{"id":258868,"date":"2018-09-28T10:13:40","date_gmt":"2018-09-28T13:13:40","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=258868"},"modified":"2018-09-28T10:17:23","modified_gmt":"2018-09-28T13:17:23","slug":"minha-filha-nao-esta-no-corpo-errado-e-uma-menina-com-penis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/minha-filha-nao-esta-no-corpo-errado-e-uma-menina-com-penis\/","title":{"rendered":"\u201cMinha filha n\u00e3o est\u00e1 no corpo errado, \u00e9 uma menina com p\u00eanis\u201d"},"content":{"rendered":"<div class=\"articulo__apertura\">\n<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div class=\"articulo-encabezado-texto\">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\"><em>O ator espanhol Nacho Vidal apresenta a hist\u00f3ria de sua filha transexual, de 11 anos, no livro para pr\u00e9-adolescentes Mi Nombre Es Violeta. Nesta entrevista, afirma que o machismo \u201cn\u00e3o tem nada a ver com o porn\u00f4\u201d e que desconfia do movimento LGTBQI<\/em><\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \" style=\"text-align: justify;\">\n<figure class=\"foto superior foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/09\/27\/cultura\/1538079214_047547_1538090843_noticia_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/09\/27\/cultura\/1538079214_047547_1538090844_noticia_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/09\/27\/cultura\/1538079214_047547_1538090844_noticia_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/09\/27\/cultura\/1538079214_047547_1538090843_noticia_normal.jpg 980w\" alt=\"O ator Nacho Vidal.\" width=\"980\" height=\"581\" \/><\/p>\n<div class=\"seedtag-gohan seedtag-adunit\">\n<div class=\"st-container\"><\/div>\n<\/div><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">O ator Nacho Vidal.<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">GETTY<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"firma \">\n<div class=\"autor\">\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Bego\u00f1a G\u00f3mez Urzaiz\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/begona_gomez_urzaiz\/a\/\">BEGO\u00d1A G\u00d3MEZ URZAIZ<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<section id=\"sumario_3|apoyos\" class=\"sumario_apoyos derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<div class=\"apoyos\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ningu\u00e9m esperava entrevistar Nacho Vidal no departamento de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/literatura_infantil\">literatura infantil<\/a>\u00a0de um imp\u00e9rio editorial. Nem acabar falando sobre educa\u00e7\u00e3o, um assunto, a prop\u00f3sito, que lhe apaixona e incentiva. Mas o ator e produtor porn\u00f4 espanhol que vende vibradores feitos \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de seu membro, n\u00e3o est\u00e1 aqui para falar sobre isso, e sim sobre um livro,\u00a0<em>Mi Nombre Es Violeta<\/em>(Cruz Books), escrito por Santi Anaya e baseado na hist\u00f3ria de sua pr\u00f3pria filha, que agora tamb\u00e9m se chama Violeta no registro civil, mas que recebeu outro nome quando nasceu h\u00e1 11 anos com apar\u00eancia de menino.<\/p>\n<div id=\"elpais_gpt-INTEXT\" style=\"text-align: justify;\" data-google-query-id=\"CM6dlZPj3d0CFQ_I4QodAr8CFA\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/cultura\/intext_0__container__\"><iframe id=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/cultura\/intext_0\" title=\"3rd party ad content\" name=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/cultura\/intext_0\" width=\"1\" height=\"1\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\" data-load-complete=\"true\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Violeta do romance tem cerca de 13 anos e come\u00e7a o segundo ano do ensino m\u00e9dio em um novo col\u00e9gio, enquanto Violeta Vidal \u00e9 um pouco mais jovem e continua em sua escola de sempre em Matar\u00f3 (nos arredores de Barcelona), mas compartilham uma parte importante de sua hist\u00f3ria. Para escrever o livro, o autor visitou a menina por mais de dois anos e teve longas conversas com ela. O resultado foi um livro de namoros adolescentes com uma protagonista transg\u00eanero e uma mensagem\u00a0<em>antibullying<\/em>. A hist\u00f3ria completa de Violeta Vidal ser\u00e1 conhecida em 2019, durante a estreia do document\u00e1rio que a fam\u00edlia esteve filmando nos \u00faltimos tr\u00eas anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pergunta<\/strong>: Por que voc\u00ea decidiu fazer o livro?