{"id":248684,"date":"2018-07-01T13:18:11","date_gmt":"2018-07-01T16:18:11","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=248684"},"modified":"2018-07-02T06:51:02","modified_gmt":"2018-07-02T09:51:02","slug":"o-levante-dos-ribeiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-levante-dos-ribeiros\/","title":{"rendered":"O levante dos Ribeiros"},"content":{"rendered":"<div class=\"abre\" title=\"Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\">\n<div class=\"container\"><a title=\"Logo do especial: O Levante dos Ribeirinhos\" href=\"https:\/\/www.metropoles.com\/materias-especiais\/ribeirinhos-e-fazendeiros-travam-batalha-na-bahia-por-escassez-de-agua#\"><img decoding=\"async\" class=\"logo initial loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/assets\/images\/logo.png\" alt=\"Logo do especial: O Levante dos Ribeirinhos\" data-was-processed=\"true\" \/><br \/>\n<\/a><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"container\">\n<div class=\"content\">\n<h1 class=\"abre-text\"><em>Revoltados com a falta d\u2019\u00e1gua, posseiros do oeste da Bahia rebelam-se contra fazendas que sugam os rios e o len\u00e7ol fre\u00e1tico para irrigar lavouras. Advogados e organiza\u00e7\u00f5es de Direitos Humanos denunciam grilagem de terras e amea\u00e7as de pistoleiros<\/em><\/h1>\n<\/div>\n<div class=\"avatar\">\n<div class=\"pin\">\n<p>EUMANO SILVA &amp; GILBERTO ALVES<\/p>\n<p class=\"date\">\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"content\">\n<p class=\"first-paragraph\">Pouco mais de 500 quil\u00f4metros separam Bras\u00edlia de um foco crescente de tens\u00e3o e viol\u00eancia no campo. No oeste da Bahia, a escassez de \u00e1gua agravou-se nos \u00faltimos anos e acirrou os confrontos entre comunidades ribeirinhas e fazendas do agroneg\u00f3cio. Instaladas na regi\u00e3o desde o s\u00e9culo 19, fam\u00edlias de posseiros apontam a irriga\u00e7\u00e3o das grandes planta\u00e7\u00f5es, iniciada na d\u00e9cada de 1980, como principal causa da redu\u00e7\u00e3o na vaz\u00e3o de rios e da morte de c\u00f3rregos e nascentes.<\/p>\n<p>O conflito pela \u00e1gua confunde-se com o enfrentamento pela propriedade da terra. No munic\u00edpio de Correntina, cidade a 900km de Salvador, ocorr\u00eancias recentes contribu\u00edram para o aumento da sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a. \u201cPedimos a pris\u00e3o imediata de jagun\u00e7os e policiais envolvidos em a\u00e7\u00f5es de pistolagem contra as comunidades e povos tradicionais da regi\u00e3o\u201d, diz nota p\u00fablica do dia 25 de abril, dirigida \u00e0s autoridades da Bahia, assinada pela Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT) de Bom Jesus da Lapa (BA), ligada \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica, e pela Associa\u00e7\u00e3o dos Advogados de Trabalhadores Rurais da Bahia (AATR). Em tom de alerta, o comunicado cobra medidas do estado.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"container\">\n<div class=\"embed-responsive embed-responsive-16by9\"><iframe loading=\"lazy\" class=\"embed-responsive-item\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/jWekHStgbEU?rel=0&amp;controls=0&amp;showinfo=0\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<div class=\"content\">\n<blockquote><p><img decoding=\"async\" class=\"separate loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/divider.png\" alt=\"Separador\" data-was-processed=\"true\" \/>\u201cMais uma vez, nos encontramos diante de uma trag\u00e9dia anunciada, com consequ\u00eancias incalcul\u00e1veis. Portanto, as provid\u00eancias s\u00e3o urgentes, a fim de evitar que novos atos de viol\u00eancia e amea\u00e7as se perpetuem\u201d, afirma outro trecho do documento.<img decoding=\"async\" class=\"separate loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/divider.png\" alt=\"Separador\" data-was-processed=\"true\" \/><\/p><\/blockquote>\n<p>A nota p\u00fablica trata, especificamente, de a\u00e7\u00f5es desencadeadas por homens armados contra os moradores do Cap\u00e3o do Modesto, uma comunidade de posseiros que utiliza a \u00e1rea como \u201cfecho de pasto\u201d, termo regional para glebas do Cerrado onde o gado dos ribeirinhos \u00e9 solto duas temporadas no ano para aproveitar a pastagem natural.<\/p>\n<p>Como veremos adiante, as ofensivas intensificaram-se depois que, em 12 de abril, os ruralistas obtiveram na Justi\u00e7a reintegra\u00e7\u00e3o de posse de terras da regi\u00e3o do Cap\u00e3o do Modesto. Os posseiros, pequenos agricultores, contestam a senten\u00e7a e acusam os fazendeiros de grilagem.<\/p>\n<p>A escalada de radicalismo em Correntina mudou de patamar desde 2 de novembro do ano passado. Nessa data, cerca de 800 manifestantes invadiram e depredaram a sede da Fazenda Rio Claro, propriedade da Lavoura Pecu\u00e1ria Igarashi Ltda. O terreno, banhado pelo Rio Arrojado, possui mais de 2,5 mil hectares de planta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<div class=\"embed-responsive embed-responsive-16by9\"><iframe loading=\"lazy\" class=\"embed-responsive-item\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/zslIS15g0Uk?rel=0&amp;controls=0&amp;showinfo=0\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<p>Armados com picaretas, paus e fac\u00f5es, homens e mulheres destru\u00edram o sistema de piv\u00f4s e capta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua, queimaram o maquin\u00e1rio e puseram abaixo uma subesta\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica.<\/p>\n<p>Foi a mais violenta e impactante a\u00e7\u00e3o dos pequenos agricultores contra as empresas do agroneg\u00f3cio. Os c\u00e1lculos sobre os preju\u00edzos chegaram a R$ 50 milh\u00f5es, segundo os propriet\u00e1rios.<\/p>\n<blockquote><p><img decoding=\"async\" class=\"separate loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/divider.png\" alt=\"Separador\" data-was-processed=\"true\" \/>Na percep\u00e7\u00e3o dos manifestantes, os equipamentos de irriga\u00e7\u00e3o da Igarashi foram respons\u00e1veis pelo esvaziamento do Arrojado.<img decoding=\"async\" class=\"separate loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/divider.png\" alt=\"Separador\" data-was-processed=\"true\" \/><\/p><\/blockquote>\n<p>\u201cA tend\u00eancia \u00e9 de crescimento dos confrontos na regi\u00e3o\u201d, disse na \u00e9poca o prefeito de Correntina, Nilson Rodrigues, o Maguila. As ocorr\u00eancias no Cap\u00e3o do Modesto confirmam a previs\u00e3o do dirigente municipal.<\/p>\n<p>Em duas viagens, realizadas em janeiro e abril de 2018, a equipe do\u00a0<span class=\"markup\">Metr\u00f3poles<\/span>\u00a0percorreu durante 12 dias as comunidades tradicionais do Vale do Arrojado. O contato direto com moradores de povoados e de pequenas propriedades proporcionou a descoberta de fam\u00edlias enraizadas h\u00e1 dois s\u00e9culos no cora\u00e7\u00e3o do Brasil.<\/p>\n<p>Essa popula\u00e7\u00e3o, acostumada \u00e0 fartura de alimentos nas ro\u00e7as e nos quintais, vive hoje assombrada com a presen\u00e7a de inimigos armados e a perspectiva de ficar sem \u00e1gua. No centro desse drama, destaca-se a figura dos \u201cgeraizeiros\u201d, homens que, em determinadas \u00e9pocas do ano, soltam o gado nos \u201cgerais\u201d, denomina\u00e7\u00e3o das vastas extens\u00f5es de terra cobertas por Cerrado no oeste da Bahia.<\/p>\n<p>Os lit\u00edgios fundi\u00e1rios decorrem da expans\u00e3o do agroneg\u00f3cio nos fechos de pasto. Na maioria das vezes, s\u00e3o milhares de hectares de descampados distantes das casas onde moram as fam\u00edlias dos posseiros, constru\u00eddas perto dos rios e c\u00f3rregos.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"parallax-fake hidden-desktop\">\n<div class=\"bg primeiro-bg-1\" title=\"Fotos: Michael Melo \/ Metr\u00f3poles\"><\/div>\n<div class=\"bg primeiro-bg-2\" title=\"Fotos: Michael Melo \/ Metr\u00f3poles\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"container\">\n<div class=\"content\">\n<p>A ocupa\u00e7\u00e3o de glebas antes exploradas apenas pelos ribeirinhos deu-se, em grande parte, com m\u00e9todos caracter\u00edsticos de grilagem de terras p\u00fablicas. Documentos obtidos em cart\u00f3rios e processos administrativos mostram como as canetadas de um juiz passaram 600 mil hectares para o setor privado a partir de vagas refer\u00eancias de um invent\u00e1rio de 1945.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"abas\">\n<div class=\"meio\">\n<div class=\"bloco-abas\">\n<ul>\n<li><a class=\"\" href=\"https:\/\/www.metropoles.com\/materias-especiais\/ribeirinhos-e-fazendeiros-travam-batalha-na-bahia-por-escassez-de-agua#a1984\">1984<\/a><\/li>\n<li><a class=\"\" href=\"https:\/\/www.metropoles.com\/materias-especiais\/ribeirinhos-e-fazendeiros-travam-batalha-na-bahia-por-escassez-de-agua#a1988\">1988<\/a><\/li>\n<li><a class=\"active\" href=\"https:\/\/www.metropoles.com\/materias-especiais\/ribeirinhos-e-fazendeiros-travam-batalha-na-bahia-por-escassez-de-agua#a1992\">1992<\/a><\/li>\n<li><a class=\"\" href=\"https:\/\/www.metropoles.com\/materias-especiais\/ribeirinhos-e-fazendeiros-travam-batalha-na-bahia-por-escassez-de-agua#a1996\">1996<\/a><\/li>\n<li><a class=\"\" href=\"https:\/\/www.metropoles.com\/materias-especiais\/ribeirinhos-e-fazendeiros-travam-batalha-na-bahia-por-escassez-de-agua#a2000\">2000<\/a><\/li>\n<li><a class=\"\" href=\"https:\/\/www.metropoles.com\/materias-especiais\/ribeirinhos-e-fazendeiros-travam-batalha-na-bahia-por-escassez-de-agua#a2004\">2004<\/a><\/li>\n<li><a class=\"\" href=\"https:\/\/www.metropoles.com\/materias-especiais\/ribeirinhos-e-fazendeiros-travam-batalha-na-bahia-por-escassez-de-agua#a2008\">2008<\/a><\/li>\n<li><a class=\"\" href=\"https:\/\/www.metropoles.com\/materias-especiais\/ribeirinhos-e-fazendeiros-travam-batalha-na-bahia-por-escassez-de-agua#a2012\">2012<\/a><\/li>\n<li><a class=\"\" href=\"https:\/\/www.metropoles.com\/materias-especiais\/ribeirinhos-e-fazendeiros-travam-batalha-na-bahia-por-escassez-de-agua#a2016\">2016<\/a><\/li>\n<\/ul>\n<\/div>\n<div class=\"bloco-items\">\n<div id=\"a1984\" class=\"item\"><picture><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/assets\/images\/abas-mobile\/mapa1984.jpg\" media=\"(max-width: 768px)\" \/><img decoding=\"async\" class=\"loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/assets\/images\/abas-desktop\/mapa1984.jpg\" alt=\"\" data-was-processed=\"true\" \/><\/picture><\/div>\n<div id=\"a1988\" class=\"item\"><picture><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/assets\/images\/abas-mobile\/mapa1988.jpg\" media=\"(max-width: 768px)\" \/><img decoding=\"async\" class=\"loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/assets\/images\/abas-desktop\/mapa1988.jpg\" alt=\"\" data-was-processed=\"true\" \/><\/picture><\/div>\n<div id=\"a1992\" class=\"item active\"><picture><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/assets\/images\/abas-mobile\/mapa1992.jpg\" media=\"(max-width: 768px)\" \/><img decoding=\"async\" class=\"loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/assets\/images\/abas-desktop\/mapa1992.jpg\" alt=\"\" data-was-processed=\"true\" \/><\/picture><\/div>\n<div id=\"a1996\" class=\"item\"><picture><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/assets\/images\/abas-mobile\/mapa1996.jpg\" media=\"(max-width: 768px)\" \/><img decoding=\"async\" class=\"loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/assets\/images\/abas-desktop\/mapa1996.jpg\" alt=\"\" data-was-processed=\"true\" \/><\/picture><\/div>\n<div id=\"a2000\" class=\"item\"><picture><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/assets\/images\/abas-mobile\/mapa2000.jpg\" media=\"(max-width: 768px)\" \/><img decoding=\"async\" class=\"loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/assets\/images\/abas-desktop\/mapa2000.jpg\" alt=\"\" data-was-processed=\"true\" \/><\/picture><\/div>\n<div id=\"a2004\" class=\"item\"><picture><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/assets\/images\/abas-mobile\/mapa2004.jpg\" media=\"(max-width: 768px)\" \/><img decoding=\"async\" class=\"loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/assets\/images\/abas-desktop\/mapa2004.jpg\" alt=\"\" data-was-processed=\"true\" \/><\/picture><\/div>\n<div id=\"a2008\" class=\"item\"><picture><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/assets\/images\/abas-mobile\/mapa2008.jpg\" media=\"(max-width: 768px)\" \/><img decoding=\"async\" class=\"loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/assets\/images\/abas-desktop\/mapa2008.jpg\" alt=\"\" data-was-processed=\"true\" \/><\/picture><\/div>\n<div id=\"a2012\" class=\"item\"><picture><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/assets\/images\/abas-mobile\/mapa2012.jpg\" media=\"(max-width: 768px)\" \/><img decoding=\"async\" class=\"loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/assets\/images\/abas-desktop\/mapa2012.jpg\" alt=\"\" data-was-processed=\"true\" \/><\/picture><\/div>\n<div id=\"a2016\" class=\"item\"><picture><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/assets\/images\/abas-mobile\/mapa2016.jpg\" media=\"(max-width: 768px)\" \/><img decoding=\"async\" class=\"loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/assets\/images\/abas-desktop\/mapa2016.jpg\" alt=\"\" data-was-processed=\"true\" \/><\/picture><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"credito\">Imagem a\u00e9rea do Rio Arrojado: o agroneg\u00f3cio avan\u00e7a sobre o Cerrado<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"container\">\n<div class=\"content\">\n<p>Nas viagens do\u00a0<span class=\"markup\">Metr\u00f3poles<\/span>\u00a0pelo oeste da Bahia, a equipe visitou fazendas e entrevistou ribeirinhos e autoridades locais. L\u00edderes de associa\u00e7\u00f5es de pequenos agricultores fizeram relatos, registrados em v\u00eddeo, sobre embates f\u00edsicos com empregados do agroneg\u00f3cio. Acusado de comandar uma rede de pistolagem na regi\u00e3o, um ex-policial militar que presta servi\u00e7os de seguran\u00e7a para as empresas tamb\u00e9m deu depoimento.<\/p>\n<p>Para descrever as caracter\u00edsticas e particularidades desse peda\u00e7o do Brasil, a reportagem recorre \u00e0 estrutura narrativa do livro Os Sert\u00f5es, de Euclides da Cunha. No cl\u00e1ssico sobre a Guerra de Canudos, o escritor carioca divide o relato em tr\u00eas partes: A Terra, O Homem e A Luta. Sob essa inspira\u00e7\u00e3o, o trabalho sobre o oeste baiano apresenta-se compartimentado nos t\u00edtulos Os Conflitos, As Terras e O Povo.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"set\">\n<div class=\"container\">\n<div class=\"content-abre\"><img decoding=\"async\" class=\"separate loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/divider.png\" alt=\"Separador\" data-was-processed=\"true\" \/><\/div>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"hidden-desktop loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-abre.png\" alt=\"\" data-was-processed=\"true\" \/><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container\">\n<div class=\"content\">\n<p class=\"first-paragraph\">A barragem erguida em uma vereda forma um lago na nascente do Rio Arrojado. Bombas el\u00e9tricas de capta\u00e7\u00e3o est\u00e3o instaladas no ponto mais profundo, prontas para molhar a \u00e1rea de plantio. Algumas centenas de metros abaixo, um quinh\u00e3o de terra preparada por tratores tem a forma circular, desenho geom\u00e9trico t\u00edpico das planta\u00e7\u00f5es irrigadas com piv\u00f4 central, equipamento s\u00edmbolo do agroneg\u00f3cio do oeste da Bahia.<\/p>\n<div class=\"embed-responsive embed-responsive-16by9\"><iframe loading=\"lazy\" class=\"embed-responsive-item myLazyLoad\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/kL02yi7hGhA?rel=0&amp;controls=0&amp;showinfo=0&amp;loop=1&amp;playlist=kL02yi7hGhA&amp;autoplay=1\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<p>A cena descrita acima foi registrada pelo fot\u00f3grafo Michael Melo, no dia 13 de abril, com c\u00e2mera conduzida por drone. As imagens mostram nitidamente como, logo na cabeceira, o Arrojado sofre interfer\u00eancia humana.