{"id":256632,"date":"2018-09-09T11:24:14","date_gmt":"2018-09-09T14:24:14","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=256632"},"modified":"2018-09-09T11:24:14","modified_gmt":"2018-09-09T14:24:14","slug":"como-seria-nossa-vida-se-soubessemos-quando-vamos-morrer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/como-seria-nossa-vida-se-soubessemos-quando-vamos-morrer\/","title":{"rendered":"Como seria nossa vida se soub\u00e9ssemos quando vamos morrer?"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share-row\">\n<div class=\"share-tools--no-event-tag\">\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-twite\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/4246\/production\/_103166961_3.jpg\" alt=\"cemit\u00e9rio\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span>Alguns pesquisadores acreditam que nos apegamos a certas cren\u00e7as por medo da morte<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\" style=\"text-align: justify;\">Voc\u00ea e todos os que j\u00e1 conheceu ir\u00e3o\u00a0<a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/topics\/c4794229-7f87-43ce-ac0a-6cfcd6d3cef2\">morrer<\/a>\u00a0um dia. De acordo com psic\u00f3logos, essa verdade desconfort\u00e1vel fica escondida no fundo de nossas mentes e acaba direcionando tudo o que fazemos, desde ir \u00e0 igreja, comer vegetais e fazer gin\u00e1stica a nos motivar a ter filhos, escrever livros e fundar um neg\u00f3cio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para pessoas saud\u00e1veis, a morte geralmente exerce uma influ\u00eancia subconsciente. &#8220;Na maior parte do tempo, passamos os dias sem pensar em nossa mortalidade&#8221;, diz Chris Feudtner, pediatra e especialista em \u00e9tica do Hospital Infantil da Filad\u00e9lfia e da Universidade da Pensilv\u00e2nia, nos EUA. &#8220;Lidamos com isso focando em coisas que est\u00e3o mais \u00e0 nossa frente&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que aconteceria, no entanto, se n\u00e3o houvesse d\u00favida sobre o momento de nossa morte? E se de repente soub\u00e9ssemos exatamente o dia e como morrer\u00edamos? Embora isso seja imposs\u00edvel, considera\u00e7\u00f5es cuidadosas desse cen\u00e1rio hipot\u00e9tico podem lan\u00e7ar luz sobre nossas motiva\u00e7\u00f5es como indiv\u00edduos e sociedades &#8211; e dar pistas de como usar nosso tempo limitado na Terra da melhor forma poss\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Primeiramente, como a morte define o comportamento no mundo? Nos anos de 1980, psic\u00f3logos passaram a estudar como lidamos com a enorme ansiedade e o medo da percep\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o somos nada al\u00e9m de &#8220;pe\u00e7as de carne conscientes que respiram e defecam e que podem morrer a qualquer momento&#8221;, como define Sheldon Solomon, professor de psicologia de Skidmore College, em Nova York.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A teoria de gerenciamento de terror, cunhada por Solomon e colegas, sugere que os humanos se apegam a cren\u00e7as culturalmente constru\u00eddas &#8211; de que o mundo tem sentido, por exemplo, e de que nossas vidas t\u00eam valor &#8211; a fim de afastar o que de outra forma seria um terror existencial paralisante.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Defesa de cren\u00e7as<\/h2>\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-parrot\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em mais de mil experimentos, pesquisadores conclu\u00edram que, quando lembrados de que vamos morrer, nos apegamos mais \u00e0s nossas cren\u00e7as e nos esfor\u00e7amos para aumentar o senso de valor pr\u00f3prio. Tamb\u00e9m ficamos mais defensivos de nossas cren\u00e7as e reagimos com hostilidade a qualquer coisa que as ameace.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo acenos sutis \u00e0 mortalidade &#8211; como um flash de 42,8 milissegundos da palavra &#8220;morte&#8221; na tela do computador ou uma conversa que comece numa casa funer\u00e1ria &#8211; s\u00e3o suficientes para engatilhar mudan\u00e7as comportamentais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como s\u00e3o algumas dessas mudan\u00e7as? Quando lembrados da morte, tratamos aqueles que s\u00e3o semelhantes a n\u00f3s em apar\u00eancia, inclina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, origem geogr\u00e1fica e cren\u00e7as religiosas de forma mais favor\u00e1vel. E nos tornamos mais desdenhosos e violentos com pessoas que n\u00e3o compartilham dessas semelhan\u00e7as.