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Resposta<\/strong>: Vimos um document\u00e1rio quando minha filha tinha 6 anos que a levou a dizer:\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/05\/01\/internacional\/1462130324_454575.html\">&#8220;Eu sou assim, isso \u00e9 o que acontece comigo&#8221;<\/a>. Se n\u00e3o tiv\u00e9ssemos visto o document\u00e1rio, talvez hoje ela teria 11 anos e continuaria sendo chamada de Nacho. Foi gra\u00e7as a isso que pesquisamos mais e demos o passo. Esta informa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito \u00fatil. Voc\u00ea vai comprar um livro na Fnac, v\u00ea &#8220;espiritualidade&#8221; e encontra muitas prateleiras cheias de livros. &#8220;Autoajuda&#8221;: uma se\u00e7\u00e3o inteira. Agora, procura por\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/06\/18\/internacional\/1529346704_000097.html\">&#8220;transexualidade&#8221;<\/a>, e nada. N\u00e3o h\u00e1 informa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m que tenha se atrevido [a abordar o assunto]. Por isso, adoraria que fosse uma leitura recomendada nas escolas, n\u00e3o apenas porque \u00e9 uma menina transexual. Poderia ser um livro sobre uma menina com excesso de peso, sobre um menino com \u00f3culos fundo de garrafa ou sobre um garoto asi\u00e1tico ou negro em um mundo brancos. Tem a ver com a diferen\u00e7a e a empatia, a diversidade e a aceita\u00e7\u00e3o, da dor, do amor&#8230; \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o que atualmente pode ser uma realidade. Quando voc\u00ea l\u00ea o livro, cria empatia. Pensa: &#8220;Como essa menina est\u00e1 sofrendo por causa desses filhos da puta&#8221;, e, ent\u00e3o, percebe que os filhos da puta somos n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0At\u00e9 que esse conflito chegue, toda a primeira metade do livro \u00e9 muito feliz, uma hist\u00f3ria convencional de amor adolescente. Foi uma escolha consciente? Voc\u00ea quis dar \u00e0 Violeta da fic\u00e7\u00e3o essa hist\u00f3ria t\u00e3o comum?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>R<\/strong>. \u00c0s vezes, tendemos a traumatizar, a dramatizar com esse tema. As pessoas me dizem: &#8220;Sua filha deve sofrer muito&#8221;. Na verdade, n\u00e3o, minha filha \u00e9 l\u00edder de classe, todos votaram nela, \u00e9 querida por todos. N\u00e3o temos nenhum drama em casa. Por isso, sa\u00edmos da associa\u00e7\u00e3o [Chrysalis]. Muitas vezes, n\u00e3o concordo muito com os grupos\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/lgtb\">LGTBQ<\/a>. Imp\u00f5em coisas demais. N\u00e3o posso for\u00e7ar ningu\u00e9m a fazer nada. Por exemplo, no dia em que vi o \u00f4nibus da Hazte O\u00edr [associa\u00e7\u00e3o conservadora contra a transexualidade], fiquei furioso. Mas ent\u00e3o relaxei e pensei: eles t\u00eam todo o direito. Se voc\u00ea n\u00e3o quer educar seu filho na diversidade, tenho que respeitar, porque \u00e9 seu filho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0Mas est\u00e3o negando a realidade de sua filha e seus direitos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0Mas \u00e9 a vida deles. Meus filhos n\u00e3o est\u00e3o nem a\u00ed. Minha filha vive sua vida. Eu sempre digo a ela: se n\u00e3o amarem voc\u00ea como \u00e9, n\u00e3o vale a pena. Que \u00e9 uma frase que est\u00e1 na capa do livro. Ensino meus filhos a que