{"id":255598,"date":"2018-08-31T06:04:44","date_gmt":"2018-08-31T09:04:44","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=255598"},"modified":"2018-08-31T15:34:27","modified_gmt":"2018-08-31T18:34:27","slug":"a-escalada-das-faccoes-criminosas-desafia-o-proximo-presidente-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/a-escalada-das-faccoes-criminosas-desafia-o-proximo-presidente-do-brasil\/","title":{"rendered":"A escalada das fac\u00e7\u00f5es criminosas desafia o pr\u00f3ximo presidente do Brasil"},"content":{"rendered":"<div class=\"articulo__apertura\">\n<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div class=\"articulo-encabezado-texto\">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\"><em>Verba para seguran\u00e7a mais que dobra, mas mortes violentas ligadas ao tr\u00e1fico n\u00e3o param de crescer. Campanha \u00e9 atravessada por guerra entre PCC e CV e seus aliados, que se nacionalizou desde 2016<\/em><\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \">\n<figure class=\"foto centro foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/01\/16\/politica\/1484576160_184861_1484577792_noticia_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/01\/16\/politica\/1484576160_184861_1484577792_noticia_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/01\/16\/politica\/1484576160_184861_1484577792_noticia_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/01\/16\/politica\/1484576160_184861_1484577792_noticia_normal.jpg 980w\" alt=\"Rebeli\u00e3o pres\u00eddio Natal Rio Grande do Norte\" width=\"980\" height=\"581\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Detentos em cima do telhado do pres\u00eddio de Alca\u00e7uz, durante rebeli\u00e3o em 2017.<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">A. A.<\/span>\u00a0<span class=\"foto-agencia\">AFP<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"firma \">\n<div class=\"autor\">\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Gil Alessi\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/gil_alessi\/a\/\">GIL ALESSI<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<section id=\"sumario_2|apoyos\" class=\"sumario_apoyos izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<div class=\"apoyos\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Luiz Carlos Mendon\u00e7a, de 24 anos, sa\u00eda de sua casa no bairro Mutir\u00e3o, em Ribeir\u00f3polis, interior do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/sergipe\">Sergipe<\/a>, por volta das 20h. Mal terminou de fechar o port\u00e3o quando uma moto se aproximou e o garupa abriu fogo com uma pistola 380. Mendon\u00e7a morreu no local. O crime, ocorrido em 2017 na outrora pacata cidade do agreste central do Estado com pouco mais de 17.000 habitantes, n\u00e3o chocou a popula\u00e7\u00e3o. Aquele era o terceiro homic\u00eddio ocorrido apenas naquela noite. Em 2013 Ribeir\u00f3polis teve apenas 5 homic\u00eddios. Em 2014 foram 29, um aumento de 480%. O caso \u00e9 um retrato da interioriza\u00e7\u00e3o da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/violencia\">viol\u00eancia<\/a>\u00a0no pa\u00eds e do aumento dos assassinatos em munic\u00edpios no Nordeste (e no Norte), regi\u00f5es que se tornaram a nova linha de frente do embate entre fac\u00e7\u00f5es criminosas. Pequenas cidades antes pac\u00edficas se veem imersas em conflitos armados, a grande maioria deles relacionado \u00e0 disputa pelo controle do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/trafico_cocaina\">tr\u00e1fico de drogas<\/a>.