{"id":25420,"date":"2013-10-28T08:45:40","date_gmt":"2013-10-28T11:45:40","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=25420"},"modified":"2013-10-28T08:49:46","modified_gmt":"2013-10-28T11:49:46","slug":"a-ilha-da-discordia-na-terra-dos-sarney","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/a-ilha-da-discordia-na-terra-dos-sarney\/","title":{"rendered":"A ilha da disc\u00f3rdia na terra dos Sarney"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">No munic\u00edpio de Raposa, 20 quil\u00f4metros a nordeste de S\u00e3o Lu\u00eds, a ilha de Curupu \u00e9 conhecida como um dos s\u00edmbolos do poderio econ\u00f4mico da fam\u00edlia Sarney. Mas sua \u00e1rea total de 16 milh\u00f5es de metros quadrados reflete tamb\u00e9m o contraste social pelo qual se tornou conhecido o Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No lado sul da ilha, duas mans\u00f5es servem de abrigo para o cl\u00e3 maranhense e seus convidados vips. Na face norte, um povoado conhecido como Canto, formado por 30 fam\u00edlias de remanescentes do local, ainda vive como seus antepassados. Com a permiss\u00e3o do ex-presidente e senador Jos\u00e9 Sarney (PMDB-AP), a comunidade simples reside ali em casebres de madeira, cobertas de palha ou de telhas de amianto. Os moradores alegam que n\u00e3o t\u00eam permiss\u00e3o para construir casas de<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">alvenaria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se depender da disposi\u00e7\u00e3o de um sobrinho de Sarney, a ilha poder\u00e1 futuramente contar com novos moradores. Dizendo-se coagido na sua inten\u00e7\u00e3o de vender a parte que lhe cabe em Curupu, ele amea\u00e7a fazer um loteamento \u201cpopular\u201d na paradis\u00edaca propriedade da fam\u00edlia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gustavo da Rocha Macieira, filho de Cl\u00e1udio Macieira &#8211; j\u00e1 falecido -, irm\u00e3o de dona Marly Macieira Sarney, esposa do senador, decidiu h\u00e1 dois anos oferecer, por cerca de R$ 20 milh\u00f5es, os 12,5% que possui da ilha. Em dezembro de 2011 ele chegou a publicar an\u00fancios em jornais, contratou uma imobili\u00e1ria para cuidar da venda e iniciou uma negocia\u00e7\u00e3o com um grupo portugu\u00eas. Segundo Gustavo, este e outros compradores desistiram da compra ao saber que se tratava de um im\u00f3vel da fam\u00edlia Sarney.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A imobili\u00e1ria Alzira, que ele contratou em S\u00e3o Lu\u00eds, n\u00e3o conseguiu publicar o an\u00fancio da venda no jornal O Estado do Maranh\u00e3o &#8211; de propriedade da fam\u00edlia Sarney &#8211; e, com medo de \u201cretalia\u00e7\u00e3o\u201d, preferiu desfazer o contrato com o sobrinho do senador. A governadora Roseana Sarney (PMDB), afirma Gustavo, quer impedir que ele use nas pe\u00e7as publicit\u00e1rias fotografias da sua mans\u00e3o na ilha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u2018Vai ter fila\u2019<\/strong>. \u201cO que me parece que vai restar como op\u00e7\u00e3o para mim \u00e9 chegar l\u00e1 no Maranh\u00e3o e oferecer lotes a partir de 100 metros quadrados para quem quiser comprar, fracionar aquilo\u201d, disse ao Estado Gustavo. \u201cVai ter fila em S\u00e3o Lu\u00eds. A\u00ed o problema \u00e9 deles. Vai ser bom porque eles v\u00e3o conviver com o pov\u00e3o, n\u00e9? Vai ser agrad\u00e1vel.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sua parcela na ilha \u00e9 de aproximadamente 2 milh\u00f5es de metros quadrados. H\u00e1 dois anos, segundo corretores locais, o metro quadrado de terra na regi\u00e3o (n\u00e3o especificamente na ilha) estava sendo vendido a R$ 30. \u00c9 o pre\u00e7o que o sobrinho de Sarney pretende cobrar pelo metro quadrado de sua imensa parte na ilha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse valor \u00e9 menos da metade dos R$ 66 pelo metro quadrado que Ivanoel Alves de Sousa tenta obter com a venda de um terreno de 10 por 38 metros em \u00e1rea bem localizada no Timbuba, \u00e1rea portu\u00e1ria no munic\u00edpio vizinho de Pa\u00e7o do Lumiar, utilizada pelos Sarney e amigos para embarque e desembarque. No condom\u00ednio Alphaville, na cidade de S\u00e3o Jos\u00e9 de Ribamar, a venda de lotes gira em torno de R$ 450 o metro quadrado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o h\u00e1 placas de venda em Curupu. Na semana passada, o Estado teve acesso \u00e0 ilha a convite de moradores do Canto. A paisagem \u00e9 como uma miniatura dos len\u00e7\u00f3is maranhenses, em frente \u00e0 sede do munic\u00edpio de Raposa, cidade constru\u00edda por imigrantes cearenses exilados pela seca da d\u00e9cada de 1930 e que ocupa o 3.561.