{"id":253352,"date":"2018-08-12T14:24:57","date_gmt":"2018-08-12T17:24:57","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=253352"},"modified":"2018-08-12T14:24:57","modified_gmt":"2018-08-12T17:24:57","slug":"eu-sou-uma-crianca-soldado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/eu-sou-uma-crianca-soldado\/","title":{"rendered":"\u201cEu sou uma crian\u00e7a soldado\u201d"},"content":{"rendered":"<div class=\"articulo__apertura\">\n<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div class=\"articulo-encabezado-texto\">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\"><em>Em Yambio, uma cidade devastada pela guerra, 60% das crian\u00e7as foram recrutadas por grupos armados. No Sud\u00e3o do Sul, em guerra civil desde 2013, estima-se que existam 19.000 crian\u00e7as soldado<\/em><\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"firma \">\n<div class=\"autor\">\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Nacho Carretero\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/ignacio_carretero_pou\/a\/\">NACHO CARRETERO<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<figure class=\"foto centro foto_w980\" style=\"text-align: justify;\"><a class=\"enlace\" href=\"https:\/\/elpais.com\/elpais\/2018\/08\/10\/album\/1533912012_475781.html\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/internacional\/imagenes\/2018\/08\/10\/actualidad\/1533901618_963321_1534019246_noticia_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/internacional\/imagenes\/2018\/08\/10\/actualidad\/1533901618_963321_1534019246_noticia_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/internacional\/imagenes\/2018\/08\/10\/actualidad\/1533901618_963321_1534019246_noticia_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/internacional\/imagenes\/2018\/08\/10\/actualidad\/1533901618_963321_1534019246_noticia_normal.jpg 980w\" alt=\"Crian\u00e7as em uma cerim\u00f4nia realizada em Yambio, no sul do Sud\u00e3o.\" width=\"980\" height=\"653\" \/><span class=\"boton_fotogaleria\">Ver galeria de fotos<\/span><\/a><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Crian\u00e7as em uma cerim\u00f4nia realizada em Yambio, no sul do Sud\u00e3o.<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">ULY MART\u00cdN<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma clareira na floresta nos arredores de Yambio (<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/sudan_del_sur\">Sud\u00e3o do Sul)<\/a>, uma cerim\u00f4nia est\u00e1 sendo realizada hoje. De desmobiliza\u00e7\u00e3o. \u00c9 um ato simb\u00f3lico organizado pelo Governo em que uma d\u00fazia de ex-crian\u00e7as soldado, uniformizadas e armadas, deixam seus fuzis e levam alguns cadernos e l\u00e1pis. Todos os l\u00edderes locais, membros do Governo e at\u00e9 o embaixador dos\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/estados_unidos\/a\">Estados Unidos<\/a>participam da cerim\u00f4nia, que atrai um grande p\u00fablico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As crian\u00e7as ficam em posi\u00e7\u00e3o de sentido. Na primeira fila est\u00e1 Matthew (nome fict\u00edcio). Ele n\u00e3o sabe sua idade, mas \u00e9 dif\u00edcil que tenha mais de 10 anos. Passou meses com a mil\u00edcia local de Yambio, que durante meses lutou contra o Governo. Seus ex-comandantes tamb\u00e9m est\u00e3o l\u00e1, na cerim\u00f4nia, j\u00e1 que hoje s\u00e3o parte integrante do Ex\u00e9rcito. Matthew cal\u00e7a botas marrons v\u00e1rios n\u00fameros maiores, um gorro de camuflagem pelo qual aparecem seus olhos infantis e carrega um fuzil que mal consegue levantar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEles n\u00e3o me enviaram para as miss\u00f5es\u201d, conta antes de a cerim\u00f4nia come\u00e7ar. \u201cMe mandavam lavar roupa, para pegar coisas e tamb\u00e9m vigiar o acampamento. Um dia eu estava de guarda e eu vi um homem. Atirei nele e ele levantou os bra\u00e7os. Eu o levei para o acampamento. O comandante disse que era um ladr\u00e3o, ent\u00e3o cortou os dedos dos p\u00e9s dele e depois disse a mim e a outras crian\u00e7as que t\u00ednhamos de com\u00ea-los\u201d. \u201cEsse comandante est\u00e1 aqui hoje?