{"id":247128,"date":"2018-06-16T08:31:17","date_gmt":"2018-06-16T11:31:17","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=247128"},"modified":"2018-06-16T08:31:17","modified_gmt":"2018-06-16T11:31:17","slug":"comunista-saldanha-jogou-com-o-futebol-e-a-vida-por-osvaldo-bertolino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/comunista-saldanha-jogou-com-o-futebol-e-a-vida-por-osvaldo-bertolino\/","title":{"rendered":"Comunista, Saldanha jogou com o futebol e a vida. Por Osvaldo Bertolino"},"content":{"rendered":"<div id=\"td-outer-wrap\">\n<div class=\"td-outer-container\">\n<div class=\"td-header-wrap td-header-style-10\">\n<div class=\"td-header-container\">\n<div class=\"td-header-row\">\n<div class=\"td-header-sp-rec\">\n<div id=\"execphp-3\" class=\"td_block_template_1 widget widget_execphp\">\n<div class=\"execphpwidget\">\n<div class=\"publicidade_desktop\">\n<div id=\"SuperBanner1\" data-google-query-id=\"CJHg0YWK2NsCFQ314QodEQ0HSg\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/54925924\/SuperBanner1_0__container__\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"td-container td-post-template-default\">\n<div class=\"td-container-border\">\n<div class=\"td-pb-row\">\n<div class=\"td-pb-span8 td-main-content\" role=\"main\">\n<div class=\"td-ss-main-content\">\n<article id=\"post-230539\" class=\"post-230539 post type-post status-publish format-standard has-post-thumbnail hentry category-destaques category-esporte tag-as-feras-do-saldanha tag-cbd tag-copa-da-russia tag-copa-de-2018 tag-copa-do-mundo tag-gerson tag-joao-havelange tag-joao-saldanha tag-pele\">\n<div class=\"td-post-header td-pb-padding-side\" style=\"text-align: justify;\">\n<header>\n<div class=\"meta-info\">\n<div class=\"td-post-author-name\">\n<div class=\"td-author-by\">Por\u00a0 Joaquim de Carvalho<\/div>\n<div class=\"td-author-line\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<\/div>\n<div id=\"execphp-2\" class=\"td_block_template_1 widget widget_execphp\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"execphpwidget\">\n<div id=\"social-single\">\n<div class=\"whatsapp\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"td-post-content td-pb-padding-side\">\n<div class=\"ad-outer ad-right\" style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"div-gpt-ad-1498066329325-0\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"conteudo-texto\">\n<figure id=\"attachment_230543\" class=\"wp-caption alignnone\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-230543\" src=\"https:\/\/www.diariodocentrodomundo.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/captura-de-tela-2018-06-16-as-08-22-59-600x396.png\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" srcset=\"https:\/\/www.diariodocentrodomundo.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/captura-de-tela-2018-06-16-as-08-22-59-600x396.png 600w, https:\/\/www.diariodocentrodomundo.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/captura-de-tela-2018-06-16-as-08-22-59-300x198.png 300w, https:\/\/www.diariodocentrodomundo.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/captura-de-tela-2018-06-16-as-08-22-59-768x507.png 768w, https:\/\/www.diariodocentrodomundo.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/captura-de-tela-2018-06-16-as-08-22-59-636x420.png 636w, https:\/\/www.diariodocentrodomundo.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/captura-de-tela-2018-06-16-as-08-22-59-640x423.png 640w, https:\/\/www.diariodocentrodomundo.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/captura-de-tela-2018-06-16-as-08-22-59-681x450.png 681w, https:\/\/www.diariodocentrodomundo.