{"id":246765,"date":"2018-06-13T07:53:46","date_gmt":"2018-06-13T10:53:46","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=246765"},"modified":"2018-06-13T07:53:46","modified_gmt":"2018-06-13T10:53:46","slug":"uma-escrava-do-seculo-xxi-em-washington","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/uma-escrava-do-seculo-xxi-em-washington\/","title":{"rendered":"Uma \u2018escrava\u2019 do s\u00e9culo XXI em Washington"},"content":{"rendered":"<div class=\"articulo__apertura\">\n<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div class=\"articulo-encabezado-texto\">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\"><em>A malauiana Fainess Lipenga passou tr\u00eas anos presa num por\u00e3o, enquanto trabalhava como empregada dom\u00e9stica para uma diplomata<\/em><\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"firma \">\n<div class=\"autor\">\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Antonia Laborde\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/antonia_laborde_barrenechea\/a\/\">ANTONIA LABORDE<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<figure class=\"foto centro foto_w980\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/internacional\/imagenes\/2018\/06\/05\/actualidad\/1528205828_967954_1528289426_noticia_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/internacional\/imagenes\/2018\/06\/05\/actualidad\/1528205828_967954_1528289426_noticia_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/internacional\/imagenes\/2018\/06\/05\/actualidad\/1528205828_967954_1528289426_noticia_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/internacional\/imagenes\/2018\/06\/05\/actualidad\/1528205828_967954_1528289426_noticia_normal.jpg 980w\" alt=\"escravid\u00e3o contempor\u00e2nea\" width=\"980\" height=\"656\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">A malauiana Fainess Lipenga em Maryland, Estados Unidos.<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-agencia\">LUISA ARBEL\u00c1EZ<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 uma leoa na sala. Uma sobrevivente. Uma abusada. \u201cAssim se apresenta uma guerreira\u201d, determina Fainess Lipenga, de 39 anos, enquanto move os bra\u00e7os de cima a baixo para mostrar seus quase dois metros de altura. Tem vontade de falar. De contar o que suas cicatrizes escondem. De ser a \u00faltima protagonista de uma hist\u00f3ria de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/esclavitud\">escravid\u00e3o contempor\u00e2nea<\/a>. A malauiana, que usa um longo vestido vermelho, brincos dourados e p\u00e1lpebras sombreadas em tons de lil\u00e1s, presenteia um sorriso com a mesma facilidade com que sua voz se embarga ao recordar. \u201cFui tratada feito cachorro, atravessei o inferno.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando Lipenga tinha pouco mais de 20 anos, vivia no seu\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/malawi\">Malaui<\/a>\u00a0natal, um pa\u00eds no centro-leste da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/africa\">\u00c1frica<\/a>, e trabalhava como empregada dom\u00e9stica de Jane Kambalame, uma funcion\u00e1ria do Governo. Em 2004, num desses dias que mudam uma vida para sempre, sua patroa foi escolhida para exercer uma fun\u00e7\u00e3o de diplomata na embaixada malauiana em\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/washington\">Washington<\/a>. Ela prop\u00f4s a Lipenga que acompanhasse a sua fam\u00edlia para os EUA. A mo\u00e7a, que tinha estudado at\u00e9 a oitava s\u00e9rie e n\u00e3o sabia falar ingl\u00eas, disse que sim, com o entusiasmo de uma menina. Assinou um contrato sem entender uma palavra. O documento estipulava um sal\u00e1rio mensal de 980 d\u00f3lares, dois dias de descanso por semana, f\u00e9rias e o pagamento de horas extras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma vez instalados em Maryland, a meia hora de Washington, Kambalame ordenou a Lipenga que dormisse no por\u00e3o para n\u00e3o \u201ccontaminar\u201d os demais moradores. Os hor\u00e1rios combinados n\u00e3o foram respeitados, e ao final de um tempo a empregada se viu trabalhando das 5h30 \u00e0s 23h, pelo equivalente a 2,54 reais por hora. A patroa instalou um sistema de seguran\u00e7a com uma senha \u00e0 qual Lipenga nunca teve acesso. Reteve seus documentos, n\u00e3o a inscreveu na\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/06\/05\/internacional\/previd%C3%AAncia%20social%20\">previd\u00eancia social<\/a>\u00a0e a deixou incomunic\u00e1vel. \u201cEu escutava quando ela falava com meus pais, mas ela cortava o telefone quando sa\u00eda\u201d, conta, uma d\u00e9cada depois do ocorrido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kambalame repetia constantemente