\u201d \u201cSim, \u00e9 este\u201d Matthew aponta com o queixo. No fundo se v\u00ea um homem uniformizado, sorrindo. Impune.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cUm dos grandes desafios dessas crian\u00e7as \u00e9 a reintegra\u00e7\u00e3o\u201d, diz o reverendo Elinama Jacob Bisi, l\u00edder religioso da comunidade. \u201cMuitos moradores os insultam ou desprezam. Eles t\u00eam um grande estigma. Alguns continuam dependendo de seus comandantes, que agora tamb\u00e9m vivem na cidade. Tamb\u00e9m emocionalmente.\u201d<\/p>\n<section id=\"sumario_1|foto\" class=\"sumario_foto centro\"><a name=\"sumario_1\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\"><a class=\"enlace\" href=\"https:\/\/elpais.com\/elpais\/2018\/08\/10\/album\/1533912012_475781.html\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/internacional\/imagenes\/2018\/08\/10\/actualidad\/1533901618_963321_1533908081_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/internacional\/imagenes\/2018\/08\/10\/actualidad\/1533901618_963321_1533908081_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/internacional\/imagenes\/2018\/08\/10\/actualidad\/1533901618_963321_1533908081_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/internacional\/imagenes\/2018\/08\/10\/actualidad\/1533901618_963321_1533908081_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"O general Abel Dominic Banga, l\u00edder da mil\u00edcia SSNLM, posa com seus guarda-costas em sua casa em Yambio, no sul do Sud\u00e3o do Sul.\" width=\"980\" height=\"690\" \/><span class=\"boton_fotogaleria\">ver fotogaler\u00eda<\/span><\/a><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">O general Abel Dominic Banga, l\u00edder da mil\u00edcia SSNLM, posa com seus guarda-costas em sua casa em Yambio, no sul do Sud\u00e3o do Sul.<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">ULY MART\u00cdN<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para al\u00e9m dos sociais, a maioria das crian\u00e7as tem problemas psicol\u00f3gicos. \u201cEstresse p\u00f3s-traum\u00e1tico,\u00a0<em>flashbacks<\/em>, ansiedade&#8230; O que mais os ajuda \u00e9 restabelecer a vida normal\u201d, diz Rayan Fattouch, coordenadora de Sa\u00fade Mental da\u00a0<a href=\"https:\/\/www.msf.es\/colabora\/dona\/ayuda?gclid=EAIaIQobChMIz7nmrNLi3AIVAp7VCh2dmAPrEAAYASAAEgKPOvD_BwE&amp;gclsrc=aw.ds\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ONG M\u00e9dicos Sem Fronteiras (MSF)<\/a>\u00a0em Yambio. Segundo dados do Unicef, 85% das ex-crian\u00e7as soldado t\u00eam sequelas, 15% apresentam consequ\u00eancias patol\u00f3gicas e 5% t\u00eam s\u00e9rios problemas psiqui\u00e1tricos. Estima-se que existam atualmente 19.000 crian\u00e7as soldado no Sud\u00e3o do Sul. S\u00e3o dados do Unicef, ag\u00eancia que apoiou esta viagem. S\u00f3 neste ano, em Yambio, 600 crian\u00e7as foram libertadas. E outras 400 devem ser libertadas. Costumam ter entre 14 e 17 anos, mas h\u00e1 crian\u00e7as de 10 e 11 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pequeno Matthew conclui a cerim\u00f4nia. Deixa sua arma, pega os cadernos e as lapiseiras e sai de cena observando o p\u00fablico com os olhos arregalados. \u201cQuando eu estava no acampamento, pedia permiss\u00e3o para ir fazer provas na escola, mas como n\u00e3o conseguia estudar, eu n\u00e3o fui muito bem. Agora poderei ir para a aula.