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/captura-de-tela-2018-06-16-as-08-22-59.png 1054w\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"396\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Saldanha, com Pel\u00e9 e G\u00e9rson<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Copa do Mundo para os brasileiros \u00e9 muito mais que uma competi\u00e7\u00e3o. \u00c9 o \u00e1pice de uma forma de brasilidade que entra em campo de quatro em quatro anos. Mesmo quem n\u00e3o acompanha futebol sabe dizer o que fazia no dia em que perdemos aquela Copa, no dia em que ganhamos aquela outra. Como explicar esse fen\u00f4meno? Porque as regras s\u00e3o simples, porque qualquer um pode jogar, porque o mais fraco sempre tem uma chance s\u00e3o boas respostas. A simplicidade do jogo, com suas 17 regras, todas fac\u00edlimas de entender, e a facilidade de adapta\u00e7\u00e3o para qualquer lugar e por qualquer n\u00famero de pessoas \u2014 como mostra o advento de seus irm\u00e3os futsal, so\u00e7aite e de praia (ou de areia) \u2014, al\u00e9m de n\u00e3o requerer equipamentos caros ou sofisticados, s\u00e3o fatores invocados para o seu \u00eaxito em \u00e2mbito mundial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o 250 milh\u00f5es de pessoas nos cinco continentes praticando o futebol atualmente, segundo uma pesquisa patrocinada pela Fifa. Outro dado impressionante: enquanto o n\u00famero de filiados \u00e0 Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) \u00e9 de 189, os membros da Fifa chegam a 203. Fora de campo, o futebol \u00e9 um campe\u00e3o de audi\u00eancia \u2014 calcula-se que a final da \u00faltima Copa do Mundo tenha sido vista por 1,5 bilh\u00e3o dos 6 bilh\u00f5es de terr\u00e1queos. No Brasil, a crian\u00e7a ao nascer ganha nome e um time de futebol. Inicia-se assim a constru\u00e7\u00e3o social do ato de torcer, do que resulta um fato s\u00f3cio-hist\u00f3rico que mescla a identidade pessoal e coletiva do chamado torcedor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fen\u00f4meno exige pesquisa, reflex\u00e3o. Exige, sobretudo, vis\u00e3o hist\u00f3rica. Intelectuais do porte de Graciliano Ramos e Lima Barreto incursionaram pelo universo futebol\u00edstico sem grandes \u00eaxitos em suas conclus\u00f5es exatamente porque n\u00e3o dispunham de elementos propiciados pelo tempo. Para Graciliano Ramos, o futebol no Brasil seria fogo de palha. \u201cTemos esportes em quantidade. Para que metermos o bedelho em coisas estrangeiras? O futebol n\u00e3o pega, tenham a certeza\u201d, escreveu. J\u00e1 Lima Barreto subestimou o papel intelectual do futebol. \u201cTudo tem um limite e o futebol n\u00e3o goza do privil\u00e9gio de coisa inteligente\u201d, chutou, acertando a bandeirinha de escanteio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Intelig\u00eancia \u00e9 um pr\u00e9-requisito para se jogar futebol com arte. N\u00e3o existe outra explica\u00e7\u00e3o para as jogadas m\u00e1gicas em que o futebol encontra a arte; aqueles lances que ningu\u00e9m sabe explicar como acontecem, que exigem uma reflex\u00e3o a respeito, um esfor\u00e7o qualquer de frui\u00e7\u00e3o, de tradu\u00e7\u00e3o do que \u00e9 rarefeito, de compreens\u00e3o daquilo que n\u00e3o \u00e9 imediato, berrante, vis\u00edvel. Lances assim s\u00f3 s\u00e3o poss\u00edveis com aquela esp\u00e9cie de jogadores que toca bem a bola, bate bonito na gorducha, amacia no peito, baixa com eleg\u00e2ncia no gramado. Jogadores que driblam em espa\u00e7os m\u00ednimos, cobram faltas com precis\u00e3o milim\u00e9trica, d\u00e3o passes de 40 metros com perfei\u00e7\u00e3o. Enfim: sabe tudo e mais um pouco. Sem falar nos g\u00eanios, como Pel\u00e9 \u2014 o rei santista que passava por cima dos zagueiros como \u00c1tila, o huno, e cavalgava por sobre os povos que conquistava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A explos\u00e3o de popularidade do futebol no Brasil nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX despertou tamb\u00e9m outras an\u00e1lises mais bola no ch\u00e3o. Gilberto Freyre, em Sobrados e Mucambos, publicado em 1936, mencionou \u201ca ascens\u00e3o do mulato n\u00e3o s\u00f3 mais claro como mais escuro entre os atletas, os nadadores, os jogadores de futebol, que s\u00e3o hoje, no Brasil, quase todos mesti\u00e7os\u201d. No fundo, ele