{"id":248018,"date":"2018-06-25T05:56:32","date_gmt":"2018-06-25T08:56:32","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=248018"},"modified":"2018-06-25T05:56:32","modified_gmt":"2018-06-25T08:56:32","slug":"a-chaga-da-escravidao-6a-parte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/a-chaga-da-escravidao-6a-parte\/","title":{"rendered":"A chaga da escravid\u00e3o (6\u00aa parte)"},"content":{"rendered":"<div class=\"col s12\">\n<section class=\"box-featured full-size header\">\n<h1 style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<p style=\"text-align: justify;\">Africanos adaptaram cozinha ind\u00edgena e criaram receitas<\/p>\n<div class=\"header-information\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Por:\u00a0<strong class=\"responsible\">Lecticia Cavalcanti*<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"share-mattler\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"row mb-none\">\n<div class=\"col l6 m6 s12\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<\/div>\n<div class=\"content\">\n<div class=\"col m6 l6 s12 medium-matler\" style=\"text-align: justify;\">\n<figure><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.folhape.com.br\/obj\/1\/280450,475,80,0,0,475,365,0,0,0,0.jpg\" alt=\"Nos quilombos, povo africano reproduzia dialetos e outros ritos da terra natal\" \/><\/p>\n<div class=\"caption\">Nos quilombos, povo africano reproduzia dialetos e outros ritos da terra natal<em>Foto: Da editoria de Arte<\/em><\/div>\n<\/figure>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os escravos quando chegaram ao Brasil, tiveram que aprender novos h\u00e1bitos. Passaram a viver em senzalas. Para Joaquim Nabuco (1849-1910), \u201co pombal negro\u201d. Constru\u00eddas perto das casas-grandes, ao alcance do grito dos senhores de engenho.<\/p>\n<p>Eram de taipa em pau-a-pique (gradeado de ripas de madeira, galho ou bambu, preenchidos com barro amassado), cobertas com palha ou telhas feitas no pr\u00f3prio engenho. Sem janelas. Por dentro, cub\u00edculos conjugados davam para uma grande galeria comum.<\/p>\n<p>Pela m\u00e1 acomoda\u00e7\u00e3o, pelo excesso de trabalho e sobretudo pela m\u00e1 alimenta\u00e7\u00e3o, muitos morriam nesses dormit\u00f3rios. Maus tratos e castigos eram frequentes. Tinham os p\u00e9s acorrentados e usavam colar de ferro. Apanhavam com chicote, varas e cintur\u00e3o de couro.<br \/>\n<strong><br \/>\nLeia tamb\u00e9m:<br \/>\n<a class=\"contentLink\" title=\"veja tamb\u00e9m: A chaga da escravid\u00e3o (5\u00aa parte)\" href=\"https:\/\/www.folhape.com.br\/diversao\/diversao\/folha-gastronomica\/2018\/06\/16\/NWS,71751,71,514,DIVERSAO,2330-A-CHAGA-ESCRAVIDAO-PARTE.aspx\">A chaga da escravid\u00e3o (5\u00aa parte)<\/a><br \/>\n<a class=\"contentLink\" title=\"veja tamb\u00e9m: A chaga da escravid\u00e3o (4\u00aa parte)\" href=\"https:\/\/www.folhape.com.br\/diversao\/diversao\/folha-gastronomica\/2018\/06\/09\/NWS,71175,71,514,DIVERSAO,2330-A-CHAGA-ESCRAVIDAO-PARTE.aspx\">A chaga da escravid\u00e3o (4\u00aa parte)<\/a><br \/>\n<a class=\"contentLink\" title=\"veja tamb\u00e9m: A chaga da escravid\u00e3o (3\u00aa parte)\" href=\"https:\/\/www.folhape.com.br\/diversao\/diversao\/folha-gastronomica\/2018\/06\/02\/NWS,70299,71,514,DIVERSAO,2330-A-CHAGA-ESCRAVIDAO-PARTE.aspx\">A