{"id":254032,"date":"2018-08-18T11:22:21","date_gmt":"2018-08-18T14:22:21","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=254032"},"modified":"2018-08-18T11:22:21","modified_gmt":"2018-08-18T14:22:21","slug":"era-uma-vez-o-era-uma-vez","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/era-uma-vez-o-era-uma-vez\/","title":{"rendered":"Era uma vez o \u201cera uma vez\u201d"},"content":{"rendered":"<div class=\"articulo__apertura\">\n<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div class=\"articulo-encabezado-texto\">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\"><em>Alguns come\u00e7os de livros se fazem t\u00e3o c\u00e9lebres que se transformam em lugares-comuns: \u2018Dom Quixote\u2019, \u2018Cem Anos de Solid\u00e3o\u2019&#8230;<\/em><\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \" style=\"text-align: justify;\">\n<figure class=\"foto centro foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2018\/08\/15\/babelia\/1534349346_859583_1534353178_noticia_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2018\/08\/15\/babelia\/1534349346_859583_1534353178_noticia_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2018\/08\/15\/babelia\/1534349346_859583_1534353178_noticia_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2018\/08\/15\/babelia\/1534349346_859583_1534353178_noticia_normal.jpg 980w\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o de Pep Boatella.\" width=\"980\" height=\"580\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Ilustra\u00e7\u00e3o de Pep Boatella.<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"firma \">\n<div class=\"autor\">\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Alberto Manguel\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/alberto_manguel\/a\/\">ALBERTO MANGUEL<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"articulo-datos\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando o Coelho Branco aparece diante do Rei Vermelho para dar seu depoimento no\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2015\/03\/04\/politica\/1425472215_514128.html\">Pa\u00eds das Maravilhas<\/a>, diz que n\u00e3o sabe por onde come\u00e7ar. \u201cComece do come\u00e7o\u201d, lhe diz o Rei, \u201ce continue at\u00e9 chegar ao final. Ent\u00e3o pare\u201d. Mas o que \u00e9 esse come\u00e7o? S\u00e3o Jo\u00e3o, pensando sem d\u00favida que dessa forma esclarecia o complexo dogma crist\u00e3o, escreveu que no come\u00e7o era o verbo. S\u00e9culos mais tarde, na primeira parte de Fausto, o desiludido m\u00e9dico procura nessa primeira palavra o entendimento que sente que lhe falta.\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/martin_lutero\">Lutero<\/a>\u00a0teria traduzido esse verbo (logos) como\u00a0<em>wort<\/em>, \u201cpalavra\u201d, perdendo assim os outros sentidos impl\u00edcitos no voc\u00e1bulo grego, e Fausto se prop\u00f5e a l\u00ea-los como \u201csinn\u201d, \u201ckraft\u201d e \u201ctat\u201d \u2013 \u201cintelecto\u201d, \u201cfor\u00e7a\u201d e \u201ca\u00e7\u00e3o\u201d \u2013. Para Fausto, todas essas coisas est\u00e3o no come\u00e7o do livro sagrado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As palavras iniciais de todo texto devem fazer pressentir as p\u00e1ginas seguintes. Pausada ou bruscamente, resumindo o argumento ou distraindo o leitor para que ele n\u00e3o adivinhe o desenlace, indicando o tom da narra\u00e7\u00e3o que vir\u00e1 ou dando falsos ind\u00edcios, se desculpando ou se vangloriando da aptid\u00e3o do autor, as primeiras palavras s\u00e3o o gesto de reconhecimento e desafio lan\u00e7ados do ponto final de um livro ao leitor que inicia o percurso. Por motivos geralmente misteriosos, algumas dessas aberturas se tornam t\u00e3o c\u00e9lebres que se transformam em lugares-comuns, enquanto outras s\u00e3o relegadas ao esquecimento como