{"id":252637,"date":"2018-08-06T10:21:49","date_gmt":"2018-08-06T13:21:49","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=252637"},"modified":"2018-08-06T10:21:49","modified_gmt":"2018-08-06T13:21:49","slug":"mirando-pessoas-com-deficiencia-musico-cria-violao-que-pode-ser-tocado-com-uma-so-mao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/mirando-pessoas-com-deficiencia-musico-cria-violao-que-pode-ser-tocado-com-uma-so-mao\/","title":{"rendered":"Mirando pessoas com defici\u00eancia, m\u00fasico cria viol\u00e3o que pode ser tocado com uma s\u00f3 m\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"byline\"><span class=\"byline__name\">Evanildo da Silveira<\/span><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share-row\">\n<div class=\"share-tools--no-event-tag\">\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-twite\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/1013E\/production\/_102845856_f120b82b-be52-45f1-96a4-48807257c587.jpg\" alt=\"Reinaldo Casteluzzo com viol\u00e3o para pessoas deficientes\" width=\"1176\" height=\"1112\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">Reinaldo Casteluzzo com sua inven\u00e7\u00e3o: um viol\u00e3o de 12 cordas, que pode ser tocado com uma s\u00f3 m\u00e3o<\/span><\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">Qualquer pessoa que conhe\u00e7a um viol\u00e3o sabe que s\u00e3o necess\u00e1rias as duas m\u00e3os para toc\u00e1-lo, uma para pressionar as cordas, fazendo o acorde, e outra para dedilh\u00e1-las, produzindo os sons. Por isso, essa caracter\u00edstica geralmente exclui dessa arte as pessoas com paralisia cerebral ou sem uma m\u00e3o.<\/p>\n<p>Pensando nesse p\u00fablico, o m\u00fasico pernambucano Reinaldo Amorim Casteluzzo desenvolveu e patenteou um viol\u00e3o que pode ser tocado com uma m\u00e3o s\u00f3.<\/p>\n<p>A estreita rela\u00e7\u00e3o de Casteluzzo com a\u00a0<a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/topics\/de648736-7268-454c-a7b1-dbff416f2865\">m\u00fasica<\/a>\u00a0come\u00e7ou quando ele tinha 5 anos, em sua cidade natal, Petrolina (PE), e sua m\u00e3e comprou um viol\u00e3o para ele compartilhar com seus dois irm\u00e3os.<\/p>\n<p>&#8220;Ela era solteira e n\u00e3o tinha sal\u00e1rio, mas fez um sacrif\u00edcio para adquiri-lo para n\u00f3s tr\u00eas&#8221;, conta. &#8220;Desde ent\u00e3o, me dediquei a estud\u00e1-lo e me tornei violonista cl\u00e1ssico, e um dos meus irm\u00e3os virou luthier [fabricante de instrumentos de corda com caixa de resson\u00e2ncia].&#8221;<\/p>\n<p>Influenciado pelo violonista espanhol Andr\u00e9s Segovia, considerado o pai do viol\u00e3o erudito, Casteluzzo comp\u00f4s at\u00e9 hoje mais de 200 m\u00fasicas instrumentais, gravou 15 \u00e1lbuns e criou v\u00e1rios m\u00e9todos de ensino de como toc\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Nos anos 1980, ele come\u00e7ou a dar aulas em conservat\u00f3rios e notou que havia alunos com defici\u00eancias motoras cong\u00eanitas e outros com mutila\u00e7\u00f5es, sem um bra\u00e7o ou m\u00e3o. Reparou tamb\u00e9m que n\u00e3o existia em nenhum lugar do mundo um viol\u00e3o adaptado para essas pessoas.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Inclus\u00e3o de pessoas com defici\u00eancia<\/h2>\n<p>Da\u00ed surgiu a ideia de criar um que pudesse ser tocado por jovens com defici\u00eancias. &#8220;Tive como foco inclu\u00ed-los em atividades musicais, n\u00e3o apenas como ouvintes de recitais, mas como participantes ativos na pr\u00e1tica musical, tocando o instrumento, que \u00e9 popular entre os jovens nas atividades de encontros e lazer com c\u00edrculos de amigos&#8221;, conta Casteluzzo.