<\/p>\n<picture class=\"left\"><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto1.png\" media=\"(min-width: 1024px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto1.png\" media=\"(min-width: 768px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto1.png\" media=\"(min-width: 468px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto1.png\" media=\"(min-width: 320px)\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"loaded\" title=\"Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto1.png\" alt=\"Placa de identifica\u00e7\u00e3o da Fazenda Passagem Funda, propriedade onde nasce o Arrojado. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" width=\"960\" height=\"604\" data-was-processed=\"true\" \/><\/picture>\n<div class=\"credito\">Placa de identifica\u00e7\u00e3o da Fazenda Passagem Funda, propriedade onde nasce o Arrojado. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles<\/div>\n<p>Uma placa fixada na entrada indica o nome da propriedade, Fazenda Passagem Funda, e da respons\u00e1vel pela obra, Companhia de Integra\u00e7\u00e3o Florestal (CIF). Na segunda parte da reportagem, veremos como a Passagem Funda est\u00e1 ligada \u00e0s origens da ocupa\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o pelo agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p>A CIF defende a represa na cabeceira do Arrojado. \u201cNosso barramento \u00e9 parcial, n\u00e3o bloqueia o acesso ao rio. N\u00e3o houve preju\u00edzo algum para o meio ambiente, muito pelo contr\u00e1rio, \u00e9 um manancial que mant\u00e9m o fluxo \u00e0 jusante [rio abaixo], contribui para deixar o n\u00edvel de \u00e1gua constante, abriga esp\u00e9cies desalojadas pela drenagem da nascente original, sendo preservada e cuidada por n\u00f3s\u201d, disse em resposta ao\u00a0<span class=\"markup\">Metr\u00f3poles<\/span>.<\/p>\n<p>Sobre a obra, a empresa afirma ainda que a nascente do Arrojado foi drenada com a pavimenta\u00e7\u00e3o da BR-020 e, desde ent\u00e3o, a lagoa natural n\u00e3o existe mais. O Arrojado \u00e9 formado por veredas e possui v\u00e1rios bra\u00e7os que contribuem para aumentar o volume de \u00e1gua.<\/p>\n<p>Com suas interfer\u00eancias, de maiores ou menores efeitos, tanto o governo federal quanto a empresa agrediram duas nascentes do rio.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"parallax-fake hidden-desktop\">\n<div class=\"bg segundo-bg-1\" title=\"Fotos: Michael Melo \/ Metr\u00f3poles\"><\/div>\n<div class=\"bg segundo-bg-2\" title=\"Fotos: Michael Melo \/ Metr\u00f3poles\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"container\">\n<div class=\"content\">\n<p>A barragem, segundo a CIF, foi constru\u00edda h\u00e1 mais de 30 anos e sem inten\u00e7\u00e3o de uso para irriga\u00e7\u00e3o. A empresa fez o pedido de capta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua para a lavoura em 2012. Uma portaria do Instituto do Meio Ambiente e Recursos H\u00eddricos (Inema), \u00f3rg\u00e3o respons\u00e1vel por emitir outorgas, regularizou a obra no dia 25 de outubro de 2017.<\/p>\n<p>A exemplo do caso acima, autorizados pelo poder p\u00fablico, os ruralistas expandiram a explora\u00e7\u00e3o dos recursos naturais do oeste baiano. A presen\u00e7a ostensiva de grandes fazendas nas proximidades dos rios e nos chapad\u00f5es de Cerrado \u00e9 a raiz da sequ\u00eancia de fatos violentos, que h\u00e1 quatro d\u00e9cadas, conturbam a regi\u00e3o. O hist\u00f3rico de enfrentamentos come\u00e7ou com a chegada, a partir do final dos anos 1970, de fazendeiros provenientes dos estados Sul e Sudeste do pa\u00eds.<\/p>\n<blockquote><p><img decoding=\"async\" class=\"separate loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/divider.png\" alt=\"Separador\" data-was-processed=\"true\" \/>Os confrontos ocorreram, inicialmente, em torno de terras usadas h\u00e1 mais de um s\u00e9culo por fam\u00edlias de posseiros. Com tratores, corrent\u00f5es e incentivos fiscais, ruralistas do sul tomaram \u00e1reas at\u00e9 ent\u00e3o consideradas pelos antigos moradores como propriedade do estado.<img decoding=\"async\" class=\"separate loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/divider.png\" alt=\"Separador\" data-was-processed=\"true\" \/><\/p><\/blockquote>\n<p>No in\u00edcio, os fazendeiros devastaram o Cerrado para plantar eucaliptos e pinheiros. Glebas de uso comum das comunidades tradicionais transformaram-se em latif\u00fandios privados de um momento para outro.<\/p>\n<p>Brigas em torno de demarca\u00e7\u00f5es tornaram-se comuns depois da chegada dos sulistas. As agress\u00f5es ao meio ambiente tamb\u00e9m. Em setembro de 2000, uma iniciativa criminosa contra o Arrojado provocou a primeira rea\u00e7\u00e3o coletiva da comunidade. Na ocasi\u00e3o, dois fazendeiros abriram um canal de nove quil\u00f4metros de comprimento e 10 metros de largura para desviar parte da \u00e1gua do rio para projetos particulares.<\/p>\n<p>A obra foi feita em \u00c1rea de Prote\u00e7\u00e3o Permanente (APP) e sem autoriza\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os ambientais. Revoltados com a ousadia dos agressores, cerca de 600 pessoas mobilizaram-se para tapar o canal. Com ferramentas nas m\u00e3os, fizeram uma passeata pelas ruas de Correntina antes de seguir para o Arrojado.<\/p>\n<p>A golpes de p\u00e1s, picaretas e enxadas, obstru\u00edram o desvio com pedras e impediram a perda de \u00e1gua do rio para as fazendas. A barreira feita pelos ribeirinhos nunca foi removida pelos empres\u00e1rios.<\/p>\n<p>Dessa a\u00e7\u00e3o, participaram homens e mulheres das \u00e1reas rurais e dos pequenos povoados \u00e0s margens do Arrojado. Em S\u00e3o Manoel do Norte, maior distrito de Correntina, dois professores da rede municipal, Joselito Silva dos Santos e Jos\u00e9 de Alc\u00e2ntara e Silva, perderam o emprego por terem participado do ato.<\/p>\n<blockquote><p><img decoding=\"async\" class=\"separate loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/divider.png\" alt=\"Separador\" data-was-processed=\"true\" \/>O prefeito disse que quem ajudasse a tampar o canal seria posto para fora. N\u00f3s dois fomos assim mesmo e fomos demitidos\u201d, afirma Santos.<img decoding=\"async\" class=\"separate loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/divider.png\" alt=\"Separador\" data-was-processed=\"true\" \/><\/p><\/blockquote>\n<p>A revolta de 2000 revelou a disposi\u00e7\u00e3o dos ribeirinhos para agir coletivamente em defesa do rio. Em dezembro daquele ano, o programa Globo Rural, da TV Globo, contou a hist\u00f3ria do fechamento do desvio e registrou a morte, at\u00e9 aquele momento, de 17 riachos no munic\u00edpio de Correntina.<\/p>\n<div class=\"galeria-padrao galeria-1\">\n<div class=\"swiper-container swiper-container-horizontal\">\n<div class=\"swiper-wrapper\">\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"0\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" class=\"loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap1\/GIL_1123.jpg\" data-was-processed=\"true\" \/><span class=\"credito\">H\u00e1 18 anos, ribeirinhos fecharam canal irregular aberto por fazendeiros. Arquivos cedidos ao Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"1\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" class=\"loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap1\/GIL_1122.jpg\" data-was-processed=\"true\" \/><span class=\"credito\">Manifestantes atravessam ponte no dia em que fecharam desvio irregular de \u00e1gua do Rio Arrojado. Arquivos cedidos ao Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"2\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap1\/GIL_1124.jpg\" \/><span class=\"credito\">Cerca de 600 pequenos agricultores obstru\u00edram obra ilegal no Arrojado. Arquivos cedidos ao Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"3\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap1\/GIL_1130.jpg\" \/><span class=\"credito\">Desvio do rio tinha 10 metros de comprimento e nove quil\u00f4metros de extens\u00e3o. Arquivos cedidos ao Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate-prev swiper-slide-duplicate swiper-slide-prev\" data-swiper-slide-index=\"4\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" class=\"loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap1\/GIL_1134.jpg\" data-was-processed=\"true\" \/><span class=\"credito\">Para obstruir o canal, centenas de ribeirinhos usaram pedras da beira do rio. Arquivos cedidos ao Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-active\" data-swiper-slide-index=\"0\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" class=\"loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap1\/GIL_1123.jpg\" data-was-processed=\"true\" \/><span class=\"credito\">H\u00e1 18 anos, ribeirinhos fecharam canal irregular aberto por fazendeiros. Arquivos cedidos ao Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-next\" data-swiper-slide-index=\"1\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" class=\"loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap1\/GIL_1122.jpg\" data-was-processed=\"true\" \/><span class=\"credito\">Manifestantes atravessam ponte no dia em que fecharam desvio irregular de \u00e1gua do Rio Arrojado. Arquivos cedidos ao Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide\" data-swiper-slide-index=\"2\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap1\/GIL_1124.jpg\" \/><span class=\"credito\">Cerca de 600 pequenos agricultores obstru\u00edram obra ilegal no Arrojado. Arquivos cedidos ao Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide\" data-swiper-slide-index=\"3\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap1\/GIL_1130.jpg\" \/><span class=\"credito\">Desvio do rio tinha 10 metros de comprimento e nove quil\u00f4metros de extens\u00e3o. Arquivos cedidos ao Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate-prev\" data-swiper-slide-index=\"4\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap1\/GIL_1134.jpg\" \/><span class=\"credito\">Para obstruir o canal, centenas de ribeirinhos usaram pedras da beira do rio. Arquivos cedidos ao Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"0\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" class=\"loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap1\/GIL_1123.jpg\" data-was-processed=\"true\" \/><span class=\"credito\">H\u00e1 18 anos, ribeirinhos fecharam canal irregular aberto por fazendeiros. Arquivos cedidos ao Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"1\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" class=\"loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap1\/GIL_1122.jpg\" data-was-processed=\"true\" \/><span class=\"credito\">Manifestantes atravessam ponte no dia em que fecharam desvio irregular de \u00e1gua do Rio Arrojado. Arquivos cedidos ao Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"2\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap1\/GIL_1124.jpg\" \/><span class=\"credito\">Cerca de 600 pequenos agricultores obstru\u00edram obra ilegal no Arrojado. Arquivos cedidos ao Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"3\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap1\/GIL_1130.jpg\" \/><span class=\"credito\">Desvio do rio tinha 10 metros de comprimento e nove quil\u00f4metros de extens\u00e3o. Arquivos cedidos ao Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate-prev swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"4\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap1\/GIL_1134.jpg\" \/><span class=\"credito\">Para obstruir o canal, centenas de ribeirinhos usaram pedras da beira do rio. Arquivos cedidos ao Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-pagination swiper-pagination-bullets\"><\/div>\n<div class=\"button-next\"><\/div>\n<div class=\"button-prev\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Os que estavam na mobiliza\u00e7\u00e3o aprovam a resist\u00eancia da gera\u00e7\u00e3o atual. \u201cSe tirarem a \u00e1gua do Arrojado, o que o povo vai fazer?\u201d, pergunta o comerciante Hor\u00e1cio Andrade, 68 anos, tamb\u00e9m de S\u00e3o Manoel do Norte, presente na manifesta\u00e7\u00e3o do canal.<\/p>\n<p>Situada na margem direita do rio, a cidade tem cerca de 1.600 habitantes. Dias antes da destrui\u00e7\u00e3o das bombas da Igarashi, segundo os ribeirinhos, a \u00e1gua do Arrojado baixava de n\u00edvel quando a fazenda ligava os equipamentos de capta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma moradora do povoado viveu uma situa\u00e7\u00e3o inusitada pouco depois da invas\u00e3o. Ela foi intimada a depor na investiga\u00e7\u00e3o policial que apura as responsabilidades pela destrui\u00e7\u00e3o do dia 2 de novembro. A mulher n\u00e3o nega ter ajudado na mobiliza\u00e7\u00e3o da vizinhan\u00e7a. Mas, assegura, n\u00e3o esteve na fazenda.<\/p>\n<p>Marcelo Cal\u00e7ado, delegado de Correntina, instaurou o inqu\u00e9rito quatro dias depois do quebra-quebra, para investigar os respons\u00e1veis pelo ato. A popula\u00e7\u00e3o resistiu a apontar nomes de l\u00edderes e dos autores dos preju\u00edzos na propriedade.<\/p>\n<p>Na busca por culpados, policiais civis enviados pelo governador da Bahia, Rui Costa (PT), percorreram as comunidades, interpelaram dezenas de moradores e for\u00e7aram a barra, como na intima\u00e7\u00e3o da mulher de S\u00e3o Manoel do Norte.<\/p>\n<p>Uma das opera\u00e7\u00f5es, em especial, causou indigna\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o e foi tema de reuni\u00e3o do prefeito de Correntina. Na procura de um professor que participou do ato contra a Igarashi, policiais abordaram a diretora e alunos de uma escola no povoado de Arrojel\u00e2ndia. \u201cEles n\u00e3o podem pegar crian\u00e7as e adolescentes para interrogar\u201d, reclamou Rodrigues em conversa com o governador.<\/p>\n<picture><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto2.jpg\" media=\"(min-width: 1024px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto2.jpg\" media=\"(min-width: 768px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto2.jpg\" media=\"(min-width: 468px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto2.jpg\" media=\"(min-width: 320px)\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"loaded\" title=\"Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto2.jpg\" alt=\"Professor Iremar Ara\u00fajo: investigado por participar da manifesta\u00e7\u00e3o em novembro do ano passado. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" width=\"960\" height=\"604\" data-was-processed=\"true\" \/><\/picture>\n<div class=\"credito\">Professor Iremar Ara\u00fajo: investigado por participar da manifesta\u00e7\u00e3o em novembro do ano passado. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles<\/div>\n<p>O professor investigado \u00e9 Iremar Barbosa de Ara\u00fajo, 48 anos. Ele leciona l\u00edngua portuguesa na rede de ensino fundamental e acompanha de perto os conflitos no campo do munic\u00edpio de Correntina. Estudioso da cultura e natureza dos gerais, Ara\u00fajo atua para preservar o Cerrado e divulga seu conhecimento nas comunidades.<\/p>\n<p>Filho de ribeirinhos, o professor critica o tratamento desigual dado pelas autoridades aos antigos posseiros em rela\u00e7\u00e3o ao destinado a empres\u00e1rios do agroneg\u00f3cio. Nos dias seguintes \u00e0 invas\u00e3o da Igarashi, ele reclamou da trucul\u00eancia policial. \u201cIsso \u00e9 press\u00e3o para cima dos pequenos agricultores\u201d, desabafou Ara\u00fajo.<\/p>\n<p>O delegado nega irregularidades na abordagem. \u201cN\u00e3o \u00e9 verdade que os policiais interrogaram crian\u00e7as, pode ter havido alguma pergunta, mas isso n\u00e3o \u00e9 proibido. Tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 problema em investigar pessoas que n\u00e3o estiveram na manifesta\u00e7\u00e3o, mas que podem ter colaborado\u201d, afirma Cal\u00e7ado.