entre por um ouvido e saia pelo outro. Digo a eles que n\u00e3o tentem agradar a todo mundo. Junte-se com quem gosta de voc\u00ea. Acha que todo mundo ama o Nacho Vidal? Tem muita gente que me odeia, que me critica. Eu ando com quem gosta de mim. Outro dia eu estava vendo que a ministra da Justi\u00e7a [da Espanha, Dolores Delgado] chamou o outro [Fernando Grande-Malarska, ministro do Interior] de \u201cmaric\u00f3n\u201d [homossexual], e encheram um programa inteiro. Isto o que \u00e9? Um p\u00e1tio de col\u00e9gio? Por que n\u00e3o fazem programas de televis\u00e3o sobre as crian\u00e7as que est\u00e3o morrendo, gente que passa fome, que n\u00e3o tem onde dormir? Est\u00e3o falando de uma senhora que chamou o outro de\u00a0<em>bicha<\/em>? Por favor! Eu vivo no mundo do n\u00e3o absurdo. Se eu pe\u00e7o respeito para minha filha, eu tenho que ter respeito pelos outros, desde que n\u00e3o coloquem um dedo nela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0Um dedo ou um Whatsapp, n\u00e9? O livro trata do tema do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/08\/23\/tecnologia\/1503483935_042542.html\"><em>ciberbullying<\/em><\/a>, que \u00e9 um problema real que leva muitos menores a cogitar o suic\u00eddio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0\u00c9 preciso educ\u00e1-los. Minha filha chegou um dia me dizendo que uma menina tinha dito a ela que n\u00e3o ia mais cham\u00e1-la de Violeta, que ia cham\u00e1-la de Nacho, e estava super triste. Eu lhe disse que estava sendo tola. Se eu chamar voc\u00ea de \u201ccoc\u00f4 de vaca\u201d, voc\u00ea responde? Pois se chamarem voc\u00ea de Nacho \u00e9 igual, n\u00e3o responda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0Mas voc\u00ea entende que as associa\u00e7\u00f5es fazem um trabalho? \u00c9 \u00fatil procurar casos similares e lutar por objetivos legais que ainda n\u00e3o foram alcan\u00e7ados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0N\u00e3o acho correto que lhe obriguem a fazer algo em que voc\u00ea n\u00e3o acredita. N\u00e3o gosto de impor nada a ningu\u00e9m. Eu s\u00f3 entro em que n\u00e3o dever\u00edamos obrigar ningu\u00e9m a fazer algo que n\u00e3o quer. Quando voc\u00ea diz: \u201cVamos aprovar leis para que obriguem\u2026\u201d, nesse momento voc\u00ea espalha o \u00f3dio. N\u00e3o quero que tenham \u00f3dio da minha filha, quero que tenham empatia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0Violeta, a sua Violeta, deixou claro para voc\u00eas aos seis anos que era uma menina. Como foi o processo com os diferentes c\u00edrculos, o col\u00e9gio, a fam\u00edlia\u2026?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0No col\u00e9gio nos disseram que j\u00e1 sabiam, ela sempre havia dito que \u00e9 uma menina. Sempre tinha seu grupo de amiguinhas. N\u00e3o houve nenhum problema, e isso que frequenta um col\u00e9gio subvencionado cat\u00f3lico. Depois tentamos mud\u00e1-la de col\u00e9gio, fomos a um particular. Por qu\u00ea? Pela educa\u00e7\u00e3o, era estilo noruegu\u00eas, n\u00f3s gost\u00e1vamos do modelo, tril\u00edngue. Mas n\u00e3o a quiseram, nos disseram que n\u00e3o estavam preparados. Eu n\u00e3o posso obrig\u00e1-los a aceit\u00e1-la. Eu disse a eles: \u201cJ\u00e1 vi como \u00e9 a institui\u00e7\u00e3o de voc\u00eas, se chegasse a colocar a minha filha aqui, teria sofrido pacas, obrigado pela honestidade\u201d. Poderia atac\u00e1-los, mas nunca disse o nome do col\u00e9gio nem vou dizer, porque tenho esse respeito. Cada um \u00e9 livre para fazer o que quiser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0O resto do entorno reagiu bem?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0Os outros pais foram fant\u00e1sticos. Um menino disse que ia cham\u00e1-la de Nacho, os pais falaram com ele, o menino fez uma carta pedindo-lhe desculpas. Voltar\u00e1 a se deparar com isso em outro col\u00e9gio, nos extracurriculares\u2026 obviamente. N\u00e3o podemos coloc\u00e1-la numa urna de vidro e que ningu\u00e9m a toque.