{"id":246384,"date":"2018-06-09T15:36:56","date_gmt":"2018-06-09T18:36:56","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=246384"},"modified":"2018-06-09T15:36:56","modified_gmt":"2018-06-09T18:36:56","slug":"maio-de-1968-nao-foi-um-mes-no-brasil-mas-um-ano-inteiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/maio-de-1968-nao-foi-um-mes-no-brasil-mas-um-ano-inteiro\/","title":{"rendered":"Maio de 1968 n\u00e3o foi um m\u00eas no Brasil, mas um ano inteiro"},"content":{"rendered":"<div class=\"articulo__apertura\">\n<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div class=\"articulo-encabezado-texto\">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\">Da morte de Edson Luis ao AI-5, passando pela sexta-feira sangrenta e Passeata dos Cem Mil: 1968 no pa\u00eds<\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"firma \">\n<div class=\"autor\">\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Andr\u00e9 de Oliveira\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/andre_azevedo_de_oliveira\/a\/\">ANDR\u00c9 DE OLIVEIRA<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<figure class=\"foto centro foto_w980\" style=\"text-align: justify;\"><a class=\"enlace\" style=\"margin: 0px; padding: 0px; border: none; font: inherit; vertical-align: baseline; box-sizing: border-box; background-color: transparent; text-decoration: none; color: #016ca2; touch-action: manipulation; position: relative; display: block;\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/06\/05\/cultura\/1528224984_573224.html\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/06\/05\/cultura\/1528224984_573224_1528316319_noticia_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/06\/05\/cultura\/1528224984_573224_1528316319_noticia_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/06\/05\/cultura\/1528224984_573224_1528316319_noticia_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/06\/05\/cultura\/1528224984_573224_1528316319_noticia_normal.jpg 980w\" alt=\"Estudante perseguido por policiais na sexta-feira sangrenta\" width=\"980\" height=\"550\" \/><span class=\"boton_ampliar\">Ampliar foto<\/span><\/a><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Estudante perseguido por policiais na sexta-feira sangrenta<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">EVANDRO TEIXEIRA<\/span>\u00a0<span class=\"foto-agencia\">CPDOC JB<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<section id=\"sumario_1|apoyos\" class=\"sumario_apoyos derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<div class=\"apoyos\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/04\/23\/cultura\/1524504798_329892.html\">Maio de 1968<\/a>\u00a0foi diferente para os estudantes brasileiros. A come\u00e7ar pelo fato de n\u00e3o ter sido um m\u00eas, mas um ano intenso de muito mais perdas do que ganhos. L\u00e1 fora, a panela de press\u00e3o misturava movimentos de contracultura, palavras de ordem anti-sistema, reivindica\u00e7\u00f5es de cunho identit\u00e1rio e protestos contra a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/guerra_vietnam\">Guerra do Vietn\u00e3<\/a>; aqui, o inimigo era mais palp\u00e1vel: a ditadura militar. \u201cPor isso, a nossa \u2018gera\u00e7\u00e3o de 68\u2019 foi a que mais caro pagou por sua rebeldia, atrav\u00e9s de pris\u00f5es, tortura, ex\u00edlio e at\u00e9 morte\u201d, escreve Zuenir Ventura em seu cl\u00e1ssico\u00a0<em>1968 &#8211; O Ano Que N\u00e3o Terminou<\/em>. Se durante o ano houve dezenas de mobiliza\u00e7\u00f5es estudantis, tudo acabou em 13 de dezembro, com o Ato Institucional 5 (AI-5), que inaugurou o per\u00edodo de maior repress\u00e3o da ditadura.<\/p>\n<div id=\"elpais_gpt-INTEXT\" style=\"text-align: justify;\" data-google-query-id=\"CNjnjbScx9sCFQj44Qod-AwNNg\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/cultura\/intext_0__container__\"><iframe id=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/cultura\/intext_0\" title=\"3rd party ad content\" name=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/cultura\/intext_0\" width=\"1\" height=\"1\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Uma foto dessas mobiliza\u00e7\u00f5es \u00e9 conhecid\u00edssima. Dois militares, cassetetes na m\u00e3o, perseguem de perto um homem que, caindo, joelhos dobrados, \u00f3culos voando alguns cent\u00edmetros \u00e0 frente, um p\u00e9 j\u00e1 tocando o ch\u00e3o e bra\u00e7os abertos em cruz, est\u00e1 prestes a se esborrachar. Um policial, o da esquerda, corre com os l\u00e1bios presos, talvez, pronto para desferir uma cacetada. O outro, com uma das m\u00e3os espalmada, parece querer agarrar pela camisa o homem barbudo, que dificilmente conseguir\u00e1 escapar das pancadas que certamente levar\u00e1. Ao longe, no meio da rua, um careca vara pau observa a cena calmamente. Mais para tr\u00e1s, v\u00ea-se um aglomerado difuso de gente, que sugere corre-corre.