<\/p>\n<p>As reclama\u00e7\u00f5es sobre a apura\u00e7\u00e3o provocaram rea\u00e7\u00e3o do Comit\u00ea Brasileiro de Defensoras e Defensores de Direitos Humanos (CBDDH), agrupamento de organiza\u00e7\u00f5es e movimentos sociais com atua\u00e7\u00e3o voltada para a prote\u00e7\u00e3o de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de risco decorrente de milit\u00e2ncia pol\u00edtica. \u201cA presen\u00e7a de helic\u00f3pteros e policiais fortemente armado, na cidade e nas comunidades, aterrorizou a popula\u00e7\u00e3o, em especial as crian\u00e7as, mostrando-se excessiva tal decis\u00e3o pol\u00edtica\u201d, diz documento divulgado pelo CBDDH no dia 27 de mar\u00e7o, quase cinco meses ap\u00f3s a manifesta\u00e7\u00e3o na Fazenda Igarashi.<\/p>\n<p>Participam do comit\u00ea mais de 30 organiza\u00e7\u00f5es, como Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH), Conselho Indigenista Mission\u00e1rio (Cimi), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Coordena\u00e7\u00e3o Nacional de Articula\u00e7\u00e3o das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e a Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT).<\/p>\n<p>No mesmo documento, o CBDDH apresentou mais um motivo de apreens\u00e3o para os antigos moradores. \u201cOutro fator de muita preocupa\u00e7\u00e3o diz respeito a diversas den\u00fancias sobre a contrata\u00e7\u00e3o de pistoleiros, por empresas privadas e fazendeiros, para garantir a usurpa\u00e7\u00e3o das terras e \u00e1guas p\u00fablicas, for\u00e7ando os ribeirinhos e camponeses a deixarem seus territ\u00f3rios de forma violenta.\u201d<\/p>\n<p>Duas semanas depois da nota do comit\u00ea, no dia 12 de abril, a ju\u00edza Marlise Freire Alvarenga \u2013 de Barreiras, substituta em Correntina \u2013 assinou a reintegra\u00e7\u00e3o de posse em favor dos fazendeiros do Cap\u00e3o do Modesto, epis\u00f3dio citado na abertura da reportagem. De acordo com a CPT, na mesma \u00e9poca, aumentaram as amea\u00e7as de pistoleiros contratados pelos autores da a\u00e7\u00e3o judicial.<\/p>\n<p>O caso do Cap\u00e3o do Modesto, pela atualidade e gravidade, merece mais de aten\u00e7\u00e3o. Segundo relato de posseiros, trata-se de uma briga antiga, do in\u00edcio dos anos 1980. Come\u00e7ou quando um fazendeiro desmatou a cabeceira do riacho para plantar pinheiros, eucaliptos e p\u00e9s de caju.<\/p>\n<picture><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto12.jpg\" media=\"(min-width: 1024px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto12.jpg\" media=\"(min-width: 768px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto12.jpg\" media=\"(min-width: 468px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto12.jpg\" media=\"(min-width: 320px)\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"loaded\" title=\"Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto12.jpg\" alt=\"Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" width=\"960\" height=\"604\" data-was-processed=\"true\" \/><\/picture>\n<div class=\"credito\">Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles<\/div>\n<p>Quando os ruralistas chegaram, h\u00e1 quase 40 anos, relatam os posseiros, derrubaram cercas fincadas por gera\u00e7\u00f5es anteriores. H\u00e1 tr\u00eas d\u00e9cadas, os pequenos agricultores resistem nessas circunst\u00e2ncias. \u00c0s vezes, destroem estruturas e recuperam parte das terras perdidas. Reclamam de amea\u00e7as de pistoleiros e agress\u00f5es f\u00edsicas.<\/p>\n<p>Os empres\u00e1rios tamb\u00e9m n\u00e3o desistem e, no acesso \u00e0s autoridades, acumulam vit\u00f3rias sobre os ribeirinhos. A senten\u00e7a favor\u00e1vel \u00e0 reintegra\u00e7\u00e3o de posse da ju\u00edza Marlise Alvarenga foi mais uma decis\u00e3o positiva para o agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Na nota p\u00fablica do dia 25 de abril, a CPT de Bom Jesus da Lapa e a AATR relacionam o ato da ju\u00edza ao C\u00f3digo Florestal, a Lei n\u00b0 12.651, de 2012. A mudan\u00e7a na legisla\u00e7\u00e3o, realizada h\u00e1 seis anos, permitiu a compensa\u00e7\u00e3o de reservas legais no mesmo bioma e na mesma bacia hidrogr\u00e1fica onde se encontra a propriedade produtiva.<\/p>\n<p>Agora, propriet\u00e1rios de \u00e1reas de reserva legal com extens\u00e3o superior \u00e0 exigida pela lei podem negociar o excedente com outros donos de fazenda que tenham desmatado al\u00e9m do permitido. Com isso, explica o comunicado das duas organiza\u00e7\u00f5es, houve uma corrida por terras no oeste da Bahia, fen\u00f4meno denominado \u201cgrilagem verde\u201d.<\/p>\n<p>Como sa\u00edda para o impasse no Cap\u00e3o do Modesto, CPT e AATR prop\u00f5em a realiza\u00e7\u00e3o de vistorias para reconhecer a veracidade dos documentos dos propriet\u00e1rios. Pedem, tamb\u00e9m, a abertura de uma A\u00e7\u00e3o Discriminat\u00f3ria Administrativa Rural (Adar) a fim de verificar ind\u00edcios de que se trata de terra devoluta. Esse tipo de a\u00e7\u00e3o, previsto na legisla\u00e7\u00e3o da Bahia, identifica e delimita as \u00e1reas n\u00e3o pertencentes a particulares.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a senten\u00e7a, intensificaram-se as press\u00f5es para que os ribeirinhos sa\u00edssem do Cerrado usado para soltar o gado nos meses de abril, maio, setembro, outubro e novembro. Como havia animais na \u00e1rea na \u00e9poca da decis\u00e3o judicial, o Minist\u00e9rio P\u00fablico assegurou que eles tivessem tempo para retirar as cria\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Nesse ambiente, os posseiros dizem ter sofrido viol\u00eancia de empregados armados da empresa Estrela Guia Seguran\u00e7a Privada, que trabalha para os ruralistas. Em pelo menos um caso, os funcion\u00e1rios da firma levaram um ribeirinho \u00e0 for\u00e7a para Correntina.<\/p>\n<p>A Estrela Guia n\u00e3o se manifestou sobre as perguntas enviadas pelo\u00a0<span class=\"markup\">Metr\u00f3poles<\/span>\u00a0por e-mail a respeito desses fatos.<\/p>\n<p>No processo do Cap\u00e3o do Modesto, seis pessoas f\u00edsicas e uma firma, a Agropecu\u00e1ria Sementes Talism\u00e3 Ltda., aparecem como autoras da a\u00e7\u00e3o contra os posseiros.<\/p>\n<p>A empresa contesta o hist\u00f3rico de ocupa\u00e7\u00e3o do Cap\u00e3o do Modesto apresentado pelos posseiros e pela nota p\u00fablica assinada pela CPT e AATR. \u201cOs produtores rurais reivindicam, com amparo na lei e na Constitui\u00e7\u00e3o Federal, a manuten\u00e7\u00e3o de sua posse leg\u00edtima, mansa e pac\u00edfica sobre \u00e1rea de sua propriedade devidamente registrada nos cart\u00f3rios competentes e averbada como reserva legal\u201d, diz a Talism\u00e3.<\/p>\n<p>Em resposta \u00e0s perguntas da reportagem, a empresa argumenta que existe uma \u201ccampanha de desinforma\u00e7\u00e3o\u201d e a \u201ctentativa de politizar\u201d a discuss\u00e3o a respeito das terras. \u201cEsse local \u00e9 de mata nativa do Cerrado e abrange parte considerada como \u00c1rea de Preserva\u00e7\u00e3o Permanente [APP], nos termos da legisla\u00e7\u00e3o ambiental em vigor, passou recentemente a ser invadido por pessoas, com o intuito de o transformarem em pastagem de seu gado\u201d, acrescenta a Talism\u00e3, referindo-se \u00e0 regi\u00e3o onde ocorre o embate com as comunidades locais. Essa reserva legal tem 9.400 hectares.<\/p>\n<p>Sobre as agress\u00f5es f\u00edsicas e amea\u00e7as, a Talism\u00e3 afirma desconhecer qualquer relato ou informa\u00e7\u00e3o a respeito.<\/p>\n<p>As den\u00fancias de viol\u00eancia praticada por empresas contra pequenos agricultores est\u00e3o sendo investigadas pela delegacia de Correntina. Fortemente armados e vestidos de preto, os homens da Estrela Guia fazem rondas no campo a bordo de carros potentes. A companhia de seguran\u00e7a possui sede em Barreiras e os funcion\u00e1rios t\u00eam licen\u00e7a para usar armas.<\/p>\n<p>A contrata\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o de vigil\u00e2ncia com armamento legalizado e aparatoso \u00e9 recente na regi\u00e3o de Correntina. Antes, o perfil dos vigilantes das fazendas era outro.<\/p>\n<picture class=\"left\"><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto3.jpg\" media=\"(min-width: 1024px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto3.jpg\" media=\"(min-width: 768px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto3.jpg\" media=\"(min-width: 468px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto3.jpg\" media=\"(min-width: 320px)\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"loaded\" title=\"Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto3.jpg\" alt=\"Empregado da empresa Estrela Guia faz seguran\u00e7a armada na Fazenda Rio Claro. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" width=\"960\" height=\"604\" data-was-processed=\"true\" \/><\/picture>\n<div class=\"credito\">Empregado da empresa Estrela Guia faz seguran\u00e7a armada na Fazenda Rio Claro<\/div>\n<p>Nas conversas com ribeirinhos e autoridades, usa-se com frequ\u00eancia a express\u00e3o \u201cpistoleiros\u201d para se referir aos homens a servi\u00e7o dos fazendeiros que chegaram a partir de 1980.<\/p>\n<div><\/div>\n<blockquote><p><img decoding=\"async\" class=\"separate loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/divider.png\" alt=\"Separador\" data-was-processed=\"true\" \/>\u201cEles querem nos intimidar e tentar correr com a gente da nossa terra\u201d, afirma Juscelino Santos Brito, 60 anos, presidente da Associa\u00e7\u00e3o Ambiental de Preserva\u00e7\u00e3o dos Pequenos Criadores de Brejo Verde, comunidade pr\u00f3xima ao Arrojado.<img decoding=\"async\" class=\"separate loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/divider.png\" alt=\"Separador\" data-was-processed=\"true\" \/><\/p><\/blockquote>\n<p>Em depoimento ao\u00a0<span class=\"markup\">Metr\u00f3poles<\/span>, Brito relatou refregas tidas com seguran\u00e7as armados nas terras em demanda. No ano de 2014, ele estava entre os 60 homens que, com ferramentas na m\u00e3o, participaram da derrubada de uma cerca do fecho de pasto da sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Os fazendeiros reergueram a cerca e constru\u00edram uma casa. Mais uma vez, as comunidades do Arrojado reagiram. Segundo o relato de Brito, pelo menos oito pistoleiros protegiam as obras quando quase 80 ribeirinhos chegaram.<\/p>\n<p>Armados de rev\u00f3lveres e espingardas, os empregados dos fazendeiros tentaram impedir a derrubada da cerca e da casa. Mas prevaleceu a superioridade num\u00e9rica dos pequenos agricultores e tudo foi abaixo novamente. Dois tratores tamb\u00e9m foram queimados. \u201cN\u00e3o temos arma de fogo. Levamos fac\u00e3o, foice e porrete. Para defender seus direitos, arma de pobre \u00e9 porrete\u201d, afirma o presidente da associa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Passados quatro anos dessas brigas, Brito ocupa a linha de frente na resist\u00eancia dos geraizeiros. Presente na invas\u00e3o da Igarashi, ele \u00e9 um dos investigados no inqu\u00e9rito policial.<\/p>\n<blockquote><p><img decoding=\"async\" class=\"separate loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/divider.png\" alt=\"Separador\" data-was-processed=\"true\" \/>\u201cSe eu for punido pela Justi\u00e7a por lutar pelas \u00e1guas, estarei satisfeito. N\u00e3o estou fazendo isso s\u00f3 por mim, esses recursos naturais beneficiam toda a popula\u00e7\u00e3o, daqui at\u00e9 o mar\u201d, afirma.<img decoding=\"async\" class=\"separate loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/divider.png\" alt=\"Separador\" data-was-processed=\"true\" \/><\/p><\/blockquote>\n<p>Enquanto fala, Brito aponta para o leste, na dire\u00e7\u00e3o do litoral, distante uns 600km em linha reta. De fato, o Arrojado flui para o Rio Corrente, afluente do Rio S\u00e3o Francisco, que \u201cvai bater no meio do mar\u201d, como diz Luiz Gonzaga na m\u00fasica Riacho do Navio.<\/p>\n<picture><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto4.jpg\" media=\"(min-width: 1024px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto4.jpg\" media=\"(min-width: 768px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto4.jpg\" media=\"(min-width: 468px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto4.jpg\" media=\"(min-width: 320px)\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"loaded\" title=\"Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto4.jpg\" alt=\"Juscelino Brito, presidente de associa\u00e7\u00e3o de ribeirinhos: \u201cArma de pobre \u00e9 porrete\u201d. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" width=\"960\" height=\"604\" data-was-processed=\"true\" \/><\/picture>\n<div class=\"credito\">Juscelino Brito, presidente de associa\u00e7\u00e3o de ribeirinhos: \u201cArma de pobre \u00e9 porrete\u201d. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles<\/div>\n<p>No povoado Grilo, localizado a poucos quil\u00f4metros de Brejo Verde, outro representante dos ribeirinhos tem hist\u00f3rico de pelejas com empregados dos fazendeiros. Osvaldino Oliveira de Santana tem 52 anos e preside a Associa\u00e7\u00e3o dos Fundos de Fecho de Pasto do Rio Arrojado.<\/p>\n<picture class=\"left\"><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto5.jpg\" media=\"(min-width: 1024px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto5.jpg\" media=\"(min-width: 768px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto5.jpg\" media=\"(min-width: 468px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto5.jpg\" media=\"(min-width: 320px)\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"loading\" title=\"Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto5.jpg\" alt=\"Osvaldino Santana, presidente de associa\u00e7\u00e3o de geraizeiros: \u201cFam\u00edlia n\u00e3o sabe se voltamos\u201d. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" width=\"960\" height=\"604\" data-was-processed=\"true\" \/><\/picture>\n<div class=\"credito\">Osvaldino Santana, presidente de associa\u00e7\u00e3o de geraizeiros: \u201cFam\u00edlia n\u00e3o sabe se voltamos\u201d. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles<\/div>\n<p>Em 2012, Santana fez parte de um grupo que rendeu 17 homens armados encarregados de proteger uma \u00e1rea cercada pelos fazendeiros. \u201cTinham espingardas, pistolas e muita muni\u00e7\u00e3o. Levamos todos para a delegacia de Correntina, mas foram soltos e nada aconteceu com eles\u201d, diz.<\/p>\n<p>As constantes rixas com os seguran\u00e7as obrigam os Santana a viver em desassossego.<\/p>\n<div><\/div>\n<blockquote><p><img decoding=\"async\" class=\"separate loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/divider.png\" alt=\"Separador\" data-was-processed=\"true\" \/>\u201cA preocupa\u00e7\u00e3o com essa situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem fim. Quando a gente sai, a fam\u00edlia n\u00e3o sabe se a gente volta\u201d, explica o ribeirinho.<img decoding=\"async\" class=\"separate loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/divider.png\" alt=\"Separador\" data-was-processed=\"true\" \/><\/p><\/blockquote>\n<p>Mesmo cismado com a possibilidade de desfechos tr\u00e1gicos, Santana exp\u00f5e o estado de esp\u00edrito dos agricultores locais diante do risco de esvaziamento dos rios e do len\u00e7ol fre\u00e1tico. \u201cA comunidade est\u00e1 disposta a enfrentar os que nos prejudicam. Podemos juntar at\u00e9 2 mil pessoas se for preciso. Dependemos dessas \u00e1guas para viver\u201d, diz o agricultor.<\/p>\n<p>O quebra-quebra efetuado por algumas centenas de pessoas na sede da Fazenda Igarashi teve repercuss\u00e3o imediata na imprensa nacional, nas redes sociais e no Congresso.