\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/opus_dei\">Eu tenho uma parte da fam\u00edlia que \u00e9 da Opus De<\/a>i, e n\u00e3o houve nenhum problema, \u00e9 uma menina que quando voc\u00ea a conhece se apaixona. N\u00e3o houve nenhum drama, a \u00fanica coisa foi que minha mulher se sentiu muito mal por t\u00ea-la vestido por tanto tempo como menino e n\u00e3o t\u00ea-la escutado. Era muito efeminado, gostava do rosa\u2026 pens\u00e1vamos: \u201cO menino vai ser gay\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0Voc\u00ea insiste que n\u00e3o foi uma luta, que ningu\u00e9m sofreu.<\/p>\n<section id=\"sumario_2|foto\" class=\"sumario_foto centro\"><a name=\"sumario_2\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/09\/27\/cultura\/1538079214_047547_1538081501_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/09\/27\/cultura\/1538079214_047547_1538081501_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/09\/27\/cultura\/1538079214_047547_1538081501_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/09\/27\/cultura\/1538079214_047547_1538081501_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"\u201cMinha filha n\u00e3o est\u00e1 no corpo errado, \u00e9 uma menina com p\u00eanis\u201d\" width=\"980\" height=\"1469\" \/><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0N\u00e3o tivemos nenhum tipo de drama. \u00c9 preciso ver a parte positiva. Minha filha se levanta e enxerga pelos olhos, se aguenta nas pr\u00f3prias pernas. Sente, canta, toca m\u00fasica, me traz notas excelentes. Sempre foi feliz. Se voc\u00ea tiver isso em casa, cad\u00ea o drama? O drama est\u00e1 na sua cabe\u00e7a. As crian\u00e7as n\u00e3o podem levar choques el\u00e9tricos para que larguem de viadagem. Eu sempre pergunto: \u201cO que aconteceria se isto acontecesse na sua fam\u00edlia? O que voc\u00ea faria, sendo cat\u00f3lico apost\u00f3lico romano? Dizendo que isso acontece porque est\u00e1 na moda, que s\u00e3o meninos viciosos? Que resposta me dariam? Levariam a crian\u00e7a ao psic\u00f3logo, iriam lhe dar rem\u00e9dios, met\u00ea-la num manic\u00f4mio? Eu gostaria de me sentar com algu\u00e9m que seja contra isto, queria entender sua maneira de pensar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0Violeta leu o livro?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0Ainda n\u00e3o, n\u00e3o deve l\u00ea-lo ainda. Vai se sugestionar, deixa que aconte\u00e7a com ela. Mas \u00e9 bonito, sim, que o leiam as crian\u00e7as que n\u00e3o s\u00e3o transexuais, eu n\u00e3o acredito que seja um livro para\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2015\/10\/10\/album\/1444498007_822001.html\">crian\u00e7as transexuais<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0Voc\u00eas se preocupam com o que pode acontecer quando ela chegar \u00e0 puberdade?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0Ningu\u00e9m est\u00e1 preparado, nem as crian\u00e7as nem os pais. Vejo os filhos dos meus amigos que eram crian\u00e7as maravilhosas, e agora seus pais querem mat\u00e1-los\u2026 Ningu\u00e9m est\u00e1 preparado para a adolesc\u00eancia, nem os pais nem as crian\u00e7as para a adolesc\u00eancia das outras crian\u00e7as, porque depende da educa\u00e7\u00e3o que receberam em casa. Como pai, voc\u00ea vive preocupado 24 horas por dia. Ela vai ter que solucionar seus pr\u00f3prios problemas, o melhor \u00e9 estar sempre ao seu lado e lhe fazer entender que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o importante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0Para as crian\u00e7as transg\u00eanero, \u00e9 um momento crucial. Voc\u00ea disse que n\u00e3o considera necess\u00e1rios os processos de reatribui\u00e7\u00e3o de g\u00eanero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0Eu disse que preferiria que qualquer pessoa se aceitasse tal como \u00e9 e n\u00e3o tivesse que chegar ao extremo de castrar