{"id":255806,"date":"2018-09-02T08:10:08","date_gmt":"2018-09-02T11:10:08","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=255806"},"modified":"2018-09-02T08:10:08","modified_gmt":"2018-09-02T11:10:08","slug":"naipaul-no-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/naipaul-no-mundo\/","title":{"rendered":"Naipaul no mundo"},"content":{"rendered":"<div class=\"articulo__apertura\">\n<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div class=\"articulo-encabezado-texto\">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\"><em>Brit\u00e2nico \u00e9 um escritor pol\u00edtico mesmo quando conta hist\u00f3rias sobre sua fam\u00edlia e sua voca\u00e7\u00e3o<\/em><\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"firma \">\n<div class=\"autor\">\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Antonio Mu\u00f1oz Molina\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/antonio_munoz_molina\/a\/\">ANTONIO MU\u00d1OZ MOLINA<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"articulo-datos\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<figure class=\"foto centro foto_w980\" style=\"text-align: justify;\"><a class=\"enlace\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/08\/31\/cultura\/1535685987_195972.html\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/08\/31\/cultura\/1535685987_195972_1535832101_noticia_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/08\/31\/cultura\/1535685987_195972_1535832101_noticia_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/08\/31\/cultura\/1535685987_195972_1535832101_noticia_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/08\/31\/cultura\/1535685987_195972_1535832101_noticia_normal.jpg 980w\" alt=\"V. S. Naipaul, em 1992 em Paris.\" width=\"980\" height=\"549\" \/><span class=\"boton_ampliar\">Ampliar foto<\/span><\/a><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">V. S. Naipaul, em 1992 em Paris.<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">A. ABBAS<\/span>\u00a0<span class=\"foto-agencia\">MAGNUM \/ CONTACTO<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Um fato simples bem contado adquire por si mesmo uma qualidade de s\u00edmbolo. N\u00e3o \u00e9 um enfeite liter\u00e1rio: \u00e9 uma descoberta cognitiva. O s\u00edmbolo sintetiza e explica o real, como se fosse uma equa\u00e7\u00e3o e uma f\u00f3rmula qu\u00edmica. Um fato assim est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>The Enigma of Arrival<\/em>, que j\u00e1 \u00e9 por si s\u00f3 uma s\u00edntese de toda a literatura de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/vidiadhar_surajprasad_naipaul\">V.S. Naipaul<\/a>, de sua ideia de mundo e de si mesmo, da origem de sua voca\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e do processo dif\u00edcil de autoconhecimento sem o qual n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel a aprendizagem do of\u00edcio. No romance, que s\u00f3 o \u00e9 at\u00e9 certo ponto, o jovem Naipaul come\u00e7a por fim a viagem que o levar\u00e1 de Trinidad \u00e0\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/inglaterra\">Inglaterra<\/a>, da periferia semicolonial \u00e0 metr\u00f3pole. Ser\u00e1 uma viagem longa e trabalhosa para o estudante bolsista que n\u00e3o sabe nada do mundo, que viveu a partida com uma mistura de exalta\u00e7\u00e3o e p\u00e2nico. A despedida da fam\u00edlia foi demorada, sufocante em sua lentid\u00e3o e em sua espessura sentimental para o jovem impaciente por se soltar da ang\u00fastia da fam\u00edlia. O avi\u00e3o por fim decola e quando ganha altura Naipaul olha pela janela e v\u00ea o que at\u00e9 agora nunca havia visto: a forma completa da ilha em que viveu at\u00e9 ent\u00e3o. Os contornos do territ\u00f3rio a que uma pessoa pertence s\u00f3 se tornam vis\u00edveis ao abandon\u00e1-lo.<\/p>\n<section id=\"sumario_1|html\" class=\"sumario_html derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\"><em><strong>Em uma \u00e9poca de veleidades expressivas, de brilhos irrespons\u00e1veis de palavreado, ningu\u00e9m cultivou como ele a prosa como uma forma de conhecimento<\/strong><\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<div id=\"elpais_gpt-INTEXT\" style=\"text-align: justify;\" data-google-query-id=\"CJ7U8I2XnN0CFSvT4QodUJIAEw\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/cultura\/intext_0__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo o que Naipaul escreveu ao longo de 30 anos de fertilidade incompar\u00e1vel tem a ver com essa primeira viagem, com essa ambi\u00e7\u00e3o de ganhar os espa\u00e7os do mundo e esse descobrimento do que deixou para tr\u00e1s. Sua pr\u00f3pria vida lhe deu o s\u00edmbolo em que se transcreve toda a riqueza e a amplitude de um espa\u00e7o narrativo que \u00e9 intimamente seu e ao mesmo tempo abarca a geografia de v\u00e1rios continentes, a hist\u00f3ria da expans\u00e3o imperialista da Europa, as turbul\u00eancias e os fracassos do mundo que os colonizadores deixaram ap\u00f3s s\u00e9culos de explora\u00e7\u00e3o desp\u00f3tica, em uma retirada t\u00e3o atropelada e t\u00e3o irrespons\u00e1vel como foi a conquista. Por isso Naipaul \u00e9 um escritor pol\u00edtico mesmo quando conta hist\u00f3rias sobre sua fam\u00edlia e sobre sua pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o, e \u00e9 autobiogr\u00e1fica quando ao procurar as origens da calamidade p\u00f3s-colonial volta \u00e0s viagens de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/cristobal_colon\">Colombo<\/a>\u00a0e \u00e0s de Sir Walter Raleigh, \u00e0 conjun\u00e7\u00e3o de cobi\u00e7a e fantasmagoria delirante que encorajava no s\u00e9culo XVI os conquistadores a deixarem a vida procurando El Dorado e a Fonte da Juventude. No jovem Naipaul est\u00e1 a melancolia do adolescente de prov\u00edncia que alimenta como pode sua voca\u00e7\u00e3o precoce em uma comunidade que lhe parece fechada e hostil, bem longe do resplendor das capitais de onde v\u00eam os livros que l\u00ea e nas quais imagina que acontece a literatura. A dist\u00e2ncia geogr\u00e1fica n\u00e3o precisa ser muito grande. Entrevistei uma vez Don DeLillo, que nasceu em uma fam\u00edlia prolet\u00e1ria italiana do Bronx, e me contou que pare ele Manhattan, o lugar da literatura, lhe parecia t\u00e3o remota como\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/paris\">Paris<\/a>\u00a0mesmo que estivesse a poucas esta\u00e7\u00f5es de metr\u00f4 de seu bairro. A prov\u00edncia de Naipaul estava ainda mais afastada porque era uma ilha sem passado e consist\u00eancia social e econ\u00f4mica, sem a possibilidade de uma tradi\u00e7\u00e3o na qual se educar.\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/07\/13\/actualidad\/1468422915_764996.html\">O passado das popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas foi apagado sem marcas pelas matan\u00e7as e as epidemias<\/a>. As paisagens da ilha sofreram uma extin\u00e7\u00e3o semelhante, ao ser arrasadas para transformar todo o territ\u00f3rio em uma vasta planta\u00e7\u00e3o de cana de a\u00e7\u00facar. Escravos da \u00c1frica e, ap\u00f3s o fim da escravid\u00e3o, trabalhadores trazidos da \u00cdndia cultivavam a cana e produziam o a\u00e7\u00facar a servi\u00e7o de propriet\u00e1rios europeus que n\u00e3o tinham outro v\u00ednculo com a terra em que viviam al\u00e9m da extra\u00e7\u00e3o sem considera\u00e7\u00e3o do maior benef\u00edcio poss\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em sua prov\u00edncia est\u00e1vel e opressiva, o aspirante a rebelde quer apagar tudo e come\u00e7ar de novo, romper com suas ra\u00edzes: Naipaul, o jovem colonial, membro de uma fam\u00edlia de imigrantes indianos que continuam sendo estrangeiros ao longo das gera\u00e7\u00f5es, n\u00e3o pode se apoiar em nada al\u00e9m de sua obstina\u00e7\u00e3o, e como vem de um territ\u00f3rio culturalmente devastado, precisa fazer sua, ainda que em seus pr\u00f3prios termos, a cultura dos colonizadores. Seus primeiros modelos foram\u00a0<em>O Lazarillo de Tormes<\/em>\u00a0e Dickens. O espanhol do Lazarillo era o dos conquistadores e o dos cronistas das \u00cdndias: mas o olhar e a escrita de L\u00e1zaro, de seu autor an\u00f4nimo, eram uma li\u00e7\u00e3o de clareza e de irrever\u00eancia que desmentia os palavreados imperiais e ensinava a contar as coisas tal como s\u00e3o, \u00e0 luz fria e crua da verdade. E o of\u00edcio narrativo que serviu a Dickens para mostrar por dentro o tecido das vidas inglesas e o funcionalismo social na \u00e9poca do grande empenho imperial poderia ser usado para contar o outro mundo, o da experi\u00eancia long\u00ednqua dos colonizados em sua ilha perdida no Caribe. V.S. Naipaul, em\u00a0<em>Uma Casa para o Sr. Biswas<\/em>, se apoderou do formato cl\u00e1ssico do romance de Dickens com a mesma ambi\u00e7\u00e3o e o mesmo atrevimento com que seu contempor\u00e2neo caribenho Derek Walcott tornou sua a tamb\u00e9m sacralizada tradi\u00e7\u00e3o do grande poema \u00e9pico. O talentoso marginal toma de assalto a cidadela do intoc\u00e1vel como aquele que se esgueira de noite em um museu, e o torna seu e ao mesmo tempo contempor\u00e2neo, o devolve da arqueologia \u00e0 vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim que alcan\u00e7ou a maestria na arte do romance cl\u00e1ssico V.S. Naipaul a renegou. Experimentou outras formas mais fragment\u00e1rias de fic\u00e7\u00e3o que se corresponderam com as vidas de desarraigo e deslocamento que queria contar. Considerou que a fic\u00e7\u00e3o n\u00e3o lhe bastava e pegou outro g\u00eanero cl\u00e1ssico da literatura colonial, o relato de viagens, e o mudou para contar com urg\u00eancia e com uma clareza corrosiva como a de\u00a0<em>Lazarillo<\/em>\u00a0hist\u00f3rias que j\u00e1 n\u00e3o cabiam dentro dos limites do romance. N\u00e3o importava o g\u00eanero: o que importava era a precis\u00e3o da escrita e a agudeza do olhar e da escuta. Ningu\u00e9m, que eu saiba, chegou t\u00e3o longe nesses tempos como V.S. Naipaul em transformar a transpar\u00eancia em estilo; em uma \u00e9poca de veleidades expressivas, de brilhos irrespons\u00e1veis de palavreado, ningu\u00e9m cultivou como ele a prosa como uma forma de conhecimento.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Brit\u00e2nico \u00e9 um escritor pol\u00edtico mesmo quando conta hist\u00f3rias sobre sua fam\u00edlia e sua voca\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":255807,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-255806","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/naipul.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/255806","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=255806"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/255806\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/255807"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=255806"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=255806"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=255806"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}