<\/p>\n<p>V\u00eddeos e fotos do ato mostraram ao pa\u00eds o grau de viol\u00eancia da manifesta\u00e7\u00e3o. As imagens mais chocantes registraram queda dos postes da subesta\u00e7\u00e3o el\u00e9trica, m\u00e1quinas em chamas e instala\u00e7\u00f5es hidr\u00e1ulicas desmanteladas. Mulheres e homens com os rostos encobertos gritavam e faziam barulho enquanto derrubavam as estruturas.<\/p>\n<p>Canais de TV e representantes dos fazendeiros trataram o ato como \u201cvandalismo\u201d. Na tribuna, a senadora Ana Am\u00e9lia (PP-RS) atribuiu a quebradeira \u201cao ex\u00e9rcito do Lula\u201d, uma refer\u00eancia a militantes que apoiam o ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (PT).<\/p>\n<p>O governador Rui Costa, petista, ficou do lado do agroneg\u00f3cio. \u201cMandei a pol\u00edcia imediatamente ao local. Quero saber quem patrocina os bandos de destrui\u00e7\u00e3o no oeste\u201d, declarou.<\/p>\n<p>Ex-deputado pelo PSDB de S\u00e3o Paulo e ex-presidente do Instituto Nacional de Coloniza\u00e7\u00e3o e Reforma Agr\u00e1ria (Incra), Xico Graziano disse ter sido um \u201cverdadeiro terrorismo no campo\u201d.<\/p>\n<blockquote><p><img decoding=\"async\" class=\"separate loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/divider.png\" alt=\"Separador\" data-was-processed=\"true\" \/>Em artigo publicado no Poder360, o pol\u00edtico tucano relacionou o epis\u00f3dio da Igarashi a a\u00e7\u00f5es de destrui\u00e7\u00e3o desencadeadas no passado pelo MST. Sites e blogs antiesquerdistas tamb\u00e9m responsabilizaram os sem-terra pelos estragos na fazenda.<img decoding=\"async\" class=\"separate loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/divider.png\" alt=\"Separador\" data-was-processed=\"true\" \/><\/p><\/blockquote>\n<p>O MST negou envolvimento na invas\u00e3o. De fato, na apura\u00e7\u00e3o desta reportagem, n\u00e3o foi identificada atua\u00e7\u00e3o direta do movimento nacional dos sem-terra no protesto de Correntina. Nem faria sentido: no perfil dos participantes, predominam fam\u00edlias que lutam para n\u00e3o perder as \u00e1reas onde plantam, colhem e vivem.<\/p>\n<p>Deve-se registrar, por\u00e9m, a liga\u00e7\u00e3o dos protestos de Correntina com a pauta dos movimentos sociais organizados. Os interesses comuns podem ser observados, por exemplo, na composi\u00e7\u00e3o do CBDDH, o comit\u00ea de Direitos Humanos que acompanha as investiga\u00e7\u00f5es policiais.<\/p>\n<p>Temas relacionados \u00e0 luta pela terra e ao combate ao agroneg\u00f3cio unem os ribeirinhos a segmentos de atua\u00e7\u00e3o nacional, como CPT, MST e MAB. Nas reuni\u00f5es e manifesta\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias aos grandes fazendeiros, tamb\u00e9m se apresentam militantes de legendas como PSol, PT, PV e PCdoB.<\/p>\n<p>Partidos e outras organiza\u00e7\u00f5es t\u00eam interesse em encampar as reivindica\u00e7\u00f5es das comunidades tradicionais, principalmente como estrat\u00e9gia para expor suas propostas aos moradores da regi\u00e3o. Na pr\u00e1tica, por\u00e9m, a defesa da \u00e1gua transcende as influ\u00eancias de grupos pol\u00edticos espec\u00edficos.<\/p>\n<p>Parte da comunidade de Correntina e da regi\u00e3o manteve-se mobilizada nos meses seguintes \u00e0 invas\u00e3o da Igarashi. Nove dias depois do quebra-quebra, pelo menos 6 mil pessoas \u2014 quase um quinto dos 33 mil habitantes do munic\u00edpio \u2014 fizeram um protesto pac\u00edfico nas ruas da cidade. Esses n\u00fameros ajudam a dimensionar import\u00e2ncia do assunto para a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Fam\u00edlias de agricultores e de cidades vizinhas juntaram-se em defesa do Arrojado. A maioria atendeu \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o de vestir roupas pretas. Dispersos na multid\u00e3o, bandeiras e bon\u00e9s vermelhos indicavam as prefer\u00eancias pol\u00edticas de muitos militantes. Caravanas de Santa Maria da Vit\u00f3ria e Bom Jesus da Lapa engrossaram a passeata.<\/p>\n<picture><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto6.jpg\" media=\"(min-width: 1024px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto6.jpg\" media=\"(min-width: 768px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto6.jpg\" media=\"(min-width: 468px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto6.jpg\" media=\"(min-width: 320px)\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"loading\" title=\"Arquivo cedido ao Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto6.jpg\" alt=\"Manifesta\u00e7\u00e3o de ribeirinhos reuniu 6 mil pessoas em Correntina em dezembro de 2017. Arquivo cedido ao Metr\u00f3poles\" width=\"960\" height=\"604\" data-was-processed=\"true\" \/><\/picture>\n<div class=\"credito\">Manifesta\u00e7\u00e3o de ribeirinhos reuniu 6 mil pessoas em Correntina em dezembro de 2017. Arquivo cedido ao Metr\u00f3poles<\/div>\n<p>Os manifestantes apoiaram a invas\u00e3o da Igarashi e reafirmaram a inten\u00e7\u00e3o de lutar pela \u00e1gua. Faixas exibidas na caminhada expuseram o sentimento da popula\u00e7\u00e3o: \u201cSe o governo se omite, o povo age\u201d, \u201cN\u00e3o somos terroristas. Somos defensores dos nossos rios\u201d e \u201cMelhor morrer de bala do que de sede\u201d.<\/p>\n<p>Em 1\u00ba dezembro de 2017, uma audi\u00eancia p\u00fablica convocada pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico reuniu cerca de 5 mil pessoas da comunidade de Correntina com autoridades municipais e estaduais. O tom geral foi de defesa dos ribeirinhos e cr\u00edticas ao agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Reclama\u00e7\u00f5es contra atua\u00e7\u00e3o do governo da Bahia pautaram boa parte dos discursos. Em particular, os oradores acusaram o Inema e outros \u00f3rg\u00e3os de n\u00e3o fiscalizar nem controlar a quantidade de \u00e1gua captada pelas fazendas.<\/p>\n<p>Acusaram, tamb\u00e9m, as autoridades estaduais de n\u00e3o cumprir as decis\u00f5es tomadas pelo Comit\u00ea da Bacia do Rio Corrente, que inclui o Arrojado. Em dezembro de 2015, o grupo deliberou que o Inema n\u00e3o emitisse novas outorgas de capta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua.<\/p>\n<p>Segundo dados apresentados na audi\u00eancia, o \u00f3rg\u00e3o respons\u00e1vel por fiscalizar a preserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente n\u00e3o acatou a orienta\u00e7\u00e3o e concedeu cinco autoriza\u00e7\u00f5es, que juntas t\u00eam capacidade para abastecer Correntina por 73 dias.<\/p>\n<p>Representante da CPT, o agr\u00f4nomo Samuel Brito relacionou a crise h\u00eddrica com as pr\u00e1ticas das grandes fazendas.<\/p>\n<blockquote><p><img decoding=\"async\" class=\"separate loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/divider.png\" alt=\"Separador\" data-was-processed=\"true\" \/>\u201cH\u00e1 50 anos, existe aqui um modelo baseado na viol\u00eancia, na pistolagem, na grilagem, nos danos ambientais irrevers\u00edveis e nos impactos sociais que s\u00e3o imensur\u00e1veis\u201d, discursou.<img decoding=\"async\" class=\"separate loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/divider.png\" alt=\"Separador\" data-was-processed=\"true\" \/><\/p><\/blockquote>\n<p>Quando se fala de viol\u00eancia contra os posseiros em Correntina, menciona-se ami\u00fade o nome do ex-policial militar Carlos Erlani Gon\u00e7alves Santos, conhecido como Cabo Erlani. Nas palavras do presidente da C\u00e2mara da cidade, Ebrain Moreira (PMDB), ditas na mesma audi\u00eancia, trata-se de \u201cum velho conhecido da pol\u00edcia que pratica pistolagem no nosso Cerrado\u201d.<\/p>\n<picture><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto7.jpg\" media=\"(min-width: 1024px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto7.jpg\" media=\"(min-width: 768px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto7.jpg\" media=\"(min-width: 468px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto7.jpg\" media=\"(min-width: 320px)\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"loaded\" title=\"Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto7.jpg\" alt=\"Ex-PM Carlos Erlani Santos nega acusa\u00e7\u00f5es de pistolagem. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" width=\"960\" height=\"604\" data-was-processed=\"true\" \/><\/picture>\n<div class=\"credito\">Ex-PM Carlos Erlani Santos nega acusa\u00e7\u00f5es de pistolagem. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles<\/div>\n<p>Dono de uma empresa de seguran\u00e7a, a CE do Corrente, Santos presta servi\u00e7o para v\u00e1rias fazendas no oeste baiano. No dia da invas\u00e3o, trabalhava para a Igarashi e foi uma das primeiras testemunhas a depor na investiga\u00e7\u00e3o presidida pelo delegado Cal\u00e7ado.<\/p>\n<p>A CE do Corrente n\u00e3o possui licen\u00e7a da Pol\u00edcia Federal para fazer guarda armada. Mas, nos \u00faltimos anos, Santos desentendeu-se pelo menos uma vez agentes de Correntina por andar acompanhado de um funcion\u00e1rio que portava armamento. Em 2012, tr\u00eas empregados de outra firma do ex-PM foram detidos por n\u00e3o estarem autorizados a realizar esse tipo de servi\u00e7o. Ele tamb\u00e9m foi indiciado, em 2016, em inqu\u00e9rito instaurado pela delegacia da cidade.<\/p>\n<p>No dia da invas\u00e3o, junto com alguns funcion\u00e1rios, o ex-PM filmou de longe o quebra-quebra. Avisado desde a v\u00e9spera de que haveria um protesto, Santos chegou de madrugada \u00e0 sede da Igarashi. Mesmo assim, ele foi surpreendido pela viol\u00eancia dos manifestantes. Ao constatar a dimens\u00e3o do ato, chamou a pol\u00edcia de Lu\u00eds Eduardo Magalh\u00e3es, cidade vizinha.<\/p>\n<p>A equipe de reportagem entrevistou o ex-policial no final de janeiro, na sede da empresa de seguran\u00e7a, em Correntina. Ele fez um relato do dia da invas\u00e3o, confirmou que a CE do Corrente n\u00e3o tem autoriza\u00e7\u00e3o para fazer patrulha armada e respondeu perguntas sobre as den\u00fancias de que comanda uma rede de homens pagos para intimidar as fam\u00edlias de pequenos agricultores.<\/p>\n<picture><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto11.png\" media=\"(min-width: 1024px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto11.png\" media=\"(min-width: 768px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto11.png\" media=\"(min-width: 468px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto11.png\" media=\"(min-width: 320px)\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto11.png\" alt=\"Foto exemplo\" width=\"960\" height=\"604\" data-was-processed=\"true\" \/><\/picture>De acordo com Santos, a empresa faz \u201ctrabalho preventivo\u201d de seguran\u00e7a, com rondas noturnas, e sua equipe n\u00e3o trabalha armada. Pastor de uma igreja evang\u00e9lica, o ex-policial foi vereador da cidade de Jaborandi, de 2001 a 2004, e nega qualquer envolvimento com pistolagem. \u201cComo posso ser acusado disso se n\u00e3o apontam nenhuma pessoa que eu tenha tirado a vida?\u201d, reage.<\/p>\n<p>De fato, n\u00e3o h\u00e1 registros de ribeirinhos assassinados em decorr\u00eancia de brigas com fazendeiros. Nem de tiroteios. As reclama\u00e7\u00f5es referem-se a intimida\u00e7\u00f5es e agress\u00f5es f\u00edsicas por parte de empregados das empresas.<\/p>\n<p>A \u00faltima morte nesse contexto foi a execu\u00e7\u00e3o, em 1977, de Eug\u00eanio Lyra, advogado de trabalhadores rurais e de posseiros contr\u00e1rios a ruralistas. Aos 30 anos, Lyra entrava no seu carro, em Santa Maria da Vit\u00f3ria, quando levou um tiro na testa. Sua mulher, L\u00facia, estava gr\u00e1vida e presenciou a cena. No dia seguinte, ele deporia na CPI da grilagem instalada na Assembleia Legislativa da Bahia, em Salvador.<\/p>\n<p>Wilson Gusm\u00e3o, o pistoleiro que matou o advogado, foi contratado por um fazendeiro com a ajuda de um grupo de poderosos da cidade.<\/p>\n<p>Ao ser questionado pelo\u00a0<span class=\"markup\">Metr\u00f3poles<\/span>\u00a0quanto aos relatos dos posseiros sobre as refregas com pistoleiros, o delegado Cal\u00e7ado confirmou ocorr\u00eancias de ambos os lados da briga. Mas, sem entrar em detalhes, relativizou a import\u00e2ncia desses epis\u00f3dios. \u201c\u00c0s vezes, os ribeirinhos exageram um pouco\u201d, disse.<\/p>\n<p>O prazo inicial do inqu\u00e9rito chegou ao fim em janeiro deste ano. O delegado pediu prorroga\u00e7\u00e3o, a Justi\u00e7a demorou a responder.<\/p>\n<p>Em 23 de fevereiro, a Igarashi anunciou a retomada das atividades na fazenda de Correntina. Dirigida ao governador da Bahia, Rui Costa, a secret\u00e1rios de Estado e ao delegado Cal\u00e7ado, a mensagem chama os respons\u00e1veis pelo quebra-quebra de \u201cv\u00e2ndalos\u201d e diz esperar a puni\u00e7\u00e3o dos culpados, \u201cincluindo os efetivos planejadores e financiadores da invas\u00e3o\u201d. No final, o texto pede \u201cimediata e ostensiva seguran\u00e7a\u201d para a \u201cgarantia da paz\u201d.<\/p>\n<div class=\"galeria-padrao galeria-1\">\n<div class=\"swiper-container swiper-container-horizontal\">\n<div class=\"swiper-wrapper\">\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"0\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" title=\"Foto: Michael Melo\/Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap1\/FOTO01.jpg\" \/><span class=\"credito\">Na Fazenda Rio Claro, piscin\u00e3o para irrigar lavouras, parcialmente destru\u00eddo por ribeirinhos. Foto: Michael Melo\/Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"1\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" title=\"Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap1\/FOTO02.jpg\" \/><span class=\"credito\">Subesta\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica queimada pelos manifestantes em dezembro de 2017. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"2\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" title=\"Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap1\/FOTO03.jpg\" \/><span class=\"credito\">M\u00e1quina escavadeira em planta\u00e7\u00e3o no oeste da Bahia. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"3\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" title=\"Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap1\/FOTO04.jpg\" \/><span class=\"credito\">Piv\u00f4 central em funcionamento em propriedade da Lavoura e Pecu\u00e1ria Igarashi. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate-prev swiper-slide-duplicate swiper-slide-prev\" data-swiper-slide-index=\"4\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" class=\"loading\" title=\"Foto: Michael Melo\/Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap1\/FOTO05.jpg\" data-was-processed=\"true\" \/><span class=\"credito\">Vista a\u00e9rea de bombas de capta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua na Fazenda Rio Claro. Foto: Michael Melo\/Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-active\" data-swiper-slide-index=\"0\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" class=\"loading\" title=\"Foto: Michael Melo\/Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap1\/FOTO01.jpg\" data-was-processed=\"true\" \/><span class=\"credito\">Na Fazenda Rio Claro, piscin\u00e3o para irrigar lavouras, parcialmente destru\u00eddo por ribeirinhos. Foto: Michael Melo\/Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-next\" data-swiper-slide-index=\"1\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" class=\"loading\" title=\"Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap1\/FOTO02.jpg\" data-was-processed=\"true\" \/><span class=\"credito\">Subesta\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica queimada pelos manifestantes em dezembro de 2017. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide\" data-swiper-slide-index=\"2\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" title=\"Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap1\/FOTO03.jpg\" \/><span class=\"credito\">M\u00e1quina escavadeira em planta\u00e7\u00e3o no oeste da Bahia. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide\" data-swiper-slide-index=\"3\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" title=\"Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap1\/FOTO04.jpg\" \/><span class=\"credito\">Piv\u00f4 central em funcionamento em propriedade da Lavoura e Pecu\u00e1ria Igarashi. