{"id":247201,"date":"2018-06-16T15:21:43","date_gmt":"2018-06-16T18:21:43","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=247201"},"modified":"2018-06-16T15:21:43","modified_gmt":"2018-06-16T18:21:43","slug":"a-longa-historia-das-noticias-falsas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/a-longa-historia-das-noticias-falsas\/","title":{"rendered":"A longa hist\u00f3ria das not\u00edcias falsas"},"content":{"rendered":"<div class=\"articulo__apertura\">\n<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div class=\"articulo-encabezado-texto\">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\"><em>Utiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das mentiras come\u00e7ou muito antes das redes sociais, e a constru\u00e7\u00e3o de outras realidades era uma constante na Gr\u00e9cia antiga<\/em><\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"firma \">\n<div class=\"autor\">\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Guillermo Altares\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/guillermo_altares\/a\/\">GUILLERMO ALTARES<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<figure class=\"foto centro foto_w980\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2018\/06\/08\/actualidad\/1528467298_389944_1528470111_noticia_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2018\/06\/08\/actualidad\/1528467298_389944_1528470111_noticia_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2018\/06\/08\/actualidad\/1528467298_389944_1528470111_noticia_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2018\/06\/08\/actualidad\/1528467298_389944_1528470111_noticia_normal.jpg 980w\" alt=\"Soldados alem\u00e3es durante a quarta batalha de Ypres, em outubro de 1918.\" width=\"980\" height=\"529\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Soldados alem\u00e3es durante a quarta batalha de Ypres, em outubro de 1918.<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">PAUL THOMPSON<\/span>\u00a0<span class=\"foto-agencia\">GETTY IMAGES<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<section id=\"sumario_2|apoyos\" class=\"sumario_apoyos izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<div class=\"apoyos\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira v\u00edtima da guerra \u00e9 a verdade, afirma um velho ditado jornal\u00edstico. Embora o mais correto fosse dizer que a verdade \u00e9 v\u00edtima recorrente em qualquer sociedade organizada, porque a mentira pol\u00edtica \u00e9 uma arte t\u00e3o velha quanto a civiliza\u00e7\u00e3o. A verdade \u00e9 um conceito fugidio na metaf\u00edsica e mutante nas ci\u00eancias \u2013 uma nova descoberta pode anular o que se dava como certo \u2013, mas no dia-a-dia o assunto \u00e9 bem diferente: h\u00e1 coisas que aconteceram, e outras que n\u00e3o; mas os fatos, reais ou inventados, influenciam a nossa percep\u00e7\u00e3o e opini\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"elpais_gpt-INTEXT\" style=\"text-align: justify;\" data-google-query-id=\"CNDci4Dm2NsCFVJIhgodzAUOgA\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/cultura\/intext_0__container__\"><iframe id=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/cultura\/intext_0\" title=\"3rd party ad content\" name=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/cultura\/intext_0\" width=\"1\" height=\"1\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde a Antiguidade, verdade e mentira se misturaram muit\u00edssimas vezes, e\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/03\/06\/cultura\/1520352987_936609.html\">essas realidades falsas influenciaram nosso presente<\/a>. Assim j\u00e1 escreveu o grande historiador franc\u00eas Paul Veyne em seu ensaio\u00a0<em>Os Gregos Acreditavam em Seus Mitos?