estava dizendo que o futebol passava por um processo de abrasileiramento. Em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo dia 3 de setembro de 1977, intitulado \u201cA prop\u00f3sito de Pel\u00e9\u201d, Gilberto Freyre comparou o rei aos escritores Machado de Assis e Euclides da Cunha, ao compositor Heitor Villa-Lobos e ao arquiteto Oscar Niemeyer. O que une todos eles? A genialidade, respondeu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No futebol, essa genialidade ainda n\u00e3o est\u00e1 devidamente quantificada e qualificada. Ela extrapola as quatro linhas. Um personagem que sintetiza bem o potencial do universo futebol\u00edstico \u00e9 Jo\u00e3o Saldanha. Como jornalista, t\u00e9cnico e dirigente ele traduziu, mais do que ningu\u00e9m, aquilo que a cr\u00f4nica esportiva chama de \u201cmagia do futebol\u201d \u2014 hist\u00f3ria brilhantemente reconstitu\u00edda pelo jornalista Andr\u00e9 Iki Siqueira no livro Jo\u00e3o Saldanha, uma vida em jogo, publicado pela Companhia Editora Nacional. Em 550 p\u00e1ginas, Siqueira conta os 73 anos de vida do jornalista \u2014 dos quais a maioria vivida tamb\u00e9m como militante do Partido Comunista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Saldanha chegou ao posto mais alto do futebol brasileiro em fevereiro de 1969, quando assumiu o cargo de t\u00e9cnico da sele\u00e7\u00e3o. Dirigiu o time brilhantemente em pleno governo do presidente Em\u00edlio Garrastazu M\u00e9dici, o general que comandou o per\u00edodo mais violento da ditadura imposta pelo golpe de 1964. Para ele, M\u00e9dici era o maior assassino da hist\u00f3ria do Brasil. O paradoxo terminou treze meses depois, em 17 de mar\u00e7o de 1970, quando Saldanha foi demitido depois de um turbulento per\u00edodo de interfer\u00eancia do presidente na sele\u00e7\u00e3o. Em uma \u201cCarta aberta ao futebol brasileiro\u201d, publicada pela revista Placar na edi\u00e7\u00e3o de 27 de mar\u00e7o de 1970, o j\u00e1 ex-t\u00e9cnico da sele\u00e7\u00e3o puxou o fio da meada e explicou como o regime p\u00f4s verdadeiros c\u00e3es de guarda para vigiar seus passos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi uma trama urdida pelo presidente da ent\u00e3o Confedera\u00e7\u00e3o Brasileira de Desportos (CBD), Jo\u00e3o Havelange, e o ministro da Educa\u00e7\u00e3o, o coronel Jarbas Passarinho. O ministro nega, no livro de Siqueira, que M\u00e9dici tenha dado ordem para demitir Saldanha. Mas em entrevista publicada pela Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas Editora, o general e tamb\u00e9m ex-presidente da Rep\u00fablica Ernesto Geisel diz: \u201cM\u00e9dici teve um papel importante nessa vit\u00f3ria (da Copa de 1070), porque influiu na nossa representa\u00e7\u00e3o, inclusive na escala\u00e7\u00e3o da delega\u00e7\u00e3o brasileira e na escolha dos t\u00e9cnicos.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A escalada da crise come\u00e7ou quando surgiu o boato de que M\u00e9dici queria a convoca\u00e7\u00e3o de Dario, centroavante do Atl\u00e9tico Mineiro, que n\u00e3o era um jogador com o perfil das \u201cferas do Saldanha\u201d \u2014 como era chamada a sele\u00e7\u00e3o. \u201cO senhor organiza o seu minist\u00e9rio, e eu organizo o meu time\u201d, respondeu o t\u00e9cnico por meio dos jornalistas. Dias antes, em janeiro de 1970, ele esteve no M\u00e9xico para acompanhar o sorteio das chaves da Copa do Mundo de 1970 e disse que havia terr\u00edveis torturas no Brasil. \u201cLevei para o M\u00e9xico uma pilha de documentos sobre 3 mil e poucos presos, trezentos e tantos mortos e n\u00e3o sei quantos torturados\u201d, afirmou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O clima ficou pesado. Convidado para um jantar com M\u00e9dici em Porto Alegre, Saldanha respondeu: \u201cN\u00e3o vou. O cara matou amigos meus. Tenho um nome a zelar.