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">A imagem de Evandro Teixeira, no centro do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/rio_de_janeiro\">Rio de Janeiro<\/a>, \u00e9 de 21 de junho, a data que ficou conhecida como a sexta-feira sangrenta, um dos pontos culminantes daquele 1968. Contudo, para se chegar a esse dia, quando os estudantes, com participa\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea de um bom n\u00famero de civis, travaram uma batalha de horas contra os militares no centro carioca \u2013 deixando um saldo, em uma das vers\u00f5es, de ao menos cinco pessoas mortas, entre estudantes e policia \u2013 \u00e9 preciso falar de acontecimentos anteriores (e tamb\u00e9m posteriores) que sumarizam todo o ano de mobiliza\u00e7\u00f5es estudantis.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Um ponto de partida poss\u00edvel \u00e9 Edson Lu\u00eds. Secundarista, Edson Lu\u00eds foi morto em 28 de mar\u00e7o, aos 18 anos, durante a invas\u00e3o militar do restaurante estudantil Calabou\u00e7o \u2013 que era algo de reivindica\u00e7\u00f5es pois teve o pre\u00e7o das refei\u00e7\u00f5es aumentado. A morte do estudante, que sequer participava de algum\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/movimiento_estudiantil\">movimento organizado<\/a>\u00a0e estava no local porque, filho de uma fam\u00edlia pobre do Par\u00e1, vivia ali de favor para poder cursar o segundo grau na capital carioca, gerou grande indigna\u00e7\u00e3o. No document\u00e1rio\u00a0<em>Mem\u00f3ria do Movimento Estudantil<\/em>, o ent\u00e3o presidente da Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes (UNE), Jean Marc Van Der Weid, lembra que o assassinato de Edson Lu\u00eds foi o gatilho para uma s\u00e9rie de eventos que atraiu, inclusive, a simpatia de setores da classe m\u00e9dia que, at\u00e9 ent\u00e3o, mantinham-se alheios \u00e0 repress\u00e3o da ditadura. \u00c0 pauta do movimento estudantil, que pedia mais verbas para a educa\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de travar uma luta pelos \u201cexcedentes\u201d \u2013 quem havia passado no vestibular, mas n\u00e3o encontrava vaga na Universidade \u2013 somava-se \u00e0 den\u00fancia contra a viol\u00eancia militar sob as palavras: \u201cE se fosse um filho seu?\u201d.<\/p>\n<section id=\"sumario_4|foto\" class=\"sumario_foto centro\"><a name=\"sumario_4\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/06\/05\/cultura\/1528224984_573224_1528226987_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/06\/05\/cultura\/1528224984_573224_1528226987_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/06\/05\/cultura\/1528224984_573224_1528226987_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/06\/05\/cultura\/1528224984_573224_1528226987_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"Enterro do estudante Edson Lu\u00eds\" width=\"980\" height=\"738\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Enterro do estudante Edson Lu\u00eds<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-agencia\">ARQUIVO NACIONAL\/CORREIO DA MANH\u00c3<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Um dia depois da morte do secundarista, o cortejo de seu enterro reuniu 50 mil pessoas, que caminharam da Assembleia Legislativa, no centro do Rio de Janeiro, at\u00e9 o cemit\u00e9rio S\u00e3o Jo\u00e3o Batista, no bairro de Botafogo, zona sul. Houve, entre estudantes e figuras conhecidas, quem passasse a noite inteira velando o corpo do secundarista, como fez o intelectual Otto Maria Carpeaux, que na \u00e9poca n\u00e3o era nenhum menino, tinha 68 anos. A missa de s\u00e9timo dia de Edson Lu\u00eds foi outro acontecimento. Centenas de pessoas foram \u00e0 Igreja da Candel\u00e1ria prestar homenagens e se despedir, mas na sa\u00edda acabaram reprimidas pelos militares. Depois disso, vieram os ventos franceses de Maio de 1968.