{"id":254232,"date":"2018-08-20T07:45:49","date_gmt":"2018-08-20T10:45:49","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=254232"},"modified":"2018-08-20T07:45:49","modified_gmt":"2018-08-20T10:45:49","slug":"a-mensagem-racista-escondida-em-uma-obra-de-arte-famosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/a-mensagem-racista-escondida-em-uma-obra-de-arte-famosa\/","title":{"rendered":"A mensagem racista escondida em uma obra de arte famosa"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"byline\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"byline__name\">Kelly Grovier<\/span><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share-row\">\n<div class=\"share-tools--no-event-tag\">\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-twite\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/A9E5\/production\/_100639434_68da88bb-e829-4c66-a0fc-808a53560bea.jpg\" alt=\"O Quadrado Negro\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span>Kazimir Malevich pintou &#8216;Quadrado Negro&#8217; em 1915; cem anos depois, um exame microsc\u00f3pico revelou uma piada racista nele<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\" style=\"text-align: justify;\">O preto \u00e9 onde a\u00a0<a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.co.uk\/portuguese\/topics\/37dcc888-51a7-4470-82d8-8ef2b811d482\">arte<\/a>\u00a0come\u00e7a. Desde o momento em que a humanidade sentiu necessidade de desenhar em paredes, ela escolheu o preto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estudos dos primeiros desenhos nas paredes revelam que nossos ancestrais paleol\u00edticos fizeram as primeiras tintas com a ajuda do fogo, forjando a partir de ossos um pigmento cor de carv\u00e3o que abriu a porta para a arte. Toda aplica\u00e7\u00e3o posterior do preto na hist\u00f3ria da cultura ecoa suas origens ritual\u00edsticas e traz um senso de ressurg\u00eancia: esqueletos queimados como s\u00edmbolo de vida.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/108D1\/production\/_100639776_f9f4994b-36f0-4258-b195-393970b51c9a.jpg\" alt=\"Caverna de Lascaux\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>A Caverna de Lascaux, perto do vilarejo de Montignac, no sul da Fran\u00e7a cont\u00e9m pinturas com idade estimada em 16 mil anos, feitas com pigmento preto<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde as silhuetas definidas dos vasos pretos da Gr\u00e9cia Antiga at\u00e9 os v\u00e9us escuros da Catedral de Rothko, tr\u00eas mil\u00eanios e meio depois, essa cor significou a transforma\u00e7\u00e3o da carne fugaz em um emblema permanente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diferentemente de vermelhos emotivos ou azuis sombrios, o preto \u00e9 o tom padr\u00e3o que damos a palavras e letras. \u00c9 uma sombra que lemos mais do que sentimos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Associado superficialmente com o luto, o macabro e com a maldade, o preto tem em si um paradoxo inesperado de otimismo. Toda hist\u00f3ria sobre origens, da G\u00eanesis ao Big Bang, come\u00e7a com uma escurid\u00e3o como a base para o brilho de luz que vem em seguida.<\/p>\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-parrot\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">O preto n\u00e3o \u00e9 simplesmente onde come\u00e7amos, \u00e9 tamb\u00e9m o antes de come\u00e7armos. Sem o preto, nem as estrelas nem a alma teriam como se destacar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria da palavra em si diz muito e pode ser rastreada ao seu antepassado proto-indo-europeu bhleg, que significa &#8220;raio&#8221;, &#8220;brilho&#8221; e &#8220;ilumina\u00e7\u00e3o&#8221;. Ainda que, visualmente, possa denotar a completa absor\u00e7\u00e3o de luz, em um n\u00edvel art\u00edstico mais profundo, o preto \u00e9 sin\u00f4nimo de esplendor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Onde quer que encontremos o preto na arte, devemos olhar al\u00e9m do que \u00e9 triste, soturno ou sinistro na superf\u00edcie para ver o esplendor brilhando por dentro.