{"id":253524,"date":"2018-08-14T08:08:48","date_gmt":"2018-08-14T11:08:48","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=253524"},"modified":"2018-08-14T08:08:48","modified_gmt":"2018-08-14T11:08:48","slug":"o-lendario-fruto-de-uma-ilha-que-provocou-motim-historico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-lendario-fruto-de-uma-ilha-que-provocou-motim-historico\/","title":{"rendered":"O lend\u00e1rio fruto de uma ilha que provocou motim hist\u00f3rico"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"byline\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"byline__name\">Laura Kiniry<\/span><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share-row\">\n<div class=\"share-tools--no-event-tag\">\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-twite\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/13F79\/production\/_102958718_bd718984-50a3-4d50-97c4-e6f58d7c227c.jpg\" alt=\"Fruta-p\u00e3o\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span>A fruta-p\u00e3o, ou uru, faz parte da dieta e cultura da Polin\u00e9sia Francesa<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\" style=\"text-align: justify;\">Na Polin\u00e9sia Francesa, h\u00e1 uma lenda sobre a grande fome que ocorreu na ilha de Raiatea. Uma fam\u00edlia de seis pessoas estava t\u00e3o desesperada por comida que foi morar numa caverna e chegou a comer samambaias silvestres que cresciam no vale ao redor. Sem aguentar mais ver seus entes queridos sofrerem, o patriarca diz \u00e0 sua esposa que cavaria um t\u00famulo e se enterraria ali. No local, floresceria uma \u00e1rvore que, ent\u00e3o, poderia aliment\u00e1-los.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando, numa dada manh\u00e3, sua esposa acordou e n\u00e3o mais o viu, sabia o que tinha acontecido. Nas proximidades, havia uma \u00e1rvore-do-p\u00e3o que crescia rapidamente, com galhos carregados de frutos. Hoje, esse lugar \u00e9 chamado de Mahina, mas muitos moradores locais ainda se referem a ele como Tua-uru, que significa &#8220;vale da fruta-p\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em minha visita \u00e0 Polin\u00e9sia Francesa, n\u00e3o precisaria ter ouvido essa hist\u00f3ria para deduzir que a fruta-p\u00e3o, ou uru, como dizem os polin\u00e9sios, faz parte tanto da dieta dos moradores quanto de sua cultura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aonde quer que fosse, via as imponentes \u00e1rvores com suas folhas brilhantes e frutas pesadas, cada uma do tamanho de bolas de beisebol ou at\u00e9 maiores. Elas decoravam as beiras das estradas e os quintais das casas. &#8220;Uma coisa comum&#8221;, um polin\u00e9sio nativo chamado Tea me contou, &#8220;porque significa que voc\u00ea pode alimentar sua fam\u00edlia por muitos anos&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas feiras livres, a fruta-p\u00e3o circular e oblonga (existem dezenas de variedades apenas na Polin\u00e9sia Francesa) era exposta ao lado do coco, da banana-da-terra, da graviola e do maracuj\u00e1, com o exterior verde coberto por min\u00fasculas formas hexagonais. Algumas j\u00e1 haviam sido cortadas ao meio, exibindo uma polpa branca fibrosa. Elas se pareciam com a jaca, embora menores, e fazem parte da mesma fam\u00edlia, junto com os figos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas mais de 100 ilhas que formam a Polin\u00e9sia Francesa, a fruta-p\u00e3o \u00e9 um alimento b\u00e1sico. O nome deriva do fato de que, quando est\u00e1 madura o suficiente para ser comida, a fruta se parece ao p\u00e3o que acaba de sair da fornalha. Ela fica mais doce \u00e0 medida que amadurece e pode ser preparada de v\u00e1rias maneiras, incluindo amassada, cozida, assada e frita, ou at\u00e9 mesmo consumida crua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns locais chamam a fruta-p\u00e3o de &#8216;\u00c1rvore da Vida&#8217;, porque tanto o fruto