<\/p>\n<p>O panorama faz o munic\u00edpio sergipano estar muito longe de ser exce\u00e7\u00e3o. Quando o assunto \u00e9\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/ministerio_seguranca_publica_brasil\">seguran\u00e7a p\u00fablica<\/a>, o Brasil enxuga gelo h\u00e1 d\u00e9cadas. Fortunas saem dos cofres p\u00fablicos ano ap\u00f3s ano para tentar controlar a epidemia de homic\u00eddios que assola o pa\u00eds, al\u00e9m de tentar frear o avan\u00e7o das fac\u00e7\u00f5es criminosas. Dinheiro e vidas que parecem descer pelo ralo, na medida em que os n\u00fameros apontam para uma batalha que, at\u00e9 o momento, est\u00e1 sendo perdida: em 2005 foram gastos pouco mais de 27 bilh\u00f5es de reais\u00a0com seguran\u00e7a p\u00fablica nas esferas federal, estadual e municipal. Doze anos depois, este valor mais do que dobrou, considerando-se a infla\u00e7\u00e3o do per\u00edodo, para 84,7 bilh\u00f5es de reais, de acordo com dados do Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a. Os\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/homicidios\">homic\u00eddios<\/a>, no entanto, bateram recorde no ano passado, com 63.880 v\u00edtimas fatais, ante 40.795 em 2005. A taxa m\u00e9dia nacional, que era de 22,5 por 100.000 habitantes naquele ano, agora j\u00e1 est\u00e1 em 30,2.<\/p>\n<p>Os crimes letais refletem o poder crescente dos grupos criminosos que atuam principalmente no mercado das drogas il\u00edcitas. O problema das fac\u00e7\u00f5es ganhou relev\u00e2ncia nacional em 2016 ap\u00f3s o fim da alian\u00e7a entre o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/pcc_primeiro_comando_capital\">Primeiro Comando da Capital<\/a>, o maior e mais organizado grupo, de S\u00e3o Paulo, e o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/comando_vermelho\">Comando Vermelho<\/a>, do Rio de Janeiro. O rompimento entre as fac\u00e7\u00f5es, que se expandiram silenciosamente para v\u00e1rios Estados durante anos sem a devida aten\u00e7\u00e3o das autoridades, trouxe a reboque uma s\u00e9rie de rebeli\u00f5es e massacres em pres\u00eddios, al\u00e9m de viol\u00eancia nas ruas de cidades do Norte e Nordeste. A crise evidenciou o car\u00e1ter nacional da quest\u00e3o, e uma s\u00e9rie de fac\u00e7\u00f5es at\u00e9 ent\u00e3o desconhecidas, como Fam\u00edlia do Norte, que surgiu em Manaus, Okaida, de Jo\u00e3o Pessoa, e a potiguar Sindicato do Crime RN, ganharam o notici\u00e1rio.<\/p>\n<p>Disputando rotas de tr\u00e1fico e a supremacia nos pres\u00eddios e periferias, estes grupos criados em sua maioria a partir dos anos de 2000 forjam alian\u00e7as locais com CV ou PCC e fazem de seus Estados de origem a linha de frente de uma esp\u00e9cie de guerra envolvendo as fac\u00e7\u00f5es fluminense e paulista. PCC e CV ainda n\u00e3o se enfrentam, ao menos ainda, abertamente no Rio de Janeiro e em S\u00e3o Paulo, seus principais redutos e grande fonte de lucro, mas sua presen\u00e7a \u00e9 sentida em embates no Cear\u00e1, Rio Grande do Norte, Acre, Roraima, Santa Catarina e outros. Homic\u00eddios e fac\u00e7\u00f5es s\u00e3o fen\u00f4menos que andam juntos: o pr\u00f3ximo presidente ter\u00e1 pela frente o desafio de romper com este ciclo de viol\u00eancia que ceifa majoritariamente a vida dos\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/06\/05\/politica\/1528201240_021277.html\">jovens negros e pobres<\/a>\u00a0moradores das periferias, como Mendon\u00e7a, de Ribeir\u00f3polis<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e0 toa o tema, em geral restrito \u00e0s campanhas para governadores, respons\u00e1veis diretos pela seguran\u00e7a nos Estados, ganhou de vez a campanha presidencial. A presen\u00e7a do capit\u00e3o da reserva\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/jair_messias_bolsonaro\">Jair Bolsonaro<\/a>\u00a0(PSL) na disputa, com sua forte ret\u00f3rica populista e discurso linha-dura de enfrentamento ao crime, catapultou a pauta de vez. A maioria dos planos ou diretrizes de Governo apresentados pelos cinco principais candidatos \u00e0 presid\u00eancia este ano faz men\u00e7\u00e3o \u00e0s &#8220;organiza\u00e7\u00f5es criminosas&#8221; e ao &#8220;crime organizado&#8221; (leia abaixo). As solu\u00e7\u00f5es propostas pelos pol\u00edticos incluem desde a cria\u00e7\u00e3o de uma for\u00e7a-tarefa para combater os grupos at\u00e9 a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/01\/31\/politica\/1517410163_964093.html\">constru\u00e7\u00e3o de mais pres\u00eddios<\/a>\u00a0&#8211; que ironicamente s\u00e3o o local de nascimento e fonte de recrutamento para as maiores fac\u00e7\u00f5es, chamadas no jarg\u00e3o criminoso de &#8220;faculdades do crime&#8221;.