\u201d<\/p>\n<section id=\"sumario_7|foto\" class=\"sumario_foto derecha\"><a name=\"sumario_7\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w360\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/internacional\/imagenes\/2018\/08\/10\/actualidad\/1533901618_963321_1534004786_sumario_normal.png\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/internacional\/imagenes\/2018\/08\/10\/actualidad\/1533901618_963321_1534004787_sumario_normal_recorte1.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/internacional\/imagenes\/2018\/08\/10\/actualidad\/1533901618_963321_1534004786_sumario_normal.png 360w\" alt=\"Mapa de localizaci\u00f3n de Sud\u00e1n del Sur\" width=\"360\" height=\"545\" \/><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2011, o Sud\u00e3o do Sul conseguiu a independ\u00eancia do Sud\u00e3o, tornando-se o pa\u00eds mais jovem do mundo. Dois anos depois, estourou uma guerra civil alimentada por um mosaico de guerrilhas armadas de 35 grupos \u00e9tnicos diferentes \u2013quase cada um com sua mil\u00edcia \u2013 que j\u00e1 matou 300.000 pessoas e obrigou um quarto de seus 12 milh\u00f5es de habitantes a se deslocar. Na semana passada foi assinado um acordo entre o Governo de Salva Kiir e o principal grupo rebelde, liderado por Riek Machar. Um acordo fr\u00e1gil, no qual ningu\u00e9m confia totalmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na verdade, o horror chegou a Yambio, no sul do Sud\u00e3o do Sul, muito antes de 2011. Em 2005, o Ex\u00e9rcito de Resist\u00eancia do Senhor (ERS) \u2013uma violent\u00edssima mil\u00edcia crist\u00e3 vinda da Rep\u00fablica Centro-Africana\u2013 cruzou a fronteira e atacou os moradores. \u201cFoi como o apocalipse\u201d, resume Bingo Maureen, jornalista da Radio Anisa, uma emissora evang\u00e9lica local e moradora da cidade. \u201cFoi terr\u00edvel. Eles queimaram as casas. Estupraram as mulheres e obrigaram as crian\u00e7as a matar seus pais. Muita gente teve a boca e as orelhas cortadas\u201d, explica Bingo. \u201cEles levaram muita gente, crian\u00e7as e mulheres, que nunca mais voltamos a ver desde aquele ano.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os moradores de Yambio organizaram uma defesa na forma de mil\u00edcia. Eles mesmos constru\u00edram suas armas, principalmente flechas, da\u00ed o nome adotado pela guerrilha, os Arrow Boys, Meninos da Flecha. Seu comandante em chefe era um militar local chamado Abel Dominic. O pr\u00f3prio Dominic nos recebe em sua casa em Yambio para lembrar esse epis\u00f3dio. Ele fala sentado e cercado por soldados que exercem a fun\u00e7\u00e3o de guarda-costas, com fuzis de assalto nas m\u00e3os e chinelos de pl\u00e1stico nos p\u00e9s. \u201cQuase n\u00e3o t\u00ednhamos armas nem treinamento. Mas aqui no Sud\u00e3o do Sul todo mundo sabe lutar. Ent\u00e3o conseguimos expulsar o ERS\u201d, diz com um sorriso contido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A guerra devastou a localidade: o que at\u00e9 pouco tempo era uma cidade cheia de vida, com 8.000 habitantes, a maioria comerciantes conectados por estrada com a capital, Yuba, \u00e9 hoje um lugar com a maioria das casas abandonadas, caminh\u00f5es enferrujados em valas com plantas crescendo em seu interior e apenas 2.000 moradores caminhando por suas ruas de terra avermelhada. O antigo mercado \u00e9 hoje o esqueleto de um edif\u00edcio; a sede do Governo estadual est\u00e1 caindo aos peda\u00e7os e apenas o ir e vir das\u00a0<em>boda-boda<\/em>, motos que fazem a fun\u00e7\u00e3o de t\u00e1xi, faz algum barulho. \u201cAs pessoas fugiram\u201d, diz Bingo. \u201cEst\u00e3o voltando pouco a pouco, mas ainda est\u00e3o com medo.