<\/p>\n<p>Para que pessoas com mobilidade reduzida nos membros superiores possam toc\u00e1-lo, o viol\u00e3o terap\u00eautico tem um n\u00famero de cordas maior, 12 em vez das seis do convencional, e tem uma afina\u00e7\u00e3o especifica em grupos de quatro cordas, onde cada grupo forma uma tonalidade.<\/p>\n<p>&#8220;Al\u00e9m disso, usei a estrat\u00e9gia de combina\u00e7\u00e3o das tr\u00edades que formam os acordes, para assim construir as notas fundamentais que s\u00e3o a t\u00f4nica, a dominante e a subdominante, as quais configuram o acompanhamento&#8221;, explica o m\u00fasico.<\/p>\n<p>De acordo com ele, essas caracter\u00edsticas tornam poss\u00edvel que pessoas toquem o viol\u00e3o com uma \u00fanica m\u00e3o, pois a que faria os acordes \u00e9 dispensada, porque a frequ\u00eancia harm\u00f4nica de cada corda est\u00e1 diretamente afinada na altura dos sons que os formam.<\/p>\n<p>No estudo popular de viol\u00e3o, \u00e9 comum o uso de cifra, desenho do bra\u00e7o do instrumento mostrando onde se deve pressionar os dedos para formar o acorde e onde se deve vibrar ou dedilhar as cordas. &#8220;No que criei s\u00f3 \u00e9 necess\u00e1rio mostrar em qual lugar das cordas se deve vibrar ou dedilhar&#8221;, diz.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Viol\u00e3o terap\u00eautico<\/h2>\n<p>Depois de desenvolver o viol\u00e3o terap\u00eautico, Casteluzzo resolveu test\u00e1-lo numa pesquisa para seu mestrado na Faculdade de Ci\u00eancias M\u00e9dicas (FCM), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Sob orienta\u00e7\u00e3o do pediatra Roberto Teixeira Mendes, ele avaliou o uso do instrumento por 14 adolescentes, de 7 a 21 anos, com paralisia cerebral (PC), da Associa\u00e7\u00e3o de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), do munic\u00edpio de Arthur Nogueira (SP), todos atendidos pelo Hospital das Cl\u00ednicas da Unicamp.<\/p>\n<p>Para a interven\u00e7\u00e3o, o pesquisador foi acompanhado de uma psic\u00f3loga, uma assistente social e uma professora de m\u00fasica.<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img responsive-image__img--loading js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1284E\/production\/_102845857_3c002e41-cfe7-4f28-8bc1-f223d25153d9.jpg\" alt=\"Reinaldo Casteluzzo com seu viol\u00e3o de 12 cordas\" width=\"814\" height=\"1068\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">&#8220;Em uma semana, qualquer pessoa consegue tocar dezenas de m\u00fasicas&#8221;, diz Casteluzzo<\/span><\/figure>\n<p>O objetivo do estudo era avaliar o uso do viol\u00e3o adaptado na melhora da autoestima de crian\u00e7as e adolescentes com defici\u00eancia motora unilateral em decorr\u00eancia de paralisia cerebral. Para isso, antes do come\u00e7o da pesquisa foi aplicado um question\u00e1rio aos pacientes para verificar a Escala de Autoestima de Rosenberg, que leva o nome de seu criador, o soci\u00f3logo canadense Morris Rosenberg. Noventa dias ap\u00f3s a primeira interven\u00e7\u00e3o, o question\u00e1rio foi reaplicado.