seu p\u00eanis ou sua vagina, assim como n\u00e3o deveria cortar um bra\u00e7o ou uma perna. Eu gostaria que se aceitasse tal como \u00e9. Se ela n\u00e3o aceitar, se achar que essa \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o, lhe ajudarei. Neste ponto acredito que estamos bem com Violeta, porque quando era menor sempre tapava o p\u00eanis com as m\u00e3os, e hoje em dia n\u00e3o tapa. Antes, quando voc\u00ea lhe perguntava se queria fazer xixi, dizia que n\u00e3o mijava em \u00e1rvore, que queria ir se sentar numa privada. Mas, hoje em dia, mija na \u00e1rvore. Estamos percebendo que ela n\u00e3o tem nenhum problema com seu p\u00eanis. Para mim \u00e9 maravilhoso. Ela diz: \u201cN\u00e3o sou uma menina em um corpo errado, sou uma menina com p\u00eanis\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0Voc\u00ea diria que vir do mundo do porn\u00f4 o ajudou a ter esta mentalidade?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0Eu produzi muito porn\u00f4 com transexuais e falei muito com elas. Tenho muitas amigas transexuais. Conhe\u00e7o o mundo da transexual que precisou sair de casa muito jovenzinha, que precisou se prostituir com 15 anos para viver e comer, porque a expulsaram de sua casa com seu pr\u00f3prio pai lhe dando uma surra. Depois, quando ganharam dinheiro, os pais apareceram e elas come\u00e7aram a mandar quantias, comprando seu amor com dinheiro. Elas passam muito tempo trancadas sem sair, esperando o cliente, e enquanto esperam se drogam. \u00c9 um mundo muito duro, e essas hist\u00f3rias de vida que eu conhecia me faziam ter muito medo de que isso acontecesse com a minha filha. Mas depois existe outro mundo dos transexuais, onde as crian\u00e7as foram acolhidas por suas fam\u00edlias, acabaram seus estudos ou empreenderam neg\u00f3cios. Est\u00e3o no Governo, s\u00e3o ju\u00edzes, s\u00e3o advogadas, s\u00e3o policiais. Esse \u00e9 o mundo em que estamos nos movimentando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0\u00c9 preciso modificar certas mentalidades dentro do porn\u00f4?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0Como?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0Que n\u00e3o seja orientado para o prazer masculino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0Voc\u00ea acha isso de verdade? Viu muita pornografia para poder dizer isso?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0Voc\u00ea pode argumentar que j\u00e1 mudou\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/machismo\">A pornografia n\u00e3o \u00e9 machista<\/a>, \u00e9 um produto, \u00e9 uma fantasia. Existem mais de 60.000 filmes por ano, e s\u00e3o feitos h\u00e1 n\u00e3o sei quantos anos. Existem cenas em que a mulher \u00e9 a dominante. S\u00f3 se fala das cenas em que o homem \u00e9 o dominante. [Nesse momento, Vidal saca o celular e nos mostra v\u00e1rios fotogramas de cenas pornogr\u00e1ficas.] Tudo isto que voc\u00ea v\u00ea aqui s\u00e3o humilha\u00e7\u00f5es e maus tratos a homens por parte de mulheres que pisoteiam seus p\u00eanis, os maltratam&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0Voc\u00ea j\u00e1 tinha essa busca preparada? Vejo que a tem guardada no celular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0Sim, trago-a sempre aqui porque me d\u00e1 muita raiva. A pornografia n\u00e3o tem que mudar, as pessoas t\u00eam que mudar. Quando voc\u00ea maltrata o seu filho em casa, isso \u00e9 o que v\u00e3o repetir, n\u00e3o o que veem nos filmes. Se n\u00e3o, eu vejo\u00a0<em>Scarface<\/em>\u00a0e viro narcotraficante. Eu vi muita pornografia e nunca participei de um grupo de estupradores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0Incomoda-o que a viol\u00eancia sexual seja relacionada com o consumo de pornografia?