{"id":255606,"date":"2018-08-31T06:18:42","date_gmt":"2018-08-31T09:18:42","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=255606"},"modified":"2018-08-31T06:18:42","modified_gmt":"2018-08-31T09:18:42","slug":"como-monteiro-lobato-transformou-critica-social-usando-jeca-tatu-em-sucesso-literario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/como-monteiro-lobato-transformou-critica-social-usando-jeca-tatu-em-sucesso-literario\/","title":{"rendered":"Como Monteiro Lobato transformou cr\u00edtica social usando &#8216;Jeca Tatu&#8217; em sucesso liter\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"byline\"><span class=\"byline__name\">Marcus Lopes<\/span><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share-row\">\n<div class=\"share-tools--no-event-tag\">\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-twite\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/3A7B\/production\/_103117941_monteiro-lobatowikimedia.jpg\" alt=\"Monteiro Lobato na d\u00e9cada de 1920\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span>&#8216;Jeca&#8217; \u00e9 hoje um termo pejorativo, mas o personagem criado por Monteiro Lobato tinha o objetivo de criticar pol\u00edticas de governo<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">Conhecido por sua fina ironia, o escritor Monteiro Lobato costumava brincar ao dizer que seus livros n\u00e3o passavam de &#8220;umas tantas lorotas que se vendem&#8221;. Agora, uma das principais &#8220;lorotas&#8221; de Lobato completa um s\u00e9culo de vida: o livro de contos\u00a0<i>Urup\u00eas<\/i>, editado em 1918, tornou famoso o\u00a0<a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/topics\/6a73afa3-ea6b-45c1-80bb-49060b99f864\">personagem<\/a>\u00a0Jeca Tatu.<\/p>\n<p>S\u00edmbolo de um pa\u00eds agr\u00e1rio, pobre, injusto e atrasado, o Jeca, que virou sin\u00f4nimo do caipira ing\u00eanuo brasileiro, chega ao centen\u00e1rio t\u00e3o atual como na \u00e9poca em que foi lan\u00e7ado, segundo os especialistas na obra de Lobato.<\/p>\n<p>&#8220;<i>Urup\u00eas<\/i>\u00a0pode ser um bom come\u00e7o para entender o contexto hist\u00f3rico que levou ao Brasil de hoje. A perspectiva pol\u00edtica em que Lobato representa o Brasil das primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo 20, mais criticando do que aplaudindo medidas governamentais, \u00e9 extremamente atual&#8221;, afirma Marisa Lajolo, professora da Universidade Mackenzie e organizadora do livro\u00a0<i>Monteiro Lobato, Livro a Livro<\/i>(Editora Unesp, 2014), que re\u00fane artigos que analisam a obra adulta do criador do\u00a0<i>S\u00edtio do Picapau Amarelo<\/i>.<\/p>\n<p>As ra\u00edzes de Jeca Tatu est\u00e3o em dois artigos escritos por Monteiro Lobato para o jornal O Estado de S.Paulo, em 1914. Neles, o autor condenava as queimadas praticadas por caboclos nativos no Vale do Para\u00edba, interior de S\u00e3o Paulo, onde o escritor tocava a Fazenda Buquira, herdada do av\u00f4, o Visconde de Trememb\u00e9.<\/p>\n<p><i>Urup\u00eas<\/i>\u00a0\u00e9 focado no personagem principal, o Jeca. O nome da obra \u00e9 inspirado no urup\u00ea &#8211; um tipo de cogumelo parasit\u00e1rio que destr\u00f3i a madeira -, e o Jeca Tatu \u00e9 descrito como um caipira indolente, desleixado, sempre de c\u00f3coras e p\u00e9s descal\u00e7os, nenhuma educa\u00e7\u00e3o, cultura, ambi\u00e7\u00e3o ou mesmo disposi\u00e7\u00e3o para melhorar de vida. Vive do que a natureza derrama aos seus p\u00e9s e flerta o tempo todo com a pregui\u00e7a, a cacha\u00e7a e as crendices populares.