<\/em>\u00a0(Unesp): \u201cOs homens n\u00e3o encontram a verdade, a constroem, como constroem sua hist\u00f3ria\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chegados a este ponto, conv\u00e9m fazer uma distin\u00e7\u00e3o entre\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/bulos_internet\">not\u00edcias falsas<\/a>\u00a0e propaganda: ambas crescem e se multiplicam no mesmo ecossistema, mas n\u00e3o s\u00e3o exatamente iguais. A propaganda procura convencer, ser eficaz, e para isso pode recorrer a todo tipo de instrumento, da arte e do cinema aos pasquins e redes sociais. As not\u00edcias falsas, um dos ramos da propaganda, s\u00e3o diferentes: procuram enganar, criar outra realidade. A preocupa\u00e7\u00e3o com a perpetua\u00e7\u00e3o desses equ\u00edvocos e com os mecanismos que os criam e multiplicam n\u00e3o \u00e9 nova:\u00a0<em>R\u00e9flexions d\u2019Un Historien Sur les Fausses Nouvelles de la Guerre<\/em>, (\u201creflex\u00f5es de um historiador sobre a not\u00edcias falsas das guerra\u201d, Allia, 2012) \u00e9 o t\u00edtulo de um pequeno e influente ensaio que Marc Bloch publicou originalmente&#8230; em 1921.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse historiador, assassinado pelos nazistas em 1944, foi um dos mais influentes do s\u00e9culo XX. Impulsionou a Escola dos Anais, que mudou o foco da pesquisa do passado para a vida cotidiana, e retornou das trincheiras da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/primera_guerra_mundial\">Primeira Guerra Mundial<\/a>\u00a0alucinado com a import\u00e2ncia que as not\u00edcias falsas haviam tido. Isso o levou a refletir sobre sua origem e difus\u00e3o, num texto que poderia ter sido escrito na era do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/referendum_permanencia_reino_unido_ue\"><em>Brexit<\/em><\/a>, de Vladimir Putin e de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/donald_trump\/a\">Donald Trump<\/a>, nestes tempos das redes sociais e de mensagens virais. \u201cAs not\u00edcias falsas mobilizaram as massas. As not\u00edcias falsas, em todas as suas formas, encheram a vida da humanidade. Como nascem? De que elementos extraem sua subst\u00e2ncia? Como se propagam e crescem?\u201d, escreve, para afirmar um pouco mais adiante: \u201cUm erro s\u00f3 se propaga e se amplifica, s\u00f3 ganha vida com uma condi\u00e7\u00e3o: encontrar um caldo de cultivo favor\u00e1vel na sociedade onde se expande. Nele, de forma inconsciente, os homens expressam seus preconceitos, seus \u00f3dios, seus temores, todas as suas emo\u00e7\u00f5es\u201d. Em outras palavras, as not\u00edcias falsas necessitam de gente que queira acreditar nelas.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><strong>Mudar a hist\u00f3ria<\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">O s\u00e9culo XX e o que j\u00e1 vivemos do XXI s\u00e3o a era das mentiras em massa. Tr\u00eas dos grandes conflitos em que os Estados Unidos se meteram neste per\u00edodo come\u00e7aram com inven\u00e7\u00f5es: a guerra de Cuba (1898), com a manipula\u00e7\u00e3o dos jornais; a guerra do Vietn\u00e3 (1955-1975), com o incidente do golfo de Tonkin, e a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2014\/09\/13\/internacional\/1410642792_506730.html\">invas\u00e3o do Iraque de 2003<\/a>, com as inexistentes armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa de Saddam Hussein. \u201cA guerra contra a Espanha [em 1898] foi obra de Hearst e de Pulitzer\u201d, escreveu o rep\u00f3rter Manuel Leguineche em seu ensaio sobre o nascimento do jornalismo sensacionalista,\u00a0<em>Yo Pondr\u00e9 la Guerra<\/em>\u00a0(\u201ceu porei a guerra\u201d, El Pa\u00eds Aguilar). \u201cFoi sua grande oportunidade de mudar a hist\u00f3ria, de criar uma psicose de guerra, de fabric\u00e1-la, por meio de sensacionalismo, tiragem, circula\u00e7\u00e3o milion\u00e1ria, venda maci\u00e7a, chute no est\u00f4mago do leitor\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao mesmo tempo em que surgiam os jornais de circula\u00e7\u00e3o maci\u00e7a, nascia tamb\u00e9m um certo ceticismo em rela\u00e7\u00e3o a eles. Era como se alguns se empenhassem em demonstrar que a verdade estava em outro lugar. Essa desconfian\u00e7a se prolonga at\u00e9 nossos dias, com aqueles que acreditam erroneamente que a imprensa conta mentiras, e que as redes sociais oferecem verdades. Com o tel\u00e9grafo, chegou a possibilidade de enviar rapidamente hist\u00f3rias atrav\u00e9s de longas dist\u00e2ncias; com o linotipo foi poss\u00edvel imprimir maci\u00e7amente; e com os novos meios