\u201d Yambio est\u00e1 sob a guarda da mil\u00edcia local, oficialmente integrada ao Ex\u00e9rcito. Ao redor da cidade, a guerrilha inimiga realiza incurs\u00f5es violentas de vez em quando. \u00c9 por isso que Yambio continua isolada. \u201cVoc\u00ea n\u00e3o pode se afastar mais de 10 quil\u00f4metros. S\u00f3 se pode sair daqui de avi\u00e3o, e quase ningu\u00e9m pode se dar a esse luxo. Isto \u00e9 como uma ilha\u201d, diz o reverendo, que acrescenta: \u201cAqui temos uma gera\u00e7\u00e3o inteira de crian\u00e7as soldado\u201d. \u00c9 outra caracter\u00edstica dessa cidade. \u201cQuando voc\u00ea cruza uma crian\u00e7a na rua, \u00e9 bem prov\u00e1vel que tenha sido soldado at\u00e9 recentemente.\u201d Cerca de 60% das crian\u00e7as que vivem nesta localidade do Sud\u00e3o do Sul participaram da luta armada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma delas \u00e9 Lucie (nome fict\u00edcio). Tinha 14 anos quando, em meados de 2016, foi sequestrada perto de sua aldeia, muito pr\u00f3xima de Yambio, por um grupo de 15 jovens armados, membros de uma mil\u00edcia rebelde, quando voltava de trabalhar nas terras de seu pai. Eles a levaram. \u201cCaminhamos durante dois dias. Eu chorava porque pensava que eles iriam me matar\u201d, conta Lucie. \u201cAo longo do caminho eles sequestraram mais crian\u00e7as que \u00edamos cruzando.\u201d Todos foram levados para o acampamento de uma mil\u00edcia ent\u00e3o rebelde e agora pr\u00f3xima do Governo, localizado em Yambio. Ela recebeu um treinamento b\u00e1sico e violento para ser soldado. Inclu\u00eda espancamentos a cada erro. Entregaram-lhe uma arma e come\u00e7ou a fazer parte de diferentes miss\u00f5es. \u201cO lugar onde est\u00e1vamos era muito sujo. Dorm\u00edamos no ch\u00e3o de um galp\u00e3o e muitas crian\u00e7as ficaram doentes porque n\u00e3o havia rem\u00e9dios. Havia muito pouca comida e t\u00ednhamos de caminhar v\u00e1rias horas a cada dia para buscar \u00e1gua. N\u00f3s, meninas, sab\u00edamos que quando era a nossa vez de buscar \u00e1gua, algum soldado nos atacaria ou nos estupraria. Sempre acontecia nesse momento, na floresta.\u201d Ela deixou de viver em sua casa para morar em um acampamento no meio da floresta; deixou de ir \u00e0 escola para atacar as cidades vizinhas com uma arma autom\u00e1tica pendurada no pesco\u00e7o. \u201cAs crian\u00e7as menores guardavam o acampamento e n\u00f3s atac\u00e1vamos os lugares.\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/02\/09\/album\/1518179604_029787.html\">Roub\u00e1vamos e atir\u00e1vamos nas pessoas.<\/a>\u00a0Antes de sair para as miss\u00f5es, muitas crian\u00e7as fumavam uma droga que nos davam. N\u00e3o sei o que era. N\u00e3o fumava, mas bebia. Bebia \u00e1lcool antes de sair.\u201d<\/p>\n<section id=\"sumario_2|html\" class=\"sumario_html derecha\"><a name=\"sumario_2\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\">\u201cQuando estou sozinha, me v\u00eam as imagens do que fiz. E quando estou triste. Quando estou triste tamb\u00e9m\u201d<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cT\u00ednhamos que realizar miss\u00f5es\u201d, conta. \u201cAssalt\u00e1vamos os ve\u00edculos que passavam por um caminho ou entr\u00e1vamos em casas para roubar comida ou dinheiro\u201d. Sentada em uma cadeira, ela se inclina para frente para co\u00e7ar o tornozelo enquanto fala. Ela fica assim, olhando para o ch\u00e3o, encolhida enquanto toca sua sand\u00e1lia gasta. E sua voz \u00e9 um sussurro. \u201cEm uma dessas miss\u00f5es, quando estava havia seis meses na guerrilha, percebi que est\u00e1vamos vindo para a minha aldeia, onde eu n\u00e3o sabia se minha fam\u00edlia ainda estava. Outras crian\u00e7as come\u00e7aram a atirar nas pessoas que corriam. N\u00e3o vi ningu\u00e9m que eu conhecia, ningu\u00e9m da minha fam\u00edlia. Eu tamb\u00e9m atirei. Depois queimamos as casas, queimamos uma casa com as pessoas dentro.