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate-prev\" data-swiper-slide-index=\"4\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" title=\"Foto: Michael Melo\/Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap1\/FOTO05.jpg\" \/><span class=\"credito\">Vista a\u00e9rea de bombas de capta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua na Fazenda Rio Claro. Foto: Michael Melo\/Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"0\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" title=\"Foto: Michael Melo\/Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap1\/FOTO01.jpg\" \/><span class=\"credito\">Na Fazenda Rio Claro, piscin\u00e3o para irrigar lavouras, parcialmente destru\u00eddo por ribeirinhos. Foto: Michael Melo\/Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"1\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" title=\"Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap1\/FOTO02.jpg\" \/><span class=\"credito\">Subesta\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica queimada pelos manifestantes em dezembro de 2017. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"2\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" title=\"Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap1\/FOTO03.jpg\" \/><span class=\"credito\">M\u00e1quina escavadeira em planta\u00e7\u00e3o no oeste da Bahia. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"3\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" title=\"Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap1\/FOTO04.jpg\" \/><span class=\"credito\">Piv\u00f4 central em funcionamento em propriedade da Lavoura e Pecu\u00e1ria Igarashi. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate-prev swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"4\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" title=\"Foto: Michael Melo\/Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap1\/FOTO05.jpg\" \/><span class=\"credito\">Vista a\u00e9rea de bombas de capta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua na Fazenda Rio Claro. Foto: Michael Melo\/Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-pagination swiper-pagination-bullets\"><\/div>\n<div class=\"button-next\"><\/div>\n<div class=\"button-prev\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Pelas caracter\u00edsticas da manifesta\u00e7\u00e3o, os investigadores encontram dificuldades para identificar as fontes de pagamento dos gastos, como pedem a empresa e o governador da Bahia. Os pr\u00f3prios participantes do protesto assumem o custeio do deslocamento, em \u00f4nibus lotados, por pouco mais de 100km. S\u00e3o valores modestos para aquelas comunidades e n\u00e3o h\u00e1 ind\u00edcios evidentes de recursos significativos proporcionados por pessoas ou organiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A Justi\u00e7a deu resposta favor\u00e1vel \u00e0 prorroga\u00e7\u00e3o do processo em abril. \u201cEstamos trabalhando para saber quem praticou cada ato. Quem quebrou, quem colocou fogo. Se n\u00e3o for individualizado, n\u00e3o tem como responsabilizar o grupo todo\u201d, afirmou Cal\u00e7ado em conversa telef\u00f4nica com o\u00a0<span class=\"markup\">Metr\u00f3poles<\/span>. Mais de 50 pessoas foram ouvidas no inqu\u00e9rito. \u201cImportante observar que os fatos da Fazenda Igarashi s\u00e3o relacionados apenas a \u00e1gua, n\u00e3o tem nada a ver com os casos do Cap\u00e3o do Redondo, que se referem a problema de propriedade de terra\u201d, esclareceu o delegado.<\/p>\n<p>Em abril, a Igarashi abriu a porteira da fazenda para o\u00a0<span class=\"markup\">Metr\u00f3poles<\/span>\u00a0captar imagens da sede e dos equipamentos de irriga\u00e7\u00e3o danificados. Os estragos causados pelos manifestantes haviam sido parcialmente reparados.<\/p>\n<blockquote><p><img decoding=\"async\" class=\"separate loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/divider.png\" alt=\"Separador\" data-was-processed=\"true\" \/>A previs\u00e3o dos propriet\u00e1rios \u00e9 gerar 400 empregos neste ano. A empresa intensificou a vigil\u00e2ncia preventiva na \u00e1rea, \u201ctudo respeitando as regras da legisla\u00e7\u00e3o brasileira\u201d.<img decoding=\"async\" class=\"separate loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/divider.png\" alt=\"Separador\" data-was-processed=\"true\" \/><\/p><\/blockquote>\n<p>Com sede em Curitiba, a Lavoura e Pecu\u00e1ria Igarashi explora, no munic\u00edpio de Correntina, planta\u00e7\u00f5es voltadas para o mercado nordestino, como batata, feij\u00e3o, tomate e cebola. Esses produtos s\u00e3o pouco comuns nos vastos latif\u00fandios do oeste da Bahia e representam um percentual pequeno do faturamento do agroneg\u00f3cio na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Os fazendeiros mudaram o foco de produ\u00e7\u00e3o depois dos maus resultados obtidos com o plantio de eucaliptos e pinheiros na d\u00e9cada de 1980. Hoje, as lavouras de soja, milho e algod\u00e3o tomaram conta do Cerrado baiano. Essas culturas cobrem 2,4 milh\u00f5es de hectares no oeste do estado, segundo informa\u00e7\u00f5es da Aiba.<\/p>\n<picture><img decoding=\"async\" class=\"loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-numeralia.jpg\" alt=\"\" data-was-processed=\"true\" \/><\/picture>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s den\u00fancias de que a capta\u00e7\u00e3o h\u00eddrica utilizada nas fazendas provoca escassez nos rios, a Aiba afirma que os manifestantes agem sem embasamento t\u00e9cnico-cient\u00edfico. \u201cEles atribuem o baixo volume dos rios exclusivamente aos piv\u00f4s usados na irriga\u00e7\u00e3o das lavouras, desconsiderando estudos recentes sobre a disponibilidade h\u00eddrica da regi\u00e3o, fatores clim\u00e1ticos e o pr\u00f3prio ciclo da natureza\u201d, diz uma nota da associa\u00e7\u00e3o divulgada na \u00e9poca do protesto na Igarashi.<\/p>\n<p>Junto com as grandes planta\u00e7\u00f5es, chegaram pr\u00e1ticas ambientais nocivas. Escrito em 2012 pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, o relat\u00f3rio Vigil\u00e2ncia em Sa\u00fade de Popula\u00e7\u00f5es Expostas a Agrot\u00f3xicos no Estado da Bahia trata do assunto. \u201cO oeste baiano, onde existe a concentra\u00e7\u00e3o do latif\u00fandio e do agroneg\u00f3cio, \u00e9 uma das regi\u00f5es que mais utilizam agrot\u00f3xicos, com a lavoura de soja, milho e algod\u00e3o\u201d, diz o documento.<\/p>\n<blockquote><p><img decoding=\"async\" class=\"separate loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/divider.png\" alt=\"Separador\" data-was-processed=\"true\" \/>\u201cO oeste baiano, onde existe a concentra\u00e7\u00e3o do latif\u00fandio e do agroneg\u00f3cio \u00e9 uma das regi\u00f5es que mais utilizam agrot\u00f3xicos, com a lavoura de soja milho e algod\u00e3o\u201d, diz o documento.<img decoding=\"async\" class=\"separate loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/divider.png\" alt=\"Separador\" data-was-processed=\"true\" \/><\/p><\/blockquote>\n<p>Um exemplo do uso descontrolado desses produtos nas empresas da regi\u00e3o foi identificado recentemente pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renov\u00e1veis (Ibama). Uma opera\u00e7\u00e3o deflagrada em abril pelo \u00f3rg\u00e3o federal, com apoio do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, apreendeu 7,7 mil litros e 1,8 tonelada de agrot\u00f3xicos com validade vencida nas fazendas do oeste.<\/p>\n<p>Os agentes ambientais tamb\u00e9m registraram condi\u00e7\u00f5es inadequadas de manejo desses produtos e fecharam 22 pistas irregulares de pouso de avi\u00f5es usados na pulveriza\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos. No total, aplicaram 22 autos de infra\u00e7\u00e3o, com multas que somavam R$ 2 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>As pr\u00e1ticas danosas do agroneg\u00f3cio s\u00e3o tema dos debates estimulados por Ara\u00fajo, o professor procurado pela pol\u00edcia por ter participado da invas\u00e3o da Igarashi. \u201cAs enxurradas levam o agrot\u00f3xico para nossas \u00e1guas, mas ningu\u00e9m \u00e9 investigado por isso nem pela morte dos riachos. H\u00e1 muita disparidade de tratamento do Estado na rela\u00e7\u00e3o com os empres\u00e1rios e ribeirinhos\u201d, afirma.<\/p>\n<p>No rol de desarranjos do oeste, os maiores entraves para a regulariza\u00e7\u00e3o da atividade econ\u00f4mica e das rela\u00e7\u00f5es sociais est\u00e3o concentrados na esfera da administra\u00e7\u00e3o estadual. Tanto as demandas fundi\u00e1rias quanto as outorgas para capta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua s\u00e3o assuntos do governo baiano. Pequenos agricultores e fazendeiros pedem a a\u00e7\u00e3o do estado para solu\u00e7\u00e3o dos problemas locais.<\/p>\n<p>Desde o dia 15 de fevereiro, o\u00a0<span class=\"markup\">Metr\u00f3poles<\/span>\u00a0aguarda retorno da Secretaria de Comunica\u00e7\u00e3o Social do Governo da Bahia (Secom) sobre oito perguntas relacionadas aos fatos abordados neste trabalho. Apesar de insistentes mensagens e telefonemas, a Secom n\u00e3o respondeu.<\/p>\n<p>O governo estadual n\u00e3o esclareceu quantas outorgas de capta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua foram concedidas para fazendeiros nem a data de assinatura. Assim, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel verificar a atua\u00e7\u00e3o de cada administra\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s autoriza\u00e7\u00f5es de uso de rios e do len\u00e7ol fre\u00e1tico pelas empresas.<\/p>\n<p>De 1980 at\u00e9 hoje, a Bahia teve os seguintes governadores: Ant\u00f4nio Carlos Magalh\u00e3es (PDS\/PFL), Jo\u00e3o Durval Carneiro (PDS), Waldir Pires (PMDB), Nilo Coelho (PMDB), Rui Trindade (presidente do Tribunal de Justi\u00e7a da Bahia, interino, por apenas um m\u00eas em 1994), Ant\u00f4nio Imbassahy (PFL), Paulo Souto (PFL), C\u00e9sar Borges (PFL), Otto Alencar (PFL), Jaques Wagner (PT) e Rui Costa (PT).<\/p>\n<p>A Secom tamb\u00e9m n\u00e3o informou como o estado fiscaliza o volume h\u00eddrico utilizado pelas fazendas. Deixou ainda de explicar o que est\u00e1 sendo feito para resolver os conflitos fundi\u00e1rios e ambientais do oeste. Tampouco respondeu se alguma medida foi tomada desde novembro do ano passado para atender \u00e0 reivindica\u00e7\u00e3o dos ruralistas de refor\u00e7o na seguran\u00e7a da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Sem transpar\u00eancia dos atos oficiais do governo da Bahia, torna-se dif\u00edcil compreender os conflitos e entender como o estado fiscaliza e resolve os problemas da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria recente do oeste mostra que, quando os ruralistas se estabaleceram na regi\u00e3o, os confrontos entre o modelo de desenvolvimento do agroneg\u00f3cio e o modo de vida das comunidades tradicionais se consolidaram.<\/p>\n<p>Antes de a \u00e1gua se tornar o motivo do conflito, o choque entre os antigos moradores e os empres\u00e1rios do Sul era motivado pela posse da terra. Como veremos na segunda parte da reportagem, essa demanda ainda n\u00e3o foi resolvida.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"container\">\n<div class=\"content-abre\"><a title=\"Separador\" href=\"https:\/\/www.metropoles.com\/materias-especiais\/ribeirinhos-e-fazendeiros-travam-batalha-na-bahia-por-escassez-de-agua#\"><img decoding=\"async\" class=\"separate loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/divider.png\" alt=\"Separador\" data-was-processed=\"true\" \/><\/a><\/div>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"hidden-desktop loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap2-abre.png\" alt=\"\" data-was-processed=\"true\" \/><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container\">\n<div class=\"content\">\n<p class=\"first-paragraph\">Antes das grandes planta\u00e7\u00f5es, o Cerrado nativo do oeste baiano estendia-se at\u00e9 onde a vista alcan\u00e7ava. Os gerais, terras planas do Chapad\u00e3o Ocidental do S\u00e3o Francisco, permaneciam desertos de povoamento e quase intocados pela atividade humana. As \u00fanicas \u00e1reas habitadas eram as poucas cidades da regi\u00e3o, como Correntina e Santa Maria da Vit\u00f3ria, e as antigas comunidades de posseiros nas beiras dos rios e, sazonalmente, nos fechos de pasto.<\/p>\n<blockquote><p><img decoding=\"async\" class=\"separate loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/divider.png\" alt=\"Separador\" data-was-processed=\"true\" \/>Sem cercas, os gerais preservavam as caracter\u00edsticas, na express\u00e3o popular, de \u201cum mund\u00e3o v\u00e9i sem porteira\u201d<img decoding=\"async\" class=\"separate loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/divider.png\" alt=\"Separador\" data-was-processed=\"true\" \/><\/p><\/blockquote>\n<p>Do ponto de vista fundi\u00e1rio, eram \u00e1reas t\u00edpicas das \u201cterras devolutas\u201d, denomina\u00e7\u00e3o de parcelas do territ\u00f3rio nacional reincorporadas pela Uni\u00e3o no final da vig\u00eancia do sistema de sesmarias, em meados do s\u00e9culo 19. Com a instaura\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, em 1889, essas glebas sem t\u00edtulos de propriedade privada passaram para o patrim\u00f4nio dos estados.<\/p>\n<p>A mesorregi\u00e3o do oeste da Bahia compreende, hoje, 24 munic\u00edpios localizados no planalto entre a margem esquerda do Rio S\u00e3o Francisco e a Serra Geral, nas divisas com Tocantins e Goi\u00e1s. Nas partes mais altas das terras, quando preservadas, predomina o Cerrado de pequeno e m\u00e9dio porte, com \u00e1rvores esparsas e entremeadas de capim-do-campo e veredas encharcadas. Perto dos rios, prevalecem as matas fechadas. \u00c0 medida que se aproxima do S\u00e3o Francisco, a leste, a flora transita para a aridez da Caatinga.<\/p>\n<\/div>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"hidden-desktop loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap2-mapa.png\" alt=\"\" data-was-processed=\"true\" \/><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container\">\n<div class=\"content\">\n<p>A altitude do oeste baiano vai de 400m a 900m do n\u00edvel do mar e, fora dos vales dos rios, as terras s\u00e3o planas. Os \u00edndices pluviom\u00e9tricos crescem ao se aproximar da serra e variam entre 1000mm e 1800mm, um dos maiores do interior do Nordeste.<\/p>\n<p>De clima tropical, a regi\u00e3o tem esta\u00e7\u00f5es chuvosas e secas bem definidas. Nascentes, c\u00f3rregos e rios que brotam nas divisas com Goi\u00e1s e Tocantins banham a superf\u00edcie e correm na dire\u00e7\u00e3o do S\u00e3o Francisco, ao leste. O Aqu\u00edfero Urucuia proporciona a riqueza h\u00eddrica do subsolo.<\/p>\n<p>As condi\u00e7\u00f5es naturais do oeste mostraram-se ideais para a implanta\u00e7\u00e3o de projetos de agricultura irrigada e mecanizada. No in\u00edcio dos anos 1980, os ruralistas de estados ao sul da Bahia descobriram o potencial da regi\u00e3o para o agroneg\u00f3cio. O cen\u00e1rio dos gerais, ent\u00e3o, come\u00e7ou a sofrer mudan\u00e7as bruscas.<\/p>\n<p>Com pap\u00e9is de posse em m\u00e3os, empres\u00e1rios rurais avan\u00e7aram sobre as terras. Promoveram, desde logo, a derrubada do Cerrado e a capta\u00e7\u00e3o de \u00e1guas dos rios e do Aqu\u00edfero Urucuia. A vegeta\u00e7\u00e3o nativa foi substitu\u00edda pelo verde das lavouras. As \u00e1reas de uso coletivo tornaram-se propriedades privadas em pouco tempo.<\/p>\n<p>Quatro d\u00e9cadas depois da chegada dos primeiros tratores na regi\u00e3o, os m\u00e9todos usados para obten\u00e7\u00e3o dos documentos ainda s\u00e3o contestados pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico. \u201cExiste uma s\u00e9ria quest\u00e3o a ser passada a limpo\u201d, afirmou a promotora de Justi\u00e7a Luciana Khoury em audi\u00eancia p\u00fablica de dezembro do ano passado. \u201cN\u00e3o s\u00e3o todos os produtores que fizeram grilagem ou invadiram terras, mas esse \u00e9 um problema local e precisa ser enfrentado\u201d, acrescentou a representante do MP.