<\/p>\n<p>A abordagem destes problemas precisa ser realista, frisam os especialistas. \u201cNenhum pa\u00eds consegue acabar com o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/drogas\">consumo de drogas<\/a>, principal motor das fac\u00e7\u00f5es hoje em dia. Mas voc\u00ea consegue ter um mercado n\u00e3o violento de drogas, como ocorre na Europa e nos\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/estados_unidos\">Estados Unidos<\/a>, que \u00e9 o maior consumidor do mundo\u201d, afirma Bruno Paes Manso, pesquisador do N\u00facleo de Estudos da Viol\u00eancia da USP e autor, ao lado de Camila Dias, do livro\u00a0<em>A Guerra: A Ascens\u00e3o do PCC e o Mundo do Crime no Brasil<\/em>\u00a0(Ed. Todavia). Por isso ele defende al\u00e9m da regulamenta\u00e7\u00e3o do mercado da droga (algo dif\u00edcil de ser alcan\u00e7ado no Brasil no curto prazo), uma mudan\u00e7a de foco no policiamento: da \u201c<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/09\/07\/politica\/1504800465_660787.html\">guerra \u00e0s drogas<\/a>\u201d, praticada nas periferias brasileiras via policiamento ostensivo, violento e com pris\u00f5es em flagrante de pequenos e micro traficantes, para a investiga\u00e7\u00e3o de homic\u00eddios.<\/p>\n<p>Boa parte dos homic\u00eddios n\u00e3o \u00e9 investigado e em pouqu\u00edssimos casos se encontra o culpado, fazendo com que a impunidade reine quando o assunto \u00e9 viol\u00eancia letal no pa\u00eds. A m\u00e9dia de homic\u00eddios solucionados no Brasil gira em torno de 6%. \u201c\u00c9 necess\u00e1rio priorizar, focar na viol\u00eancia e na investiga\u00e7\u00e3o e puni\u00e7\u00e3o de crimes violentos, cometidos por pessoas armadas que querem se impor pela viol\u00eancia, sejam traficantes ou milicianos\u201d, afirma Manso. Para ajudar a esclarecer estes crimes, Manso defende o aprimoramento da Pol\u00edcia Cient\u00edfica \u2013 respons\u00e1vel pelas per\u00edcias \u2013 e investimentos em intelig\u00eancia policial. \u201cO cobertor fiscal \u00e9 curto e os Estados est\u00e3o quebrados . \u00c9 uma decis\u00e3o pol\u00edtica [de mudar o foco do policiamento] que precisa ser tomada\u201d, afirma.<\/p>\n<p>O Brasil, no entanto, caminha na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria. \u201cHouve um aumento das pris\u00f5es em flagrante, mas a Pol\u00edcia Civil foi esquecida. Se prendeu muito a m\u00e3o de obra barata do tr\u00e1fico com opera\u00e7\u00f5es de guerra nas\u00a0<em>quebradas<\/em>. Mas o grande trabalho da pol\u00edcia \u00e9 entender como funciona a ind\u00fastria do crime, para onde vai o dinheiro, quais as rotas de entrada de drogas, como se lava este dinheiro&#8230; Essa compreens\u00e3o de intelig\u00eancia \u00e9 fundamental para fragilizar esses grupos e isso foi deixado de lado\u201d, diz. O exemplo pode vir at\u00e9 mesmo de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/operacion_lava_jato\">opera\u00e7\u00f5es como a Lava Jato<\/a>, diz o pesquisador. Algumas das estrat\u00e9gias j\u00e1 adotadas para o combate ao crime do colarinho branco, segundo Manso, precisam ser colocadas em pr\u00e1tica contra as fac\u00e7\u00f5es para fragilizar o poder econ\u00f4mico destes grupos. \u201cO\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/crimen_organizado\">crime organizado<\/a>\u00a0precisa ser combatido com investiga\u00e7\u00f5es que lancem m\u00e3o de t\u00e9cnicas avan\u00e7adas, que envolva operadores do sistema financeiro, em parceria com o COAF [Conselho de Controle de Atividades Financeiras] e bancos\u201d, afirma o pesquisador.<\/p>\n<p>O combate em car\u00e1ter mais estrat\u00e9gico das fac\u00e7\u00f5es \u00e9 um consenso. O aspecto aparece, aliado \u00e0 defesa de um maior protagonismo do Governo Federal na seguran\u00e7a, no documento\u00a0<a href=\"http:\/\/soudapaz.org\/upload\/pdf\/agenda_priorit_ria_2018.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Seguran\u00e7a P\u00fablica \u00e9 Solu\u00e7\u00e3o<\/em><\/a>, lan\u00e7ado pelo F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica (FBSP) e pelos\u00a0<a href=\"http:\/\/www.soudapaz.