{"id":25865,"date":"2013-10-30T07:55:35","date_gmt":"2013-10-30T10:55:35","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=25865"},"modified":"2013-10-30T07:55:35","modified_gmt":"2013-10-30T10:55:35","slug":"pobres-vendem-orgaos-para-pagar-dividas-de-microcredito-em-bangladesh","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/pobres-vendem-orgaos-para-pagar-dividas-de-microcredito-em-bangladesh\/","title":{"rendered":"Pobres vendem \u00f3rg\u00e3os para pagar d\u00edvidas de microcr\u00e9dito em Bangladesh"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-25866\" alt=\"pobres\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/pobres-300x168.jpg\" width=\"300\" height=\"168\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O vilarejo de Kalai, em Bangladesh, tem uma paisagem id\u00edlica \u00e0 primeira vista, como outros vilarejos do pa\u00eds. Mas v\u00e1rios habitantes locais alegam ter sido convencidos a vender seus \u00f3rg\u00e3os para pagar d\u00edvidas que fizeram em esquemas de microcr\u00e9dito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ideia de oferecer pequenos empr\u00e9stimos a pessoas rejeitadas pelos programas de cr\u00e9dito banc\u00e1rio tradicionais rendeu o Pr\u00eamio Nobel da Paz de 2006 ao bengali Mohammad Yunus, sendo saudada como um caminho para que essas pessoas sa\u00edssem da pobreza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nA proposta era que os empr\u00e9stimos incentivassem o empreendedorismo e dessem poder \u00e0s mulheres. Mas, como mostra o relato da jornalista Sophie Cousins, que esteve em Kalai, a \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d acabou agravando os problemas enfrentados por alguns aqueles que mais deveria ajudar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A seis horas ao norte da capital Daca, crian\u00e7as brincam nuas se pendurando em peda\u00e7os de bambu que sustentam as cabanas onde moram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas crian\u00e7as, assim como outras milh\u00f5es que vivem nas \u00e1reas rurais de Bangladesh, crescem em meio a grandes dificuldades financeiras. Em uma tentativa de aliviar a pobreza, muitos habitantes de Kalai contraem empr\u00e9stimos, mas em seguida mergulham em mais d\u00edvidas quando se veem incapazes de pagar as presta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns, inclusive, decidem vender seus \u00f3rg\u00e3os como \u00faltimo recurso para saldar as d\u00edvidas e tentar escapar do ciclo vicioso da pobreza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A venda de \u00f3rg\u00e3os em si n\u00e3o \u00e9 uma novidade, e muitas pessoas pobres no Sul da \u00c1sia recorrem a esta pr\u00e1tica h\u00e1 anos. Mas o que n\u00e3o se falava muito at\u00e9 agora \u00e9 que cada vez mais pessoas est\u00e3o fazendo parte de uma rede de tr\u00e1fico de \u00f3rg\u00e3os porque se sentem pressionadas a pagar suas d\u00edvidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Arrependimento<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mohammad Akhtar Alam, de 33 anos, exibe uma cicatriz de 38 cent\u00edmetros de comprimento que mostra de onde extra\u00edram seu rim. A remo\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3o \u2013 algo ilegal em Bangladesh a menos que seja para doa\u00e7\u00e3o para um parente pr\u00f3ximo &#8211; combinada com cuidados p\u00f3s-operat\u00f3rios prec\u00e1rios, o deixou parcialmente paralisado, cego de um olho e incapaz de carregar pesos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele \u00e9 dono de uma pequena mercearia que vende arroz, farinha e, de vez em quando, doces.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 dois anos, sua renda como motorista de van n\u00e3o era suficiente para pagar as parcelas semanais de d\u00edvidas que havia contra\u00eddo com oito organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o-governamentais (ONGs) diferentes. Quando n\u00e3o conseguiu arcar com a primeira d\u00edvida, contraiu uma segunda para pagar a primeira e assim sucessivamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Um dia estava conversando com um passageiro que me perguntou porque estava fazendo aquele trabalho&#8221;, relembra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eu expliquei que era pobre e devia cerca de 100 mil taka (aproximadamente US$ 1,3 mil)&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O passageiro era uma pe\u00e7a importante em uma rede de tr\u00e1fico de \u00f3rg\u00e3os, intermediando a compra e vende de rins, f\u00edgados, entre outros. O homem convenceu Alam a vender seu rim e lhe prometeu 400 mil taka (cerca de US$ 5 mil) em retorno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Duas semanas mais tarde, Alam deixou um hospital privado em Daca e voltou para casa com a sa\u00fade debilitada e com uma fra\u00e7\u00e3o do dinheiro que lhe foi prometido. Ele se arrepende do que fez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mohammad Moqarram Hossen, tamb\u00e9m de Kalai, \u00e9 outra v\u00edtima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eu decidi pagar a d\u00edvida&#8221;, diz ele, enquanto mostra a cicatriz de uma opera\u00e7\u00e3o que fez na \u00cdndia para remover um rim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O m\u00e9dico disse que n\u00e3o teria riscos, mas agora n\u00e3o posso fazer nenhum trabalho pesado.