paix\u00f5es fugazes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todo leitor reconhece o aterrador in\u00edcio de\u00a0<em>A Metamorfose<\/em>, de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/franz_kafka\">Kafka<\/a>: \u201cEm uma manh\u00e3, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregorio Samsa se encontrou em sua cama transformado em um monstruoso inseto\u201d. Ningu\u00e9m pode se esquecer do inapel\u00e1vel come\u00e7o de\u00a0<em>O Contrato Social<\/em>, de\u00a0<a href=\"https:\/\/elpais.com\/tag\/jean_jacques_rousseau\/a\">Rousseau<\/a>: \u201cO homem nasceu livre e por todos os lados se encontra acorrentado\u201d. Por que lembramos do musical in\u00edcio de As Ru\u00ednas Circulares, de Borges (\u201cNingu\u00e9m o viu desembarcar na un\u00e2nime noite\u201d), e n\u00e3o com igual facilidade \u201cGost\u00e1vamos tanto da casa porque, al\u00e9m de ser espa\u00e7osa e antiga\u201d, de\u00a0<em>A Casa Tomada<\/em>\u00a0de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/julio_cortazar\">Cort\u00e1zar<\/a>? Talvez pelo poder do inaudito adjetivo \u201cun\u00e2nime\u201d, bem mais memor\u00e1vel do que os banais, ainda que exatos, ep\u00edtetos \u201cespa\u00e7osa e antiga\u201d. Isso sugere que talvez nos deixamos seduzir mais prontamente pelo tom dos come\u00e7os do que por seus significados. \u201cFala-me, Musa, do var\u00e3o de grande engenho\u201d com que come\u00e7a a\u00a0<em>Odisseia<\/em>\u00a0e \u201cCanta, Deusa, a c\u00f3lera de Aquiles\u201d da\u00a0<em>Il\u00edada<\/em>\u00a0dependem, para que lembremos deles, e a menos que saibamos grego antigo, da tradu\u00e7\u00e3o que escolhemos para l\u00ea-las.<\/p>\n<section id=\"sumario_3|despiece\" class=\"sumario_despiece izquierda\"><a name=\"sumario_3\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<header class=\"sumario-encabezado\">\n<h4 class=\"sumario-titulo\"><span class=\"sin_enlace\">OS COME\u00c7OS MAIS C\u00c9LEBRES<\/span><\/h4>\n<\/header>\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p><strong>Odisseia<\/strong>. Homero. S\u00e9culo VIII antes de Cristo. \u201cFala-me, Musa, do var\u00e3o de grande engenho\u2026\u201d.<\/p>\n<p><strong>Il\u00edada<\/strong>. Homero. S\u00e9culo VIII antes de Cristo. \u201cCanta, Deusa, a c\u00f3lera de Aquiles\u2026\u201d.<\/p>\n<p><strong>Eneida<\/strong>. Virg\u00edlio. S\u00e9culo I antes de Cristo. \u201cCanto \u00e0s armas e a esse homem que das costas de Troia chegou primeiro \u00e0 It\u00e1lia \u2026\u201d.<\/p>\n<p><strong>A Divina Com\u00e9dia<\/strong>. Dante Alighieri. 1321. \u201cNa metade do caminho da vida, me encontrava em uma selva escura porque perdi o verdadeiro caminho\u2026\u201d.<\/p>\n<p><strong>Dom Quixote de la Mancha<\/strong>. Miguel de Cervantes. 1615. \u201cEm um lugar da Mancha, de cujo nome n\u00e3o quero me lembrar, n\u00e3o faz muito tempo vivia um fidalgo dos de lan\u00e7a em cabido, adarga antiga, rocim magro e galgo corredor\u201d.<\/p>\n<p><strong>O Contrato Social<\/strong>. Jean-Jacques Rousseau. 1762. \u201cO homem nasceu livre e por todos os lados se encontra acorrentado\u201d.<\/p>\n<p><strong>Mem\u00f3rias p\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas<\/strong>. Machado de Assis. 1881. &#8220;Algum tempo hesitei se devia abrir estas mem\u00f3rias pelo princ\u00edpio ou pelo fim, isto \u00e9, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Moby-Dick<\/strong>. Herman Melville. 1851. \u201cChamai-me Ismael\u201d.<\/p>\n<p><strong>Anna Karenina<\/strong>. Le\u00f3n Tolst\u00f3i. 1877. \u201cTodas as fam\u00edlias felizes se parecem, mas cada fam\u00edlia infeliz o \u00e9 \u00e0 sua maneira\u201d.<\/p>\n<p><strong>A Metamorfose<\/strong>. Franz Kafka. 1915. \u201cEm uma manh\u00e3, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregorio Samsa se encontrou em sua cama transformado em um monstruoso inseto\u201d.