\u201d O caso terminou com duas senten\u00e7as sum\u00e1rias. \u201cEst\u00e1 dissolvida a comiss\u00e3o t\u00e9cnica\u201d, disse Havelange. \u201cN\u00e3o sou sorvete para ser dissolvido\u201d, rebateu Saldanha. Franco, ele imediatamente foi ao microfone da R\u00e1dio Globo, onde trabalhava, e desancou: \u201cO futebol brasileiro tem tanta for\u00e7a que passar\u00e1 por cima desses homens, covardes e pusil\u00e2nimes.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A personalidade forte era uma heran\u00e7a dos pais. Gaspar Saldanha, o pai, al\u00e9m de renomado advogado foi maragato e participou das batalhas contra os chimangos no extremo Sul do Brasil. Era bisneto de Rodriguez Ch\u00e1vez, conhecido como Arredondo, nome de peso na independ\u00eancia do Uruguai. No Acre, o ga\u00facho que comandou a reconquista daquele espa\u00e7o, Jos\u00e9 Pl\u00e1cido de Castro Jobim, era tio-av\u00f4 materno de Jo\u00e3o Saldanha \u2014 sua m\u00e3e chamava-se Jenny Jobim Saldanha. Com esse escopo heredit\u00e1rio correndo nas veias, ele chegou ao Rio de Janeiro, em 1931, trazido pelo pai que participou intensamente da Revolu\u00e7\u00e3o de 1930 liderada por Get\u00falio Vargas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O time do Botafogo de Futebol e Regatas, formado por bons jogadores ga\u00fachos \u2014 como Benevenuto, Otac\u00edlio, Martim Silveira, Lu\u00eds de Carvalho, Lu\u00eds Luz e Benedito \u2014 logo atraiu a sua aten\u00e7\u00e3o. O futebol na praia \u2014 ao lado de nomes conhecidos como Sandro Moreyra (que seria um famoso cronista esportivo), Altthemar Dutra de Castilho (que presidiria o Botafogo), Carlinhos Niemeyer (o criador do Canal 100), S\u00e9rgio Porto (que se transformaria no Stanislaw Ponte Preta) e Heleno de Freitas (que seria um genial jogador), treinados pelo n\u00e3o menos famoso Nen\u00e9m Prancha (o fil\u00f3sofo do futebol) \u2014 evoluiu para uma carreira no juvenil do Botafogo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra atividade de Saldanha era o curso de direito na Universidade do Distrito Federal (atual UERJ). Em pouco tempo, conheceu os universit\u00e1rios comunistas e se ligou a eles. Logo seria enviado \u00e0 Europa e \u00e0s Am\u00e9ricas como uma esp\u00e9cie de porta-voz do Partido Comunista do Brasil (ent\u00e3o PCB). Em 1938, assistiu a Copa do Mundo na Fran\u00e7a quando viajava pela Europa como integrante de uma sele\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria de futebol. De volta ao Brasil, seguiu para Montevid\u00e9u a fim de levar dinheiro aos exilados comunistas no Uruguai. De l\u00e1, foi para os Estados Unidos e o M\u00e9xico. Eram as primeiras tarefas de uma milit\u00e2ncia intensa que perpassaria sua vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m do futebol e da milit\u00e2ncia, Saldanha envolveu-se com o carnaval. A carreira de jogador terminou depois de uma s\u00e9ria contus\u00e3o no tornozelo durante um treino do Botafogo. Trabalhou um per\u00edodo no cart\u00f3rio do pai, n\u00e3o se adaptou e voltou ao clube como dirigente. Mas as viagens em miss\u00e3o pol\u00edtica eram constantes. Depois da Segunda Guerra Mundial, aceitou fazer trabalhos para uma ag\u00eancia de not\u00edcias sobre o Leste Europeu. Nascia ali o jornalista Jo\u00e3o Saldanha. No Brasil, foi convidado a escrever na Folha do Povo. Assumiu tamb\u00e9m a fun\u00e7\u00e3o de secret\u00e1rio-geral da Uni\u00e3o da Juventude Comunista (UJC).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao lado de Apol\u00f4nio de Carvalho, o presidente da UJC, tocou a pol\u00edtica do PCB no movimento estudantil. Foi preso, fichado e solto. No dia 9 de abril de 1949, durante a abertura do I Congresso de Defesa da Paz e da Cultura, desfechou uma cadeirada em um dos policiais que entraram na sede da Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes (UNE) para empastelar a reuni\u00e3o. Come\u00e7ou um tiroteio e Saldanha foi atingido nas costas \u2014 a bala alojou-se em seu pulm\u00e3o direito. Nessa \u00e9poca, participou tamb\u00e9m da campanha \u201cO Petr\u00f3leo \u00e9 nosso\u201d. Ao mesmo tempo, dedicava-se ao Botafogo. Como diretor de futebol, conquistou o t\u00edtulo estadual de 1948.