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"parallax-fake hidden-desktop\">\n<div class=\"bg terceiro-bg-1\" title=\"Fotos: Michael Melo \/ Metr\u00f3poles\"><\/div>\n<div class=\"bg terceiro-bg-2\" title=\"Fotos: Michael Melo \/ Metr\u00f3poles\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"container\">\n<div class=\"content\">\n<p>O\u00a0<span class=\"markup\">Metr\u00f3poles<\/span>\u00a0reconstituiu a hist\u00f3ria de um registro feito em cart\u00f3rio h\u00e1 mais de 70 anos que ajuda a entender como foi produzida a titula\u00e7\u00e3o de terras do agroneg\u00f3cio no oeste da Bahia. O enredo teve in\u00edcio em Santa Maria da Vit\u00f3ria (BA) no dia 10 de abril de 1945, data da conclus\u00e3o do invent\u00e1rio de um homem chamado Tim\u00f3teo Flor\u00eancio de Barros. Na burocracia oficial, o documento da heran\u00e7a desse cidad\u00e3o ficou conhecido como Matr\u00edcula 2280.<\/p>\n<p>As anota\u00e7\u00f5es feitas em 1945 pelo cart\u00f3rio serviram de lastro para a apropria\u00e7\u00e3o, por empres\u00e1rios ruralistas, de quase 600 mil hectares. A partir das indica\u00e7\u00f5es de quatro im\u00f3veis deixados como heran\u00e7a por Flor\u00eancio de Barros, fazendeiros conseguiram assegurar a posse desses latif\u00fandios na Justi\u00e7a e nos cart\u00f3rios.<\/p>\n<p>No Cart\u00f3rio de Registro de Im\u00f3veis de Santa Maria da Vit\u00f3ria, a 50km de Correntina, h\u00e1 uma c\u00f3pia da Certid\u00e3o de Inteiro Teor dos bens de Flor\u00eancio de Barros, a citada Matr\u00edcula 2280.<\/p>\n<p>Sem recursos tecnol\u00f3gicos adequados em meados do s\u00e9culo passado, os per\u00edmetros das propriedades eram imprecisos e, na maioria das vezes, marcados em raz\u00e3o da geografia ou de benfeitorias realizadas no terreno. Nesse contexto, a certid\u00e3o de 1945 guarda poucas refer\u00eancias sobre as fra\u00e7\u00f5es dos terrenos pertencentes ao falecido transmitidas aos herdeiros. Juntas, na moeda da \u00e9poca, as cotas de heran\u00e7a foram avaliadas em Cr$106,70.<\/p>\n<h2><img decoding=\"async\" class=\"loading\" title=\"O Raio X\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap2-raio-x.png\" alt=\"\" data-was-processed=\"true\" \/><\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"hidden-desktop\">\n<div class=\"galeria-padrao galeria-2 galeria-infograficos\">\n<div class=\"swiper-container swiper-container-horizontal\">\n<div class=\"swiper-wrapper\">\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"0\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap2\/conteudo-01.png\" \/><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"1\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" 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class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"5\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap2\/conteudo-06.png\" \/><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"6\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap2\/conteudo-07.png\" \/><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"7\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap2\/conteudo-08.png\" \/><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"8\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" 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class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"7\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap2\/conteudo-08.png\" \/><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"8\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap2\/conteudo-09.png\" \/><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"9\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap2\/conteudo-10.png\" \/><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate-prev swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"10\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap2\/conteudo-11.png\" \/><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-pagination swiper-pagination-bullets\"><\/div>\n<div class=\"button-next\"><\/div>\n<div class=\"button-prev\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"container\">\n<div class=\"content\">\n<p>Em 2011, o governo da Bahia constatou que as terras tituladas com base no registro de 1945 extrapolam os limites de Correntina e espalham-se tamb\u00e9m pelos munic\u00edpios de Santa Maria da Vit\u00f3ria, Coribe e Jaborandi. A descoberta foi feita por uma A\u00e7\u00e3o Discriminat\u00f3ria Administrativa Rural, o instrumento legal usado pelo estado para identificar terras devolutas. De acordo com a CPT, a Fazenda da Igarashi invadida no ano passado tem os documentos originados nesse invent\u00e1rio.<\/p>\n<p>A Associa\u00e7\u00e3o dos Irrigantes da Bahia (Aiba) defendeu os fazendeiros em carta enviada no mesmo ano ao Tribunal de Justi\u00e7a do Estado da Bahia (TJBA). \u201cEvidente e indubit\u00e1vel a exist\u00eancia de boa-f\u00e9 nos neg\u00f3cios jur\u00eddicos realizados pelos propriet\u00e1rios e sucessores\u201d, diz o documento, referindo-se aos detentores de t\u00edtulos derivados da Matr\u00edcula 2280.<\/p>\n<p>Na mesma carta, a Aiba ressalta os \u201cvultosos investimentos, financiamentos, empregos e impostos\u201d, geradores de \u201cdesenvolvimento econ\u00f4mico e social\u201d no oeste da Bahia, proporcionados pelos ruralistas que compraram os pap\u00e9is contestados pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico.<\/p>\n<p>Perguntada pela reportagem sobre a consist\u00eancia dos documentos de posse ligados \u00e0 Matr\u00edcula 2280, a Lavoura e Pecu\u00e1ria Igarashi disse ser \u201ca leg\u00edtima propriet\u00e1ria\u201d do im\u00f3vel invadido em novembro de 2017. \u201cConforme a seguran\u00e7a jur\u00eddica do registro p\u00fablico imobili\u00e1rio e da lei em rela\u00e7\u00e3o ao seu direito de propriedade\u201d, acrescentou. Ao\u00a0<span class=\"markup\">Metr\u00f3poles<\/span>, a empresa afirmou ainda que atende \u00e0 fun\u00e7\u00e3o social da fazenda ao atuar na \u201cprodu\u00e7\u00e3o de alimentos destinados aos brasileiros\u201d.<\/p>\n<p>Dona da Fazenda Passagem Funda, mesmo nome de propriedades originais da Matr\u00edcula 2280, a Companhia de Integra\u00e7\u00e3o Florestal afirma que essa \u00e9 designa\u00e7\u00e3o de uma regi\u00e3o e que se trata de um \u201chom\u00f4nimo\u201d. \u201cA nossa \u00e1rea possui matr\u00edcula, registro e toda documenta\u00e7\u00e3o que a legaliza, n\u00e3o sendo objeto de qualquer disputa qualquer\u201d, declarou a empresa.<\/p>\n<p>Espremidas pela agroind\u00fastria, as antigas fam\u00edlias de posseiros perderam \u00e1reas usadas como fechos de pasto por algumas gera\u00e7\u00f5es. Inicialmente, defendiam-se com a derrubada de cercas e a\u00e7\u00f5es como o fechamento do canal em 2000.<\/p>\n<\/div>\n<picture><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap2-foto1.jpg\" media=\"(min-width: 1024px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap2-foto1.jpg\" media=\"(min-width: 768px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap2-foto1.jpg\" media=\"(min-width: 468px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap2-foto1.jpg\" media=\"(min-width: 320px)\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"loading\" title=\"Foto: Michael Melo\/Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap2-foto1.jpg\" alt=\"Geraizeiros a cavalo posam para fotos feitas com c\u00e2mera transportada por drone. Foto: Michael Melo\/Metr\u00f3poles\" width=\"960\" height=\"604\" data-was-processed=\"true\" \/><\/picture>\n<div class=\"credito\">Geraizeiros a cavalo posam para fotos feitas com c\u00e2mera transportada por drone. Foto: Michael Melo\/Metr\u00f3poles<\/div>\n<div class=\"content\">\n<p>Aos poucos, os ribeirinhos come\u00e7aram tamb\u00e9m a buscar recursos na legisla\u00e7\u00e3o para tentar manter as \u00e1reas coletivas. A princ\u00edpio, tiveram o amparo da Lei Estadual n\u00ba 3.038, de 1972, que estabelece a prefer\u00eancia dos posseiros nas medi\u00e7\u00f5es das terras p\u00fablicas que ocupam.<\/p>\n<p>Desde a promulga\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, os ribeirinhos conquistaram outros argumentos jur\u00eddicos para permanecer nas terras de uso comum. De acordo com o artigo 215 da Carta Magna, o Estado brasileiro deve proteger as \u201cmanifesta\u00e7\u00f5es das culturas populares, ind\u00edgenas e afro-brasileiras, e de outros grupos participantes do processo civilizat\u00f3rio nacional\u201d. Nesse sentido, a Uni\u00e3o \u00e9 obrigada a zelar pelos \u201cmodos de criar, fazer e viver\u201d.<\/p>\n<blockquote><p><img decoding=\"async\" class=\"separate loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/divider.png\" alt=\"Separador\" data-was-processed=\"true\" \/>De acordo com o artigo 215 da Carta Magna, o Estado brasileiro deve proteger as \u201cmanifesta\u00e7\u00f5es das culturas populares, ind\u00edgenas e afro-brasileiras, e de outros grupos participantes do processo civilizat\u00f3rio nacional\u201d<img decoding=\"async\" class=\"separate loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/divider.png\" alt=\"Separador\" data-was-processed=\"true\" \/><\/p><\/blockquote>\n<p>Promulgada em 1989, a Constitui\u00e7\u00e3o Estadual da Bahia reconheceu o direito das associa\u00e7\u00f5es de posseiros na concess\u00e3o de uso das \u00e1reas de fechos de pasto, denomina\u00e7\u00e3o exclusiva das comunidades baianas.<\/p>\n<p>O Decreto n\u00ba 6040, de 2007, assinado pelo ent\u00e3o presidente, Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, representa mais um passo em favor dos ribeirinhos e institucionalizou o conceito de comunidades tradicionais: \u201cGrupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, que possuem formas pr\u00f3prias de organiza\u00e7\u00e3o social, que ocupam e usam territ\u00f3rios e recursos naturais como condi\u00e7\u00e3o para sua reprodu\u00e7\u00e3o cultural, social, religiosa, ancestral e econ\u00f4mica\u201d.<\/p>\n<p>Por fim, a Lei Estadual n\u00b0 12.910, de 2013, autoriza a concess\u00e3o do direito real de uso \u00e0s comunidades de fundos e fechos de pasto em terras devolutas. Para tanto, as posses devem preencher condi\u00e7\u00f5es como utilidade coletiva e produ\u00e7\u00e3o familiar. Os beneficiados precisam, tamb\u00e9m, autodeclarar-se integrantes das antigas popula\u00e7\u00f5es dos gerais.<\/p>\n<picture><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap2-foto2.jpg\" media=\"(min-width: 1024px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap2-foto2.jpg\" media=\"(min-width: 768px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap2-foto2.jpg\" media=\"(min-width: 468px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap2-foto2.jpg\" media=\"(min-width: 320px)\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"loaded\" title=\"Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap2-foto2.jpg\" alt=\"Ribeirinha acena com pano para o gado solto no Cerrado. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" width=\"960\" height=\"604\" data-was-processed=\"true\" \/><\/picture>\n<div class=\"credito\">Ribeirinha acena com pano para o gado solto no Cerrado. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles<\/div>\n<p>Fundos de pasto s\u00e3o \u00e1reas semelhantes aos fechos, mas recebem essa denomina\u00e7\u00e3o quando ficam cont\u00edguas ao terreno onde os geraizeros constroem casas para morar com a fam\u00edlia. A maior parte do ano, eles vivem nas beiras dos rios.<\/p>\n<p>Com a legisla\u00e7\u00e3o nas m\u00e3os, os ribeirinhos do Arrojado buscam regularizar suas terras. Aos poucos, as associa\u00e7\u00f5es de posseiros obt\u00eam certificados de concess\u00e3o de uso de suas \u00e1reas. Levantam-se, ao mesmo tempo, contra a expans\u00e3o das grandes fazendas no Cerrado.<\/p>\n<p>Se perderem os espa\u00e7os conquistados pelas antigas gera\u00e7\u00f5es, estar\u00e3o extintas as tradi\u00e7\u00f5es dos geraizeiros. O modo de vida dos ribeirinhos do Rio Arrojado e as comunidades de fecho de pasto s\u00e3o tema da terceira, e \u00faltima, parte desta reportagem.<\/p>\n<h2><img decoding=\"async\" class=\"loading\" title=\"A ocupa\u00e7\u00e3o\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap2-a-ocupacao.png\" alt=\"A ocupa\u00e7\u00e3o\" data-was-processed=\"true\" \/><\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"hidden-desktop\">\n<div class=\"galeria-padrao galeria-2 galeria-infograficos\">\n<div class=\"swiper-container swiper-container-horizontal\">\n<div class=\"swiper-wrapper\">\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"0\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap2\/1.png\" \/><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"1\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap2\/2.png\" \/><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"2\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap2\/3.png\" \/><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"3\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap2\/4.png\" \/><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"4\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap2\/5.png\" \/><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate-prev swiper-slide-duplicate swiper-slide-prev\" data-swiper-slide-index=\"5\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" class=\"loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap2\/6.png\" data-was-processed=\"true\" \/><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-active\" data-swiper-slide-index=\"0\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" class=\"loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap2\/1.png\" data-was-processed=\"true\" \/><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-next\" data-swiper-slide-index=\"1\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" class=\"loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap2\/2.png\" data-was-processed=\"true\" \/><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide\" data-swiper-slide-index=\"2\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap2\/3.png\" \/><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide\" data-swiper-slide-index=\"3\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap2\/4.png\" \/><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide\" data-swiper-slide-index=\"4\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap2\/5.png\" \/><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate-prev\" data-swiper-slide-index=\"5\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" 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swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"3\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap2\/4.png\" \/><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"4\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap2\/5.png\" \/><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate-prev swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"5\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap2\/6.png\" \/><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-pagination swiper-pagination-bullets\"><\/div>\n<div class=\"button-next\"><\/div>\n<div class=\"button-prev\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"cap3\" class=\"container\">\n<div class=\"content-abre\"><img decoding=\"async\" class=\"separate loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/divider.png\" alt=\"Separador\" data-was-processed=\"true\" \/><\/div>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"hidden-desktop loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-abre.png\" alt=\"\" data-was-processed=\"true\" \/><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container\">\n<div class=\"content\">\n<p class=\"first-paragraph\">Os geraizeiros t\u00eam vida dupla. Durante a maior parte do ano, os homens labutam com as fam\u00edlias nas casas pr\u00f3ximas aos rios e c\u00f3rregos. Uma vez por semestre, por\u00e9m, passam algumas semanas sem as mulheres, acampados em cabanas r\u00fasticas nos fechos de pasto.