{"id":247130,"date":"2018-06-16T08:37:50","date_gmt":"2018-06-16T11:37:50","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=247130"},"modified":"2018-06-16T08:38:08","modified_gmt":"2018-06-16T11:38:08","slug":"mauricio-grabois-e-os-devaneios-de-um-jornalista-da-cartacapital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/mauricio-grabois-e-os-devaneios-de-um-jornalista-da-cartacapital\/","title":{"rendered":"Maur\u00edcio Grabois e os devaneios de um jornalista da CartaCapital; veja v\u00eddeo"},"content":{"rendered":"<header class=\"entry-header\">\n<h1 class=\"entry-title\"><\/h1>\n<div class=\"entry-meta\"><span class=\"posted-on\"><i class=\"fa fa-calendar\"><\/i>\u00a0<\/span><\/div>\n<\/header>\n<div class=\"entry-content\">\n<div class=\"jsn-article-content\">\n<div class=\"fluid-width-video-wrapper\"><\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/outroladodanoticia.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/graboiscarta.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-4918 aligncenter\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outroladodanoticia.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/graboiscarta.jpeg?resize=520%2C367\" sizes=\"auto, (max-width: 520px) 100vw, 520px\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/outroladodanoticia.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/graboiscarta.jpeg?w=520 520w, https:\/\/i0.wp.com\/outroladodanoticia.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/graboiscarta.jpeg?resize=300%2C212 300w, https:\/\/i0.wp.com\/outroladodanoticia.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/graboiscarta.jpeg?resize=78%2C55 78w, https:\/\/i0.wp.com\/outroladodanoticia.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/graboiscarta.jpeg?resize=310%2C219 310w\" alt=\"\" width=\"520\" height=\"367\" data-attachment-id=\"4918\" data-permalink=\"http:\/\/outroladodanoticia.com.br\/2017\/12\/18\/mauricio-grabois-e-os-devaneios-de-um-jornalista-da-cartacapital\/graboiscarta\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/outroladodanoticia.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/graboiscarta.jpeg?fit=520%2C367\" data-orig-size=\"520,367\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"graboiscarta\" data-image-description=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/outroladodanoticia.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/graboiscarta.jpeg?fit=300%2C212\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/outroladodanoticia.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/graboiscarta.jpeg?fit=520%2C367\" \/><\/a><\/p>\n<p>Por coincid\u00eancia, acabo de ler o que seria o di\u00e1rio de Maur\u00edcio Garbois no exato momento em que a revista\u00a0<em>CartaCapital\u00a0<\/em>chega \u00e0s bancas com este tema como mat\u00e9ria de capa. O texto, intitulado \u201cDevaneio na\u00a0selva\u201d e\u00a0assinado por Lucas Figueiredo, comenta \u201cO di\u00e1rio do Araguaia\u201d,\u00a0tema anunciado como \u201cexclusivo\u201d.<\/p>\n<p>Por Osvaldo Bertolino<\/p>\n<p>O assunto, no entanto,\u00a0n\u00e3o \u00e9 novo. Quando escrevi a biografia de Maur\u00edcio Grabois, publicada em 2004 pela editora Anita Garibaldi, deparei com informa\u00e7\u00f5es que davam conta desse di\u00e1rio. Recebi, anonimamente, trechos do que seriam as anota\u00e7\u00f5es do comandante militar da Guerrilha do Araguaia, mas, impossibilitado de verificar a veracidade do documento, n\u00e3o usei as informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Centen\u00e1rio de Jo\u00e3o Amazonas e Maur\u00edcio Grabois\" width=\"500\" height=\"375\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/SL5VO0XLuvw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Segundo o jornalista Hugo Studart, que escreveu o livro\u00a0<em>A Lei da Selva<\/em>, trata-se de uma c\u00f3pia preservada por um militar. Em artigo publicado pela revista\u00a0<em>Brasil Hist\u00f3ria,\u00a0<\/em>edi\u00e7\u00e3o de mar\u00e7o de2007, ele diz que o destino e principalmente o teor do di\u00e1rio ficaram oculto por tr\u00eas d\u00e9cadas. \u201cO di\u00e1rio foi encontrado pelas tropas que mataram Grabois, dentro de suas roupas, j\u00e1 estufado pela umidade. O documento chegou a Marab\u00e1 no final da tarde de 25 de dezembro de 1973 para ser encaminhado na primeira hora do dia seguinte ao Centro de Informa\u00e7\u00f5es do Ex\u00e9rcito (CIE), em Bras\u00edlia\u201d, diz ele.