quanto as folhas da \u00e1rvore s\u00e3o comest\u00edveis. Al\u00e9m disso, a madeira leve de seu tronco pode ser usada para construir casas e canoas tradicionais, e a casca \u00e9 usada at\u00e9 mesmo para fazer roupas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fruta-p\u00e3o \u00e9 nativa da Nova Guin\u00e9, e os polin\u00e9sios a cultivam, gra\u00e7as a suas incurs\u00f5es pelo Pac\u00edfico Sul, h\u00e1 milhares de anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois que os exploradores brit\u00e2nicos descobriram a planta e sua fruta nutritiva, foi apenas uma quest\u00e3o de tempo at\u00e9 que o uru se espalhasse pelo mundo. Hoje, as \u00e1rvores de fruta-p\u00e3o s\u00e3o abundantes em 90 pa\u00edses, em sua maioria tropicais, como o Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1768, quando o capit\u00e3o ingl\u00eas James Cook partiu a bordo do navio HMS Endeavour, da Marinha Real brit\u00e2nica, junto com o bot\u00e2nico Sir Joseph Banks, sua viagem explorat\u00f3ria de tr\u00eas anos incluiu uma parada de tr\u00eas meses no Taiti.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ali, os dois homens se encantaram pelo potencial da fruta-p\u00e3o para alimentar escravos nas \u00cdndias Ocidentais Brit\u00e2nicas, visto que as \u00e1rvores cresciam rapidamente, exigiam pouco cuidado e produziam grandes quantidades de frutos com alto teor de carboidratos. Ao retornar \u00e0 Inglaterra, Banks (que mais tarde se tornou presidente da Royal Society, a institui\u00e7\u00e3o cient\u00edfica nacional mais antiga do mundo) alertou o rei George 3\u00ba de suas descobertas, chegando at\u00e9 a oferecer uma recompensa a qualquer pessoa que transportasse mil mudas da planta do Taiti para as \u00cdndias Ocidentais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Logo me vi em uma pequena expedi\u00e7\u00e3o pessoal da fruta-p\u00e3o. No Tropical Garden, uma fazenda familiar cheia de flores tropicais e \u00e1rvores frut\u00edferas na ilha de Moorea, me deliciei com um peda\u00e7o doce de uma fruta-p\u00e3o cozida a vapor mergulhada em tapioca, conhecida como po&#8217;e (um pudim de frutas taitiano).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir do momento em que provei a sobremesa, com seu sabor rico e cremoso, me apaixonei. Aonde quer que fosse, vasculhava os card\u00e1pios em busca de fruta-p\u00e3o em aperitivos, saladas e at\u00e9 sorvete. Ouvi falar de vers\u00f5es que consistiam na fruta cozida a fogo baixo, saturada em leite de coco fermentado, servida quente com punu pua&#8217;atoro, ou carne salgada enlatada, e mo\u00edda em farinha para fazer p\u00e3o sem gl\u00faten.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns especialistas em plantas dizem que a fruta-p\u00e3o \u00e9 um superalimento do futuro, que tem o potencial de acabar com a fome no mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Me perguntei, ent\u00e3o, como nunca tinha ouvido falar &#8211; ou provado &#8211; uma fruta t\u00e3o importante?<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/12543\/production\/_102957057_382df261-45c3-4c36-ba7e-7448285a7bb8.jpg\" alt=\"Taiti\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">No final dos anos 1700, o Capit\u00e3o James Cook e o bot\u00e2nico Sir Joseph Banks passaram tr\u00eas meses no Taiti, onde descobriram a fruta-p\u00e3o<\/span><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quase duas d\u00e9cadas ap\u00f3s a expedi\u00e7\u00e3o original de Cook, o rei George 3\u00ba nomeou o tenente William Bligh para liderar a expedi\u00e7\u00e3o da fruta-p\u00e3o ao Taiti. Em 28 de novembro de 1787, Bligh embarcou com sua tripula\u00e7\u00e3o a bordo do HMS Bounty. Sua jornada foi dif\u00edcil desde o in\u00edcio. Ventos fortes e tempestades reduziram significativamente a velocidade da viagem. Quando chegaram ao Taiti, Bligh e sua tripula\u00e7\u00e3o tiveram que esperar mais