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A persegui\u00e7\u00e3o policial aumentou e em 1949 Saldanha fugiu para a Europa. Foi enviado para a Escola de Quadros do Partido Comunista em Praga, na Tchecoslov\u00e1quia, e seguiu para a China a fim de fazer a cobertura da revolu\u00e7\u00e3o. Em 1950, a saudade da fam\u00edlia e a Copa do Mundo trouxeram Saldanha de volta ao Brasil. Voltou para a Europa e integrou a primeira turma de militantes comunistas que fez o curso de forma\u00e7\u00e3o de longa dura\u00e7\u00e3o em Moscou. A convite da Federa\u00e7\u00e3o Mundial da Juventude Democr\u00e1tica, voltou \u00e0 China para participar do primeiro anivers\u00e1rio da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mesma ag\u00eancia em que trabalhara cobrindo o Leste Europeu ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, convidou Saldanha para enviar not\u00edcias da China. Quando se preparava para deixar o pa\u00eds, estourou a Guerra da Cor\u00e9ia e ele correu para l\u00e1. Uma cirurgia na China depois de uma crise de apendicite, somada \u00e0 defici\u00eancia pulmonar decorrente do tiro na sede da UNE e agravada pelo tabagismo, fez Saldanha retornar ao Brasil. Por orienta\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria, foi morar na cidade de S\u00e3o Paulo e, entre suas tarefas, escrevia para o jornal Not\u00edcias de Hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De S\u00e3o Paulo, estabeleceu liga\u00e7\u00f5es com o Partido no Paran\u00e1 e dirigiu politicamente a revolta camponesa de Porecatu. Um grupo de militantes do Partido na regi\u00e3o viajara ao Rio de Janeiro para fazer contato com o deputado comunista Pedro Pomar \u2014 que manteve o mandato ap\u00f3s a cassa\u00e7\u00e3o dos parlamentares do PCB, ocorrida em 1948, por ter se elegido pelo PSP \u2014 a fim de pedir apoio. Pomar levou o caso \u00e0 dire\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria, que decidiu enviar Saldanha \u00e0 regi\u00e3o. Sua atua\u00e7\u00e3o foi al\u00e9m da orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u2014 ele pegou em armas para lutar ao lado dos camponeses. Saldanha tamb\u00e9m enviava not\u00edcias para os jornais e assim o assunto ganhou a m\u00eddia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1953, quando estourou a \u201cGreve dos Trezentos Mil\u201d em S\u00e3o Paulo, Saldanha tamb\u00e9m estava por tr\u00e1s do movimento. Mas o seu cora\u00e7\u00e3o botafoguense o levou de volta ao Rio de Janeiro. Em 1956, assumiu o comando t\u00e9cnico do time ap\u00f3s a demiss\u00e3o do experiente Zez\u00e9 Moreira. Treinou e dirigiu \u201cuma m\u00e1quina de jogar\u201d, como dizia, formada por g\u00eanios como Garrincha, Didi e Nilton Santos. Resultado: o Botafogo foi campe\u00e3o carioca de 1957. O sucesso do time levou o Botafogo a excursionar pelo mundo e a ganhar o apelido, na Am\u00e9rica Latina, de \u201cLa m\u00e1quina\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">___________<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cNosso \u00fanico produto interno bruto que d\u00e1 \u00e9 o futebol. Falam no carnaval. Nada disto. Fa\u00e7a um desfile de escolas por semana e no fim de um m\u00eas a sociedade brasileira pedir\u00e1 por amor de Deus para pararem.\u201d<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">__________<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O futebol brasileiro passava por uma metamorfose, que teria entre outras gl\u00f3rias a conquista da Copa de 1958. Saldanha analisaria esse per\u00edodo em livros que publicaria mais tarde. Em Na Boca do T\u00fanel, escreveu que no final da d\u00e9cada de 1950 o futebol evolu\u00eda a passos gigantescos. \u201cA capacidade de resist\u00eancia dos jogadores, sua habilidade com a bola, est\u00e3o criando situa\u00e7\u00f5es inteiramente novas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s