<\/p>\n<p>Segundo Studart, um capit\u00e3o da \u00e1rea de informa\u00e7\u00f5es pediu o material emprestado aos colegas para examin\u00e1-lo e, sem consultar os superiores, convocou cinco soldados para que atravessassem a madrugada copiando o conte\u00fado \u00e0 m\u00e3o. Pela manh\u00e3 devolveu o documento. O di\u00e1rio original desapareceu dos arquivos do CIE, provavelmente destru\u00eddo no cremat\u00f3rio ocorrido em fins de 1974, por ordem do presidente Ernesto Geisel para ocultar os combates no Araguaia. Restou a c\u00f3pia (mais tarde datilografada), preservada nos arquivos pessoais daquele capit\u00e3o. Tr\u00eas oficiais superiores, antigos membros da Comunidade de Informa\u00e7\u00f5es que tiveram acesso aos originais antes da crema\u00e7\u00e3o, atestam a autenticidade do conte\u00fado que consta na c\u00f3pia.<\/p>\n<p><strong>O \u00faltimo combate<\/strong><\/p>\n<p>O jornalista diz que Grabois come\u00e7ou o di\u00e1rio tr\u00eas semanas ap\u00f3s a chegada do Ex\u00e9rcito. Ele esmerou-se nos detalhes dos crimes cometidos pela repress\u00e3o no Araguaia, a principal raz\u00e3o que levou os generais do regime militar mandar destruir a maior parte dos documentos sobre a Guerrilha, incluindo o di\u00e1rio do seu comandante militar. Studart descreveu o documento como rico na descri\u00e7\u00e3o das receitas de alimentos e medicamentos utilizadas pelos guerrilheiros, assim como na transcri\u00e7\u00e3o de poemas e letras de can\u00e7\u00f5es invocadas no cotidiano das selvas.<\/p>\n<p>Grabois escreveu at\u00e9 o dia do seu \u00faltimo combate, em 25 de dezembro de 1973, quando, segundo Jo\u00e3o Quartim de Moraes no pref\u00e1cio da biografia que fiz, o Brasil vivia o tempo dos assassinos, dos curi\u00f3s, dos s\u00e9rgios fleury e cong\u00eaneres. Era \u201ctamb\u00e9m o tempo dos verdadeiros her\u00f3is, dos que em vida se comoviam at\u00e9 as l\u00e1grimas com a imensa mis\u00e9ria e o indiz\u00edvel sofrimento dos humilhados, dos fam\u00e9licos, dos sem-inf\u00e2ncia e sem-esperan\u00e7a, mas que, na hora do combate final, caem de p\u00e9, olhando a morte na cara\u201d. Grabois morreu no grande combate que ficou conhecido como o \u201cChafurdo de Natal\u201d.<\/p>\n<p>Descrevi, no livro, a cena nestes termos:<\/p>\n<p><em>\u201cNo in\u00edcio da opera\u00e7\u00e3o, batizada de \u201cSucuri\u201d, instalou-se na regi\u00e3o um sujeito chamado Marco Ant\u00f4nio Luchini, enviado como engenheiro do Incra. Era na verdade o major Sebasti\u00e3o Rodrigues de Moura, o Curi\u00f3, ferrenho anticomunista que em 1961, como tenente, foi preso por participar da trama que tentou impedir a posse presidencial de Jo\u00e3o Goulart. No golpe de 1964, ele participou ativamente da conspira\u00e7\u00e3o e chegou ao CIEx. Frio e sanguin\u00e1rio, ficou famoso na regi\u00e3o por receber de pistoleiros as cabe\u00e7as, m\u00e3os e dedos decepados dos guerrilheiros para os quais pagava de 10 a 50 mil cruzeiros \u2014 dependendo da import\u00e2ncia pol\u00edtica da v\u00edtima.<\/em><\/p>\n<p><em>Por tr\u00e1s da opera\u00e7\u00e3o estava o general Ant\u00f4nio Bandeira. Curi\u00f3 foi, possivelmente, a figura que mais encarnou o esp\u00edrito da \u201cguerra suja\u201d, que rasgou todas as leis e princ\u00edpios que regem os conflitos militares e os direitos b\u00e1sicos do ser humano. Curi\u00f3 ainda iria participar de outras atrocidades praticadas pela ditadura \u2014 como a \u201cchacina da Lapa\u201d, quando em 1976 a repress\u00e3o assassinou dirigentes do PCdoB em S\u00e3o Paulo \u2014 e se estabelecer na regi\u00e3o, onde foi eleito deputado, dominou o garimpo de Serra Pelada a for\u00e7a e fundou uma cidade em homenagem ao seu nome \u2014 Curion\u00f3polis.