\u00ba lugar entre as 5.565 cidades brasileiras no \u00cdndice de Desenvolvimento Humano. A \u00e1gua que abastece os casebres da col\u00f4nia de pescadores tem alto n\u00edvel de salinidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre os moradores est\u00e1 Valbinho, apelido que Claudiomar Ferreira da Silva, 43 anos, ganhou nos 18 anos que passou executando servi\u00e7os dom\u00e9sticos na casa do Sarney em Curupu. Segundo ele, Sarney o tem como amigo. At\u00e9 pouco tempo, o ex-presidente da Rep\u00fablica costumava ir at\u00e9 o Canto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bolsa Fam\u00edlia<\/strong>. \u201c\u00c0s vezes ele me chamava na casa para saber das novidades\u201d, conta Valbinho &#8211; que \u00e9 pescador e pai de tr\u00eas crian\u00e7as, todas inscritas no Programa Bolsa Fam\u00edlia. No munic\u00edpio h\u00e1 5.664 inscritos no programa social do governo federal. Segundo cadastro do Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Social a frequ\u00eancia escolar \u00e9 de 71,47% nas escolas que recebem alunos entre 6 e 15 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 uma escola no Canto. Luana de Jesus da Silva, 15 anos, e Diana de Jesus Silva, 9 anos, estudam na Unidade Escolar Manoel Batista, um anexo da rede de ensino fundamental de Raposa. Luana est\u00e1 na 6.\u00aa s\u00e9rie e Diana na 4.\u00aa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ambas dividem o \u00fanico professor num mesmo espa\u00e7o. Na quarta-feira, Diana fechava as portas da escola \u00e0s 16 horas. N\u00e3o houve aula.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cOs professores de Raposa n\u00e3o querem vir pra c\u00e1\u201d, reclama Valbinho. Sem ler, nem escrever, o \u201camigo do senador\u201d sabe da instabilidade em que vivem os moradores na ilha. \u201cAqui tem luz. Mas n\u00f3s n\u00e3o temos conta em nosso nome. N\u00e3o podemos provar coisa alguma\u201d, afirma. \u201cQualquer dia desses o velho morre e a ilha ser\u00e1 vendida\u201d, vaticina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o poucos os que possuem emprego formal. H\u00e1 empregados da casa do Sarney que moram ali. Das 30 casas, pelo menos 20 t\u00eam uma moto em frente. Mas s\u00f3 os homens pilotam. Todos no povoado votam ou votaram em Roseana nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es, como conta Cleudes, esposa de Valbinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pol\u00edtica de prote\u00e7\u00e3o da Ilha dos Sarney foi mais acentuada no passado. \u201cHouve uma \u00e9poca em que eles colocaram seguran\u00e7a de um lado e de outro aqui em Raposa\u201d, conta Francisco \u201cNego\u201d, barqueiro que tira a modesta renda di\u00e1ria cobrando R$ 2 por travessia em um barquinho. N\u00e3o deu certo. Hoje os caseiros relaxam e abrem as portas aos visitantes, ilustres ou desconhecidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do outro lado de Curupu a seguran\u00e7a das mans\u00f5es dos Sarney costuma ser feita por policiais militares da Secretaria de Estado de Seguran\u00e7a P\u00fablica. De camisetas azuis com logo da ilha estampado, quatro se revezam em plant\u00f5es na casa de Roseana, esteja a governadora presente nas depend\u00eancias da mans\u00e3o ou n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas raros s\u00e3o os moradores do porto que j\u00e1 viram o senador pessoalmente. O barqueiro Domingos Souza Marques, 51 anos, conta que s\u00f3 o viu pela televis\u00e3o. San Dumon Kzam, 43 anos, comerciante descendente de libaneses, viu apenas uma vez o senador passando para o porto no rio Santo Antonio. \u201cEstou comprando at\u00e9 terreno na lua\u201d, brinca Kzam, ao ser informado sobre a proposta de loteamento de parte da ilha feita por Gustavo Macieira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, est\u00e1 ficando raro tamb\u00e9m o uso do porto em Pa\u00e7o do Lumiar pelos Sarney. Conforme relatos de moradores, quando se recolhe \u00e0 ilha, a governadora utiliza helic\u00f3pteros oficiais do Estado. Os convivas costumam partir do heliporto do empres\u00e1rio Eduardo Lago, na praia do Olho D\u2019\u00c1gua em S\u00e3o Lu\u00eds. Vista do c\u00e9u a vis\u00e3o da ilha esconde os casebres do Canto. O que sobressai \u00e9 mesmo a parte sul e o imenso telhado da mans\u00e3o do senador e de sua filha entre o recorte do mar e a vegeta\u00e7\u00e3o preservada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Respeito<\/strong>. Gustavo, que mora no Rio, diz que n\u00e3o visita a ilha h\u00e1 quase dez anos. O \u00faltimo encontro com o senador foi na \u00e9poca em que decidiu vender sua parte na propriedade. Disse que foi ao Senado para comunicar ao ent\u00e3o presidente da Casa sua inten\u00e7\u00e3o \u201cpor respeito\u201d e \u201cconsidera\u00e7\u00e3o\u201d ao tio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cN\u00e3o estou numa cruzada, n\u00e3o quero comprar briga com ningu\u00e9m. Eu quero, eu preciso vender (a ilha). Eu tenho minha m\u00e3e e meu filho, que s\u00e3o dependentes de mim. Eu sou de classe m\u00e9dia. Eu nunca ocupei e nem quero nenhuma diretoria de estatal, n\u00e3o fui educado pelo meu pai nesse tipo de bajula\u00e7\u00e3o a um \u2018politicozinho\u2019. Quero apenas vender um patrim\u00f4nio que foi constitu\u00eddo, comprado pelo meu av\u00f4 na \u00e9poca, vendido para o meu pai e que meu pai me vendeu essa fra\u00e7\u00e3o ideal\u201d, afirma.<\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\">Fonte: Estado de S. Paulo<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No munic\u00edpio de Raposa, 20 quil\u00f4metros a nordeste de S\u00e3o Lu\u00eds, a ilha de Curupu \u00e9 conhecida como um dos s\u00edmbolos do poderio econ\u00f4mico da fam\u00edlia Sarney. 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