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">institutos Sou da Paz<\/a>\u00a0e Igarap\u00e9, todos ligados ao debate da tema. O texto traz uma s\u00e9rie de diretrizes e sugest\u00f5es para os candidatos, dentre elas a cria\u00e7\u00e3o de um Conselho Nacional de Intelig\u00eancia sobre crime organizado, nos moldes do COAF, \u201ccapaz de articular os diversos \u00f3rg\u00e3os de intelig\u00eancia estaduais e federais com foco no crime organizado interestadual e transnacional\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o documento tamb\u00e9m sugere uma maior \u201cparticipa\u00e7\u00e3o de recursos da Uni\u00e3o na execu\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria de Estados e munic\u00edpios na seguran\u00e7a p\u00fablica\u201d. O Sistema \u00danico de Seguran\u00e7a P\u00fablica, criado em maio deste ano, mas que ainda engatinha, tamb\u00e9m \u00e9 apontado pelas entidades como sendo fundamental para a redu\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia e o combate \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es criminosas, \u201ccriando uma inst\u00e2ncia de articula\u00e7\u00e3o permanente entre Executivo, Legislativo e Judici\u00e1rio e que possa ser replicada nos Estados, com participa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m do Minist\u00e9rio P\u00fablico\u201d.<\/p>\n<h3>A pol\u00eamica da queda dos homic\u00eddios em S\u00e3o Paulo<\/h3>\n<p>At\u00e9 o momento a mais bem sucedida experi\u00eancia de redu\u00e7\u00e3o dos homic\u00eddios em um Estado brasileiro ocorreu em S\u00e3o Paulo, mas teve como principal art\u00edfice, de acordo com pesquisadores, n\u00e3o o poder p\u00fablico, mas o pr\u00f3prio PCC, que se consolidou como a maior fac\u00e7\u00e3o criminosa do pa\u00eds. \u201cO PCC instrumentalizou as pol\u00edticas de seguran\u00e7a a seu favor. Cresceu com o sistema carcer\u00e1rio e implementou um sistema de justi\u00e7a informal nas periferias, que interrompia os ciclos de vingan\u00e7a letal comuns entre jovens inscritos nos mercados ilegais nos anos 1990\u201d, explica Gabriel Feltran, professor da Universidade Federal de S\u00e3o Carlos e diretor cient\u00edfico do Centro de Estudos da Metr\u00f3pole da Universidade de S\u00e3o Paulo. \u201cPor isso o homic\u00eddio que mais cai \u00e9 o das periferias, regulado pela fac\u00e7\u00e3o. Latroc\u00ednio e letalidade policial n\u00e3o caem. Outras estat\u00edsticas de criminalidade [como tr\u00e1fico de drogas e roubos] seguem crescendo no per\u00edodo\u201d, afirma o autor do livro\u00a0<em>Irm\u00e3os &#8211; Uma historia do PCC<\/em>\u00a0(Companhia das Letras).<\/p>\n<p>Se antes os jovens paulistas morriam em grandes n\u00fameros nas periferias, assassinados por desentendimentos entre quadrilhas rivais ou motivos banais (briga de bar, etc), hoje \u00e9 proibido tirar uma vida nas\u00a0<em>quebradas<\/em>\u00a0sem passar pelo\u00a0<em>debate<\/em>\u00a0com integrantes do PCC \u2013tamb\u00e9m conhecido como tribunal do crime. L\u00e1 todas as partes envolvidas d\u00e3o sua vers\u00e3o dos fatos, com direito a defesa e apresenta\u00e7\u00e3o de testemunhas. Cabe aos irm\u00e3os (nome dados aos filiados da fac\u00e7\u00e3o) determinar qual a pena para determinado crime. Se o caso \u00e9 grave, lideran\u00e7as presas podem participar do julgamento via teleconfer\u00eancia. Matar algu\u00e9m sem autoriza\u00e7\u00e3o dos irm\u00e3os \u00e9 considerada uma falta grave, punida muitas vezes com morte.