de transporte essas publica\u00e7\u00f5es puderam ser distribu\u00eddas em numerosos lugares. Mas nesse mesmo momento, no final do s\u00e9culo XIX, surgiu a desconfian\u00e7a quanto \u00e0quilo que contavam, a mesma que nutre agora os que procuram essa outra verdade no\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/11\/15\/tecnologia\/1479201313_967124.html\">Facebook<\/a>, que para alguns \u00e9 a \u00fanica janela para o mundo. \u00c9 muito significativa, nesse sentido, uma cena de\u00a0<em>Um Estudo em Vermelho<\/em>, o primeiro romance de Sherlock Holmes, publicado em 1887, em que o detetive e Watson repassam os diferentes jornais \u2013\u00a0<em>The Daily Telegraph<\/em>,\u00a0<em>Daily News<\/em>,\u00a0<em>Standard<\/em>\u00a0\u2013 e todos contam uma vers\u00e3o falsa do crime que est\u00e3o investigando, impulsionada por motivos pol\u00edticos: uns culpam os europeus, outros os estrangeiros, ou os liberais. Nenhum cita uma pista confi\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das grandes trag\u00e9dias do s\u00e9culo XX, as matan\u00e7as maci\u00e7as promovidas pelos grandes totalitarismos, conseguiu se esconder detr\u00e1s de not\u00edcias falsas. As ditaduras nazista e sovi\u00e9tica n\u00e3o s\u00f3 fabricaram falsidades tremendas como tamb\u00e9m foram capazes de construir outra realidade, em que o verdadeiro e o falso eram elementos acess\u00f3rios. Como apontou o escritor franc\u00eas Emmanuel Carr\u00e8re, \u201cna URSS n\u00e3o se aboliu a propriedade privada, aboliu-se a realidade\u201d. Agora pode parecer quase incr\u00edvel que enquanto St\u00e1lin assassinava e deportava milh\u00f5es de pessoas a bondade do socialismo se mantinha como um dogma em grandes setores do Ocidente. Muita gente achou, de boa ou m\u00e1 f\u00e9, que a realidade era, nesse caso, uma not\u00edcia falseada. Assim explicava o historiador Tony Judt em\u00a0<em>Pensando o S\u00e9culo XX<\/em>\u00a0(Objetiva): \u201cOs que entenderam corretamente o s\u00e9culo tiveram que imaginar um mundo para o qual n\u00e3o existiam precedentes. Tiveram que supor que essa situa\u00e7\u00e3o ins\u00f3lita e claramente absurda estava acontecendo na realidade, em vez de dar como certo, como todos os demais, que era grotescamente inimagin\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><strong>Mensageiros do desastre<\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">A historiadora francesa Annette Becker estudou a influ\u00eancia que a propaganda da Primeira Guerra Mundial teve sobre a Segunda. As not\u00edcias falsas difundidas contra os alem\u00e3es entre 1914 e 1918, quando eram acusados de todo tipo de brutalidades com fins propagand\u00edsticos, tiveram um efeito negativo na percep\u00e7\u00e3o das atrocidades que foram efetivamente cometidas entre 1939 e 1945, sobretudo em rela\u00e7\u00e3o ao\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/holocausto\">Holocausto<\/a>. Um exemplo disso foi a descren\u00e7a que recaiu sobre os primeiros agentes poloneses que trouxeram a not\u00edcia do exterm\u00ednio de judeus por parte dos nazistas. Em seu livro\u00a0<em>Messagers du D\u00e9sastre<\/em>(\u201cmensageiros do desastre\u201d, Fayard), que acaba de sair na Fran\u00e7a, Becker relata a hist\u00f3ria do Jan Karski, um her\u00f3i polon\u00eas que arriscou a vida para levar a not\u00edcia do Holocausto a Londres. N\u00e3o acreditaram nele quando informou aos aliados sobre o que ocorria. Um alto oficial brit\u00e2nico lhe explicou: \u201cSenhor, durante a Primeira Guerra Mundial difundimos a propaganda de que soldados alem\u00e3es esmagavam crian\u00e7as belgas contra os muros. Acredito que fizemos bem. Isso nos ajudou a debilitar o moral do inimigo, a aumentar o \u00f3dio contra os alem\u00e3es. Precisamos de relatos como o seu\u201d. Karski acrescentou: \u201cNotava-se claramente que ele n\u00e3o acreditava em mim\u201d. De novo, uma not\u00edcia verdadeira era percebida como falsa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas as regras que Marc Bloch intuiu h\u00e1 um s\u00e9culo \u2013 que as not\u00edcias falsas precisam de uma sociedade disposta a acreditar nelas \u2013 come\u00e7aram