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">O vendaval parisiense chegou ao Brasil principalmente por via de influ\u00eancia da contracultura, mas, segundo o historiador e ex-militante estudantil Daniel Aar\u00e3o Reis, n\u00e3o teve impacto no que se viu nas ruas do Rio de Janeiro em junho. \u201cO alvo principal do movimento estudantil em 1968 era a pol\u00edtica educacional do Governo e a reivindica\u00e7\u00e3o por \u2018mais verbas\u2019 era algo bem distante do que acontecia em\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/paris\">Paris<\/a>\u201d, diz Aar\u00e3o Reis. Contudo, como Ventura lembra em seu livro, se as mobiliza\u00e7\u00f5es francesas n\u00e3o foram determinantes para o ano brasileiro, \u201cCosta e Silva, pat\u00e9tico, prometia: \u2018Enquanto eu estiver aqui, n\u00e3o permitirei que o Rio se transforme em uma nova Paris\u201d. A declara\u00e7\u00e3o do presidente militar \u00e9 de 12 de junho e, passada apenas uma semana, no dia 19, quarta-feira, foi dado o in\u00edcio dos acontecimentos que levaram at\u00e9 a sexta-feira sangrenta, 21.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Tudo come\u00e7ou com um grupo de estudantes que foi ao Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC), ent\u00e3o no Rio de Janeiro, para expor as pautas do movimento estudantil. A iniciativa terminou em repress\u00e3o policial, que, pela primeira vez, foi respondida tamb\u00e9m com viol\u00eancia e n\u00e3o apenas com dispers\u00e3o. \u201cQuando a pol\u00edcia veio, naquele passo terr\u00edvel, largo, aqueles passos de ganso, resolvemos resistir. Batemos na pol\u00edcia pela primeira vez\u201d, lembra Vladimir Palmeira, ent\u00e3o presidente da Uni\u00e3o Metropolitana dos Estudantes (UME), no mesmo\u00a0<em>Mem\u00f3ria do Movimento Estudantil<\/em>. O que se seguiu foram horas de persegui\u00e7\u00e3o e enfrentamento. De um lado, cassetetes e chutes de coturno. De outro, bolinhas de gude derrubando cavalos.<\/p>\n<section id=\"sumario_2|html\" class=\"sumario_html centro\"><a name=\"sumario_2\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/H3f9IzKvO4I\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p class=\"pie_video\">Depoimentos sobre a sexta-feira sangrenta<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 no dia 20, quinta-feira, cerca de 400 estudantes foram presos ap\u00f3s uma assembleia geral no Teatro de Arena da Faculdade de Economia. No campo do Botafogo, eles foram enfileirados e humilhados. \u201cA descri\u00e7\u00e3o de soldados urinando sobre corpos indefesos ou passeando o cassetete entre as pernas das mo\u00e7as, junto \u00e0s imagens de jovens de m\u00e3os na cabe\u00e7a, ajoelhados ou deitados de bru\u00e7os com o rosto na grama, eram uma alegoria da profana\u00e7\u00e3o\u201d, escreve Ventura. O que come\u00e7ou com a morte de Edson Lu\u00eds, quando uma quest\u00e3o universit\u00e1ria relativa ao restaurante Calabou\u00e7o cresceu para al\u00e9m das assembleias estudantis, ficou ainda mais intenso ap\u00f3s os dias 19 e 20.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">A\u00ed, ent\u00e3o, veio a sexta-feira sangrenta. \u201cNesse dia, o Rio n\u00e3o ficou nada a dever \u00e0 Paris das barricadas \u2013 e n\u00e3o por mimetismo, como temiam as autoridades militares. A motiva\u00e7\u00e3o estava aqui mesmo\u201d, escreve Ventura. O que come\u00e7ou como um pequeno protesto, \u00e0s oito da manh\u00e3, na pra\u00e7a Tiradentes, centro da capital carioca, contra os eventos de quarta e quinta-feira, acabou se transformando numa batalha de cerca de 12 horas, em plena avenida Rio Branco.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Quando a repress\u00e3o policial chegou, j\u00e1 depois do hor\u00e1rio do almo\u00e7o, a popula\u00e7\u00e3o tomou partido e come\u00e7ou a jogar objetos das janelas contra os policiais. Tudo come\u00e7ou com alguns gelos arremessados, at\u00e9 que passaram a cair m\u00e1quinas de escrever, garrafas, cinzeiros, cadeiras e vasos de flores. \u201cParticipei como cidad\u00e3o comum naquele dia, em que foi poss\u00edvel ver de um tudo: de carros da pol\u00edcia virados at\u00e9 garotos montando cavalos, com capacetes de policiais militares ca\u00eddos, galopando pelas ruas centrais da cidade\u201d relembra Aar\u00e3o Reis. Para ele, aquele momento, em que a popula\u00e7\u00e3o apoiou os estudantes espontaneamente, \u00e9 uma marca da insatisfa\u00e7\u00e3o que parte da classe m\u00e9dia vinha mostrando com os rumos econ\u00f4micos e autorit\u00e1rios da ditadura. \u201cEram setores que acreditavam que 1964 seria apenas uma opera\u00e7\u00e3o cir\u00fargica destinada a \u2018varrer\u2019 os comunistas e trabalhistas\u201d, diz.