<\/p>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o de levar o gado para os gerais no final e no in\u00edcio do per\u00edodo de chuvas determina o modo de vida dos ribeirinhos no oeste baiano. Essa pr\u00e1tica permite poupar o capim plantado nos vales \u00famidos para os meses de seca.<\/p>\n<p>Juscelino Santos Brito, apresentado na primeira parte da reportagem, mora com a m\u00e3e e alguns parentes na terra da fam\u00edlia, localizada nas barrancas do Rio Arrojado. Sexagen\u00e1rio, mant\u00e9m uma ro\u00e7a perto da casa, faz rapadura e cacha\u00e7a para vender. \u201cMeu pai e o pai dele nasceram aqui. Ent\u00e3o, penso que tenho direito de resistir nesse territ\u00f3rio\u201d, afirma o agricultor, presidente da Associa\u00e7\u00e3o Ambiental de Preserva\u00e7\u00e3o dos Pequenos Criadores de Brejo Verde.<\/p>\n<picture><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-foto1.jpg\" media=\"(min-width: 1024px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-foto1.jpg\" media=\"(min-width: 768px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-foto1.jpg\" media=\"(min-width: 468px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-foto1.jpg\" media=\"(min-width: 320px)\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"loading\" title=\"Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-foto1.jpg\" alt=\"A fam\u00edlia de Juscelino Brito (segundo da dir. para a esq.) no fundo da casa em Brejo Verde. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" width=\"960\" height=\"604\" data-was-processed=\"true\" \/><\/picture>\n<div class=\"credito\">A fam\u00edlia de Juscelino Brito (segundo da dir. para a esq.) no fundo da casa em Brejo Verde. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles<\/div>\n<p>Duas vezes ao ano, Brito leva o gado para os fechos de pasto, como todos os vizinhos. Nessas ocasi\u00f5es, os homens cuidam das cria\u00e7\u00f5es assim como fizeram seus pais, av\u00f4s e, em muitos casos, at\u00e9 bisav\u00f4s e trisav\u00f4s. Com abnega\u00e7\u00e3o, dias a fio, campeiam a cavalo para n\u00e3o deixar bois e vacas fugirem pelos milhares de hectares que somem no horizonte, sem cercas nem porteiras. Tamb\u00e9m tratam animais doentes e socorrem bichos atolados nas veredas.<\/p>\n<p>Os fechos de pasto, de modo geral, s\u00e3o controlados por uma fam\u00edlia de ribeirinhos, mas agregam vizinhos e amigos. Para n\u00e3o ficar longe de suas casas por muito tempo, os geraizeiros revezam-se na lida e uns zelam as reses dos outros. Assim, praticam trabalho coletivo.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"parallax-fake hidden-desktop\">\n<div class=\"bg quarto-bg-1\" title=\"Fotos: Michael Melo \/ Metr\u00f3poles\"><\/div>\n<div class=\"bg quarto-bg-2\" title=\"Fotos: Michael Melo \/ Metr\u00f3poles\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"container\">\n<div class=\"content\">\n<p>A coloniza\u00e7\u00e3o do munic\u00edpio de Correntina teve in\u00edcio no s\u00e9culo 18 com atividades de garimpo nos currais em torno do Rio S\u00e3o Francisco. Nessa \u00e9poca, tamb\u00e9m chegaram fam\u00edlias fugidas da seca ou de conflitos em outras regi\u00f5es do Nordeste. Como aconteceu em grande parte do Brasil, o aparecimento dos exploradores de fora representou o sufocamento da cultura ind\u00edgena local.<\/p>\n<p>A abund\u00e2ncia de \u00e1gua e terras f\u00e9rteis fixou os antepassados dos atuais ribeirinhos nos vales do oeste baiano. Com o tempo, eles descobriram a riqueza da vegeta\u00e7\u00e3o do Cerrado e adotaram o sistema de fecho de pasto, que perdura at\u00e9 hoje. Apesar da press\u00e3o dos grandes fazendeiros, a pr\u00e1tica se mant\u00e9m viva.<\/p>\n<picture><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-info.jpg\" media=\"(min-width: 1024px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-info.jpg\" media=\"(min-width: 768px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-info.jpg\" media=\"(min-width: 468px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-info.jpg\" media=\"(min-width: 320px)\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-info.jpg\" alt=\"Foto exemplo\" width=\"960\" height=\"604\" data-was-processed=\"true\" \/><\/picture>Em qualquer \u00e9poca do ano, os geraizeiros recorrem \u00e0 vegeta\u00e7\u00e3o nativa e extraem madeira e frutas silvestres, complementos importantes para os recursos das beiras dos rios. Durante dois s\u00e9culos, a baixa densidade demogr\u00e1fica e esse modo de vida mantiveram o Cerrado de p\u00e9.<\/p>\n<p>Convidado pelos ribeirinhos a conhecer mais sobre a cultura dos geraizeiros, o\u00a0<span class=\"markup\">Metr\u00f3poles<\/span>\u00a0esteve em um dos fechos de pasto usados h\u00e1 mais de um s\u00e9culo por moradores do Rio Arrojado. Fincados no ch\u00e3o e separados por poucos metros, postes de eucalipto cortados ao meio acompanham alguns quil\u00f4metros do caminho. S\u00e3o marcas de uma cerca derrubada pelos posseiros.<\/p>\n<picture class=\"right\"><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-foto2.jpg\" media=\"(min-width: 1024px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-foto2.jpg\" media=\"(min-width: 768px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-foto2.jpg\" media=\"(min-width: 468px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-foto2.jpg\" media=\"(min-width: 320px)\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"loaded\" title=\"Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-foto2.jpg\" alt=\"Jo\u00e3o de Tarto: quatro gera\u00e7\u00f5es na mesma \u00e1rea do Cerrado. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" width=\"960\" height=\"604\" data-was-processed=\"true\" \/><\/picture>\n<div class=\"credito\">Jo\u00e3o de Tarto: quatro gera\u00e7\u00f5es na mesma \u00e1rea do Cerrado. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles<\/div>\n<p>A visita foi ao Fecho do Tarto, posse da mesma fam\u00edlia h\u00e1 quatro gera\u00e7\u00f5es. \u201cMeu pai veio para c\u00e1 chamado pelo sogro dele, meu av\u00f4, que j\u00e1 estava aqui\u201d, conta Jo\u00e3o de Abreu e Silva, o Jo\u00e3o de Tarto.<\/p>\n<p>A rotina dos homens gira em torno de uma cabana pr\u00f3xima ao riacho que corre por uma vereda. Sem paredes e com teto de telha tipo Eternit, abriga camas r\u00fasticas de madeira, cobertas com len\u00e7\u00f3is e colch\u00f5es surrados.<\/p>\n<p>As refei\u00e7\u00f5es s\u00e3o preparadas em fog\u00f5es a lenha ou fogueiras acesas no ch\u00e3o. Na visita do\u00a0<span class=\"markup\">Metr\u00f3poles<\/span>, o card\u00e1pio foi arroz, feij\u00e3o, carne de gado, galinha cozida e pa\u00e7oca, tudo com grande fartura.<\/p>\n<p>Na tradi\u00e7\u00e3o dos geraizeiros, as conversas seguem noite adentro. As cantorias e a cacha\u00e7a temperada com plantas do Cerrado animam o ambiente tranquilo. Nessas ocasi\u00f5es, os mais velhos contam casos e repassam para os mais novos o que viveram naquele mundo.<\/p>\n<div class=\"galeria-padrao galeria-1\">\n<div class=\"swiper-container swiper-container-horizontal\">\n<div class=\"swiper-wrapper\">\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"1\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" class=\"loading\" title=\"Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap3\/FOTO02.JPG\" data-was-processed=\"true\" \/><span class=\"credito\">Hora do almo\u00e7o: refei\u00e7\u00f5es s\u00e3o feitas em cabana r\u00fastica. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"2\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" title=\"Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap3\/FOTO03.JPG\" \/><span class=\"credito\">O fac\u00e3o \u00e9 ferramenta imprescind\u00edvel para a labuta dos pequenos agricultores. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"3\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" title=\"Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap3\/FOTO04.JPG\" \/><span class=\"credito\">Depois do almo\u00e7o, homem acende um cigarro. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"4\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" title=\"Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap3\/FOTO05.JPG\" \/><span class=\"credito\">Crian\u00e7as nadam em vereda na \u00e1rea rural de Correntina. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate-prev swiper-slide-duplicate swiper-slide-prev\" data-swiper-slide-index=\"5\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" class=\"loading\" title=\"Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap3\/FOTO06.JPG\" data-was-processed=\"true\" \/><span class=\"credito\">Geraizeiros tangem o gado em descampado no Cerrado. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-active\" data-swiper-slide-index=\"0\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" title=\"Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles' class=\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap3\/FOTO01.JPG\" data-was-processed=\"true\" \/><span class=\"credito\">Geraizeiro prepara comida no fecho de pasto de Jo\u00e3o de Tarto. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-next\" data-swiper-slide-index=\"1\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" class=\"loading\" title=\"Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap3\/FOTO02.JPG\" data-was-processed=\"true\" \/><span class=\"credito\">Hora do almo\u00e7o: refei\u00e7\u00f5es s\u00e3o feitas em cabana r\u00fastica. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide\" data-swiper-slide-index=\"2\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" title=\"Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap3\/FOTO03.JPG\" \/><span class=\"credito\">O fac\u00e3o \u00e9 ferramenta imprescind\u00edvel para a labuta dos pequenos agricultores. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide\" data-swiper-slide-index=\"3\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" title=\"Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap3\/FOTO04.JPG\" \/><span class=\"credito\">Depois do almo\u00e7o, homem acende um cigarro. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide\" data-swiper-slide-index=\"4\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" title=\"Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap3\/FOTO05.JPG\" \/><span class=\"credito\">Crian\u00e7as nadam em vereda na \u00e1rea rural de Correntina. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate-prev\" data-swiper-slide-index=\"5\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" title=\"Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap3\/FOTO06.JPG\" \/><span class=\"credito\">Geraizeiros tangem o gado em descampado no Cerrado. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"0\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" title=\"Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles' class=\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap3\/FOTO01.JPG\" data-was-processed=\"true\" \/><span class=\"credito\">Geraizeiro prepara comida no fecho de pasto de Jo\u00e3o de Tarto. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"1\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" class=\"loading\" title=\"Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap3\/FOTO02.JPG\" data-was-processed=\"true\" \/><span class=\"credito\">Hora do almo\u00e7o: refei\u00e7\u00f5es s\u00e3o feitas em cabana r\u00fastica. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"2\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" title=\"Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap3\/FOTO03.JPG\" \/><span class=\"credito\">O fac\u00e3o \u00e9 ferramenta imprescind\u00edvel para a labuta dos pequenos agricultores. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"3\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" title=\"Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap3\/FOTO04.JPG\" \/><span class=\"credito\">Depois do almo\u00e7o, homem acende um cigarro. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-slide swiper-slide-duplicate\" data-swiper-slide-index=\"4\">\n<div class=\"bloco-img\"><img decoding=\"async\" title=\"Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/galeria\/cap3\/FOTO05.JPG\" \/><span class=\"credito\">Crian\u00e7as nadam em vereda na \u00e1rea rural de Correntina. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"swiper-pagination swiper-pagination-bullets\"><\/div>\n<div class=\"button-next\"><\/div>\n<div class=\"button-prev\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>O gado fica solto nos gerais e bebe \u00e1gua nos riachos. Currais simples, cercados de arame farpado e madeira r\u00fastica, facilitam o manejo das cria\u00e7\u00f5es. Apenas homens frequentam os fechos de pasto. Mas algumas mulheres, \u00e0s vezes, os acompanham. \u201cEu n\u00e3o costumava vir, a cultura daqui \u00e9 muito machista, mas percebi que n\u00e3o precisa ser assim e, de uns anos para c\u00e1, de vez em quando venho junto\u201d, diz Aliene Barbosa e Silva, 38 anos, uma das presentes<\/p>\n<p>Filha de Jo\u00e3o de Tarto e m\u00e3e de tr\u00eas filhos, ela \u00e9 funcion\u00e1ria de uma escola municipal e, nos \u00faltimos anos, engajou-se na luta dos posseiros.<\/p>\n<picture><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-foto3.jpg\" media=\"(min-width: 1024px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-foto3.jpg\" media=\"(min-width: 768px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-foto3.jpg\" media=\"(min-width: 468px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-foto3.jpg\" media=\"(min-width: 320px)\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"loading\" title=\"Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-foto3.jpg\" alt=\"Aline Barbosa lava vasilhas na vereda: presen\u00e7a de mulheres \u00e9 rara nos fechos de pasto. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" width=\"960\" height=\"604\" data-was-processed=\"true\" \/><\/picture>\n<div class=\"credito\">Aline Barbosa lava vasilhas na vereda: presen\u00e7a de mulheres \u00e9 rara nos fechos de pasto. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles<\/div>\n<p>Aliene comparece a reuni\u00f5es das comunidades, participa de manifesta\u00e7\u00f5es e atua na conscientiza\u00e7\u00e3o das ribeirinhas sobre a import\u00e2ncia das causas feministas e da preserva\u00e7\u00e3o da cultura dos geraizeiros. \u201cPara muitas mulheres, seria at\u00e9 melhor que os fechos de pasto acabassem, porque elas ficam muito preocupadas com os maridos longe de casa\u201d, explica Aliene, moradora do povoado Grilo.<\/p>\n<p>Presidente da Associa\u00e7\u00e3o Gado Bravo a Lodo, outra agremia\u00e7\u00e3o de ribeirinhos do Arrojado, Jamilton Santos de Magalh\u00e3es milita em favor da preserva\u00e7\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote><p><img decoding=\"async\" class=\"separate loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/divider.png\" alt=\"Separador\" data-was-processed=\"true\" \/>\u201cEsse \u00e9 um modo de vida que deu certo por muito tempo e est\u00e1 se extinguindo. Se o povo n\u00e3o tivesse reagido, j\u00e1 teria acabado\u201d, afirma.<img decoding=\"async\" class=\"separate loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/divider.png\" alt=\"Separador\" data-was-processed=\"true\" \/><\/p><\/blockquote>\n<p>Magalh\u00e3es pertence a uma numerosa fam\u00edlia de agricultores e gosta de conversar com os mais velhos sobre os tempos passados. Ele busca preservar os conhecimentos regionais sobre a natureza, particularmente os que dizem respeito a plantas medicinais.