posi\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas dos sistemas que est\u00e3o sendo levados de rold\u00e3o pela pr\u00e1tica do jogo. Um jogador, para ser eficiente, tem de saber jogar em v\u00e1rias posi\u00e7\u00f5es. Tem de saber defender e atacar; e qualquer sistema moderno que pretenda ser eficiente tem de compreender que n\u00e3o pode ser r\u00edgido. Estamos mais do que nunca precisando disso. O futebol \u00e9 arte popular. N\u00e3o podemos continuar atrasados\u201d, disse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Saldanha escreveu tamb\u00e9m, em 1963, o livro Subterr\u00e2neos do futebol \u2014 t\u00edtulo que homenageou seu camarada Jorge Amado, que escrevera Os subterr\u00e2neos da liberdade. Em 1959, comentou, pela R\u00e1dio Nacional, o campeonato sul-americano disputado em Buenos Aires. Gostou da experi\u00eancia e resolveu dedicar-se exclusivamente \u00e0 fun\u00e7\u00e3o de comentarista. Waldir Amaral, \u00edcone do r\u00e1dio esportivo brasileiro e f\u00e3 de Saldanha, cunhou slogans que marcariam a nova fase do ex-t\u00e9cnico do Botafogo. \u201cO comentarista realmente t\u00e9cnico\u201d era um deles. Outro, ap\u00f3s a Copa de 1970: \u201cO comentarista esportivo que o Brasil inteiro consagrou.\u201d\u00a0 Seu jeito direto e did\u00e1tico conquistou as torcidas \u2014 virou refer\u00eancia para os torcedores que buscavam em sua opini\u00e3o os esclarecimentos sobre os acontecimentos nos jogos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Saldanha trabalhou inicialmente na R\u00e1dio Guanabara, que fez parte da expans\u00e3o da Cadeia Verde-amarela (que pertence \u00e0 Radio Bandeirantes, de S\u00e3o Paulo), com uma fabulosa\u00a0 equipe de locutores comandada pelo memor\u00e1vel Edson Leite. Depois foi para a R\u00e1dio Nacional, que tamb\u00e9m formou um tima\u00e7o. Oduvaldo Cozzi, Jorge Cury, Doalcei Bueno de Camargo, S\u00e9rgio Paiva, M\u00e1rio Vianna e Vitorino Vieira eram alguns dos craques que trabalhavam com Saldanha. No livro A Estrela Solit\u00e1ria, biografia de Garrincha escrita por Ruy Castro, o autor diz: \u201cSaldanha revolucionou o coment\u00e1rio sobre futebol. Raspou o ouro parnasiano, de porta da Colombo (confeitaria tradicional do Rio de Janeiro), que caracterizava o g\u00eanero, e impregnou-o com o clima de porta de botequim.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A popularidade do futebol subia pelo elevador. O Brasil ganhara tamb\u00e9m a Copa de 1962 no Chile e o jornalismo esportivo se especializava. Surgiu, nesse per\u00edodo, a Grande Revista Esportiva Facit, transmitida pela TV Rio, canal 13. Foi a primeira mesa-redonda de futebol exibida pela televis\u00e3o ao vivo. Saldanha integrou a equipe do programa, que logo cai nas gra\u00e7as das torcidas. Luiz Mendes conta, no livro de Siqueira, que era \u201cuma b\u00edblia dominical do esporte brasileiro\u201d. Faziam parte da Grande Revista Esportiva Facit nomes lend\u00e1rios como Armando Nogueira e Nelson Rodrigues. Em 1966, quando a TV Globo come\u00e7ou a despontar como a poderosa emissora brasileira, o programa foi levado para l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Siqueira conta que no r\u00e1dio e na TV Saldanha ia consagrando palavras e pensamentos muito reais do cotidiano das pessoas. Para analisar os motivos de uma renda baixa, por exemplo, ele dizia: \u201cSacum\u00e9, fim de m\u00eas, a mo\u00e7ada t\u00e1 dura.