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/618B\/production\/_103117942_urupes-1.jpg\" alt=\"Capa original do livro Urup\u00eas\" width=\"1034\" height=\"959\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>O &#8216;urup\u00ea&#8217; era um tipo de cogumelo que danificava a madeira. Na imagem, a capa original do livro de 1918<\/figure>\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-parrot\"><\/div>\n<p>Jeca Tatu \u00e9 o homem do campo real, que leva uma vida miser\u00e1vel nos rinc\u00f5es brasileiros e \u00e9 praticamente ignorado pelos governantes. \u00c9 lembrado pelos pol\u00edticos apenas no momento do voto nas elei\u00e7\u00f5es. &#8220;O fato mais importante da sua vida \u00e9 votar no governo. (&#8230;) Vota. N\u00e3o sabe em quem, mas vota. Esfrega a pena no livro eleitoral, arabescando o aranhol de gatafunhos e que chama &#8216;sua gra\u00e7a&#8221;&#8217;, diz Lobato, em um dos trechos do livro.<\/p>\n<p>&#8220;Pobre Jeca tatu! Como \u00e9s bonito no romance e feio na realidade&#8221;, completou Lobato, distanciando-se da figura romantizada que havia do interior do pa\u00eds e os seus moradores, muito cultuada nas rodas liter\u00e1rias nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo 20. Nessa \u00e9poca, era comum escritores e estudiosos cultuarem uma vida caipira sem problemas, marcada pelo contato com a natureza e distante do cotidiano real vivido na zona rural.<\/p>\n<p>&#8220;Lobato lan\u00e7a um olhar cr\u00edtico e \u00e1cido sobre a realidade brasileira, algo incomum entre os escritores da sua \u00e9poca. \u00c9 muito importante celebrar o centen\u00e1rio dessa obra demolidora, que questiona valores e n\u00e3o deixa pedra sobre pedra no panorama da literatura do s\u00e9culo 20&#8221;, afirma a jornalista Marcia Camargos, bi\u00f3grafa de Lobato e coautora de\u00a0<i>Monteiro Lobato: Furac\u00e3o na Botoc\u00fandia<\/i>(Edi\u00e7\u00f5es Senac).<\/p>\n<p>A reden\u00e7\u00e3o do personagem pelo seu criador viria pouco depois em outro livro, a colet\u00e2nea\u00a0<i>Problema Vital<\/i>, tamb\u00e9m de 1918, onde Lobato re\u00fane uma s\u00e9rie de artigos escritos para a imprensa e afirma categ\u00f3rico: &#8220;O Jeca n\u00e3o \u00e9 assim; est\u00e1 assim&#8221;, deixando claro que o estado lastim\u00e1vel em que se encontrava o caipira era culpa do descaso das autoridades p\u00fablicas.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/889B\/production\/_103117943_monteirolobatoalimabarreto1918.jpg\" alt=\"Carta de Monteiro Lobato a Lima Barreto\" width=\"664\" height=\"607\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">&#8216;O Brasil \u00e9 a terra onde o certo d\u00e1 errado, e o errado d\u00e1 certo&#8217;, diz Monteiro Lobato ao escritor Lima Barreto numa carta de 1918, ano da edi\u00e7\u00e3o de &#8216;Urup\u00eas&#8217;.<\/figure>\n<p>&#8220;H\u00e1 no Jeca uma mudan\u00e7a cont\u00ednua, que evolui de acordo com a conscientiza\u00e7\u00e3o de Lobato a respeito das p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de vida do povo. Jeca \u00e9 um s\u00edmbolo, ele encarna o trabalhador brasileiro, sempre no lado mais fr\u00e1gil na luta de classes&#8221;, explica Marcia Camargos, que possui p\u00f3s-doutorado em Hist\u00f3ria pela USP.<\/p>\n<p>Outros personagens criados por Lobato posteriormente, como o Z\u00e9 Brasil, em 1947, refor\u00e7am essa tese. &#8220;Em toda a obra adulta dele percebemos um cr\u00edtica muito forte \u00e0 pol\u00edtica brasileira. Estamos em um momento pol\u00edtico que torna muito oportuna a releitura de\u00a0<i>Urup\u00eas<\/i>&#8220;, completa a professora do Mackenzie, referindo-se \u00e0s elei\u00e7\u00f5es de outubro.<\/p>\n<p>Ao editar e imprimir\u00a0<i>Urup\u00eas<\/i>\u00a0por conta pr\u00f3pria na Revista do Brasil, que comprou com o dinheiro da venda da Fazenda Buquira e transformou em uma grande editora nacional, Lobato tamb\u00e9m praticamente inaugurou o mercado editorial no Brasil. At\u00e9 ent\u00e3o, grande parte dos livros era impressa na Europa.