<\/p>\n<p><strong>Em Busca do Tempo Perdido<\/strong>. Marcel Proust. 1913-1927. \u201cDurante muito tempo fui me deitar cedo\u201d.<\/p>\n<p><strong>Lolita<\/strong>. Vladimir Nabokov. 1955. \u201cLolita, luz da minha vida, fogo das minhas entranhas\u201d.<\/p>\n<p><strong>Cem Anos de Solid\u00e3o<\/strong>. Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez. 1967. \u201cMuitos anos depois, diante do pelot\u00e3o de fuzilamento, o coronel Aureliano Buend\u00eda recordaria aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo\u201d.<\/p>\n<p><strong>Em busca do tempo perdido.<\/strong>\u00a0Marcel Proust. 1913-1927. \u201cMuito tempo tenho estado deitando-me tempor\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><strong>Lolita.<\/strong>\u00a0Vlad\u00edmir Nabokov. 1955. \u201cLolita, luz de minha vida, fogo de minhas entranhas\u201d.<\/p>\n<p><strong>Cem anos de solid\u00e3o.<\/strong>\u00a0Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez. 1967. \u201cMuitos anos depois, em frente ao pelot\u00e3o de fusilamiento, o coronel Aureliano Buend\u00eda tinha de lembrar aquela tarde remota em que seu pai o levou a conhecer o gelo\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem levar em considera\u00e7\u00e3o as p\u00e1ginas preliminares que Cervantes escreveu para seu\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/el_quijote\">Dom Quixote<\/a>, mesmo os que n\u00e3o leram o romance sabem de cor as primeiras hoje c\u00e9lebres palavras do primeiro cap\u00edtulo. Apesar, entretanto, dos inumer\u00e1veis coment\u00e1rios que apareceram desde a publica\u00e7\u00e3o do livro em 1605 (e ainda antes, quando circulavam c\u00f3pias manuscritas do livro, como provam as respostas que d\u00e1 Lope a Cervantes em\u00a0<em>El Peregrino en su Patria<\/em>, publicado no ano anterior), n\u00e3o sabemos nada de como Dom Quixote foi composto. N\u00e3o conservamos um manuscrito feito por Cervantes, n\u00e3o sabemos quais foram seus primeiros esbo\u00e7os, suas d\u00favidas, quais outras palavras iniciais foram imaginadas e descartadas, qual foi sua inspira\u00e7\u00e3o inicial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O imprescind\u00edvel Francisco Rico, comentando em 1996 uma edi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica do Dom Quixote de Rodr\u00edguez Mar\u00edn, observou que a longa nota sobre aquele \u201clugar da Mancha de cujo nome n\u00e3o quero me lembrar\u201d demonstrava a influ\u00eancia de \u201cum minguado romancezinho que nem o autor nem ningu\u00e9m poderia ter em conta\u201d e n\u00e3o dizia nada sobre a palavra lugar, que o leitor, segundo Rico, \u201cinterpreta indefectivelmente e equivocadamente como \u2018local\u2019, \u2018paragem\u2019 e n\u00e3o como povoadinho\u201d. Rico acrescenta que a emo\u00e7\u00e3o que podem despertar no leitor as famosas palavras de Cervantes muitas vezes precisa dispensar todo o arcabou\u00e7o cr\u00edtico. As primeiras palavras de uma obra prima podem prescindir de facilitadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/elpais.com\/tag\/johann_wolfgang_goethe\/a\">Goethe<\/a>\u00a0dizia que, antes de escrever um livro, era preciso t\u00ea-lo \u201ctodo na cabe\u00e7a\u201d porque \u201cum livro n\u00e3o come\u00e7a necessariamente pela primeira frase\u201d. Provavelmente isso \u00e9 verdade, mas h\u00e1 algo inef\u00e1vel nas palavras iniciais que para um leitor \u00e9 o \u201cAbre-te, S\u00e9samo\u201d, de um texto. \u201cArma virumque cano\u201d, \u201cNel mezzo del cammin di nostra vita\u201d, \u201cCall me Ishmael\u201d, \u201cTodas as fam\u00edlias felizes se parecem, mas cada fam\u00edlia infeliz o \u00e9 \u00e0 sua maneira\u201d, \u201cLongtemps je me suis couch\u00e9 de bonne heure\u201d, se transformaram, ao longo de nossas leituras, em uma esp\u00e9cie de cat\u00e1logo abreviado da literatura universal can\u00f4nica.