{"id":25473,"date":"2013-10-28T09:54:22","date_gmt":"2013-10-28T12:54:22","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=25473"},"modified":"2013-10-28T09:54:22","modified_gmt":"2013-10-28T12:54:22","slug":"bairros-de-classe-media-em-salvador-ficam-desertos-a-partir-das-20-horas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/bairros-de-classe-media-em-salvador-ficam-desertos-a-partir-das-20-horas\/","title":{"rendered":"Bairros de classe m\u00e9dia em Salvador ficam desertos a partir das 20 horas"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\"><em><b>Alexandre Lyrio<\/b>\u00a0<\/em><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o 20h de uma segunda-feira e os bares est\u00e3o pegando fogo. \u00c9 noite de partido-alto em um deles. Enquanto isso, a crian\u00e7ada bate um baba esperto no meio da rua e os jovens paqueram na pra\u00e7a at\u00e9 mais tarde. O movimento segue intenso at\u00e9 depois de meia-noite, j\u00e1 na ter\u00e7a. Obviamente, toda essa efervesc\u00eancia acontece bem longe dos locais que ilustram essa p\u00e1gina. Neste hor\u00e1rio, Barra, Gra\u00e7a, Campo Grande, Pituba, orla e qualquer outro bairro residencial de classe m\u00e9dia est\u00e3o vazios. Quase n\u00e3o se v\u00ea um p\u00e9 de pessoa nas suas ruas mortas. Por isso, Carlos Dourado, 28 anos, funcion\u00e1rio de um supermercado na Gra\u00e7a, est\u00e1 doido para curtir seu partido-alto no Alto do Cabrito, no Sub\u00farbio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apressado, tem medo do bairro em que trabalha. \u201cQuando saio do trampo me deparo com as ruas vazias. \u00c9 a\u00ed que o bandido gosta de agir. Uma hora dessas meu bairro t\u00e1 cheio de gente\u201d, garante Carlos. Sentado sozinho em um banco do Largo da Gra\u00e7a, ele espera o \u00f4nibus. O largo est\u00e1 vazio, assim como as ruas da Paz, Am\u00e9lia Rodrigues e a principal, Euclides da Cunha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dif\u00edcil explicar o motivo exato de os bairros de classe m\u00e9dia dormirem cada vez mais cedo. Cultura? Medo da viol\u00eancia? Falta de transporte, op\u00e7\u00f5es de lazer e servi\u00e7os? Fato \u00e9 que, depois que o sol se vai, a Salvador que poderia vibrar nos espa\u00e7os p\u00fablicos se torna uma cidade fantasma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estamos na Barra, numa quarta-feira, poucos minutos antes das 21h. A Rua Afonso Celso, que durante o dia tem engarrafamento de carros &#8211; e de gente circulando entre eles &#8211; quase n\u00e3o tem alma viva\u00a0 \u00e0 noite. Apesar das viaturas da pol\u00edcia que fazem ronda, as poucas pessoas que passam est\u00e3o apressadas, olhando para o ch\u00e3o, assustadas com o rep\u00f3rter de mais de 1,80m que vai em sua dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tirando a academia, que insiste em fechar 22h, os outros estabelecimentos, inclusive os bares, est\u00e3o lacrados. Mas uma luzinha est\u00e1 acesa dentro da farm\u00e1cia homeop\u00e1tica Soares da Cunha. \u201cN\u00e3o estou aberto, n\u00e3o, amigo. Fechei desde as 18h. Estou consertando o computador\u201d, avisa Pedro Soares da Cunha, 52, dono da farm\u00e1cia. \u201cChegava a ficar aberto at\u00e9 as 22h antes. Agora n\u00e3o d\u00e1 mais\u201d, explica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Resist\u00eancia<\/b><br \/>\n\u201cN\u00e3o vou me tornar ref\u00e9m em casa. Des\u00e7o todos os dias esse hor\u00e1rio e nunca mexeram comigo. Esse bairro \u00e9 seguro\u201d. A indigna\u00e7\u00e3o \u00e9 do professor de ingl\u00eas Neal Manning, 49, her\u00f3i da resist\u00eancia no meio do deserto que \u00e9 a Rua Milton Oliveira, transversal da Afonso Celso. S\u00e3o 22h e ele, que \u00e9 brit\u00e2nico, est\u00e1 acompanhado de seu c\u00e3ozinho Jasper.