{"id":249463,"date":"2018-07-09T05:41:31","date_gmt":"2018-07-09T08:41:31","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=249463"},"modified":"2018-07-09T05:41:31","modified_gmt":"2018-07-09T08:41:31","slug":"mais-medicos-melhor-receita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/mais-medicos-melhor-receita\/","title":{"rendered":"Mais M\u00e9dicos, melhor receita?"},"content":{"rendered":"<h1><\/h1>\n<p class=\"intro\"><em><strong>H\u00e1 cinco anos, Brasil iniciava programa para importar profissionais de sa\u00fade, e diagn\u00f3stico ainda divide opini\u00f5es. Uma pequena cidade no interior de Sergipe, que mudou com a chegada de cubanos, ajuda a entender por qu\u00ea.<\/strong><\/em><\/p>\n<div id=\"sharing-bar\" class=\"min\"><span dir=\"ltr\">\u00a0<\/span><span dir=\"ltr\">\u00a0<\/span><span dir=\"ltr\">\u00a0<\/span><span dir=\"ltr\">\u00a0<\/span><\/div>\n<div class=\"picBox full\"><a class=\"overlayLink init\" href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/mais-m%C3%A9dicos-melhor-receita\/a-44574892#\" rel=\"nofollow\"><img decoding=\"async\" title=\"A m\u00e9dica cubana Taimara Gomes chegou a Lagarto em 2013\" src=\"https:\/\/www.dw.com\/image\/44318209_303.jpg\" alt=\"A m\u00e9dica cubana Taimara Gomes chegou a Lagarto em 2013\" \/><\/a>A m\u00e9dica cubana Taimara Gomes chegou a Lagarto em 2013<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"group\">\n<div class=\"longText\">\n<p>Quando chegou a Lagarto, no interior de Sergipe, no fim de 2013, Taimara Machin Gomes se deparou com condi\u00e7\u00f5es de trabalho prec\u00e1rias. Enviada para uma unidade b\u00e1sica de sa\u00fade, cujo ch\u00e3o nem piso tinha e com ratos, a m\u00e9dica cubana acompanhou a transforma\u00e7\u00e3o que o programa Mais M\u00e9dicos promoveu na comunidade onde ela atua.<\/p>\n<p>A antiga unidade de sa\u00fade de madeira no povoado Col\u00f4nia Treze deu espa\u00e7o a um posto de alvenaria simples, mas com estrutura b\u00e1sica para atender os pacientes. A transfer\u00eancia para o espa\u00e7o novo j\u00e1 era planejada, por\u00e9m, a m\u00e9dica acredita que sua chegada ao local apressou o processo.<\/p>\n<p>Gomes reconhece que, \u00e0s vezes, faltam rem\u00e9dios no posto, mas isso, afirma, n\u00e3o chega a prejudicar a assist\u00eancia que presta aos pacientes. Para ela, o grande problema ainda \u00e9 a escassez de m\u00e9dicos na unidade.<\/p>\n<p>&#8220;Fico sobrecarregada de vez enquanto, mas temos que atender todo mundo\u201d, diz a cubana que chegou ao pa\u00eds poucos meses ap\u00f3s o lan\u00e7amento do Mais M\u00e9dicos e que renovou, no fim dos primeiros tr\u00eas anos, o contrato para a perman\u00eancia no programa at\u00e9 2019.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a impulsionada na unidade com a chegada de Gomes, que j\u00e1 havia atuado numa miss\u00e3o cubana na Venezuela por quatro anos antes de vir ao Brasil, tamb\u00e9m foi sentida pelos pacientes, que n\u00e3o precisam mais passar a noite na fila para tentar conseguir marcar uma consulta, como acontecia quando n\u00e3o havia um m\u00e9dico fixo no posto.<\/p>\n<p>Lan\u00e7ado em julho de 2013 pelo governo de Dilma Rousseff, uma das principais metas do Mais M\u00e9dicos era ampliar o acesso \u00e0 sa\u00fade levando m\u00e9dicos a regi\u00f5es onde havia escassez de profissionais. As vagas que n\u00e3o fossem ocupadas por brasileiros seriam preenchidas por m\u00e9dicos de outros pa\u00edses, principalmente cubanos. O Minist\u00e9rio da Sa\u00fade estimava que faltavam 54 mil m\u00e9dicos no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, Lagarto, com pouco mais de 100 mil habitantes, foi uma das cidades consideradas priorit\u00e1rias pelo minist\u00e9rio para receber m\u00e9dicos do programa. A cidade recebeu dez profissionais de Cuba para atuar na aten\u00e7\u00e3o b\u00e1sica.