a ser aplicadas muito antes da era da comunica\u00e7\u00e3o de massas, j\u00e1 desde os criadores do pensamento hist\u00f3rico, primeiro Her\u00f3doto e depois Tuc\u00eddides. \u201cA democracia ateniense tem uma esp\u00e9cie de momento institucional, de marco crucial, que na verdade foi uma genial constru\u00e7\u00e3o narrativa\u201d, afirma o helenista \u00d3scar Mart\u00ednez, professor de grego, presidente da delega\u00e7\u00e3o de Madri da Sociedade Espanhola de Estudos Cl\u00e1ssicos e autor de\u00a0<em>H\u00e9<\/em><em>roes que Miran a los Ojos de los Dioses<\/em>(\u201cher\u00f3is que olham nos olhos dos deuses\u201d, Edaf).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cTrata-se do elogio dos tiranicidas Harm\u00f3dio e Arist\u00f3gito, que s\u00e3o mostrados como os fundadores heroicos da democracia, j\u00e1 que assassinaram o tirano de Atenas. Mas quando Her\u00f3doto e Tuc\u00eddides narram este epis\u00f3dio, se v\u00ea claramente que h\u00e1 coisas que n\u00e3o batem: n\u00e3o mataram o tirano, e sim o seu irm\u00e3o, e a tirania durou quatro anos. E deixam expresso que as causas do magnic\u00eddio foram mais um assunto pessoal, inclusive amoroso\u201d, prossegue Mart\u00ednez. Com a vontade de investigar \u2013 a palavra que Her\u00f3doto emprega \u00e9\u00a0<em>historie<\/em>\u00a0\u2013 nasceu a luta contra as not\u00edcias falsas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na antiga Roma, os governantes estavam muito conscientes da import\u00e2ncia da informa\u00e7\u00e3o e de como era essencial adapt\u00e1-la \u00e0s suas necessidades pol\u00edticas, independentemente da realidade. \u201cEm Roma, as not\u00edcias se transmitiam fundamentalmente atrav\u00e9s das imagens\u201d, explica o pesquisador N\u00e9stor F. Marqu\u00e9s, que publicou recentemente\u00a0<em>Un A\u00f1o en la Antigua Roma: La Vida Cotidiana de los Romanos a Trav\u00e9s de su Calendario<\/em>\u00a0(Espasa). \u201cNem todo mundo sabia ler ou escrever, por isso a informa\u00e7\u00e3o visual era muito importante. A forma mais r\u00e1pida de difundir a chegada de um novo imperador era cunhar moedas com sua cara\u201d, prossegue. E a\u00ed Marqu\u00e9s encontra um exemplo t\u00edpico de not\u00edcia falsa: \u201cO imperador Sept\u00edmio Severo, nascido em Leptis Magna e que nada tinha a ver com seu antecessor, o malogrado C\u00f4modo, para legitimar seu poder decidiu espalhar a ideia de que ele pr\u00f3prio era o irm\u00e3o perdido de C\u00f4modo, filho ileg\u00edtimo de Marco Aur\u00e9lio, e por isso a pessoa mais adequada para ocupar o cargo. Nas primeiras moedas que cunhou, se fez retratar com tra\u00e7os muito parecidos com os de Marco Aur\u00e9lio\u201d.<\/p>\n<section id=\"sumario_1|foto\" class=\"sumario_foto centro\"><a name=\"sumario_1\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2018\/06\/08\/actualidad\/1528467298_389944_1528468196_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2018\/06\/08\/actualidad\/1528467298_389944_1528468196_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2018\/06\/08\/actualidad\/1528467298_389944_1528468196_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2018\/06\/08\/actualidad\/1528467298_389944_1528468196_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"Profana\u00e7\u00e3o de um crucifixo (\u2018Fam\u00edlia de Hereges A\u00e7oitando um Crucifixo\u2019), de Francisco Rizi.\" width=\"980\" height=\"889\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Profana\u00e7\u00e3o de um crucifixo (\u2018Fam\u00edlia de Hereges A\u00e7oitando um Crucifixo\u2019), de Francisco Rizi.