<\/p>\n<section id=\"sumario_4|foto\" class=\"sumario_foto izquierda\"><a name=\"sumario_4\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w360\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2018\/08\/15\/babelia\/1534349346_859583_1534506447_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2018\/08\/15\/babelia\/1534349346_859583_1534506447_sumario_normal_recorte1.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2018\/08\/15\/babelia\/1534349346_859583_1534506447_sumario_normal.jpg 360w\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o de Salvador Dal\u00ed para 'Dom Quixote' (1945).\" width=\"360\" height=\"449\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Ilustra\u00e7\u00e3o de Salvador Dal\u00ed para &#8216;Dom Quixote&#8217; (1945).<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">FUNDACI\u00d3N GALA-DAL\u00cd. VEGAP, MADRID 2018<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao prazer da cita\u00e7\u00e3o reconhecida (da\u00a0<em>Eneida<\/em>, da\u00a0<em>Divina Com\u00e9dia<\/em>,\u00a0<em>Moby Dick, Anna Karenina, Em Busca do Tempo Perdido<\/em>) se acrescenta a emo\u00e7\u00e3o de iniciar uma viagem, o encanto de uma aventura compartilhada. \u00c0s vezes, a arqueologia liter\u00e1ria nos permite entrever a pr\u00e9-hist\u00f3ria de uma obra. Boccaccio nos conta que Dante come\u00e7ou a escrever sua com\u00e9dia em latim antes de escolher a l\u00edngua florentina, e que suas primeiras palavras foram \u201cultima regna canam\u201d (\u201ccantarei os reinos ultraterrenos\u201d), no lugar de a escura selva e o caminho da vida. Sabemos, pelo manuscrito conservado na Funda\u00e7\u00e3o Bodmer de Genebra, que Proust imaginou as palavras \u201cPendant bien des ann\u00e9es, chaque soir, quand je venais me coucher\u201d antes de preferir a frase agora c\u00e9lebre. O manuscrito datilografado de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/06\/04\/cultura\/1496600143_627064.html\"><em>Cem Anos de Solid\u00e3o<\/em><\/a>\u00a0(conservado na Universidade do Texas) nos revela na primeira p\u00e1gina uma \u00fanica corre\u00e7\u00e3o: a primeira frase que anuncia o descobrimento do gelo n\u00e3o tem altera\u00e7\u00f5es, mas, por outro lado, os dois par\u00e1grafos iniciais se transformam em um s\u00f3.<\/p>\n<section id=\"sumario_2|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\">Talvez o leitor se deixe seduzir mais pelo tom dos come\u00e7os do que por seu significado<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">Louis Arag\u00f3n, discordando de Goethe, declara em\u00a0<em>Je n\u2019ai jamais appris \u00e0 \u00e9crire<\/em>\u00a0que a escrita n\u00e3o ocorre ap\u00f3s a concep\u00e7\u00e3o da obra inteira e sim no incipit, por tr\u00e1s das palavras iniciais e tamb\u00e9m a partir delas. Arag\u00f3n n\u00e3o entendia por \u201cpalavras iniciais\u201d as que aparecem impressas na primeira linha de um livro e sim essa primeira ilumina\u00e7\u00e3o verbal que tem um escritor, uma esp\u00e9cie de epifania liter\u00e1ria a partir da qual uma obra come\u00e7a a existir. \u201cUma hist\u00f3ria n\u00e3o tem come\u00e7o e fim\u201d s\u00e3o as primeiras palavras de\u00a0<em>O Fim da Aventura<\/em>, de Graham Greene. \u201cO instante da experi\u00eancia de onde se olha para tr\u00e1s ou para diante \u00e9 escolhido arbitrariamente\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse instante pode estar fora do marco da hist\u00f3ria. Sabemos que no caso de\u00a0<em>O M\u00e9dico e o Monstro<\/em>, de Stevenson, esse instante foi um pesadelo, um dos muitos em que sentia que o que ele chamava de \u201ca bruxa noturna\u201d o prendia pela garganta e o impedia de respirar. O pesadelo n\u00e3o foi verbal e sim f\u00edsico: a sensa\u00e7\u00e3o de estar possu\u00eddo por uma tem\u00edvel