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Moro aqui h\u00e1 cinco anos e antes a Barra era muito boa \u00e0 noite. Por medo, as pessoas n\u00e3o circulam mais. \u00c9 um ciclo: a classe m\u00e9dia daqui lutou para tirar os eventos e o barulho dos bares. A\u00ed n\u00e3o tem pessoas nas ruas. Se n\u00e3o tem pessoas, fica tudo tranquilo demais. A\u00ed vem o medo\u201d, analisa Neal, lembrando que apenas a partir de sexta-feira, na Rua Marques de Le\u00e3o e Jardim Brasil, se v\u00ea movimento nos bares. \u201cMesmo assim fecham 22h, 23h\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 mesmo bairros com grandes \u00e1reas de conviv\u00eancia est\u00e3o dormindo cedo demais. Em dias de semana, a maior pra\u00e7a de todas, o Campo Grande, tem uma grande queda de movimento a partir das 20h. A n\u00e3o ser na sexta-feira, fica exatamente como na foto acima. \u00c0s 22h, apesar das centenas de l\u00e2mpadas que garantem boa ilumina\u00e7\u00e3o, fecha os port\u00f5es, assim como todo o com\u00e9rcio ao redor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0s 19h30, o casal de idosos Daniel Santana, 84, e Maria de Lourdes, 63, at\u00e9 queria ficar um pouco mais. \u201cInfelizmente estamos indo embora. Uma vez puxaram minha corrente de noite aqui. T\u00e1 muito violento\u201d, disse Lourdes. Mas, sempre h\u00e1 os que enfrentam. \u00c0s 21h, a bibliotec\u00e1ria Chaya Barreto, 56, passeava sozinha com dois poodles pela pra\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Conhe\u00e7o muita gente que n\u00e3o bota a cara fora de casa depois das 20h. Acho que, al\u00e9m de medo, faz parte da nossa cultura. Mas se todo mundo ficasse na rua n\u00e3o teria assalto. Bandido n\u00e3o age em lugar que tenha gente\u201d, acredita. Na regi\u00e3o do Campo Grande, h\u00e1 outros lugares residenciais sem movimento algum de noite, como o Canela e a Vit\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Pituba, a realidade \u00e9 pior. J\u00e1 \u00e0s 20h, na Rua Amazonas, uma das maiores do bairro, \u00e9 dif\u00edcil cruzar com um ser humano na cal\u00e7ada. \u00c9 por isso que Tiago Santos, 19, funcion\u00e1rio de uma barraca de lanches na Pra\u00e7a Belo Horizonte, fecha o estabelecimento neste hor\u00e1rio. Se tivesse cliente, ficava aberto at\u00e9 mais tarde. \u201cO pessoal aqui \u00e9 muito assustado. Vou te dizer: nunca vi assalto aqui\u201d, garante Tiago.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Perigoso<br \/>\n<\/b>Mas, com exce\u00e7\u00e3o da Rua Minas Gerais nos finais de semana, o ambiente des\u00e9rtico no in\u00edcio da noite se repete em quase todas as ruas da Pituba. \u201cVamos simbora que aqui t\u00e1 ficando perigoso\u201d, avisava, \u00e0s 20h30, a baiana que vende acaraj\u00e9 na Rua Territ\u00f3rio do Acre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma quarta-feira, a principal avenida, a Manoel Dias da Silva, tamb\u00e9m n\u00e3o tinha gente, mesmo com as lanchonetes Subway e Sanduich Hall abertas &#8211; e as cadeiras vazias. A Pra\u00e7a Ana L\u00facia Magalh\u00e3es, no fim de linha, \u00e9 o \u00fanico local onde os bares t\u00eam movimento ap\u00f3s as 22h.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A orla \u00e9 caso antigo. E o mais frustrante. A maior faixa litor\u00e2nea entre as capitais do pa\u00eds \u00e9 talvez o solo menos ocupado (e pior aproveitado) quando a noite cai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na altura do Costa Azul, n\u00e3o havia sequer quem concedesse entrevista. Mesmo nas ruas residenciais, o sil\u00eancio toma conta do bairro logo que o sol se p\u00f5e. \u201c\u00c0s 19h, o bairro j\u00e1 est\u00e1 morrendo. \u00c0s 20h, j\u00e1 est\u00e1 enterrado\u201d, diz um dos seguran\u00e7as do Col\u00e9gio Estadual Thales de Azevedo. Circulando pelo local, o que se v\u00ea \u00e9 muita gente descendo dos carros e entrando rapidinho nos pr\u00e9dios.<br \/>\nO pr\u00f3prio Parque Costa Azul n\u00e3o tem vida noturna. Moradores simplesmente n\u00e3o frequentam o espa\u00e7o \u00e0 noite. De vez em quando, o baba no campo persiste at\u00e9 umas 22h.