques estrangeiros. Mais uma vez, a ideia \u00e9 que uma briga com esses seres do mal acaba por refor\u00e7ar nosso senso de altru\u00edsmo e lealdade ao grupo.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/79AC\/production\/_101784113_21.jpg\" alt=\"Macacos bonobos\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">Comportamentos vistos nos grupos de bonobos est\u00e3o presentes nos romances ingleses do s\u00e9culo 19, de acordo com Ian McEwan<\/span><\/figure>\n<p>O romancista brit\u00e2nico Ian McEwan \u00e9 uma das mais celebradas vozes a ter abra\u00e7ado essas leituras evolutivas da literatura e argumenta que v\u00e1rios elementos comuns dos enredos podem ser encontrados nas intrigas de nossos primos primatas.<\/p>\n<p>&#8220;Se lemos relatos sobre a observa\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica e n\u00e3o-intrusiva de grupos de (macacos) bonobos&#8221;, escreveu McEwan em artigo publicado na colet\u00e2nea\u00a0<i>The Literary Animal\u00a0<\/i>(<i>O Animal Liter\u00e1rio<\/i>, em tradu\u00e7\u00e3o livre), &#8220;vemos ensaiados todos os principais temas do romance do s\u00e9culo 19: alian\u00e7as feitas e desfeitas, indiv\u00edduos emergindo enquanto outros caem, planos secretos, vingan\u00e7a, gratid\u00e3o, orgulho ferido, flertes bem e mal sucedidos e luto&#8221;.<\/p>\n<p>McEwan argumenta que dever\u00edamos entender essas tend\u00eancias da evolu\u00e7\u00e3o como a principal fonte de poder da fic\u00e7\u00e3o de atravessar os continentes e os s\u00e9culos. N\u00e3o seria poss\u00edvel desfrutar da literatura de um tempo remoto ou de uma cultura muito diferente da nossa, a menos que compartilhemos de algum terreno emocional, um dep\u00f3sito de ideias, com o escritor&#8221;, acrescenta.<\/p>\n<p>Com base nesse dep\u00f3sito compartilhado de ideias, uma hist\u00f3ria como a\u00a0<i>Epopeia de Gilgamesh<\/i>\u00a0continua fresca como se tivesse sido escrita ontem, e a mensagem atemporal de amizade leal permanece uma li\u00e7\u00e3o para todos n\u00f3s, mesmo 4 mil anos depois de o autor ter gravado a saga numa t\u00e1bua de pedra.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"tags-container\">\n<h2 class=\"tags-title story-body__crosshead\">T\u00f3picos relacionados<\/h2>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O resultado \u00e9 a maior chance de seus genes serem transmitidos para um maior n\u00famero de netos &#8211; mesmo que o mulherengo de seu parceiro tenha lhe causado desgosto pelo caminho. \u00c9 por essa raz\u00e3o que os malvados da literatura ainda nos entusiasmam, mesmo q<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":245969,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-245968","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/o-cara-mala.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/245968","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=245968"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/245968\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/245969"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=245968"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=245968"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=245968"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}