<\/em><\/p>\n<p><em>No dia 25 de dezembro de 1973, Curi\u00f3 comandava a patrulha que no final daquela manh\u00e3 chuvosa, por volta das onze horas e vinte cinco minutos, encontrou o grupo de guerrilheiros. O major viu entre eles aquele que o relat\u00f3rio do CIEx classificou como o comandante militar da Guerrilha, que destacava-se dos demais pela idade \u2014 estava com 61 anos. Maur\u00edcio Grabois recebeu um tiro de fuzil no bra\u00e7o esquerdo, abaixou-se, puxou o rev\u00f3lver e de joelhos atirou at\u00e9 ser atingido mortalmente na cabe\u00e7a. Apropriadamente, o oficial que presenciou a cena proclamou: \u201cFoi a morte de um lutador\u201d.<\/em><\/p>\n<p><em>No in\u00edcio do dia 25 de dezembro de 1973, exatamente seis anos depois do desembarque de Maur\u00edcio Grabois no Araguaia, dos 69 guerrilheiros enviados \u00e0 regi\u00e3o 41 estavam vivos, 20 mortos, 7 presos e um \u2014 Jo\u00e3o Carlos Borgeth, o \u201cPaulo Paquet\u00e1\u201d \u2014 havia fugido. No tiroteio contra a Comiss\u00e3o Militar naquela manh\u00e3 de Natal, dos 15 que estavam no grupo dez sobreviveram. Os mortos foram, al\u00e9m de Maur\u00edcio Grabois, seu genro Gilberto Ol\u00edmpio Maria, L\u00edbero Giancarlo Castiglia, o \u201cJoca\u201d \u2014 que chegou com ele e Elza Monnerat \u00e0 regi\u00e3o em 1967, e possivelmente foi preso ainda com vida \u2014, Paulo Mendes Rodrigues e Guilherme Gomes Lund. Os demais guerrilheiros estavam acampados num local mais abaixo ou realizando tarefas nas redondezas.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Para escrever a biografia, consultei muitas fontes, conversei demoradamente com pessoas que conviveram com Grabois e mergulhei fundo em seus escritos. A impress\u00e3o que fiquei \u00e9 de um homem \u00e0 frente do seu tempo, de rara capacidade intelectual, de car\u00e1ter s\u00f3lido e totalmente envolvido com a causa que embala a humanidade desde tempos imemoriais: a luta pelo futuro. \u00c9 daqueles que, como disse o escritor Monteiro Lobato na carta enviada a Caio Prado J\u00fanior quando este estava na pris\u00e3o, quanto mais a gente conhece, mais admira. \u201cA regra \u00e9 ao contr\u00e1rio: \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que a gente vai conhecendo um homem, vai se decepcionando \u2014 vendo-lhe as falhinhas\u2026\u201d, disse.<\/p>\n<p><strong>Formula\u00e7\u00e3o de Karl Marx<\/strong><\/p>\n<p>No caso de Grabois e de seus contempor\u00e2neos que reorganizaram o Partido Comunista do Brasil em 1943 na Confer\u00eancia da Mantiqueira e em 1962, aplica-se muito bem a formula\u00e7\u00e3o de Karl Marx, na obra\u00a0<em>O dezoito brum\u00e1rio de Luis Bonaparte,<\/em>\u00a0de que a tradi\u00e7\u00e3o de todas as gera\u00e7\u00f5es mortas oprime como um pesadelo o c\u00e9rebro dos vivos. \u201cOs homens fazem sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, mas n\u00e3o a fazem como querem; n\u00e3o a fazem sob circunst\u00e2ncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado\u201d, diz ele.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 ponto: Grabois se destaca nos notici\u00e1rios por ter participado at\u00e9 \u00e0 morte naquela que \u00e9 considerada a mais dura linha de resist\u00eancia \u00e0 ditadura de 1964, a Guerrilha do Araguaia, mas o seu legado oprime o c\u00e9rebro dos que procuram esvaziar as suas id\u00e9ias. O conjunto da sua obra nem sempre \u00e9 devidamente valorizado \u2014 uma op\u00e7\u00e3o da m\u00eddia que, sabemos muito bem, n\u00e3o tem o menor interesse em retratar o alcance da Guerrilha do Araguaia.