e aborrecida cor amarelada. Para Flaubert, seu\u00a0<em>Madame Bovary<\/em>\u00a0n\u00e3o come\u00e7ou com o ainda hoje misterioso \u201cn\u00f3s\u201d que recebem em sua classe o novo aluno Charles Bovary, e sim com a breve leitura de um leve policial que lhe inspirou n\u00e3o s\u00f3 no enredo como tamb\u00e9m no estilo simples do livro. \u201cOntem \u00e0 noite comecei meu romance\u201d, escreve Flaubert a sua amiga Louise Colet em 20 de setembro de 1851. \u201cEntrevejo agora dificuldades de estilo que me aterrorizam. N\u00e3o \u00e9 algo simples ser simples. Tenho medo de cair em um Paul de Kock ou em um Balzac chateaubrianizado\u201d. O leitor de\u00a0<em>Madame Bovary<\/em>\u00a0sente o desejo de consolar Flaubert e lhe dizer que certamente isso n\u00e3o aconteceu.<\/p>\n<section id=\"sumario_1|html\" class=\"sumario_html derecha\"><a name=\"sumario_1\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\">Goethe dizia que, antes de escrever uma obra, era preciso t\u00ea-la \u201ctoda na cabe\u00e7a\u201d<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existem primeiras palavras de obras ilustres que n\u00e3o nos dizem nada da genialidade que vir\u00e1 ou pelo menos n\u00e3o nos cativam. N\u00e3o acho que a leitura de \u201cBem, a partir de agora, G\u00eanova e Lucca n\u00e3o s\u00e3o mais do que fazendas, dom\u00ednios da fam\u00edlia Bonaparte\u201d fa\u00e7a com que o um leitor desprevenido intua que est\u00e1 come\u00e7ando a ler\u00a0<em>Guerra e Paz,<\/em>\u00a0e que \u201cUm fantasma percorre a Europa\u201d \u00e9 a introdu\u00e7\u00e3o ao\u00a0<em>Manifesto Comunista<\/em>. Por outro lado, existem come\u00e7os t\u00e3o geniais que o leitor n\u00e3o tem como sentir-se decepcionado com as p\u00e1ginas seguintes. Por exemplo, n\u00e3o sei se\u00a0<em>Monsieur Teste<\/em>, de Val\u00e9ry, cumpre a promessa de seu admir\u00e1vel in\u00edcio, \u201cA estupidez n\u00e3o \u00e9 meu forte\u201d e se\u00a0<em>As Torres<\/em>de Trebizond, de Rose Macaulay, mant\u00e9m ao longo do livro a sutil ironia de sua primeira frase: \u201cPegue meu camelo, querida\u2019, disse minha tia Dot ao desmontar do animal ao retornar da missa\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s leitores sentimos que as palavras com as quais um livro se inicia s\u00e3o essenciais, talvez mais do que as \u00faltimas, porque sabemos que toda conclus\u00e3o tem algo de \u00cdtaca e que chegados a ela j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 mais viagens e aventuras. A frase inicial de um texto pressagia (ainda que n\u00e3o revele) essa chegada ao ansiado porto. \u201cSe serei o her\u00f3i de minha pr\u00f3pria vida, ou se esse papel caber\u00e1 a outro, as p\u00e1ginas seguintes o dir\u00e3o\u201d, escreve Dickens no come\u00e7o de\u00a0<em>David Copperfield<\/em>. O mesmo pode ser dito de toda primeira palavra.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alguns come\u00e7os de livros se fazem t\u00e3o c\u00e9lebres que se transformam em lugares-comuns: \u2018Dom Quixote\u2019, \u2018Cem Anos de Solid\u00e3o\u2019&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":254033,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1175,6],"tags":[],"class_list":["post-254032","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-educacao","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/desenho-de-cara.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/254032","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=254032"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/254032\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/254033"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=254032"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=254032"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=254032"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}