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isabela Ferreira, 16 anos, aluna do Thales, fez amizade com o motorista do \u00f4nibus para que ele pare na porta da escola e ela n\u00e3o precise andar at\u00e9 a orla. \u201cMinha m\u00e3e tem o celular do cobrador e me avisa quando o \u00f4nibus t\u00e1 chegando\u201d, conclui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Viol\u00eancia contribui para cultura da reclus\u00e3o<\/b><br \/>\nQuem tenta se aventurar na vida noturna de Salvador pode se frustrar. A cidade n\u00e3o conta com servi\u00e7os fora do hor\u00e1rio comercial em rela\u00e7\u00e3o a outras capitais, como S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro, e a popula\u00e7\u00e3o sai das ruas. Mas, h\u00e1 outros fatores que contribuem para a cultura da reclus\u00e3o. \u00c9 o que diz Milton Moura, soci\u00f3logo e p\u00f3s- doutor em Hist\u00f3ria pela Ufba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA cidade est\u00e1 violenta. S\u00e3o muitos assaltos, alguns com les\u00f5es corporais. O clima de medo \u00e9 refor\u00e7ado por parte da m\u00eddia, que produz determinada vers\u00e3o da cidade violenta\u201d, diz o professor. Fen\u00f4menos mais recentes tamb\u00e9m ajudam. \u201cO mais relevante \u00e9, hoje, a cultura da internet. Muita gente no Facebook e outras redes sociais. Estas pessoas n\u00e3o conversam mais tanto na rua, n\u00e3o sabem o que \u00e9 ir a um mercadinho perguntar a que horas chega a couve\u201d, ilustra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou seja, a presen\u00e7a nas ruas j\u00e1 foi mais intensa. \u201cAt\u00e9 20 anos atr\u00e1s se passeava pela rua \u00e0 noite. N\u00e3o era tanta gente assim que sa\u00eda zanzando, mas sempre se via pessoas caminhando. At\u00e9 os anos 80 se podia ir ao cinema a p\u00e9 e voltar a p\u00e9\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Bons servi\u00e7os influenciam vida noturna<br \/>\n<\/b>Para quem depende dos coletivos, a falta de \u00f4nibus 24 horas \u00e9 motivo para ficar em casa. \u201cQuando vou \u00e0 rua, \u00e0 noite, volto antes das 22h, porque n\u00e3o tem buzu\u201d, diz o estudante Daniel Pita, 27 anos. Para o professor da Faculdade de Arquitetura da Ufba Marcos Rodrigues, o problema da mobilidade noturna vem a reboque da falta de pessoas nas ruas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO que determina o uso de espa\u00e7os \u00e9 o tipo de atividade. Se n\u00e3o h\u00e1 cursos noturnos e estabelecimentos que funcionem al\u00e9m do hor\u00e1rio normal, n\u00e3o tem como ficar nas ruas\u201d. Ele diz que muita gente aproveitaria mais os servi\u00e7os oferecidos durante o dia se tamb\u00e9m fossem noturnos. A quest\u00e3o, para ele, \u00e9 do uso do solo. \u201cN\u00e3o \u00e9 a mobilidade a causadora\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Fonte: Correio<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e3o 20h de uma segunda-feira e os bares est\u00e3o pegando fogo. \u00c9 noite de partido-alto em um deles. Enquanto isso, a crian\u00e7ada bate um baba esperto no meio da rua e os jovens paqueram na pra\u00e7a at\u00e9 mais tarde. O movimento segue intenso at\u00e9 depois de meia-noite, j\u00e1 na ter\u00e7a. Obviamente, toda essa efervesc\u00eancia acontece bem longe dos locais que ilustram essa p\u00e1gina. Neste hor\u00e1rio, Barra, Gra\u00e7a, Campo Grande, Pituba, orla e qualquer outro bairro residencial de classe m\u00e9dia est\u00e3o vazios. Quase n\u00e3o se v\u00ea um p\u00e9 de pessoa nas suas ruas mortas. Por isso, Carlos Dourado, 28 anos, funcion\u00e1rio de um supermercado na Gra\u00e7a, est\u00e1 doido para curtir seu partido-alto no Alto do Cabrito, no Sub\u00farbio.<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":25477,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[2,4],"tags":[],"class_list":["post-25473","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cotidiano","category-destaque"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/salvador-2.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25473","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25473"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25473\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/25477"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25473"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25473"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25473"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}