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Terapia contra paralisia cerebral<\/h2>\n<p>Segundo Casteluzzo, os resultados foram surpreendentes. Todos os alunos com paralisia cerebral conseguiram tocar o instrumento e houve um grande aumento da autoestima deles. &#8220;Os depoimentos ap\u00f3s as aulas deixaram mais evidente os benef\u00edcios que a interven\u00e7\u00e3o trouxe para eles&#8221;, comemora.<\/p>\n<p>&#8220;Um participante, de 11 anos, com mobilidade reduzida em um dos membros superiores, afirmou verbalmente em tom de felicidade, expressando sorriso no rosto: &#8216;eu queria muito tocar viol\u00e3o e pude realizar meu sonho&#8217;. Durante o processo de aprendizagem foi geral a demonstra\u00e7\u00e3o de felicidade dos participantes.&#8221;<\/p>\n<p>Quanto ao aumento de autoestima, al\u00e9m de ter sido detectado pela escala de Rosenberg, ele pode ser percebido tamb\u00e9m nas mudan\u00e7as no visual, vestimentas, dentes e unhas, preocupa\u00e7\u00e3o que at\u00e9 aquele momento professores e a psic\u00f3loga da institui\u00e7\u00e3o disseram n\u00e3o haver visto por parte de alguns dos pacientes. &#8220;Todo o corpo da institui\u00e7\u00e3o ficou satisfeito com os resultados dos alunos, que at\u00e9 ent\u00e3o nunca tinham se envolvido com a pr\u00e1tica instrumental&#8221;, orgulha-se Casteluzzo.<\/p>\n<p>De acordo com ele, o instrumento que desenvolveu serve tanto para o paciente quanto para uso pelo terapeuta, em sua atividade profissional. &#8220;Em uma semana, qualquer pessoa consegue tocar dezenas de m\u00fasicas&#8221;, garante. &#8220;Alguns participantes da pesquisa tinham comprometimento nos dois bra\u00e7os, outros eram cadeirantes. Para um dos alunos, tivemos que prender uma palheta nos dois dedos. Ele conseguia fazer poucos movimentos, mas era tudo o que precis\u00e1vamos para o nosso trabalho.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">M\u00fasica faz bem \u00e0 sa\u00fade?<\/h2>\n<p>Al\u00e9m do aumento da autoestima dos participantes, foram verificados outros benef\u00edcios, como bem estar e distra\u00e7\u00e3o. &#8220;Em entrevista ap\u00f3s a interven\u00e7\u00e3o, eles declararam ter superado suas limita\u00e7\u00f5es e se sentiam felizes por poder compartilhar esta alegria com seus familiares e cuidadores&#8221;, diz Casteluzzo.<\/p>\n<p>&#8220;A facilidade de tocar e a aceita\u00e7\u00e3o desse trabalho poder\u00e3o se tornar aliados importantes na melhora da sa\u00fade. O viol\u00e3o adaptado ainda \u00e9 algo novo e se faz necess\u00e1rio ter mais pesquisas com amostras maiores de participantes.&#8221;<\/p>\n<p>Reinaldo, hoje atuando na \u00e1rea terap\u00eautica, conta que agora ser\u00e1 preciso elaborar todas as etapas do procedimento para fabricar o viol\u00e3o em grande escala, construir o instrumento a um menor custo, que hoje \u00e9 de R$ 2 mil, e coloc\u00e1-lo no mercado, porque j\u00e1 tem muitos pedidos.<\/p>\n<p>&#8220;J\u00e1 vendemos mais de 50, mesmo com o pre\u00e7o ainda alto&#8221;, conta. &#8220;Tamb\u00e9m vamos oferec\u00ea-lo a centros de reabilita\u00e7\u00e3o ou \u00e0s pessoas que trabalhem na \u00e1rea. Essa \u00e9 uma apenas uma retribui\u00e7\u00e3o que damos no sentido de incluir essas pessoas, pois elas podem fazer muito mais do que pensamos.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Qualquer pessoa que conhe\u00e7a um viol\u00e3o sabe que s\u00e3o necess\u00e1rias as duas m\u00e3os para toc\u00e1-lo, uma para pressionar as cordas, fazendo o acorde, e outra para dedilh\u00e1-las, produzindo os sons. 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