\u201d Ao mesmo tempo, escrevia, com o mesmo talento, coment\u00e1rios no jornal \u00daltima Hora. Durante a Copa de 1966, na Inglaterra, que comentou pela R\u00e1dio Nacional, Saldanha concedeu v\u00e1rias entrevistas para emissoras estrangeiras com a mesma franqueza com que falava aos brasileiros. Em uma delas, o entrevistador perguntou o que ele tinha a dizer sobre a matan\u00e7a de \u00edndios no Brasil. \u201cNosso pa\u00eds tem 470 anos de hist\u00f3ria. Nesses 470 anos, foram mortos menos \u00edndios do que em dez minutos de uma guerra provocada por voc\u00eas. Os selvagens s\u00e3o voc\u00eas\u201d, tascou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A perda da Copa de 1966 desencadeou uma crise no comando da sele\u00e7\u00e3o brasileira. Para surpresa geral do pa\u00eds, o presidente da CBD, Jo\u00e3o Havelange, convidou Saldanha para assumir o cargo. Em uma cr\u00f4nica no jornal O Globo, Nelson Rodrigues anteviu os passos do novo comandante da sele\u00e7\u00e3o. \u201cEstranho mundo em que n\u00e3o se d\u00e1 um passo sem esbarrar, sem trope\u00e7ar, sem pisar nas v\u00edboras inumer\u00e1veis. (\u2026) J\u00e1 sabemos que a compet\u00eancia \u00e9 amargamente antipatizada no futebol brasileiro. Claro, e repito: a compet\u00eancia tira o p\u00e3o da boca dos idiotas enf\u00e1ticos e dos aproveitadores vorazes.\u201d De fato, a sordidez espreitava Saldanha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Siqueira diz que ele pretendia continuar denunciando, agora com mais repercuss\u00e3o, o que estava acontecendo no pa\u00eds. O novo t\u00e9cnico montou um time de \u201cferas\u201d e o sucesso da sele\u00e7\u00e3o fez o regime se levantar contra ele. A CBD era uma entidade ligada ao Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e Cultura, ocupada por Jarbas Passarinho, e uma eventual conquista da Copa com Saldanha \u00e0 frente do selecionado seria um constrangimento para os generais golpistas. Nelson Rodrigues, em sua famosa cr\u00f4nica \u201cJo\u00e3o Sem Medo\u201d no jornal O Globo, resumiu a quest\u00e3o: \u201cUm amigo meu, bem-pensante, veio me perguntar: \u2018Voc\u00ea acha que o Jo\u00e3o tem as qualidades necess\u00e1rias?\u2019 Respondi: \u2018N\u00e3o sei se tem as qualidades necess\u00e1rias. Mas afirmo que tem os defeitos necess\u00e1rios.\u2019 E, realmente, o querido Saldanha possui defeitos luminos\u00edssimos.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um desses \u201cdefeitos\u201d era que ele fechava espa\u00e7os para a ditadura capitalizar a prov\u00e1vel conquista do tri. E a m\u00eddia, servil ao regime, come\u00e7ou a fustig\u00e1-lo. O compl\u00f4 estava armado. Da\u00ed para a queda, foi um passo. Depois da turbulenta passagem pelo comando t\u00e9cnico da sele\u00e7\u00e3o brasileira, Saldanha continuou escrevendo para o jornal O Globo e comentando na R\u00e1dio Globo. Em 1972, come\u00e7ou a fazer o Dois Minutos, na TV Globo, um programa di\u00e1rio sobre futebol e esporte em geral que ia ao ar antes do Jornal Nacional e durou at\u00e9 1974. Passou por outras emissoras, festejou a volta dos seus camaradas com a anistia, mas nunca deixou o futebol.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em sua cr\u00f4nica intitulada \u201cPelo Cano\u201d, publicada dia 23 de mar\u00e7o de 1982 no Jornal do Brasil, escreveu: \u201cNosso \u00fanico produto interno bruto que d\u00e1 \u00e9 o futebol. Falam no carnaval. Nada disto. Fa\u00e7a um desfile de escolas por semana e no fim de um m\u00eas a sociedade brasileira pedir\u00e1 por amor de Deus para pararem.\u201d Apesar da \u201cteimosia sider\u00fargica\u201d do t\u00e9cnico Tel\u00ea Santana, vibrou com a sele\u00e7\u00e3o de 1982. Voltou \u00e0 milit\u00e2ncia pol\u00edtica, foi candidato a vice-prefeito da cidade do Rio de Janeiro pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB) em 1985 e participou ativamente da redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Morreu na It\u00e1lia, participando da cobertura da Copa de 1990 pela Rede Manchete de Televis\u00e3o. Saldanha viveu a vida como ela deve ser vivida. Brigou, namorou, casou v\u00e1rias vezes, escreveu muito e deixou uma bela hist\u00f3ria para o futebol brasileiro. Jogou com a vida. E ganhou.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/article>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Copa do Mundo para os brasileiros \u00e9 muito mais que uma competi\u00e7\u00e3o. \u00c9 o \u00e1pice de uma forma de brasilidade que entra em campo de quatro em quatro anos. 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