cinco meses para que as plantas estivessem prontas para o transporte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando chegou a hora de zarpar ao Caribe, os homens de Bligh j\u00e1 haviam se acostumado a viver na ilha &#8211; e \u00e0s mulheres taitianas. Muitos deles n\u00e3o queriam ir embora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, em 29 de abril de 1789, passado um m\u00eas de sua viagem pelo Pac\u00edfico Sul em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s \u00cdndias Ocidentais, Fletcher Christian e outros 18 tripulantes, descontentes com a situa\u00e7\u00e3o, for\u00e7aram Bligh e seus correligion\u00e1rios a entrar em um barco de 7 m, deixado \u00e0 deriva. Junto com eles, tamb\u00e9m se livraram de todas as frutas-p\u00e3o.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/16689\/production\/_102958719_40e46d08-db68-4029-9cb0-80fd34f656cf.jpg\" alt=\"Quadro retrata &quot;Motim no Bounty&quot;\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>O cinematogr\u00e1fico &#8216;motim do HMS Bounty&#8217; ocorreu quando o tenente William Bligh transportava fruta-p\u00e3o do Taiti para o Caribe<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">O &#8220;<i>mutiny on the Bounty<\/i>&#8221; (&#8220;motim do HMS Bounty&#8221;) tornou-se uma lenda urbana, e a maioria dos historiadores acredita que o epis\u00f3dio aconteceu porque aqueles que apoiavam Christian acreditavam que ele poderia ajud\u00e1-los a voltar ao Taiti &#8211; algo que, embora tenha acontecido, n\u00e3o saiu como planejado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Surpreendentemente, Bligh e sua tripula\u00e7\u00e3o sobreviveram, avan\u00e7ando por instinto e mem\u00f3ria por 3,6 mil milhas n\u00e1uticas (6,7 mil km) em 48 dias para Timor, uma ilha no sudeste da \u00c1sia. Bligh logo retornou \u00e0 Inglaterra, onde foi absolvido de qualquer ilegalidade que tivesse cometido e, dois anos depois, partiu novamente para o Taiti, desta vez completando com sucesso sua miss\u00e3o. Na verdade, algumas das \u00e1rvores que Bligh levou ao Caribe ainda est\u00e3o produzindo frutos na Jamaica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No \u00faltimo dia da minha viagem, me vi no movimentado Mercado de Papeete, a poucos quarteir\u00f5es da ba\u00eda no Taiti.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto outros turistas zanzavam pelas in\u00fameras barracas que vendiam pareos com estampas coloridas, uma esp\u00e9cie de canga, garrafas de mono\u00ef (uma mistura de \u00f3leo de coco e flores) e \u00f3leos de baunilha e adornos de cabelo perfumados de gard\u00eania, subi as escadas em dire\u00e7\u00e3o ao Cafe Maeva para provar um prato \u00e0 base de fruta-p\u00e3o que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o havia comido: batatas fritas de uru, ou chips de fruta-p\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao fim da refei\u00e7\u00e3o, cheguei a uma conclus\u00e3o \u00f3bvia: essa realmente \u00e9 uma fruta digna de uma hist\u00f3ria lend\u00e1ria.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O cinematogr\u00e1fico &#8216;motim do HMS Bounty&#8217; ocorreu quando o tenente William Bligh transportava fruta-p\u00e3o do Taiti para o Caribe<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":253525,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-253524","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/espanhois.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/253524","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=253524"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/253524\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/253525"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=253524"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=253524"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=253524"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}