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8216;Press\u00e3o&#8217;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O microcr\u00e9dito, aclamado como &#8220;salva\u00e7\u00e3o&#8221; para milh\u00f5es de pessoas, tem como objetivo quebrar o ciclo de pobreza estimulando atividades geradoras de renda por meio de empr\u00e9stimos com poucos efeitos colaterais.<br \/>\nMas sua estrutura de pagamento e a aparente incapacidade de as institui\u00e7\u00f5es de microfinan\u00e7as determinarem quem j\u00e1 tem outros empr\u00e9stimos pode causar problemas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O professor Monir Moniruzzaman, do departamento de Antropologia da Universidade do Estado de Michigan (Estados Unidos), investiga o com\u00e9rcio de \u00f3rg\u00e3os em Bangladesh h\u00e1 12 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;As d\u00edvidas de muitas pessoas crescem em uma espiral, e eles acham que a \u00fanica forma de pagar as parcelas \u00e9 vendendo o pr\u00f3prio rim&#8221;, observa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele alega que institui\u00e7\u00f5es como o Banco Grameen (laureado com o Nobel da Paz em 2006 juntamente com Yunus) e a ONG Brac fazem press\u00e3o psicol\u00f3gica para as pessoas pagarem suas d\u00edvidas com a\u00e7\u00f5es como marcar presen\u00e7a em frente \u00e0 casa do cliente o dia todo e amea\u00e7as verbais de que o devedor ser\u00e1 denunciado \u00e0 pol\u00edcia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O acad\u00eamico confirmou que algumas das 33 pessoas que venderam seus rins que ele entrevistou para sua pesquisa disseram que tomaram a decis\u00e3o por se sentirem pressionadas a pagar o que deviam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Um homem me contou que deixou sua cidade por um ano por n\u00e3o conseguir encarar os funcion\u00e1rios da ONG&#8221;, contou Moniruzzaman.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em entrevista \u00e0 BBC, o banco Grameen negou que haja ass\u00e9dio ou outros tipos de press\u00e3o e afirma que nunca entrou com a\u00e7\u00e3o contra quem toma empr\u00e9stimo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E Mohammad Ariful Hoq, analista da Brac, uma das maiores organiza\u00e7\u00f5es de desenvolvimento do mundo, nega que seus funcion\u00e1rios pressionem os clientes ou que haja liga\u00e7\u00e3o entre microcr\u00e9dito e tr\u00e1fico de \u00f3rg\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Benef\u00edcios do microcr\u00e9dito<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma pesquisa divulgada neste ano pelo Banco Mundial mostrou que s\u00e3o grandes os benef\u00edcios dos empr\u00e9stimos, e dados compilados por uma &#8220;campanha pelo microcr\u00e9dito&#8221; apontam que este tipo de empr\u00e9stimo j\u00e1 tirou dez milh\u00f5es de bengaleses da pobreza entre 1990 e 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas \u00e0 medida que a demanda por \u00f3rg\u00e3os continua a alimentar um mercado negro em Bangladesh, membros pobres de comunidades rurais continuar\u00e3o sendo seduzidos por falsas promessas de uma vida melhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo o professor Moniruzzaman, as consequ\u00eancias do tr\u00e1fico de \u00f3rg\u00e3os s\u00e3o devastadoras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;N\u00e3o h\u00e1 garantias sobre a proced\u00eancia dos \u00f3rg\u00e3os e qu\u00e3o seguros eles s\u00e3o. Por outro lado, sob a perspectiva de quem est\u00e1 vendendo, a sa\u00fade se deteriora ap\u00f3s a opera\u00e7\u00e3o, tornando dif\u00edcil para a pessoa voltar a ganhar dinheiro porque n\u00e3o poder\u00e1 voltar para seus trabalhos antigos que demandam muito fisicamente.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que o microcr\u00e9dito mudou a vida de milh\u00f5es em todo mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas \u00e0 medida que a polariza\u00e7\u00e3o entre ricos e pobres aumenta, especialistas acreditam que os mais necessitados v\u00e3o continuar contraindo mais d\u00edvidas, algumas vezes recorrendo a medidas desesperadas como a venda de \u00f3rg\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os homens de Kalai gostariam de ter sabido disso antes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: BBC Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O vilarejo de Kalai, em Bangladesh, tem uma paisagem id\u00edlica \u00e0 primeira vista, como outros vilarejos do pa\u00eds. Mas v\u00e1rios habitantes locais alegam ter sido convencidos a vender seus \u00f3rg\u00e3os para pagar d\u00edvidas que fizeram em esquemas de microcr\u00e9dito.<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":25866,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-25865","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cotidiano"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/pobres.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25865","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25865"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25865\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/25866"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25865"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25865"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25865"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}