\u201d Lucie fica em sil\u00eancio, com os olhos ainda no ch\u00e3o. \u201cEu n\u00e3o sentia nada naquele momento. Apenas que estava cumprindo o que tinham mandado. \u00c9 agora que eu sinto&#8230; \u00c9 agora que me dou conta.\u201d Lucie para. N\u00e3o quer falar mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela foi libertada h\u00e1 menos de um ano, quando a guerrilha local assinou um acordo com o Governo. Voltou para casa, \u00e0 aldeia pegada em Yambio, que atacou quando era soldado, onde agora fala inclinada sobre uma cadeira. Seu pai diz que ela mudou: \u201cNas primeiras semanas, quando ela voltou, n\u00e3o falava. N\u00e3o podia. Agora est\u00e1 melhor. Desde que come\u00e7ou a ir para a escola de novo melhorou muito. Mas ainda n\u00e3o a pessoa de antes. \u00c9 outra\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lucie diz, balan\u00e7ando a cabe\u00e7a, que muitos vizinhos n\u00e3o querem falar com ela por causa dos ataques em que participou. E que tem medo que possam fazer algo contra ela em repres\u00e1lia. \u201cQuando estou sozinha, me v\u00eam as imagens do que fiz. E quando estou triste. Quando estou triste tamb\u00e9m.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cen\u00e1rio de Yambio \u00e9 igual ao de grande parte do Sud\u00e3o do Sul. A maioria das regi\u00f5es do pa\u00eds \u00e9 controlada por mil\u00edcias, transformando o territ\u00f3rio em um quebra-cabe\u00e7as de grupos armados. Muitos deles recrutam meninos e meninas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cMuitas vezes as crian\u00e7as s\u00e3o sequestradas\u201d, diz um funcion\u00e1rio do Unicef respons\u00e1vel pelo atendimento a essas crian\u00e7as. \u201cOutras vezes, sequestram a fam\u00edlia inteira. As mil\u00edcias levam fam\u00edlias inteiras para viver com elas.\u201d \u00c0s vezes, os milicianos obrigam as crian\u00e7as a matar a pr\u00f3pria fam\u00edlia ou a presenciar a execu\u00e7\u00e3o. \u201c\u00c9 uma maneira de doutrin\u00e1-los, de anul\u00e1-los. E tamb\u00e9m de deix\u00e1-los sozinhos e sem outra alternativa que n\u00e3o seja ir com a mil\u00edcia.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nem sempre \u00e9 t\u00e3o perturbador. Em muitas ocasi\u00f5es as crian\u00e7as aderem voluntariamente \u00e0 guerrilha. \u201cEmbora essa palavra, voluntariamente, deva ser colocada entre aspas\u201d, diz o funcion\u00e1rio do Unicef. \u201cAs crian\u00e7as que aderem o fazem como uma sa\u00edda, em busca de um futuro. Elas ficaram sozinhas ou n\u00e3o t\u00eam meios para comer e s\u00e3o obrigadas a ser soldados para uma mil\u00edcia.\u201d<\/p>\n<section id=\"sumario_3|foto\" class=\"sumario_foto centro\"><a name=\"sumario_3\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\"><a class=\"enlace\" href=\"https:\/\/elpais.com\/elpais\/2018\/08\/10\/album\/1533912012_475781.html\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/internacional\/imagenes\/2018\/08\/10\/actualidad\/1533901618_963321_1533908392_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/internacional\/imagenes\/2018\/08\/10\/actualidad\/1533901618_963321_1533908392_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/internacional\/imagenes\/2018\/08\/10\/actualidad\/1533901618_963321_1533908392_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/internacional\/imagenes\/2018\/08\/10\/actualidad\/1533901618_963321_1533908392_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"Matthew (nome fict\u00edcio) e outras ex-crian\u00e7as soldado durante a cerim\u00f4nia de desmobiliza\u00e7\u00e3o da qual participaram em Yambio. O ato, organizado pelo Governo, simboliza seu retorno \u00e0 escola depois de terem sido sequestradas pela mil\u00edcia.