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de consultas, eles trabalham ainda com a preven\u00e7\u00e3o e controle de doen\u00e7as junto \u00e0 comunidade, organizando grupos educativos para orienta\u00e7\u00f5es sobre doen\u00e7as cr\u00f4nicas, como diabetes e hipertens\u00e3o, e visitando pacientes que n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de ir at\u00e9 o posto de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Cinco anos depois, Lagarto continua com dez m\u00e9dicos do programa, sendo nove cubanos e um brasileiro. &#8220;Nossas equipes de sa\u00fade da fam\u00edlia funcionam melhor com os cubanos do que com os brasileiros, devido ao cumprimento da carga hor\u00e1ria. Temos uma dificuldade com os m\u00e9dicos brasileiros com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o de cumprimento de carga hor\u00e1ria\u201d, afirma o secret\u00e1rio municipal de Sa\u00fade de Lagarto, Cleverton Oliveira.<\/p>\n<p>O munic\u00edpio\u00a0conta atualmente com 28 equipes de sa\u00fade da fam\u00edlia, das quais apenas 23 possuem m\u00e9dicos \u2013 entres eles, dez s\u00e3o os profissionais do programa federal. Segundo Oliveira, h\u00e1 dificuldades de encontrar m\u00e9dicos para preencher essas vagas. Os brasileiros preferem atuar em capitais e regi\u00f5es metropolitanas, al\u00e9m de considerar o sal\u00e1rio oferecido pela prefeitura, cerca de 6 mil reais por 40 horas semanais, relativamente baixo.<\/p>\n<p><strong>Experi\u00eancia e sal\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p>Dos cubanos que decidiram vir ao Brasil, a vontade de conhecer o pa\u00eds e a experi\u00eancia profissional est\u00e3o entre os principais motivos que os levaram a se inscrever no programa.<\/p>\n<p>&#8220;As doen\u00e7as cr\u00f4nicas s\u00e3o as mesmas, mas as infecciosas mudam muito de um pa\u00eds para o outro. Aqui estou vendo doen\u00e7as que n\u00e3o via h\u00e1 anos, como hansen\u00edase, que \u00e9 comum na regi\u00e3o, ou s\u00edfilis cong\u00eanita. H\u00e1 muitos casos de esquistossomose, que eu n\u00e3o conhecia. Profissionalmente, sou um pouco melhor do que antes de chegar ao Brasil\u201d, afirma Leonel Peraza, de 60 anos, que trabalha em Lagarto h\u00e1 um ano e meio e j\u00e1 atuou em miss\u00f5es cubanas em Cabo Verde e na Venezuela.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da experi\u00eancia, o sal\u00e1rio recebido \u00e9 um forte incentivo para a inscri\u00e7\u00e3o de cubanos no Mais M\u00e9dicos, apesar do controverso modelo de coopera\u00e7\u00e3o assinado entre Brasil, Cuba e Organiza\u00e7\u00e3o Pan-Americana da Sa\u00fade (Opas). Pela parceria, o pagamento dos profissionais \u00e9 realizado ao governo cubano, que transfere parte do valor aos m\u00e9dicos. Atualmente, eles recebem quase 3 mil reais. A bolsa paga por Bras\u00edlia aos outros profissionais do programa \u00e9 de cerca de 11,8 mil reais.<\/p>\n<p>&#8220;Optei por vir para o Brasil devido \u00e0 experi\u00eancia, mas a quest\u00e3o financeira pesou bastante\u201d, conta Danieyis Rivadeneira P\u00e8rez, de 27 anos, que chegou a Lagarto h\u00e1 18 meses.<\/p>\n<p>Os m\u00e9dicos do programa recebem ainda uma ajuda de custo para moradia e despesas b\u00e1sicas, pagas pela prefeitura, e os cubanos, uma passagem anual de ida e volta para Cuba, prevista no contrato assinado com Havana.