chaga da escravid\u00e3o (3\u00aa parte)<\/a><br \/>\n<a class=\"contentLink\" title=\"veja tamb\u00e9m: A chaga da escravid\u00e3o (2\u00aa parte)\" href=\"https:\/\/www.folhape.com.br\/diversao\/diversao\/folha-gastronomica\/2018\/05\/26\/NWS,69415,71,514,DIVERSAO,2330-A-CHAGA-ESCRAVIDAO-PARTE.aspx\">A chaga da escravid\u00e3o (2\u00aa parte)<\/a><br \/>\n<\/strong><a class=\"contentLink\" title=\"veja tamb\u00e9m: A chaga da escravid\u00e3o (1\u00aa parte)\" href=\"https:\/\/www.folhape.com.br\/diversao\/diversao\/folha-gastronomica\/2018\/05\/19\/NWS,72782,71,514,DIVERSAO,2330-A-CHAGA-ESCRAVIDAO-PARTE.aspx\"><strong>A chaga da escravid\u00e3o (1\u00aa parte)<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Ou acabavam postos no ferro e no tronco. Muitos foram punidos com castra\u00e7\u00e3o, quebra de dentes, vazamento de olhos, queimaduras, amputa\u00e7\u00e3o de seios e orelhas. O castigo n\u00e3o era apenas para corrigir o escravo punido. Mas sobretudo para amedrontar os outros, que eram for\u00e7ados a assistir \u00e0quele ritual macabro.<\/p>\n<p>Alguns poucos escravos conseguiam fugir e se organizar em mocambos (em banto, esconderijo) e quilombos (povoa\u00e7\u00e3o) nas florestas. O maior e mais famoso deles foi o dos Palmares (Alagoas). L\u00e1 viveram o rei Ganga Zumba (grande senhor) e seu sobrinho Zumbi (deus da guerra) &#8211; que, apesar de baixo e coxo, \u00e9 reconhecido como muito valente.<\/p>\n<p>Nesses quilombos passavam a ter os mesmos h\u00e1bitos da \u00c1frica distante. A falar a pr\u00f3pria l\u00edngua. A exercer seus rituais religiosos. E a se alimentar do que lhes dava prazer.<\/p>\n<p>Nas senzalas, aprenderam a substituir ingredientes de suas receitas originais pelo pouco que lhes davam. Peixes secos, por frescos. Grandes animais, por capivaras, cobras, cutias, jacar\u00e9s, lagartos, pre\u00e1s, porcos-do-mato, tatus, tartarugas.<\/p>\n<p>Insetos, tamb\u00e9m &#8211; besouros, cupins, formigas, gafanhotos, tanajuras, tapurus. Pimentas africanas (zingiber\u00e1ceas e piper\u00e1ceas), pelas nativas (capsicum). Mancarra, por amendoim. Inhame, por mandioca. Banana, por pacova &#8211; embora preferissem as de sua terra, pela acidez do tanino dessas pacovas.<\/p>\n<p>E comiam banana de muitos jeitos &#8211; com mel, farinha ou a\u00e7\u00facar mascavo &#8211; acompanhando todos os alimentos. Substitu\u00edam, no gosto, melancia por abacate, abacaxi, abio, goiaba. Os que viviam pr\u00f3ximos a cajueiros, logo introduziram o caju entre as suas preferidas. \u201cFugiam de noite, mesmo palmilhando quil\u00f4metros para o saque de caju\u201d, segundo C\u00e2mara Cascudo (1898-1986, em Hist\u00f3ria da Alimenta\u00e7\u00e3o no Brasil).<\/p>\n<p>\u00c9 que os senhores, para evitar o escorbuto, consentiam que escravos tivessem, no pomar, as frutas que quisessem. Mas eles preferiam mesmo o alimento dissolvido &#8211; por acreditar fossem mais fortes. E mais pr\u00f3prio tamb\u00e9m \u00e0s suas bocas desdentadas. At\u00e9 porque, antes de dormir, enquanto na casa-grande esfregavam os dentes com triaga magma (mistura de 74 drogas, que se acreditava curar tudo), restava aos escravos o alho &#8211; a triaga dos r\u00fasticos. Um dente de alho para cada um.