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Um &#8216;best-seller&#8217; internacional<\/h2>\n<p>Desde o seu lan\u00e7amento,\u00a0<i>Urup\u00eas<\/i>\u00a0foi um sucesso estrondoso: mais de 30 mil exemplares vendidos em sucessivas edi\u00e7\u00f5es at\u00e9 1925, sendo tamb\u00e9m traduzido para o espanhol e ingl\u00eas. Em 1919, Jeca Tatu foi citado em discurso de Rui Barbosa durante sua campanha presidencial. &#8220;Por tudo isso, podemos perceber a for\u00e7a e a vitalidade desse livro, que veio remexer as \u00e1guas mornas do ent\u00e3o mercado editorial nacional&#8221;, diz Marcia Camargos.<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/D6BB\/production\/_103117945_urupes-2.jpg\" alt=\"Marcia Camargos\" width=\"649\" height=\"710\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\">O livro n\u00e3o foi apenas um sucesso liter\u00e1rio, mas tamb\u00e9m um sucesso de p\u00fablico, diz a especialista Marcia Camargos<\/figure>\n<p>&#8220;Al\u00e9m da novidade de cen\u00e1rio e de personagens, os contos de\u00a0<i>Urup\u00eas<\/i>\u00a0s\u00e3o narrados em uma linguagem coloquial e cheia de lances de oralidade. \u00c9 como se o leitor &#8216;ouvisse&#8217; algu\u00e9m contando hist\u00f3rias&#8221;, explica Marisa Lajolo, sobre o sucesso da obra nos anos seguintes ao seu lan\u00e7amento.<\/p>\n<p>At\u00e9 morrer, em 1948, Lobato abra\u00e7ou diversas causas nacionalistas, como a campanha do petr\u00f3leo, e lan\u00e7ou diversos livros adultos e infantis. Sua obra mais conhecida do p\u00fablico juvenil \u00e9<i>\u00a0Narizinho Arrebitado<\/i>, lan\u00e7ado em 1921 pela Monteiro Lobato &amp; Cia Editora e que deu in\u00edcio \u00e0 turma do\u00a0<i>S\u00edtio do Picapau Amarelo<\/i>. Lobato tornou-se um dos escritores mais consagrados da hist\u00f3ria da literatura infantil e juvenil brasileira.<\/p>\n<p>Atualmente,\u00a0<i>Urup\u00eas<\/i>\u00a0\u00e9 editado pela Editora Globo, que prepara uma edi\u00e7\u00e3o especial para ser lan\u00e7ada at\u00e9 o fim do ano. No ano que vem, toda a obra do escritor cai em dom\u00ednio p\u00fablico e deve ser relan\u00e7ada por outras grandes editoras.<\/p>\n<p>Uma nova biografia juvenil de Lobato tamb\u00e9m est\u00e1 sendo preparada por Marisa Lajolo junto com a historiadora Lilia Schwarcz. A previs\u00e3o \u00e9 que obra seja lan\u00e7ada em 2019 pela Companhia das Letras. &#8220;Ser\u00e1 um livro bastante divertido, pois ser\u00e1 como se ele contasse a vida dele. Apresentaremos Lobato como uma grande figura, e n\u00e3o como um nerd&#8221;, adianta Marisa.<\/p>\n<p>Ela revela aspectos curiosos e poucos conhecidos do escritor de Taubat\u00e9 que estar\u00e3o no novo livro, como o fato dele nunca ter sido bom aluno e adorar sentar junto com a &#8220;turma do fund\u00e3o&#8221; nas aulas do col\u00e9gio. Isso n\u00e3o o impediu de tornar-se um intelectual respeitado, autor \u00eddolo das crian\u00e7as, precursor da ind\u00fastria editorial nacional e autor da c\u00e9lebre frase: &#8220;Um pa\u00eds se faz com homens e livros&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;O Brasil \u00e9 a terra onde o certo d\u00e1 errado, e o errado d\u00e1 certo&#8217;, diz Monteiro Lobato ao escritor Lima Barreto numa carta de 1918, ano da edi\u00e7\u00e3o de &#8216;Urup\u00eas&#8217;.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":255607,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-255606","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/monteiro-lobato.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/255606","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=255606"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/255606\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/255607"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=255606"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=255606"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=255606"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}