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/9066\/production\/_103166963_4.jpg\" alt=\"vel\u00f3rio nos EUA\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Pensamentos sobre morte podem tornar as pessoas mais patri\u00f3ticas e ao mesmo tempo mais intolerantes com estrangeiros<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Professamos um compromisso mais profundo com parceiros rom\u00e2nticos que validam nossas vis\u00f5es de mundo. E estamos mais inclinados a votar em l\u00edderes m\u00e3o de ferro que incitam o medo de pessoas de fora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m nos tornamos mais niilistas, bebendo, fumando, comprando e comendo em excesso &#8211; e ficamos menos preocupado com o meio ambiente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se todo mundo de repente soubesse o dia e a forma da morte, a sociedade poderia se tornar mais racista, xen\u00f3foba, violenta, belicista, auto e ambientalmente destrutiva do que j\u00e1 \u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas isto n\u00e3o \u00e9 uma predestina\u00e7\u00e3o. Pesquisadores como Solomon acreditam que, ao se tornar cientes dos efeitos negativos da ansiedade pela morte, poder\u00edamos combat\u00ea-los. Na realidade, cientistas j\u00e1 registraram alguns exemplos de pessoas derrubando essas tend\u00eancias gerais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Monges budistas da Coreia do Sul, por exemplo, n\u00e3o respondem dessa forma aos lembretes de morte.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/DE86\/production\/_103166965_5.jpg\" alt=\"budistas\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Os monges budistas n\u00e3o parecem ter as t\u00edpicas rea\u00e7\u00f5es autodefensivas aos lembretes da morte, contrariando as previs\u00f5es da &#8216;teoria do gerenciamento do terror&#8217;<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pesquisadores estudaram um estilo de pensamento chamado &#8220;reflex\u00e3o sobre a morte&#8221; e notaram que as rea\u00e7\u00f5es s\u00e3o diferentes se as pessoas pensam em morte de maneira ampla ou, ao contr\u00e1rio, se forem espec\u00edficos sobre como o epis\u00f3dio ocorreria e qual impacto ele teria em suas fam\u00edlias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse \u00faltimo caso, as pessoas ficaram mais altru\u00edstas &#8211; com a vontade, por exemplo, de doar sangue, mesmo que n\u00e3o houvesse uma demanda imediata. Elas tamb\u00e9m ficam mais abertas a refletir sobre os pap\u00e9is positivos e negativos de eventos em suas vidas. Com essas descobertas, saber o dia da morte poderia levar indiv\u00edduos a focar mais em objetivos de vida e v\u00ednculos sociais em vez de se isolarem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso seria especialmente verdadeiro &#8220;se promov\u00eassemos estrat\u00e9gias para aceitar a morte como parte da vida e se esse conhecimento fosse integrado a nossas escolhas de vida e comportamento&#8221;, diz Eva Jonas, professora de psicologia da Universidade de Salzburgo, na \u00c1ustria. &#8220;Entender a escassez da vida pode aumentar a percep\u00e7\u00e3o de valor da vida e desenvolver um senso de que &#8216;estamos todos no mesmo barco&#8217;, aumentando a toler\u00e2ncia e a compaix\u00e3o e minimizando as respostas defensivas&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/12CA6\/production\/_103166967_6.jpg\" alt=\"doa\u00e7\u00e3o de sangue\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Refletir sobre a morte de uma forma espec\u00edfica e expl\u00edcita estimula o altru\u00edsmo, como doar sangue<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Personalidades m\u00f3rbidas<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Independentemente de a sociedade como um todo tomar um rumo bom ou ruim, como reagir\u00edamos \u00e0 informa\u00e7\u00e3o de nossa morte poderia variar de acordo com a personalidade e as especificidades do grande evento?