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0Incomoda-me muit\u00edssimo, me ataca pessoalmente por um trabalho que fa\u00e7o h\u00e1 25 anos. Pode me chamar de machista por abrir a porta a uma mulher, pode me chamar de machista por esperar que uma mulher se sente, porque \u00e9 minha educa\u00e7\u00e3o. Educaram-me assim. Se for jantar contigo, eu vou lhe pagar o jantar. Se isso \u00e9 ser machista, viva o machismo. Mas na vida nunca levantei a m\u00e3o para uma mulher. No sexo, tive rela\u00e7\u00f5es como todo mundo, h\u00e1 mulheres que me pediram sexo mais duro, e outras menos duro, mas nunca maltratei. No porn\u00f4, fazemos um produto como qualquer outro. E h\u00e1 coisas que n\u00e3o podemos fazer. N\u00e3o podemos encenar um estupro. Como v\u00eam me dizer que n\u00f3s criamos os grupos de estupradores? Nunca vi nenhum estupro no porn\u00f4, porque nenhuma produtora vai comprar isso. Temos limita\u00e7\u00f5es que n\u00e3o existem no cinema convencional. Certamente voc\u00ea viu\u00a0<em>Irrevers\u00edvel<\/em>, com a Monica Bellucci, e ningu\u00e9m diz nada. V\u00ea como decapitam e ningu\u00e9m diz nada. Por que tanto ataque \u00e0 pornografia? Por que a tratamos como machista?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0Ent\u00e3o, se tiver que caracterizar o tipo de porn\u00f4 que est\u00e1 fazendo atualmente\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0Eu gravo com uma c\u00e2mera em cima de um trip\u00e9 e fa\u00e7o amor com uma mulher. Nem mais nem menos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0Est\u00e3o tentando abrir caminhos novos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0J\u00e1 est\u00e1 tudo inventado. Agora foi feito o v\u00eddeo do festival de cinema de Barcelona [refere-se ao v\u00eddeo do Festival Er\u00f3tico, com uma esp\u00e9cie de\u00a0<em>mea culpa<\/em>]. Acho horr\u00edvel, como se os estupros coletivos fossem nossa culpa. N\u00e3o tenho culpa de nada. Quem estupra, estupra porque \u00e9 um grande filho da puta. Quem mata a sua mulher, mata porque pirou. N\u00e3o acho que sirva de nada aumentar as penas de pris\u00e3o. Quem mata sua mulher sabe disso e \u201cle vale verga\u201d [n\u00e3o est\u00e1 nem a\u00ed], como dizem os mexicanos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0Voltando a Violeta, ontem se soube do caso de um menino transexual chamado Gabriel a quem foi negada a mudan\u00e7a de nome na certid\u00e3o de nascimento. Voc\u00eas tamb\u00e9m tiveram dificuldades&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0\u00c9 que exigem nomes amb\u00edguos. Como \u00e9 poss\u00edvel que eu mande essa documenta\u00e7\u00e3o e um juiz me diga que sim, e um promotor que n\u00e3o? Vai ver a promotora acordou mal ou chegou atrasada para deixar as crian\u00e7as na escola, e a\u00ed me nega, mas no ano seguinte mando a mesma documenta\u00e7\u00e3o e me dizem que sim. Isto o que \u00e9? Uma porta de uma discoteca? Isto n\u00e3o \u00e9 o livre-arb\u00edtrio. Aqui precisa haver uma lei que diga que sim ou que diga que n\u00e3o. Se for para me ferrar, me ferre, mas n\u00e3o precisa zoar. Tive que ir a psic\u00f3logos, a psiquiatras, falar com professores do col\u00e9gio\u2026 Voc\u00ea n\u00e3o tem que ter o poder de decidir. Milha filha se chama como ela quiser, e se chama Violeta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0Como reagiu quando ela contou a voc\u00eas?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0Pois nos deu uma li\u00e7\u00e3o de vida, mais uma. Est\u00e1vamos gravando-a para o document\u00e1rio quando lhe dissemos. Achamos que ficaria muito contente, mas s\u00f3 disse: \u201cAcho certo, voc\u00eas me deram o que precisavam dar, n\u00e3o tenho por que agradecer\u201d. Isso \u00e9 como quando a Receita Federal lhe paga a restitui\u00e7\u00e3o do imposto. Por que voc\u00ea ficou contente, idiota, se o dinheiro j\u00e1 era seu?<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ator espanhol Nacho Vidal apresenta a hist\u00f3ria de sua filha transexual, de 11 anos, no livro para pr\u00e9-adolescentes Mi Nombre Es Violeta. 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