\" width=\"980\" height=\"653\" \/><span class=\"boton_fotogaleria\">ver fotogaler\u00eda<\/span><\/a><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Matthew (nome fict\u00edcio) e outras ex-crian\u00e7as soldado durante a cerim\u00f4nia de desmobiliza\u00e7\u00e3o da qual participaram em Yambio. O ato, organizado pelo Governo, simboliza seu retorno \u00e0 escola depois de terem sido sequestradas pela mil\u00edcia.<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">ULY MART\u00cdN<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns meninos e meninas encontram na mil\u00edcia sua forma \u00fanica de vida. Uma assistente social da ONG World Vision em Yambio explica que \u201c\u00e0s vezes nem mesmo n\u00f3s sabemos se uma crian\u00e7a \u00e9 soldado ou n\u00e3o. Algumas vivem no acampamento da mil\u00edcia, mas v\u00e3o de vez em quando \u00e0 escola ou \u00e0 aldeia. Aqui chegou a haver uma normalidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s crian\u00e7as soldado.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Peter \u2013nome fict\u00edcio de um menor de Yambio\u2013 foi convencido por amigos. \u201cMeus pais morreram e eu fiquei sozinho com 14 anos. Toda vez que voltava da escola encontrava uns meninos que conhe\u00e7o e eles me falavam que com os rebeldes podia ganhar dinheiro e comer. Um dia eu fui com eles.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Levou a primeira surra porque quando o comandante o mandou dar meia-volta \u00e0 esquerda ele se enganou e o fez \u00e0 direita. \u201cIsso era o que eles n\u00e3o tinham me contado, que te batiam. Tamb\u00e9m matavam crian\u00e7as. Quando vi que era assim, eu disse a mim mesmo: \u2018Siga as instru\u00e7\u00f5es e obede\u00e7a tudo\u2019.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Peter sorri quando \u00e9 perguntado se matou algu\u00e9m. \u00c9 um sorriso defensivo. \u201cAtirei em um monte de gente, mas n\u00e3o quero falar sobre isso. Me sinto muito mal pelas pessoas que ataquei. Naquele momento, eu n\u00e3o tinha consci\u00eancia, s\u00f3 pensava: ou mato ou me matam. A maioria das crian\u00e7as tinha orgulho, porque cumpr\u00edamos nossa miss\u00e3o. Agora tenho pesadelos quase todos os dias com o que eu fiz.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No total, ele passou dois anos no acampamento, at\u00e9 que a fac\u00e7\u00e3o rebelde \u00e0 qual pertencia se rendeu. \u201cDurante esse tempo, voc\u00ea pensa em fugir, mas para onde? A maioria das crian\u00e7as n\u00e3o tem para onde ir e mesmo que fugissem, seriam presas ou mortas por serem rebeldes. N\u00e3o h\u00e1 como escapar quando voc\u00ea est\u00e1 l\u00e1.\u201d<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em Yambio, uma cidade devastada pela guerra, 60% das crian\u00e7as foram recrutadas por grupos armados. No Sud\u00e3o do Sul, em guerra civil desde 2013, estima-se que existam 19.000 crian\u00e7as soldado NACHO CARRETERO Ver galeria de fotosCrian\u00e7as em uma cerim\u00f4nia realizada em Yambio, no sul do Sud\u00e3o.\u00a0ULY MART\u00cdN Em uma clareira na floresta nos arredores de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":253353,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1175,6],"tags":[],"class_list":["post-253352","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-educacao","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/guri-soldado.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/253352","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=253352"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/253352\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/253353"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=253352"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=253352"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=253352"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}