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia de Magalh\u00e3es faz doces para vender em Correntina. Duas vezes por semana, centenas de ribeirinhos comercializam produtos de suas terras em feiras da cidade. Os moradores da regi\u00e3o levam frutas, verduras, legumes e queijos. Apesar da falta de \u00e1gua, os vales do munic\u00edpio proporcionam fartura de comida para a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<picture><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-foto8.jpg\" media=\"(min-width: 1024px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-foto8.jpg\" media=\"(min-width: 768px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-foto8.jpg\" media=\"(min-width: 468px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-foto8.jpg\" media=\"(min-width: 320px)\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"loaded\" title=\"Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-foto8.jpg\" alt=\"Jamilton Magalh\u00e3es e o tacho de doce: modo de vida que deu certo. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" width=\"960\" height=\"604\" data-was-processed=\"true\" \/><\/picture>\n<div class=\"credito\">Jamilton Magalh\u00e3es e o tacho de doce: modo de vida que deu certo. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles<\/div>\n<p>Na prepara\u00e7\u00e3o e na venda dos produtos, a participa\u00e7\u00e3o feminina \u00e9 grande. A presen\u00e7a de mulheres nas mobiliza\u00e7\u00f5es dos ribeirinhos desenvolve-se com mais for\u00e7a nos povoados das margens do Arrojado. Nessas comunidades, desde crian\u00e7as, as pessoas se banham nas \u00e1guas cristalinas do rio. Por\u00e9m, nos \u00faltimos anos, a queda na vaz\u00e3o h\u00eddrica impede a popula\u00e7\u00e3o de desfrutar, como antigamente, dos po\u00e7os e corredeiras nos fundos de suas casas.<\/p>\n<p>\u00c0s v\u00e9speras da invas\u00e3o da Igarashi, os moradores de S\u00e3o Manoel do Norte perceberam que, antes encobertas, forma\u00e7\u00f5es de pedras do leito do rio apareciam na superf\u00edcie \u2013 sinal de que o n\u00edvel baixara um pouco mais. A redu\u00e7\u00e3o brusca da \u00e1gua provocou o protesto de 2017.<\/p>\n<p>Ativa na prepara\u00e7\u00e3o da manifesta\u00e7\u00e3o, a comerciante Sidneia Andrade da Silva, pertence \u00e0 segunda gera\u00e7\u00e3o que confronta os projetos dos fazendeiros. Moradora de S\u00e3o Manoel do Norte, ela \u00e9 filha de Hor\u00e1cio Andrade, que, em 2000, participou do fechamento do canal irregular, mostrado na primeira parte da reportagem.<\/p>\n<blockquote><p><img decoding=\"async\" class=\"separate loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/divider.png\" alt=\"Separador\" data-was-processed=\"true\" \/>\u201cN\u00e3o podemos desistir da nossa luta, todos dependem da \u00e1gua\u201d, diz.<img decoding=\"async\" class=\"separate loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/divider.png\" alt=\"Separador\" data-was-processed=\"true\" \/><\/p><\/blockquote>\n<p>Dalvina Magalh\u00e3es Dourado, 81 anos, e o marido, Jos\u00e9 Francisco Dourado, seu Deca, 88, contemplam com nostalgia os efeitos cru\u00e9is da escassez h\u00eddrica no quintal de casa. Buritis plantados h\u00e1 oito d\u00e9cadas morreram na vereda atr\u00e1s do engenho de cana.<\/p>\n<p>H\u00e1 quatro anos, o casal tamb\u00e9m viu secar o estreito canal que desviava \u00e1gua do rio, irrigava o quintal e passava na porta da cozinha da casa. \u201cO rego [riacho formado pelas \u00e1guas da chuva] come\u00e7ou a desaparecer depois de uma firma montar carvoaria aqui perto\u201d, afirma Dourado.<\/p>\n<picture><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-foto9.jpg\" media=\"(min-width: 1024px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-foto9.jpg\" media=\"(min-width: 768px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-foto9.jpg\" media=\"(min-width: 468px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-foto9.jpg\" media=\"(min-width: 320px)\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"loaded\" title=\"Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-foto9.jpg\" alt=\"Dalvina, Seu Deca e o filho Joaquim sentados no rego sem \u00e1gua nos fundos da casa. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" width=\"960\" height=\"604\" data-was-processed=\"true\" \/><\/picture>\n<div class=\"credito\">Dalvina, Seu Deca e o filho Joaquim sentados no rego sem \u00e1gua nos fundos da casa. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles<\/div>\n<p>Esses canais, de mais ou menos meio metro de largura, s\u00e3o o sistema mais comum de irriga\u00e7\u00e3o das pequenas propriedades no Vale do Arrojado. Serpenteiam pelos fundos das casas, alguns com at\u00e9 10 quil\u00f4metros, e molham \u00e1rvores frut\u00edferas e pequenas lavouras pr\u00f3ximas ao rio.<\/p>\n<p>Mesmo no final do per\u00edodo de chuvas, em janeiro, boa parte dos canais deixou de irrigar a terra dos agricultores familiares. Os pomares morrem nessas condi\u00e7\u00f5es. Na paisagem dos vales, as mangueiras secam \u00e0 beira dos canais sem \u00e1gua.<\/p>\n<p>Desde a inf\u00e2ncia, como todos os homens do vale, Dourado aprendeu a cavalgar at\u00e9 40 quil\u00f4metros para chegar ao fecho de pasto da fam\u00edlia. Passava dias e noites no lombo de cavalo, sob o sol e o c\u00e9u de estrelas. Nessa toada, desfrutou em plenitude a tradi\u00e7\u00e3o dos geraizeiros: ca\u00e7ava, pescava e vivia ao ar livre.<\/p>\n<p>Nos \u00e1ureos tempos, a fartura de mantimentos produzidos na posse foi suficiente para criar os 17 filhos do casal. Dessa prole, 14 mudaram-se das terras da fam\u00edlia. A maioria foi para Bras\u00edlia, em busca de oportunidades melhores de trabalho.<\/p>\n<p>Dourado e a esposa colhiam at\u00e9 60 sacos de arroz anualmente. Atualmente, compram o produto na cidade. No passado, tamb\u00e9m plantavam mandioca, caf\u00e9, banana, abacate e laranja. A moagem da cana tomava tr\u00eas meses do ano. Hoje, apenas alguns frutos ainda restam no quintal.<\/p>\n<blockquote><p><img decoding=\"async\" class=\"separate loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/divider.png\" alt=\"Separador\" data-was-processed=\"true\" \/>\u201cAgora n\u00e3o tem mais \u00e1gua, n\u00e3o chove mais\u201d, lamentam.<img decoding=\"async\" class=\"separate loading\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/divider.png\" alt=\"Separador\" data-was-processed=\"true\" \/><\/p><\/blockquote>\n<p>Os inc\u00f4modos come\u00e7aram quando um vizinho vendeu as terras para um fazendeiro de outro estado. O ruralista mandou derrubar cercas e devastar o Cerrado. A perfura\u00e7\u00e3o de po\u00e7os artesianos fez as \u00e1guas baixarem, conclui o ribeirinho.<\/p>\n<p>Enquanto observa as terras onde passou a vida inteira, o velho agricultor manifesta seu estado de esp\u00edrito diante do rego seco e das \u00e1rvores sem frutos no quintal: \u201cTenho d\u00f3 de vender este lugar. Todo o esfor\u00e7o que fiz \u00e9 para deixar isso aqui para os netos\u201d, diz Dourado. Para alegria dele e da esposa, mesmo os descendentes que moram longe passam com frequ\u00eancia os fins de semana na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m morador das margens do Arrojado, Balbino de Castro e Silva, 67 anos, sofre as consequ\u00eancias da redu\u00e7\u00e3o da \u00e1gua no munic\u00edpio de Correntina. No fundo de sua casa, na barranca do rio, uma roda d\u2019\u00e1gua repousa sem uso h\u00e1 tr\u00eas anos, porque a correnteza baixou de n\u00edvel e n\u00e3o alcan\u00e7a mais o equipamento usado para irrigar as pequenas lavouras e o quintal do agricultor.<\/p>\n<picture><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-foto10.jpg\" media=\"(min-width: 1024px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-foto10.jpg\" media=\"(min-width: 768px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-foto10.jpg\" media=\"(min-width: 468px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-foto10.jpg\" media=\"(min-width: 320px)\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"loaded\" title=\"Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-foto10.jpg\" alt=\"Balbino e a roda d\u2019\u00e1gua de quase dois s\u00e9culos: com o rio baixo, equipamento n\u00e3o funciona mais. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" width=\"960\" height=\"604\" data-was-processed=\"true\" \/><\/picture>\n<div class=\"credito\">Balbino e a roda d\u2019\u00e1gua de quase dois s\u00e9culos: com o rio baixo, equipamento n\u00e3o funciona mais. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles<\/div>\n<p>\u201cDeve ter quase 200 anos, pois foi constru\u00edda pelo meu bisav\u00f4\u201d, diz Silva, sobre a roda d\u2019\u00e1gua. Trata-se de uma pe\u00e7a feita de madeira de lei e montada com maestria pelo antepassado do ribeirinho. Em quase dois s\u00e9culos de exist\u00eancia, enquanto o Arrojado permaneceu cheio, a instala\u00e7\u00e3o manteve-se em atividade.<\/p>\n<p>Muito comum no interior do Brasil, esse tipo de roda funciona com a for\u00e7a de rios. A correnteza toca na extremidade inferior do equipamento e, ao mesmo tempo que o faz girar, enche de \u00e1gua compartimentos semelhantes a baldes, que abastecem um sistema de canos usado na irriga\u00e7\u00e3o das lavouras. \u201cAgora, com tudo seco, a gente tem vontade de trabalhar, mas n\u00e3o tem como\u201d, lamenta o agricultor.<\/p>\n<picture><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-foto11.gif\" media=\"(min-width: 1024px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-foto11.gif\" media=\"(min-width: 768px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-foto11.gif\" media=\"(min-width: 468px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-foto11.gif\" media=\"(min-width: 320px)\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"loaded\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-foto11.gif\" alt=\"Foto exemplo\" width=\"600\" height=\"604\" data-was-processed=\"true\" \/><\/picture>Silva, Magalh\u00e3es, o casal Dourado, Tarto e a filha representam o modo antigo de conviver com a terra e a natureza. O desenvolvimento levado para a regi\u00e3o pelas grandes empresas inviabiliza as pr\u00e1ticas tradicionais e, embora proporcione empregos e renda, provoca riscos ambientais e desperta preocupa\u00e7\u00f5es em toda a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 autoridades, como o prefeito de Correntina, que defendem a presen\u00e7a do agroneg\u00f3cio, mas temem os efeitos da irriga\u00e7\u00e3o nos rios e no len\u00e7ol fre\u00e1tico. \u201cAinda n\u00e3o sabemos o impacto das lavouras, precisamos de mais estudos, mas a chuva tamb\u00e9m diminuiu muito nos \u00faltimos anos\u201d, diz Nilson Rodrigues, tamb\u00e9m ribeirinho do Arrojado.<\/p>\n<p>No final de janeiro deste ano, a equipe de reportagem esteve na casa de Jo\u00e3o Barbosa Magalh\u00e3es, 90 anos, morador da comunidade de Brejo Verde. Sentado na varanda, Jo\u00e3o Nego, como \u00e9 conhecido, conversou por quase duas horas sobre sua longa viv\u00eancia no Vale do Arrojado e nos fechos de pasto. \u201cEu tinha 7 anos quando fui pela primeira vez para os gerais. A viagem a cavalo levava dois dias. De l\u00e1 para c\u00e1, vou sempre. Ent\u00e3o, s\u00e3o 87 anos que ando por a\u00ed. N\u00e3o tem lugar que eu n\u00e3o conhe\u00e7a na regi\u00e3o\u201d, disse o ribeirinho.<\/p>\n<picture><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-foto12.jpg\" media=\"(min-width: 1024px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-foto12.jpg\" media=\"(min-width: 768px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-foto12.jpg\" media=\"(min-width: 468px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-foto12.jpg\" media=\"(min-width: 320px)\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"loaded\" title=\"Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap3-foto12.jpg\" alt=\"Aos 90 anos, Jo\u00e3o Nego tem na mem\u00f3ria mais de oito d\u00e9cadas de hist\u00f3rias dos geraizeiros. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" width=\"960\" height=\"604\" data-was-processed=\"true\" \/><\/picture>\n<div class=\"credito\">Aos 90 anos, Jo\u00e3o Nego tem na mem\u00f3ria mais de oito d\u00e9cadas de hist\u00f3rias dos geraizeiros. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles<\/div>\n<p>Enquanto a tarde ca\u00eda, o velho geraizeiro contou, com gestos largos e prosa solta, casos antigos das andan\u00e7as pelo Cerrado. Lembrou, tamb\u00e9m, detalhes da degrada\u00e7\u00e3o ambiental do munic\u00edpio nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Foi um relato aut\u00eantico e original de um nonagen\u00e1rio de voz firme, olhar atento, mem\u00f3ria agu\u00e7ada e rosto vincado por vento e sol.<\/p>\n<p>A escassez de \u00e1gua come\u00e7ou a dar sinais depois que dois fazendeiros protegidos pelo prefeito da \u00e9poca chegaram e intimidaram os antigos moradores com armas de fogo, proferiram amea\u00e7as e mataram vacas nos pastos. Em seguida, derrubaram 20 mil hectares de Cerrado nativo e instalaram piv\u00f4s centrais para irrigar as lavouras.<\/p>\n<picture><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto10.jpg\" media=\"(min-width: 1024px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto10.jpg\" media=\"(min-width: 768px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto10.jpg\" media=\"(min-width: 468px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto10.jpg\" media=\"(min-width: 320px)\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"loaded\" title=\"Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" src=\"https:\/\/files.metropoles.com\/static\/especiais\/o-levante\/static\/v6\/assets\/images\/cap1-foto10.jpg\" alt=\"Motociclista passa por ponte sobre riacho seco. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles\" width=\"960\" height=\"604\" data-was-processed=\"true\" \/><\/picture>\n<div class=\"credito\">Motociclista passa por ponte sobre riacho seco. Foto: Gilberto Alves\/Especial para o Metr\u00f3poles<\/div>\n<p>O Arrojado nunca foi o mesmo. Com pouca \u00e1gua no rio, o rego secou. O ribeirinho, ent\u00e3o, parou de plantar feij\u00e3o e arroz h\u00e1 alguns anos. Pela mesma raz\u00e3o, est\u00e1 decidido a arrancar os p\u00e9s de coco. Manter\u00e1 apenas a cana e o gado.<\/p>\n<p>Quando o dia come\u00e7a a escurecer, a entrevista encaminha-se para o final e Jo\u00e3o Nego, em tom grave, faz um pedido aos governantes: \u201cEu queria que as autoridades acabassem com os piv\u00f4s de irriga\u00e7\u00e3o das fazendas. Se fecharem os piv\u00f4s, a \u00e1gua volta de novo para n\u00f3s\u201d. O geraizeiro \u00e9, antes de tudo, um esperan\u00e7oso.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<footer>\n<div class=\"divider\"><\/div>\n<ul class=\"expediente\">\n<li><b>DIRETORA-EXECUTIVA<br \/>\n<\/b>Lilian Tahan<\/li>\n<li><b>EDITORA-EXECUTIVA<br \/>\n<\/b>Priscilla Borges<\/li>\n<li><b>EDITORA-CHEFE<br \/>\n<\/b>Maria Eug\u00eania Moreira<\/li>\n<li><b>COORDENA\u00c7\u00c3O<br \/>\n<\/b>Ol\u00edvia Meireles<\/li>\n<li><b>REPORTAGEM<br \/>\n<\/b>Eumano Silva<\/li>\n<li><b>REVIS\u00c3O<br \/>\n<\/b>Denise Costa<\/li>\n<li><b>EDI\u00c7\u00c3O DE FOTOGRAFIA<br \/>\n<\/b>Michael Melo<\/li>\n<li><b>FOTOGRAFIA<br \/>\n<\/b>Gilberto Alves, Michael Melo<\/li>\n<li><b>EDI\u00c7\u00c3O DE ARTE<br \/>\n<\/b>Gui Pr\u00edmola<\/li>\n<li><b>DESIGN<br \/>\n<\/b>Stela Woo, C\u00edcero Lopes<\/li>\n<li><b>V\u00cdDEO<br \/>\n<\/b>Gabriel Pereira, Michael Melo<\/li>\n<li><b>EDI\u00c7\u00c3O DE V\u00cdDEO<br \/>\n<\/b>Gabriel Pereira<\/li>\n<li><b>TECNOLOGIA<br \/>\n<\/b>Allan Rabelo, Saulo Marques, Vin\u00edcius Paix\u00e3o<\/li>\n<\/ul>\n<\/footer>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Revoltados com a falta d\u2019\u00e1gua, posseiros do oeste da Bahia rebelam-se contra fazendas que sugam os rios e o len\u00e7ol fre\u00e1tico para irrigar lavouras. 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