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/156F1\/production\/_100639778_0b83e58a-4cda-460f-897d-cd21187cbb2b.jpg\" alt=\"An\u00fabis\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>No Egito Antigo, An\u00fabis, o deus que levava almas ao submundo, tinha a cabe\u00e7a pintada de preto<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os eg\u00edpcios antigamente estavam acostumados com essas sutilezas de pensamento, o que fica evidente no rosto de An\u00fabis, o deus respons\u00e1vel por levar as almas dos mortos \u00e0 vida ap\u00f3s a morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embalsamador da carne e julgador das almas em partida, An\u00fabis era ele mesmo um ser h\u00edbrido \u2014 uma mistura curiosa de homem e chacal. Sua cabe\u00e7a canina era invariavelmente retratada por artistas da mesma cor horripilante que a carne humana adquire durante o processo de mumifica\u00e7\u00e3o, que era supervisionado por An\u00fabis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como qualquer nativo do vale do Nilo saberia, por\u00e9m, o preto intenso \u00e9 tamb\u00e9m o tom do mais f\u00e9rtil e rico sedimento. O semblante preto de An\u00fabis tinha uma apar\u00eancia em duas dire\u00e7\u00f5es \u2014 \u00e0 fragilidade de nossa pele e \u00e0 fecundidade da alma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Saltemos a Caravaggio. A incans\u00e1vel escurid\u00e3o a partir da qual suas duas vers\u00f5es da\u00a0<i>Ceia em Ema\u00fas<\/i>\u00a0(1.601 e 1.606) s\u00e3o escavadas demonstram uma sensibilidade agu\u00e7ada \u00e0s qualidades m\u00edsticas da cor preta.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/2259\/production\/_100639780_93283f1c-0080-4892-bbb5-e95cf36ed463.jpg\" alt=\"A Ceia em Ema\u00fas, de Caravaggio\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Caravaggio evoluiu um estilo escuro-claro em pinturas como A Ceia em Ema\u00fas, que ficou conhecida como tenebrismo devido \u00e0 replica\u00e7\u00e3o do efeito das velas Tenebrae<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ambas as telas imaginam o instante quando o Cristo ressuscitado, viajando inc\u00f3gnito, revela-se para dois de seus desatentos disc\u00edpulos, antes de desaparecer dramaticamente de vista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em ambos os trabalhos, o branco determina a temperatura espiritual da cena extraordin\u00e1ria e se funde misteriosamente ao v\u00e9u semiperme\u00e1vel entre mundos que Cristo sozinho atravessa.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/7079\/production\/_100639782_e5dd70cf-9125-4724-bab5-86d9e7fa0df0.jpg\" alt=\"As 14 pinturas de Mark Rothko em sua capela em Houston\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>As 14 pinturas de Mark Rothko em sua capela em Houston (EUA) incorporam as tonalidades n\u00e3o-pretas aos seus esquemas de cor &#8211; mas elas flertam com a natureza m\u00edstica do preto<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na imagina\u00e7\u00e3o de Caravaggio, quanto mais profunda \u00e9 a ilumina\u00e7\u00e3o espiritual, mais escura \u00e9 sua chama &#8211; um truque que ele pode ter aprendido com outro expoente da Renascen\u00e7a italiana, Michelangelo Buonarroti.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Considere, por exemplo, os afrescos do teto da Capela Sistina, cujo efeito inspirador n\u00e3o depende tanto da incorpora\u00e7\u00e3o do pigmento preto com o reboco \u00famido, mas sim com as outras escurid\u00f5es do espa\u00e7o no qual se observam esses afrescos.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">De volta ao preto<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desenhados para cintilar de forma sincronizada com as velas consumidas lentamente durante os servi\u00e7os da semana de P\u00e1scoa, os afrescos de Michelangelo (o primeiro que, didaticamente, mostra a &#8220;separa\u00e7\u00e3o da luz a partir da escurid\u00e3o&#8221;) s\u00e3o dotados de uma vibra\u00e7\u00e3o contra a qual uma escurid\u00e3o quase palp\u00e1vel pulsava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O rebaixamento e a eleva\u00e7\u00e3o sobre os fi\u00e9is era t\u00e3o parte do poder da obra quanto a grande festa de m\u00fasculos que Michelangelo desenhou sobre eles.