<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">MUSEO NACIONAL DEL PRADO<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><strong>Not\u00edcias e jograis<\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m na Idade M\u00e9dia as not\u00edcias se propagavam com surpreendente efic\u00e1cia, embora as condi\u00e7\u00f5es materiais n\u00e3o acompanhassem o movimento informativo. Claude Gauvard, professora em\u00e9rita da Sorbonne, investigou as formas de transmiss\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o nesse per\u00edodo: \u201cUm cavalo podia percorrer 30 quil\u00f4metros por dia, mas o tempo que se levava para transmitir uma informa\u00e7\u00e3o podia se acelerar dependendo do interesse da not\u00edcia\u201d, conta por e-mail. As ordens mendicantes tinham um papel importante na dissemina\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es, assim como os jograis, os peregrinos e os vagabundos, porque todos eles percorriam grandes dist\u00e2ncias. As cidades tamb\u00e9m tinham correios organizados e selos para lacrar mensagens e tentar certificar a veracidade das correspond\u00eancias. Gra\u00e7as a tudo isto, a circula\u00e7\u00e3o de boatos era intensa e politicamente relevante. Gauvard cita como exemplo de\u00a0<em>fake<\/em>\u00a0<em>n<\/em><em>ews<\/em>\u00a0cl\u00e1ssica da era medieval a hist\u00f3ria do rei, conde ou senhor que desaparece na batalha e reaparece muito depois, idoso e transformado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos motivos para a constru\u00e7\u00e3o de not\u00edcias falsas naquele per\u00edodo era tentar justificar atos que, de outra forma, seriam intoler\u00e1veis, como o magnic\u00eddio. \u201cO duque de Borgonha, depois de encarregar em 1407 o assassinato do duque de Orleans, levou a cabo uma campanha epistolar: dirigiu-se \u00e0s cidades do reino, aos pr\u00edncipes, \u00e0 Igreja, at\u00e9 ao Papa. Nessas cartas, argumentava que o duque de Orleans era um tirano que tentou assassinar a fam\u00edlia real\u201d, diz Gauvard, acrescentando que houve muitos outros casos de campanhas certeiras de desinforma\u00e7\u00e3o, que chegaram inclusive a afetar Joana d\u2019Arc. Mas a historiadora acredita que o exemplo mais claro para demonstrar a import\u00e2ncia das mentiras s\u00e3o as ca\u00e7as \u00e0s bruxas e as cal\u00fanias contra os judeus, aut\u00eanticas campanhas de desinforma\u00e7\u00e3o com resultados catastr\u00f3ficos. \u201cPodem ter sido movimentos populares, mas foram manipulados pelas autoridades\u201d, afirma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em um livro rec\u00e9m-lan\u00e7ado,\u00a0<em>Crimen e Ilusi\u00f3n. El Arte de la Verdad en el Siglo de Oro<\/em>\u00a0(Marcial Pons), Felipe Pereda, professor de arte espanhola na Universidade Harvard, estudou a fundo outro escandaloso e apaixonante caso em que a constru\u00e7\u00e3o de uma not\u00edcia falsa teve implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Ocorreu na Madri do s\u00e9culo XVII, e \u00e9 um exemplo claro de persegui\u00e7\u00e3o antissemita. \u201cEm 1632 ocorreu um auto de f\u00e9 em que foram queimados quatro marranos (judeus convertidos) portugueses, e outros foram enviados \u00e0s gal\u00e9s. Todos eles eram acusados de terem profanado um crucifixo dois anos antes. As autoridades sustentavam que o objeto teria resistido a ser queimado e que inclusive teria falado com essas pessoas. Aquele foi um dos grandes esc\u00e2ndalos do primeiro Governo do conde-duque de Olivares, acusado de favorecer os banqueiros marranos em detrimento dos genoveses\u201d, explica Pereda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A persegui\u00e7\u00e3o na rua das Infantas, onde viviam aqueles judeus, teve motiva\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Como explica o investigador do antissemitismo na Espanha Uriel Mac\u00edas, o eco daquele caso foi tamanho que Calder\u00f3n de la Barca escreveu uma obra,\u00a0<em>El Nuevo Palacio del Retiro<\/em>, e Quevedo redigiu um furioso panfleto antissemita,\u00a0<em>Execraci\u00f3n<\/em>\u00a0<em>Contra<\/em>\u00a0<em>los Jud\u00edos<\/em>. Em 1650, Quevedo tamb\u00e9m publicou\u00a0<em>La Isla de los Monopantos<\/em>, uma obra em que pela primeira vez se fala de um compl\u00f4 universal judaico para dominar o mundo, teoria que seria explorada a fundo pelos\u00a0<em>Protocolos dos S\u00e1bios do Si\u00e3o<\/em>, uma das grandes falsifica\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria, que encontrou ampla difus\u00e3o no come\u00e7o do s\u00e9culo XX. Historicamente o antissemitismo foi um terreno f\u00e9rtil para plantar mentiras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Inquisi\u00e7\u00e3o se aproveitava dele e ao mesmo tempo o