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 inacredit\u00e1vel dizer que pessoas deixam de ser mortas e que \u00e9 o crime que fez. \u00c9 a pol\u00edcia que fez\u201d, rebateu nesta quarta-feira, no\u00a0<em>Jornal Nacional, da<\/em>\u00a0TV Globo, o ex-governador tucano de S\u00e3o Paulo, Geraldo Alckmin, que tenta usar como trunfo a queda dos homic\u00eddios em S\u00e3o Paulo. O Governo de SP, inclusive, foi apontado em um depoimento obtido em 2015 pelo\u00a0<a href=\"https:\/\/sao-paulo.estadao.com.br\/noticias\/geral,estado-fez-acordo-com-pcc-para-cessar-ataques-de-2006--mostra-depoimento,1732413\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">jornal<\/a>\u00a0<em>O Estado de S. Paulo<\/em>\u00a0como respons\u00e1vel por um acordo com o PCC para encerrar a onda de ataques contra policiais que aterrorizou a popula\u00e7\u00e3o em 2006 \u2014na \u00e9poca, o Governador era Cl\u00e1udio Lembo, vice do tucano, que havia renunciado ao Governo para concorrer \u00e0 Presid\u00eancia. Alckmin e os demais Governos paulistas sempre argumentaram que a queda dos homic\u00eddios foi fruto da implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas, constru\u00e7\u00e3o de novas unidades prisionais e maior efici\u00eancia do trabalho policial. As estat\u00edsticas mostram, no entanto, que em S\u00e3o Paulo, a taxa de homic\u00eddios solucionados \u00e9 de apenas 38,6%. As pris\u00f5es superlotadas paulistas\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/01\/03\/politica\/1483466339_899512.html\">n\u00e3o est\u00e3o cheias de assassinos<\/a>, mas sim majoritariamente de pequenos traficantes, segundo dados do Levantamento Nacional de Informa\u00e7\u00f5es Penitenci\u00e1rias (Infopen), que apontam que mais de 26% dos internos s\u00e3o presos pelo crime de tr\u00e1fico, 26% por roubo e 12% por furto. Homicidas s\u00e3o apenas 11% da popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria.<\/p>\n<p>As estat\u00edsticas tamb\u00e9m apontam para uma coincid\u00eancia entre a redu\u00e7\u00e3o de homic\u00eddios e a consolida\u00e7\u00e3o da fac\u00e7\u00e3o paulista, que nasceu em 1993, no anexo da Casa de Cust\u00f3dia de Taubat\u00e9, conhecido como Piranh\u00e3o, mas apenas no in\u00edcio dos anos 2000 ganhou for\u00e7a nas periferias do Estado. Em 2001, um dos anos mais cr\u00edticos, S\u00e3o Paulo teve 41 mortes por 100.000 habitantes. A partir desse ano a taxa vai caindo gradativamente, at\u00e9 alcan\u00e7ar, em 2017, a menor taxa do pa\u00eds: 10,7. Nos Estados onde o PCC tem forte presen\u00e7a e hegemonia, como\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/parana\">Paran\u00e1<\/a>\u00a0e Mato Grosso do Sul, as taxas de homic\u00eddio ficaram abaixo da m\u00e9dia nacional, que \u00e9 de 30,2 por 100.000 habitantes. Estes Estados t\u00eam, respectivamente, 22,6 e 20,8.<\/p>\n<p>J\u00e1 nos Estados onde h\u00e1 forte disputa entre grupos rivais, como, por exemplo,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/ceara\">Cear\u00e1<\/a>, Pernambuco e Rio de Janeiro, os homic\u00eddios atingem n\u00edveis alarmantes (59,1 &#8211; 57,3 \u2013 40,4). O Estado mais violento \u00e9 o Rio Grande do Norte, com 69. &#8220;O fato de voc\u00ea ter uma certa hegemonia e conseguir ter uma ascend\u00eancia sobre esses mercados [do PR , SP e MT] diminui estes conflitos&#8221;, afirma Manso. &#8220;Conflito \u00e9 custo, conflito \u00e9 risco. Quanto mais est\u00e1vel e previs\u00edvel melhor para todos. Com o tempo todos neste mercado ganham com isso, e essa li\u00e7\u00e3o foi aprendida pelo PCC no in\u00edcio dos anos 2000&#8221;, diz Manso.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Verba para seguran\u00e7a mais que dobra, mas mortes violentas ligadas ao tr\u00e1fico n\u00e3o param de crescer. Campanha \u00e9 atravessada por guerra entre PCC e CV e seus aliados, que se nacionalizou desde 2016<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":255599,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[6,8],"tags":[],"class_list":["post-255598","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-municipios","category-noalvo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/faccao.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/255598","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=255598"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/255598\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/255599"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=255598"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=255598"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=255598"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}