a Lipenga que, por ser diplomata, tinha imunidade e podia fazer o que quisesse. Os diplomatas trazem seus empregados com um visto tipo A3, que est\u00e1 diretamente relacionado com o nome do empregador. Mas, dado o desconhecimento de seus direitos, a dificuldade com o idioma e o isolamento ao qual estava submetida, Lipenga ficou paralisada. \u201cPerdi a vontade de viver, mas n\u00e3o queria morrer nessa casa\u201d, sustenta, com a voz embargada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa nevada madrugada de 2007, Kambalame se esqueceu de fechar a porta da garagem. Lipenga, que tinha roubado seu passaporte e seu contrato, saiu para n\u00e3o voltar mais. Conseguiu chegar a um hospital, onde foi diagnosticada com\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/tuberculosis\">tuberculose<\/a>\u00a0e depress\u00e3o. Quando estava internada, recebeu uma visita. \u201cAdivinha quem era? Minha patroa. N\u00e3o sei como soube onde eu estava. Achei que estava livre, mas continuava sendo uma escrava\u201d, descreve. Lipenga, depois de se recuperar superficialmente, foi encaminhada a um albergue de indigentes. Kambalame apareceu novamente. \u201cN\u00e3o sei como fazia. O ref\u00fagio ficava a duas horas do hospital\u201d, conta, ap\u00f3s anos sem conseguir tirar essa d\u00favida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Finalmente, Lipenga encontrou uma organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos da faculdade de direito da Universidade de Arkansas, que a ajudou a obter um visto T, concedido \u00e0s v\u00edtimas de tr\u00e1fico humano. Em 2017 foram concedidos 1.362 vistos desse tipo. H\u00e1 10 anos foram 544, segundo o Departamento de Sa\u00fade e Servi\u00e7os Humanos dos EUA.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2014, Lipenga moveu uma a\u00e7\u00e3o judicial contra a ex-patroa por perdas e danos, acusando-a de violar o contrato e lhe infligir ang\u00fastia emocional proposital. &#8220;A senhora Kambalame claramente abusou da sua posi\u00e7\u00e3o de poder sobre a senhora Lipenga para lhe causar um severo sofrimento emocional&#8221;, disse o juiz. A \u00faltima coisa que Lipenga soube de Kambalame \u00e9 que havia sido promovida a alta-comiss\u00e1ria (embaixadora) do Mal\u00e1ui para o Zimb\u00e1bue e Botswana. Ela n\u00e3o apresentou defesa na a\u00e7\u00e3o. A indeniza\u00e7\u00e3o estipulada foi de mais de 1 milh\u00e3o de d\u00f3lares. S\u00f3 que a v\u00edtima ainda n\u00e3o viu a cor do dinheiro. \u201cMeus advogados continuam trabalhando nisso\u201d, diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em seu processo de \u201creconstru\u00e7\u00e3o\u201d, foi fundamental a ONG Ajuda, que aborda de maneira transversal as necessidades dos imigrantes. Lipenga conta que l\u00e1 conheceu as mulheres que \u201csalvaram a vida\u201d dela. Katherine Soltis, advogada da institui\u00e7\u00e3o, explica que os imigrantes, especialmente as mulheres, s\u00e3o frequentemente alvo de abusos trabalhistas porque n\u00e3o sabem para onde ir, n\u00e3o t\u00eam contatos e, muitas vezes, n\u00e3o dominam o idioma. \u201c\u00c9 dif\u00edcil conseguir cifras de quantos s\u00e3o, porque muitos nunca chegam a denunciar que s\u00e3o v\u00edtimas de tr\u00e1fico trabalhista, justamente por n\u00e3o conhecerem seus direitos\u201d. \u00c9 isso que Fainess Lipenga quer mudar. Ela agora \u00e9 consultora em conscientiza\u00e7\u00e3o sobre explora\u00e7\u00e3o trabalhista e assessora advogados, funcion\u00e1rios judiciais, m\u00e9dicos etc.. \u201cN\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil falar, eu sei. Mas \u00e9 preciso superar os medos, \u00e9 hora de dizer chega.\u201d E, como uma erup\u00e7\u00e3o vulc\u00e2nica, come\u00e7a a dan\u00e7ar e a cantar v\u00e1rias vezes o n\u00famero 1-888-373-7888. A linha norte-americana contra o tr\u00e1fico de seres humanos.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A malauiana Fainess Lipenga passou tr\u00eas anos presa num por\u00e3o, enquanto trabalhava como empregada dom\u00e9stica para uma diplomata<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":246766,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-246765","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/nova-escrava.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/246765","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=246765"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/246765\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/246766"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=246765"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=246765"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=246765"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}