<\/p>\n<p>O modelo de coopera\u00e7\u00e3o foi um dos principais alvos de cr\u00edticas no lan\u00e7amento do programa. A Associa\u00e7\u00e3o M\u00e9dica Brasileira (AMB)\u00a0chegou a apresentar uma a\u00e7\u00e3o no Supremo Tribunal Federal (STF), alegando viola\u00e7\u00f5es de leis trabalhistas. Em novembro de 2017, a corte encerrou a batalha judicial e validou as regras do Mais M\u00e9dicos.<\/p>\n<p>&#8220;Pessoalmente gostaria de receber mais, \u00e9 claro, mas n\u00e3o vim enganado. Pelas minhas necessidades e expectativas, gostaria de receber 5 mil reais, por\u00e9m, sempre soube que seria assim. A realidade brasileira mudou bastante nos \u00faltimos anos, com aumento da infla\u00e7\u00e3o e nos pre\u00e7os dos produtos. Isso deveria ser analisado\u201d, opina Peraza.<\/p>\n<p><strong>Cr\u00edticas e resultados<\/strong><\/p>\n<p>Quando foi lan\u00e7ado, em 2013, o programa foi alvo de duras cr\u00edticas da associa\u00e7\u00f5es da categoria, que refutavam o argumento do governo sobre a falta de m\u00e9dicos no pa\u00eds. Para eles, a car\u00eancia de m\u00ednimas condi\u00e7\u00f5es de trabalho era o que evitava a ida de profissionais para o interior.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das cr\u00edticas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 coopera\u00e7\u00e3o assinada com Cuba, a atua\u00e7\u00e3o de m\u00e9dicos estrangeiros sem a revalida\u00e7\u00e3o do diploma, como estabeleceu o decreto do programa, e a n\u00e3o exig\u00eancias de conhecimentos elevados do idioma eram vistos como um problema.<\/p>\n<p>A AMB mant\u00e9m as cr\u00edticas ao programa, que considera ineficaz para solucionar a fixa\u00e7\u00e3o de profissionais no interior do pa\u00eds. &#8220;Um m\u00e9dico sem condi\u00e7\u00f5es de trabalho se v\u00ea reduzido \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de testemunha privilegiada e absolutamente angustiada do sofrimento humano. Infelizmente n\u00e3o d\u00e1 para tratar as pessoas apenas com conversa, respeito e cidadania\u201d, opina Lincoln Ferreira, presidente da associa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Conselho Federal de Medicina tamb\u00e9m continua com uma posi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o ao programa, mas reconhece que a presen\u00e7a destes profissionais melhorou o acesso \u00e0 sa\u00fade para uma parcela da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;O Mais M\u00e9dicos \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria. Para solucionar a fixa\u00e7\u00e3o de m\u00e9dicos em regi\u00f5es remotas, precisamos ter uma carreira de Estado, que permita ao m\u00e9dico evoluir de uma cidade para outra, como as carreiras de juiz, promotor e delegado\u201d, acrescenta Emmanuel Fortes, terceiro vice-presidente do CFM.<\/p>\n<p>Apesar das cr\u00edticas, o programa tem apresentado resultados. Entre os destaques est\u00e3o o aumento da cobertura de aten\u00e7\u00e3o b\u00e1sica de 77,9% para 86,3%, entre 2012 e 2015, em mais de mil munic\u00edpios\u00a0que aderiram \u00e0 iniciativa; neste mesmo per\u00edodo foi observado um crescimento de 33% no n\u00famero de consultas em programas da sa\u00fade da fam\u00edlia contra 15% registrado nas cidades que n\u00e3o participam do Mais M\u00e9dicos; e redu\u00e7\u00e3o de interna\u00e7\u00f5es evit\u00e1veis de 44,9% para 41,2%.<\/p>\n<p>&#8220;O resultado mais significativo do Mais M\u00e9dicos foi levar acesso \u00e0 sa\u00fade para a popula\u00e7\u00e3o, especialmente em popula\u00e7\u00f5es vivendo em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade. Isso \u00e9 outorgar o direito \u00e0 sa\u00fade previsto na Constitui\u00e7\u00e3o brasileira\u201d, destaca Joaqu\u00edn Molina, representante da Opas no Brasil.