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/BE99\/production\/_100639784_0f7d9b72-dafe-4d8b-bc3f-7ae845c01724.jpg\" alt=\"A Romaria do Santo Isidro, de Goya\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Quando o trabalho de Goya se tornou mais individualista mais tarde em sua carreira, o preto tornou populares suas imagens do c\u00f4mico e do horr\u00edvel, como A Romaria do Santo Isidro<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de Michelangelo e Caravaggio terem determinado o tom para a mir\u00edade de majestades da escurid\u00e3o que os seguiu na Hist\u00f3ria da arte ocidental (desde o tom das sombras do olhar penetrante de Rembrandt em sua s\u00e9rie de autorretratos at\u00e9 o grotesco das pinturas escuras de Goya), \u00e9 importante lembrar que nem todo buraco negro \u00e9 profundo.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/F995\/production\/_100639836_ed079633-571e-4266-ba61-4d44901afdbe.jpg\" alt=\"O Arranjo em Cinza e Preto N\u00ba 1\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>O Arranjo em Cinza e Preto N\u00ba 1, tamb\u00e9m conhecido como &#8216;A M\u00e3e de Whistler&#8217;, de James McNeill Whistler, \u00e9 uma das pe\u00e7as mais ic\u00f4nicas da arte americana<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns podem achar dif\u00edcil olhar diretamente no olho do pintor americano James McNeill Whistler com seu ic\u00f4nico retrato de sua m\u00e3e sentada (pintado em 1871) sabendo, como sabemos, da propens\u00e3o do artista para fazer coment\u00e1rios racistas e seu gosto por dar tapas na cara dos abolicionistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O artista, \u00e9 claro, n\u00e3o chega ao mesmo n\u00edvel de seu irm\u00e3o, que usou o uniforme cinza da Confedera\u00e7\u00e3o em seus esfor\u00e7os in\u00fateis de perpetuar a escravid\u00e3o, mas o fato traz um certo contexto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pr\u00f3pria m\u00e3e de Whistler, que uma vez tentou impedir a esposa negra de seu tio e seus filhos de adquirirem terras da fam\u00edlia, torna-se um tema ir\u00f4nico para uma pintura cujo t\u00edtulo oficial, olhando em retrospectiva, parece mais do que um pouco carregado racialmente:\u00a0<i>Arranjo em Cinza e Preto<\/i>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas \u00e9 a pintura de uma gera\u00e7\u00e3o subsequente de artistas, o\u00a0<i>Quadrado Negro<\/i>(1915) do supremacista russo Kazimir Malevich &#8211; que muitas vezes \u00e9 creditado como o primeiro trabalho abstrato pintado -, que revela qu\u00e3o facilmente a cor pode coalhar da luminosidade cheia de alma para algo mais sombrio. Em 2015, uma an\u00e1lise nova do celebrado trabalho (que Malevich disse que significava onde &#8220;o verdadeiro movimento da exist\u00eancia come\u00e7a&#8221;) encontrou os tra\u00e7os de um gracejo fan\u00e1tico que o artista escondeu por baixo do verniz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acredita-se que as palavras escondidas &#8220;batalha dos negros&#8221;, covardes demais para se mostrarem completamente, seriam uma alus\u00e3o a uma frase racista &#8211; &#8220;negros lutando \u00e0 noite&#8221; &#8211; usada por um humorista franc\u00eas em um quadrinho com um quadrado negro em 1987. Com essa descoberta decepcionante, que levou a uma recontextualiza\u00e7\u00e3o do trabalho como obra pioneira para uma desventura terr\u00edvel, a luz interna de uma pintura que por d\u00e9cadas foi a fonte de medita\u00e7\u00f5es cheias de significados de repente desvaneceu.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/147B5\/production\/_100639838_95ad55e1-88d4-4832-a6f8-d2db21024b2c.jpg\" alt=\"O mural Idos, Um Romance Hist\u00f3rico da Guerra Civil como Ocorreu entre as Coisas Sombrias de Uma Jovem Negra e Seu Cora\u00e7\u00e3o\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Kara Walker tem um olhar inabal\u00e1vel sobre as explora\u00e7\u00e3o sexual e racial nas silhuetas da arte folcl\u00f3rica americana (Foto: Mark Alexander\/Sikkema Jenkins &amp; Co\/Joshua White)<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais recentemente, o caminho escuro iluminado pela luz negra de An\u00fabis e Caravaggio, Michelangelo e Rembrandt tem sido mantido aceso pela genialidade da maestra multim\u00eddia americana Kara Walker e do artista brit\u00e2nico Mark Alexander. Desde os anos 1990 e com seu hipnotizante mural\u00a0<i>Idos, Um Romance Hist\u00f3rico da Guerra Civil como Ocorreu entre as Coisas Sombrias de Uma Jovem Negra e Seu Cora\u00e7\u00e3o<\/i>\u00a0(1994), os recortes crus de Walker jogam uma luz penetrante no preconceito e na misoginia quando boa parte do mundo da arte prefere deix\u00e1-los no escuro.