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">Junho de 1968, depois da sexta-feira sangrenta, ficaria definitivamente marcado como o m\u00eas das grandes mobiliza\u00e7\u00f5es de rua. Cinco dias depois, em 26 de junho, aconteceu a famosa \u201cPasseata dos Cem Mil\u201d, que reuniu estudantes, artistas, intelectuais, religiosos e popula\u00e7\u00e3o em geral para protestar contra as viol\u00eancias da ditadura. As fotografias desse dia, muitas feitas tamb\u00e9m por Evandro Teixeira, que registrou a sexta-feira sangrenta, s\u00e3o simb\u00f3licas. Em uma imagem, aparecem\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/caetano_veloso\">Caetano Veloso<\/a>, Gilberto Gil, Vin\u00edcius de Moraes, Paulo Autran, Jos\u00e9 Celso Martinez\u2026 Em outra, um estudante, em uma das foto mais conhecidas do per\u00edodo, picha: \u201cAbaixo a Ditadura\u201d nos muros do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Dessa vez, a resposta do regime militar n\u00e3o viria nas ruas, mas em um processo de recrudescimento cada vez maior que acontecia nos corredores de Bras\u00edlia.<\/p>\n<section id=\"sumario_3|html\" class=\"sumario_html centro\"><a name=\"sumario_3\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/t7EHp76aYV4\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p class=\"pie_video\">V\u00eddeo produzido pelo projeto &#8220;Mem\u00f3rias Reveladas&#8221; sobre 1968<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\u201cJ\u00e1 no segundo semestre, sem for\u00e7as, os movimentos come\u00e7aram a declinar. O estouro do XXX Congresso da UNE, em outubro, s\u00f3 fez consolidar a curto prazo, este decl\u00ednio\u201d, diz Aar\u00e3o Reis. Junho de 1968 foi o \u00e1pice do movimento, a sexta-feira sangrenta o momento mais pr\u00f3ximo de uma insurrei\u00e7\u00e3o popular e a \u201cPasseata dos Cem Mil\u201d uma amostra irrefut\u00e1vel do descontentamento geral contra a ditadura. A partir de junho, contudo, as coisas esfriaram. O movimento estudantil debatia pr\u00f3ximos passos internamente e a repress\u00e3o avan\u00e7ava. Em outubro, como relembra Aar\u00e3o, um congresso da UNE, em Ibi\u00fana, interior de S\u00e3o Paulo, foi invadido pela repress\u00e3o e os principais l\u00edderes estudantis presos. Alguns falam em at\u00e9 900 presos. Todos seriam fichados no DOPS, a pol\u00edcia pol\u00edtica do regime.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">As mobiliza\u00e7\u00f5es do Rio de Janeiro n\u00e3o foram um caso isolado naquele ano. Por exemplo, no pr\u00f3prio segundo semestre, em outubro tamb\u00e9m, houve a conhecida \u201cbatalha da rua Maria Antonia\u201d, em S\u00e3o Paulo, quando estudantes da Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras da Universidade S\u00e3o Paulo (USP) e do Mackenzie, apoiados pelo Comando de Ca\u00e7a aos Comunistas (CCC), entraram em confronto. Na verdadeira guerra campal que se abriu na rua, que abrigava as duas universidades, um estudante morreu. Em Bras\u00edlia e Belo Horizonte, as universidades federais tamb\u00e9m foram palco de movimenta\u00e7\u00f5es estudantis e invas\u00f5es militares, em diferentes meses do ano. E o movimento sindical, embora enfraquecido na \u00e9poca, tamb\u00e9m se mobilizou, tendo parado na cidade mineira Contagem, em abril, e na paulista Osasco, em julho.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\u201cTudo tinha uma marca forte de improvisa\u00e7\u00e3o, era um processo muito embrion\u00e1rio de mobiliza\u00e7\u00f5es. A rigor, todos estes movimentos, embora apresentando aspectos novos, devem ser vistos, quando a gente pensa neles em conjunto, como um \u00faltimo sopro dos processo sociais mais densos que se verificaram antes de 1964\u201d, diz Aar\u00e3o Reis. O AI-5 colocaria todos na ilegalidade, a UNE continuaria seu trabalho sempre na clandestinidade e a luta armada surgiria como op\u00e7\u00e3o contra um regime que, como visto em junho, sofria de impopularidade em diferentes setores da sociedade.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maio de 1968\u00a0foi diferente para os estudantes brasileiros. A come\u00e7ar pelo fato de n\u00e3o ter sido um m\u00eas, mas um ano intenso de muito mais perdas do que ganhos. 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