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Quanto mais neur\u00f3tico e ansioso voc\u00ea for, mais preocupado estar\u00e1 com a morte e incapaz de se concentrar em mudan\u00e7as significativas na vida&#8221;, diz Laura Blackie, professora-assistente de psicologia da Universidade de Nottingham, no Reino Unido. &#8220;Mas, por outro lado, se voc\u00ea souber que vai morrer em paz aos 90 anos enquanto dorme, talvez n\u00e3o se preocupe tanto com isso&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se a vida termina aos 13 ou aos 113 anos, estudos sobre indiv\u00edduos com doen\u00e7as terminais podem lan\u00e7ar luz sobre as t\u00edpicas respostas \u00e0 morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os pacientes de cuidados paliativos, diz Feudtner, muitas vezes experimentam duas fases de pensamento. Primeiro, eles questionam a pr\u00f3pria premissa de seu diagn\u00f3stico, perguntando-se se a morte \u00e9 evit\u00e1vel ou n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois disso, eles contemplam como aproveitar ao m\u00e1ximo o tempo que lhes resta. A maioria cai em uma das duas categorias: eles decidem colocar toda a sua energia e foco em fazer tudo o que podem para vencer a doen\u00e7a, ou optam por refletir sobre suas vidas e passar o maior tempo poss\u00edvel com os entes queridos, fazendo coisas que lhes tragam felicidade.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/17AC6\/production\/_103166969_7.jpg\" alt=\"idosas\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>H\u00e1 pessoas que provavelmente n\u00e3o v\u00e3o lutar contra a data da morte, mas passariam o tempo fazendo coisas que lhes d\u00e3o alegria<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os mesmos processos provavelmente aconteceriam sob o cen\u00e1rio hipot\u00e9tico da data de morte. &#8220;Mesmo que voc\u00ea saiba que tem mais 60 anos, eventualmente essa expectativa de vida ser\u00e1 medida em apenas alguns anos, meses e dias&#8221;, diz Feudtner. &#8220;Quando o rel\u00f3gio se aproxima do desfecho, acho que ver\u00edamos pessoas se movendo em duas dire\u00e7\u00f5es diferentes&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqueles que tentam impedir a morte podem ficar obcecados em evit\u00e1-la, especialmente com o tempo se esgotando. Algu\u00e9m que sabe que se afogar\u00e1 pode praticar nata\u00e7\u00e3o incessantemente para ter uma chance de sobreviv\u00eancia, por exemplo; e algu\u00e9m que sabe que vai morrer em um acidente de tr\u00e2nsito pode evitar ve\u00edculos a todo custo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outros, no entanto, podem seguir o caminho oposto &#8211; tentando terminar a vida em seus pr\u00f3prios termos. Isso permitiria, de certa forma, ter controle sobre o processo. Jonas e seus colegas descobriram, por exemplo, que quando pediam \u00e0s pessoas que imaginassem que sofreriam uma morte lenta e dolorosa por uma doen\u00e7a, aquelas que tiveram a op\u00e7\u00e3o de terminar a vida sentiram ter mais controle e menos ansiedade da morte.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/4A16\/production\/_103166981_8.jpg\" alt=\"M\u00fasico\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Algumas pessoas podem reagir se pressionando a chegar a n\u00edveis mais criativos<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqueles que seguem o caminho aceitando a senten\u00e7a de morte podem reagir de v\u00e1rias formas. Alguns ficariam energizados para aproveitar ao m\u00e1ximo o tempo que lhes resta, atingindo altos n\u00edveis de conquistas criativas, sociais, cient\u00edficas e empreendedoras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Gosto de pensar que saber o dia da morte traria o melhor de n\u00f3s, que nos daria uma amplitude psicol\u00f3gica para sermos capazes de fazer mais por n\u00f3s mesmos e nossas fam\u00edlias e comunidades&#8221;, diz Solomon.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Realmente, h\u00e1 evid\u00eancias promissoras de sobreviventes de traumas de que ter a no\u00e7\u00e3o do tempo limitado que nos resta pode motivar o autoaperfei\u00e7oamento. Embora seja dif\u00edcil coletar dados dessas pessoas, muitos insistem que eles mudaram profundamente, e de forma positiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eles dizem estar mais fortes, mais espirituais, reconhecem mais possibilidades positivas e apreciam mais a vida&#8221;, diz Blackie. &#8220;Eles chegam \u00e0 conclus\u00e3o de que &#8216;uau, a vida \u00e9 curta, eu vou morrer um dia, preciso tirar o m\u00e1ximo proveito disso'&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/9836\/production\/_103166983_9.jpg\" alt=\"Sobreviventes de tiroteio em Orlando\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Sobreviventes de eventos traum\u00e1ticos &#8211; como o tiroteio em Orlando, nos EUA, em 2016 &#8211; mostram mais resili\u00eancia<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, nem todo mundo se tornaria o melhor de si pr\u00f3prio. Em vez disso, muitas pessoas provavelmente escolheriam acabar com a vida e parar de contribuir significativamente para a sociedade &#8211; n\u00e3o necessariamente porque s\u00e3o pregui\u00e7osos, mas porque s\u00e3o tomados pela sensa\u00e7\u00e3o de falta de sentido. Como explica Caitlin Doughty, agente funer\u00e1ria, autora e fundadora do coletivo Ordem da Boa Morte: &#8220;Voc\u00ea estaria escrevendo esta reportagem se soubesse que morrer\u00e1 no pr\u00f3ximo m\u00eas?