estimulava. \u201cNa imensa maioria das lendas antissemitas \u00e9 facilmente identific\u00e1vel como as mentiras s\u00e3o forjadas\u201d, diz Mac\u00edas, relatando que, depois do auto de f\u00e9 de 1632, foram convocados concursos liter\u00e1rios sobre o tema, e a Inquisi\u00e7\u00e3o distribuiu panfletos anticrist\u00e3os, supostamente escritos por judeus, que tinham sido integralmente falsificados para agitar e convencer o povo. Aquele processo contra os marranos n\u00e3o s\u00f3 se baseou em provas inventadas como tamb\u00e9m foi um arremedo jur\u00eddico: a \u00fanica testemunha era uma crian\u00e7a menor de 10 anos, com graves problemas cognitivos, algo teoricamente inaceit\u00e1vel pela Inquisi\u00e7\u00e3o, que violou suas pr\u00f3prias normas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As casas dos judeus foram destru\u00eddas, e em seu lugar foi constru\u00eddo o convento dos Capuchinos da Paci\u00eancia de Cristo, com uma capela situada exatamente no mesmo espa\u00e7o onde ocorreu o sacril\u00e9gio imagin\u00e1rio. Ali foram instaladas quatro pinturas enormes, feitas por Francisco Rizi, Francisco Camilo, Andr\u00e9s de Vargas e Francisco Hern\u00e1ndez. \u201cOs quadros reconstroem com documentad\u00edssimo cuidado a cena do crime, descrevem os detalhes dos fatos, identificam cada um de seus protagonistas e, o que \u00e9 mais importante, transformam os espectadores em testemunhas dos acontecimentos\u201d, escreve Pereda em seu ensaio. O ponto de vista \u00e9 o da \u00fanica testemunha da profana\u00e7\u00e3o. Tr\u00eas dos quadros se encontram no acervo do Museu do Prado, j\u00e1 que a capela foi destru\u00edda no s\u00e9culo XIX. N\u00e3o foram necess\u00e1rias naquela \u00e9poca as redes sociais para construir do zero a mentira perfeita, para criar uma realidade incontest\u00e1vel, embora falsa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro exemplo da efic\u00e1cia da Inquisi\u00e7\u00e3o na dissemina\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias falsas \u00e9 o caso do Santo Menino da Guarda, ocorrido em Toledo. V\u00e1rios judeus e convertidos foram acusados de assassinar um menino que nunca existiu (e que, apesar disso, continua sendo venerado atualmente). Politicamente esse fato inventado em 1490 teve um impacto formid\u00e1vel: foi um dos pretextos para a expuls\u00e3o dos judeus em 1492. \u201cNunca ningu\u00e9m deu pela falta de menino nenhum, nem se encontrou qualquer corpo\u201d, conta a historiadora Mercedes Garc\u00eda-Arenal, do Conselho Superior de Pesquisas Cient\u00edficas da Espanha (CSIC). \u201cMas montou-se um processo com confiss\u00f5es sob tortura, e v\u00e1rios judeus e judeus convertidos foram queimados. Este fato serviu para sossegar as vozes rebeladas contra a Inquisi\u00e7\u00e3o e para decretar a expuls\u00e3o dos judeus.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os dividendos pol\u00edticos das not\u00edcias falsas s\u00e3o elevados, e j\u00e1 era assim bem antes da Internet, mas elas sempre necessitaram de um bom caldo de cultivo. As mentiras que se espalham e convencem as massas n\u00e3o surgiram com as redes sociais.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Utiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das mentiras come\u00e7ou muito antes das redes sociais, e a constru\u00e7\u00e3o de outras realidades era uma constante na Gr\u00e9cia antiga<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":247202,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1175,6],"tags":[],"class_list":["post-247201","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-educacao","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/inquisicao-da-igreja.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/247201","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=247201"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/247201\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/247202"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=247201"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=247201"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=247201"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}