<\/p>\n<p><strong>Chutes te\u00f3ricos de Lucas Figueiredo<\/strong><\/p>\n<p>O que causa estranheza \u00e9 a op\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>CartaCapital\u00a0<\/em>de entregar esse assunto ao jornalista Lucas Figueiredo, que se revelou um desconhecedor das elementares informa\u00e7\u00f5es que possibilitariam um ju\u00edzo mais em conformidade com os fatos descritos no di\u00e1rio. J\u00e1 no in\u00edcio da mat\u00e9ria ele deduz que Grabois ilude-se sobre o \u00e2nimo das \u201cmassas\u201d, que seriam \u201ca miser\u00e1vel popula\u00e7\u00e3o local que quer cooptar para fazer a revolu\u00e7\u00e3o comunista no Brasil\u201d. Devaneio maior, imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Bastaria raciocinar n\u00e3o mais que cinco minutos para saber que uma \u201crevolu\u00e7\u00e3o comunista\u201d era o que menos estava em quest\u00e3o naquele movimento. Se for para ser mais rigoroso, \u00e9 poss\u00edvel dizer que Lucas Figueiredo n\u00e3o se deu sequer ao trabalho de evitar chutes te\u00f3ricos para qualificar a luta armada no Sul do Par\u00e1. Seria o caso de perguntar: onde ele leu, ouviu ou obteve tal informa\u00e7\u00e3o? Se diz que Grabois e seus camaradas queriam \u201cfazer a revolu\u00e7\u00e3o comunista\u201d, deveria explicar o que vem a ser isso. \u00c9 o velho v\u00edcio da m\u00eddia, de disparar preconceitos sem a menor preocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O esperto jornalista<\/strong><\/p>\n<p>Para Lucas Figueiredo, \u201ctudo conspirava contra os guerrilheiros\u201d, mas o ing\u00eanuo Grabois \u201cjulgava que a situa\u00e7\u00e3o era \u2018favor\u00e1vel\u2019\u201d. O esperto jornalista diz que \u201cfica patente\u201d no di\u00e1rio \u201cque, entre o sonho e a realidade, Grabois abra\u00e7a o primeiro e renega a segunda, um gesto bonito para um idealista, mas fatal para um comandante militar\u201d. Bem, quando o assunto chega a esse tom professoral, \u00e9 preciso tomar cuidado. Como sabemos, professores nem sempre gostam de ser contestados. Mas alguns pontos s\u00e3o t\u00e3o falseados que, mesmo com esse risco, n\u00e3o d\u00e1 para n\u00e3o comentar.<\/p>\n<p>Lucas Figueiredo descreve Grabois como um ser t\u00e3o incapacitado intelectualmente que passava horas de seu dia a ouvir as transmiss\u00f5es da R\u00e1dio Tirana e acreditava nas not\u00edcias que chegavam \u201cda distante e fechada Alb\u00e2nia comunista\u201d. \u201cGrabois chega a acreditar que n\u00e3o s\u00f3 ele e seus companheiros ouvem a propaganda vermelha da Tirana (sic), a \u2018melhor fonte de informa\u00e7\u00f5es\u2019\u201d, escreve. Aqui a desinforma\u00e7\u00e3o assusta. Bastaria uma r\u00e1pida busca na internet para saber que o PCdoB montara um sofisticado sistema de transmiss\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es, via R\u00e1dio Tirana, que vinham exatamente de onde Grabois estava.\u00a0 Dizer, como faz Lucas Figueiredo, que Grabois tomava propaganda como informa\u00e7\u00e3o \u00e9 o c\u00famulo do descaso.<\/p>\n<p><strong>Uma confus\u00e3o prim\u00e1ria<\/strong><\/p>\n<p>Para o jornalista, a capacidade do comandante \u201cde se entregar ao autoengano parece infinita\u201d. \u201cO di\u00e1rio mostra que ele confundia o apoio log\u00edstico dado pela popula\u00e7\u00e3o local, que realmente existiu durante um tempo, com a nunca efetivada ades\u00e3o \u00e0 luta\u201d, diz ele. Lucas Figueiredo poderia ter assistido ao document\u00e1rio \u201cCamponeses do Araguaia \u2014 a Guerrilha vista por dentro\u201d (veja aqui ao lado, na coluna \u00e0 direita), do qual participei como respons\u00e1vel pelas entrevistas, para ver que Grabois tinha raz\u00e3o. Deveria tamb\u00e9m ler os documentos sobre o car\u00e1ter daquela resist\u00eancia para saber que ningu\u00e9m, muito menos o comandante, queria que a popula\u00e7\u00e3o aderisse \u201cefetivamente\u201d\u00a0\u00e0 luta. \u00c9 uma confus\u00e3o prim\u00e1ria, sabe-se l\u00e1 com qual prop\u00f3sito.<\/p>\n<p>O texto se lan\u00e7a\u00a0em outros devaneios de menor intensidade, como as descri\u00e7\u00f5es de Grabois sobre as dificuldades enfrentadas na mata e a busca incessante por comida. A\u00ed Lucas Figueiredo voa t\u00e3o baixo que \u00e9 imposs\u00edvel alcan\u00e7\u00e1-lo. \u201cO di\u00e1rio revela um guerrilheiro obcecado por comida\u201d, diz ele. Depois dessa triste passagem, ele volta a atacar Grabois, \u201cum comandante rigoroso, sobretudo com os outros\u201d.