&#8221; (Provavelmente n\u00e3o).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sentimentos de inutilidade tamb\u00e9m podem fazer com que muitas pessoas desistam do estilo de vida saud\u00e1vel. Se a morte est\u00e1 predestinada para um per\u00edodo espec\u00edfico, &#8220;n\u00e3o vou mais perder tempo comendo alimentos org\u00e2nicos, beberei minha Coca normal em vez da sem a\u00e7\u00facar, talvez experimente algumas drogas e coma Twinkies (bolinho industrializado) o dia todo&#8221;, lista Doughty. &#8220;Muito de nossa cultura \u00e9 projetado para se evitar a morte&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/E656\/production\/_103166985_10.jpg\" alt=\"Fumante\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Um reconhecimento de nossa imortalidade pode, ironicamente, desencadear comportamentos niilistas como fumar, beber e comer em excesso<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Possivelmente, no entanto, a maioria dos indiv\u00edduos alternaria entre estar supermotivado e niilista, escolhendo uma semana para &#8220;sentar em casa e despejar<i>Cheez Whiz<\/i>\u00a0(molho de queijo) em um pacote de biscoitos e assistir (\u00e0 s\u00e9rie)\u00a0<i>Law and Order<\/i>\u00a0no Netflix&#8221; e na outra &#8220;se voluntariaria para preparar sopa (para a popula\u00e7\u00e3o pobre)&#8221;, diz Solomon. Mas independentemente de onde nesse espectro estejamos, at\u00e9 os mais iluminados &#8211; especialmente ao se aproximar do dia da morte &#8211; se tornariam ocasionalmente &#8220;uma ru\u00edna tr\u00eamula&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Mudan\u00e7as s\u00e3o estressantes&#8221;, concorda Feudtner. &#8220;Estamos falando aqui da maior mudan\u00e7a que pode acontecer ao um indiv\u00edduo &#8211; a de n\u00e3o estar mais vivo&#8221;.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Pausa religiosa<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em termos pr\u00e1ticos, n\u00e3o importa onde vivemos, nossa vida mudaria totalmente se soub\u00e9ssemos quando ir\u00edamos morrer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitas pessoas podem come\u00e7ar terapia, que acabaria desenvolvendo uma sub\u00e1rea relacionada \u00e0 morte. Novos rituais sociais e rotinas poderiam surgir, com dias da morte celebrados como anivers\u00e1rios, mas contados para baixo em vez de para cima.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/13476\/production\/_103166987_11.jpg\" alt=\"B\u00edblia\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>O fundamento de religi\u00f5es seria abalado se soub\u00e9ssemos quando vamos morrer, dizem especialistas<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">E as atuais religi\u00f5es seriam abaladas em seu cerne. Cultos podem surgir no rastro espiritual. &#8220;Vamos come\u00e7ar a adorar este sistema que nos diz quando vamos morrer? Fazer oferendas ao sistema? Entregar nossas filhas virgens?&#8221;, questiona Doughty. &#8220;Sem d\u00favida isto impactaria a cren\u00e7a religiosa&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os relacionamentos seriam certamente afetados. Descobrir algu\u00e9m cujo dia da morte est\u00e1 perto do seu pr\u00f3prio se tornaria um requisito obrigat\u00f3rio para muitos, e aplicativos de encontros que filtrassem a informa\u00e7\u00e3o tornariam a tarefa mais f\u00e1cil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Uma das coisas que provocam medo da morte &#8211; geralmente mais do que sua pr\u00f3pria morte &#8211; \u00e9 a perda do ente amado&#8221;, diz Doughty. &#8220;Por que eu ficaria com algu\u00e9m que vai morrer aos 40 se eu vou viver at\u00e9 os 89?&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da mesma forma, se fosse poss\u00edvel saber o dia da morte a partir de uma amostra biol\u00f3gica, alguns pais poderiam abortar os fetos que fossem morrer muito jovens para evitar a dor de perder o filho. Outros &#8211; sabendo que n\u00e3o sobreviveriam at\u00e9 certa idade &#8211; poderiam optar por n\u00e3o ter filhos, ou fazer o oposto, ter muitos filhos o mais r\u00e1pido poss\u00edvel.