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/131D\/production\/_100639840_95e154dd-1ac2-42d1-b3dd-bf4aee5d463f.jpg\" alt=\"Dr Gachet Mais Preto (2006)\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">O artista brit\u00e2nico Mark Alexander refez o Retrato de Dr. Gachet, de Van Gogh, inteiramente na cor preta (Foto: Mark Alexander)<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">A reinven\u00e7\u00e3o de Alexandre do retrato que Vincent Van Gogh fez de seu m\u00e9dico, Dr Gachet (que n\u00e3o foi visto em p\u00fablico desde que seu dono, o empres\u00e1rio japon\u00eas Ryoei Saito &#8211; morto em 1996 &#8211; amea\u00e7ou ser cremado com a tela p\u00f3s-Impressionista) \u00e9 uma aula magna da capacidade duradoura do preto de fazer renascer o esp\u00edrito da perda f\u00edsica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O misterioso\u00a0<i>Gachet Mais Preto<\/i>\u00a0(2006) mostra o resgate de cada pincelada do original do Van Gogh para esculpir um olhar que brilha de qualquer que seja o reino ainda n\u00e3o descoberto que espera por n\u00f3s no grande al\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se Walker e Alexander (assim como contempor\u00e2neos como o artista polon\u00eas Miroslaw Balka e o escultor indiano Sheela Gowda, que constru\u00edram interiores pretos arrojados) s\u00e3o os verdadeiros herdeiros de uma tradi\u00e7\u00e3o que busca compartilhar o esplendor do preto um artista conseguiu em vez disso deixar uma marca pessoal nos mist\u00e9rios eternos da cor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2014, o artista brit\u00e2nico de origem indiana Anish Kapoor come\u00e7ou a fazer experimentos com uma das tonalidades mais escuras do preto &#8211; um tom que ele mesmo controla e foi patenteado com a marca &#8216;Vantablack&#8217; (a origem do nome remonta ao acr\u00f4nimo de &#8216;Vertically Aligned NanoTube Arrays&#8217;, que descreve a constru\u00e7\u00e3o qu\u00edmica da subst\u00e2ncia em ingl\u00eas). Em termos \u00f3pticos, Vantablack \u00e9 um preto comum mais &#8220;bombado&#8221; e cria em si mesmo um enervante ricochete de luzes que, uma vez encurraladas, acabam gastando-se no calor invis\u00edvel.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/613D\/production\/_100639842_42dee2d4-cca8-4844-aa8f-85f03dd0e57e.jpg\" alt=\"Pavilh\u00e3o constru\u00eddo na Coreia do Norte para os Jogos de Inverno 2018\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Um pavilh\u00e3o constru\u00eddo na Coreia do Norte para os Jogos de Inverno 2018 recebeu uma pintura de Vantablack, que \u00e9 autointitulada a subst\u00e2ncia qu\u00edmica mais escura da Terra<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a patente do uso de Vantablack, que foi recentemente usada para escurecer as paredes de um pavilh\u00e3o dos Jogos Ol\u00edmpicos de Inverno em PyeongChang, Kapoor se tornou de maneira controversa o guardi\u00e3o de ao menos uma parte da mans\u00e3o do enigma atemporal do preto, controlando quais objetos e imagens podem entrar ali ou n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O preto mais profundo transcende os ci\u00fames das leis de propriedade intelectual. O preto \u00e9 a brilhante linhagem de sangue que corre atrav\u00e9s da humanidade &#8211; a tinta luminosa com a qual rabiscamos as paredes dos c\u00e9us para nossos descendentes verem: &#8220;n\u00e3o me esque\u00e7a. Eu estive aqui&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Kelly Grovier Kazimir Malevich pintou &#8216;Quadrado Negro&#8217; em 1915; cem anos depois, um exame microsc\u00f3pico revelou uma piada racista nele O preto \u00e9 onde a\u00a0arte\u00a0come\u00e7a. Desde o momento em que a humanidade sentiu necessidade de desenhar em paredes, ela escolheu o preto. 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