<\/p>\n<p><strong>Palavreado rasteiro, chulo<\/strong><\/p>\n<p>Aparece novamente um ser ing\u00eanuo e incapacitado a ponto de escrever regras como \u201cgarantir o auto-abastecimento\u201d e \u201clevar a cabo a\u00e7\u00f5es armadas contra o inimigo\u201d. \u201cEspera que os estudantes e profissionais liberais de pouca idade levados pelo PCdoB para a mata sejam verdadeiros Rambos\u201d, escreve. \u201cE quando n\u00e3o o s\u00e3o, Grabois os chama de \u2018problema\u2019, \u2018acovardado\u2019, \u2018pouco desenvolto\u2019 \u2018ing\u00eanuo\u2019 e \u2018um tanto lerdo de racioc\u00ednio\u2019\u201d, diz o jornalista, fazendo cita\u00e7\u00f5es descontextualizadas e demonstrando que leu o di\u00e1rio de forma artificial.<\/p>\n<p>Mas, segundo Lucas Figueiredo, Grabois era t\u00e3o estulto que \u201cquando se tratava de analisar a si pr\u00f3prio como comandante e o PCdoB como Estado-Maior da guerrilha, era generoso\u201d. O palavreado \u00e9 rasteiro, chulo. \u201cSe os 69 combatentes \u2018inexperientes\u2019 \u2014 pelo menos isso ele admitia \u2014 seguissem \u00e0 risca as ordens emanadas da c\u00fapula vermelha e da inspira\u00e7\u00e3o do \u2018mestre da guerra popular\u2019 Mao Tse Tung, seria \u2018imposs\u00edvel\u2019 perder a luta contra o rolo compressor liderado pelo Ex\u00e9rcito e apoiado pela Aeron\u00e1utica, Marinha, Pol\u00edcia Federal e as PMS de tr\u00eas estados\u201d, escreve. Quantos devaneios!<\/p>\n<p><strong>Dignidade humana personalizada<\/strong><\/p>\n<p>Para finalizar, Lucas Figueiredo atribui \u00e0s chuvas as derrotas sofridas pela repress\u00e3o em suas duas primeiras campanhas. E na opera\u00e7\u00e3o final fica-se com a impress\u00e3o de que os bandos comandados por Curi\u00f3 \u00e9 que estavam certos. \u201cEm fevereiro de 1973, \u00e0s v\u00e9speras do in\u00edcio da campanha definitiva dos militares, (Grabois) aceita em sua mente (sic) o jogo do tudo ou nada. \u2018No final, como nos filmes de mocinho, tudo acabar\u00e1 bem. Se n\u00e3o acabar\u2026 azar nosso\u2019\u201d, escreve ele.<\/p>\n<p>Grabois n\u00e3o merecia isso tudo. Se pudesse dizer algo para o comandante da Guerrilha do Araguaia, utilizaria id\u00e9ias e palavras de Monteiro Lobato na carta a Caio Prado J\u00fanior. Cada ato seu o eleva mais. Morreu por ser digno, honesto em uma era de desonestos, corajoso nesse tempo de covardes, limpo em um s\u00e9culo de sujeiras. Eu aqui da minha insignific\u00e2ncia, Grabois, te beijo a m\u00e3o comovido \u2014 como se beijasse a m\u00e3o da pr\u00f3pria dignidade humana personalizada.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 Por coincid\u00eancia, acabo de ler o que seria o di\u00e1rio de Maur\u00edcio Garbois no exato momento em que a revista\u00a0CartaCapital\u00a0chega \u00e0s bancas com este tema como mat\u00e9ria de capa. O texto, intitulado \u201cDevaneio na\u00a0selva\u201d e\u00a0assinado por Lucas Figueiredo, comenta \u201cO di\u00e1rio do Araguaia\u201d,\u00a0tema anunciado como \u201cexclusivo\u201d. Por Osvaldo Bertolino O assunto, no entanto,\u00a0n\u00e3o \u00e9 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":247131,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-247130","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/mauricio-grabois.jpeg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/247130","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=247130"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/247130\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/247131"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=247130"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=247130"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=247130"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}