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/18296\/production\/_103166989_12.jpg\" alt=\"Casal\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Muitas pessoas provavelmente poderiam priorizar encontrar o par rom\u00e2ntico cujo dia de morte fosse perto do seu pr\u00f3prio<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m ter\u00edamos que lidar com novas leis e normas. De acordo com Rose Eveleth, criadora e produtora do podcast\u00a0<a class=\"story-body__link-external\" href=\"https:\/\/www.flashforwardpod.com\/\">Flash Forward<\/a>\u00a0(no qual um\u00a0<a class=\"story-body__link-external\" href=\"https:\/\/www.flashforwardpod.com\/2016\/05\/17\/episode-13-expiration-date\/\">epis\u00f3dio<\/a>explorou uma hip\u00f3tese parecida sobre o dia da morte), a legisla\u00e7\u00e3o deveria ser pensada em torno da privacidade do dia da morte para evitar discrimina\u00e7\u00e3o do empregador e do prestador de servi\u00e7o. Figuras p\u00fablicas, de um lado, podem ser obrigadas a compartilhar datas antes de se candidatar (ou podem causar pol\u00eamica se se negarem a faz\u00ea-lo). &#8220;Se um candidato \u00e0 presid\u00eancia sabe que morrer\u00e1 tr\u00eas dias ap\u00f3s o in\u00edcio do mandato, isso importa&#8221;, ressalta Eveleth.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E se n\u00e3o for legalmente requisitado, alguns indiv\u00edduos podem escolher tatuar o dia da morte em seu bra\u00e7o ou numa plaqueta de identifica\u00e7\u00e3o militar, de modo que &#8211; em caso de acidente &#8211; os profissionais de resgate saibam que n\u00e3o ter\u00e3o como reviv\u00ea-los, diz Eveleth.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ind\u00fastria funer\u00e1ria tamb\u00e9m seria profundamente impactada: ofereceria servi\u00e7os aos que ainda est\u00e3o vivos e n\u00e3o a fam\u00edlias em luto. &#8220;As casas funer\u00e1rias n\u00e3o poderiam mais assediar pessoas em luto para tirar o m\u00e1ximo de dinheiro poss\u00edvel&#8221;, diz Eveleth. &#8220;Isso coloca o poder nas m\u00e3os dos consumidores de uma forma positiva&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No grande dia, algumas pessoas podem dar festas como aqueles que optam pela eutan\u00e1sia est\u00e3o come\u00e7ando a fazer na vida real. Outros, especialmente aqueles que morreriam colocando outras pessoas em perigo, podem sentir-se \u00e9tica ou emocionalmente compelidos a se isolar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outros ainda, diz Eveleth, podem escolher usar sua morte para um prop\u00f3sito art\u00edstico ou pessoal superior, participando de uma pe\u00e7a em que todos de fato morrem no final ou encenando uma morte por uma causa em que acreditam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se soub\u00e9ssemos o dia e a forma como morreremos, nossas vidas seriam profundamente afetadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A civiliza\u00e7\u00e3o humana se desenvolveu totalmente ao redor da ideia de morte&#8221;, diz Doughty. &#8220;Eu acho que (esse conhecimento) iria minar completamente o nosso sistema de vida&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ind\u00fastria funer\u00e1ria tamb\u00e9m seria profundamente impactada: ofereceria servi\u00e7os aos que ainda est\u00e3o vivos e n\u00e3o a fam\u00edlias em luto. &#8220;As casas funer\u00e1rias n\u00e3o poderiam mais assediar pessoas em luto para tirar o m\u00e1ximo de dinheiro poss\u00edvel&#8221;, diz Eveleth. &#8220;Isso coloca o poder nas m\u00e3os dos <\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":256633,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[6,11],"tags":[],"class_list":["post-256632","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-municipios","category-regional"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/maconheira.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/256632","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=256632"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/256632\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/256633"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=256632"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=256632"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=256632"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}