<\/p>\n<p>Era comum, nesses escravos, chegar aos 40 anos sem um \u00fanico dente na boca &#8211; segundo o Trattado Unico da Constitui\u00e7\u00e3o Pestilencial de Pernambuco, do m\u00e9dico Jo\u00e3o Ferreira da Rosa, impresso em Lisboa (1694), talvez o primeiro livro de medicina do Brasil. No almo\u00e7o comiam basicamente feij\u00e3o, farinha, jerimum e carne (seca ou fresca) cozinhada. Almo\u00e7avam \u00e0s nove da manh\u00e3 e jantavam \u00e0 uma da tarde.<\/p>\n<p>O sorgo, t\u00e3o presente na culin\u00e1ria africana, acabou substitu\u00eddo, aqui, pelo milho &#8211; durante muito tempo alimento destinado apenas a escravos e a animais. \u201cOs portugueses plantam milho para a manten\u00e7a de cavalos, galinhas, porcos e escravos da Guin\u00e9\u201d, segundo o viajante Gabriel Soares de Souza (1540-1591, em Tratado Descritivo do Brasil em 1587).<\/p>\n<p>Com leite de coco, a\u00e7\u00facar e farinha desse milho (a que chamavam fub\u00e1), iam nascendo por m\u00e3os negras novas receitas, depois, todas elas, adotadas tamb\u00e9m pela casa-grande. Entre elas: angu (do tupi, angau) &#8211; semelhante ao infundi ou anfunge, que originalmente levava caldo de peixe ou mi\u00fados de boi, engrossado com farinha de sorgo.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 fazendo cozer o fub\u00e1 na \u00e1gua, sem acrescentar sal, que se faz uma esp\u00e9cie de polenta grosseira, que se chama angu e que constitui o principal alimento dos escravos\u201d escreveu o cientista franc\u00eas Auguste Saint-Hilaire (em Viagem \u00e0s nascentes do rio S\u00e3o Francisco).<\/p>\n<p>Mungunz\u00e1 vem de mu\u2019kunza (milho cozido) servido, na tradi\u00e7\u00e3o religiosa africana, \u00e0s pessoas que compareciam aos vel\u00f3rios. \u00c9 uma esp\u00e9cie de sopa doce que aqui passou a ser feita com milho branco cozido em \u00e1gua e leite de coco, temperado com a\u00e7\u00facar, erva-doce, canela ou cravo. No sul do Brasil, \u00e9 conhecido como canjica.<\/p>\n<p>Canjica vem de acanjic (em tupi, gr\u00e3o cozido), que escravos melhoraram com o acr\u00e9scimo de leite de coco ou de vaca, sal, a\u00e7\u00facar, manteiga. No sul essa canjica acabou mais conhecida por curau. Com os portugueses aprenderam tamb\u00e9m os escravos a decorar essa canjica com desenhos de canela, da mesma maneira que decoravam o arroz doce.<\/p>\n<p>Pamonha \u00e9 adapta\u00e7\u00e3o da pamunh\u00e3 (em tupi, papa grossa de milho) ind\u00edgena, originalmente cozida na folha de bananeira. Os escravos passaram a usar a palha do pr\u00f3prio milho. Cuscuz se fez reproduzindo, aqui, a mesma maneira de como eram feitos por l\u00e1, apenas substituindo farinha de sorgo, de arroz ou de trigo, pela do nosso milho.<\/p>\n<p>Todas essas receitas se enraizaram na nossa cultura. Tanto e de tal forma que s\u00e3o obrigat\u00f3rias em todas as mesas nordestinas. Sobretudo nessa \u00e9poca quando celebramos nossas festas juninas.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Africanos adaptaram cozinha ind\u00edgena e criaram receitas Por:\u00a0Lecticia Cavalcanti* Nos quilombos, povo africano reproduzia dialetos e outros ritos da terra natalFoto: Da editoria de Arte Os escravos quando chegaram ao Brasil, tiveram que aprender novos h\u00e1bitos. Passaram a viver em senzalas. Para Joaquim Nabuco (1849-1910), \u201co pombal negro\u201d. 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