<\/p>\n<p>Para Maria Helena Machado, coordenadora da pesquisa de avalia\u00e7\u00e3o do programa realizada pela Escola Nacional de Sa\u00fade P\u00fablica da Fiocruz, um dos maiores impactos do Mais M\u00e9dicos foi elevar o n\u00edvel de cidadania de grande parte da popula\u00e7\u00e3o ao proporcionar \u00e0 assist\u00eancia m\u00e9dica.<\/p>\n<p>&#8220;O programa mostrou que \u00e9 poss\u00edvel levar m\u00e9dicos para todos os lugares do pa\u00eds. Permitiu ainda que os profissionais brasileiros, principalmente os mais jovens, perdessem o medo de ir para o interior. Al\u00e9m disso, a chegada de m\u00e9dicos de 47 nacionalidades, com outros modos de atuar e outra forma\u00e7\u00e3o, promoveu um debate sobre a forma\u00e7\u00e3o de m\u00e9dicos no Brasil\u201d, diz Machado.<\/p>\n<p><strong>Futuro incerto<\/strong><\/p>\n<p>Em Lagarto, os m\u00e9dicos cubanos tamb\u00e9m atestam as melhorias que o programa trouxe \u00e0 cidade. &#8220;O programa tem cumprido seu objetivo chegando \u00e0s comunidades onde n\u00e3o havia assist\u00eancia m\u00e9dica. Tanto que a popula\u00e7\u00e3o mais carente deseja nossa perman\u00eancia na unidade de sa\u00fade\u201d, afirma Yumisleidys Milian Perez, de 31 anos, que chegou em 2016.<\/p>\n<p>Peraza, por sua vez, diz que a presen\u00e7a do m\u00e9dico faz com que os munic\u00edpios\u00a0invistam nas unidades de sa\u00fade. Os pacientes tamb\u00e9m confirmam as melhorias ocasionadas com a chegada dos profissionais cubanos, principalmente, na marca\u00e7\u00e3o de consultas e redu\u00e7\u00e3o do tempo de espera para conseguir atendimento.<\/p>\n<p>Ao completar cinco anos, o futuro do programa \u00e9 visto como inc\u00f3gnita\u00a0entre pesquisadores que avaliam o Mais M\u00e9dicos desde sua cria\u00e7\u00e3o. Ao assumir o governo em 2016, Michel Temer mudou algumas de suas diretrizes. A principal mudan\u00e7a foi a substitui\u00e7\u00e3o dos profissionais cubanos, que chegaram a preencher mais de 11,4 mil vagas do programa.<\/p>\n<p>Atualmente, segundo o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, o programa conta com 16,7 mil m\u00e9dicos em atividade, sendo 8,5 mil cubanos, 4,9 mil brasileiros formados no Brasil e 3,2 mil graduados no exterior.<\/p>\n<p>Segundo o secret\u00e1rio de Sa\u00fade de Lagarto, a extin\u00e7\u00e3o do Mais M\u00e9dicos geraria grande insatisfa\u00e7\u00e3o de todos os munic\u00edpios que participam do programa, principalmente, os mais carentes.<\/p>\n<p>Uma renova\u00e7\u00e3o do contrato por mais um per\u00edodo n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o para Danieyis Rivadeneira P\u00e8rez e Yumisleidys Milian Perez, que deixaram filhos de 3 anos e de 5 anos, respectivamente, em Cuba. O governo cubano autoriza a viagem de crian\u00e7as com os pais m\u00e9dicos por apenas tr\u00eas meses, alegando que presen\u00e7a dos filhos pode atrapalhar o trabalho.<\/p>\n<p>&#8220;Pretendo ficar apenas os tr\u00eas anos. Gostei daqui, conheci pessoas muito simp\u00e1ticas, mas a saudade me faz retornar\u201d, ressalta Yumisleidys.<\/p>\n<p>Para Peraza, que est\u00e1 na metade do contrato, ainda \u00e9 cedo para pensar sobre uma renova\u00e7\u00e3o por mais tr\u00eas anos. J\u00e1 Gomes, que casou com um brasileiro, permanecer por um terceiro per\u00edodo no pa\u00eds seria uma op\u00e7\u00e3o, mas ela n\u00e3o descarta voltar a Cuba em 2019.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 cinco anos, Brasil iniciava programa para importar profissionais de sa\u00fade, e diagn\u00f3stico ainda divide opini\u00f5es. 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