{"id":258967,"date":"2018-09-29T11:20:46","date_gmt":"2018-09-29T14:20:46","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=258967"},"modified":"2018-09-29T11:20:46","modified_gmt":"2018-09-29T14:20:46","slug":"os-110-anos-da-morte-de-machado-de-assis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/os-110-anos-da-morte-de-machado-de-assis\/","title":{"rendered":"Os 110 anos da morte de Machado de Assis"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"titulo-materia\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<p class=\"mg_sutia\" style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Apesar de ter escrito mais sobre as contradi\u00e7\u00f5es da vida, Machado tamb\u00e9m trouxe o tema da morte na sua obra<\/strong><\/em><\/p>\n<div id=\"noticia_dataautor\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"data-materia\">\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"bordaimg imgnoticia\" title=\"O escritor Machado de Assis \/ Reprodu\u00e7\u00e3o\" src=\"https:\/\/jconlineimagem.ne10.uol.com.br\/imagem\/noticia\/2018\/09\/29\/normal\/4e22892e2fe007a520b4cc80e9258c84.jpg\" alt=\"O escritor Machado de Assis \/ Reprodu\u00e7\u00e3o\" \/><\/p>\n<div class=\"legenda-foto\" style=\"text-align: justify;\">O escritor Machado de Assis<\/div>\n<div class=\"credito-foto\" style=\"text-align: justify;\">Reprodu\u00e7\u00e3o<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a class=\"assintatura\" href=\"mailto:dgduarte@jc.com.br\">Diogo Guedes<\/a><\/p>\n<div id=\"noticia_corpodanoticia\" class=\"t13 manipularFonte\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi em um dia 29 de setembro como este, h\u00e1 110 anos, que o escritor e jornalista Euclides da Cunha, j\u00e1 c\u00e9lebre pelo livro Os Sert\u00f5es, presenciou \u2013 e relatou, posteriormente, em um artigo no jornal \u2013 os momentos finais de Machado de Assis. A not\u00edcia da doen\u00e7a do autor de Mem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas j\u00e1 havia circulado na imprensa. Amigos e admiradores como Coelho Neto, Gra\u00e7a Aranha, Jos\u00e9 Ver\u00edssimo, Raimundo Correia e M\u00e1rio de Alencar (filho de Jos\u00e9 de Alencar e tido como um filho por Machado), conta Euclides, foram prestar a homenagem ao Bruxo do Cosme Velho. \u201cTimbrava em sua primeira e \u00faltima dissimula\u00e7\u00e3o: a dissimula\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria agonia, para n\u00e3o nos magoar com o reflexo da sua dor\u201d, narra o texto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 ent\u00e3o, apesar da sua ironia demolidora (ou justamente por conta de sua eleg\u00e2ncia em ser mordaz, sem fechar portas), Machado era o grande autor nacional, posto que n\u00e3o deixaria nos mais de 100 anos que se seguiram ap\u00f3s a sua perda. A possibilidade da sua morte gerou como\u00e7\u00e3o entre os seus pares e a intelectualidade brasileira, mas parecia, para Euclides, reverberar pouco fora desses c\u00edrculos. \u201cDe um modo geral, n\u00e3o se compreendia que uma vida que tanto viveu outras vidas, assimilando-as atrav\u00e9s de an\u00e1lises sutil\u00edssimas, para no-las transfigurar e ampliar, aformoseadas em s\u00ednteses radiosas \u2013 que uma vida de tal porte desaparecesse no meio de tamanha indiferen\u00e7a, num c\u00edrculo limitad\u00edssimo de cora\u00e7\u00f5es amigos. Um escritor da estatura de Machado de Assis s\u00f3 devera extinguir-se dentro de uma grande e nobilitadora como\u00e7\u00e3o nacional\u201d, lamentava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa data que marca a perde de Machado \u00e9 tamb\u00e9m um convite a pensar em como um autor que abordou tanto a mat\u00e9ria da vida, nos seus sentimentos e personagens mais contradit\u00f3rios, incapazes de serem contidos em estere\u00f3tipos estanques, falou da mortalidade. O caso mais \u00f3bvio a ser citado, claro, \u00e9 o romance Mem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas, livro que marca o in\u00edcio da fase realista da produ\u00e7\u00e3o de Machado \u2013 da\u00ed sairiam outras obras como Dom Casmurro, Quincas Borba e Memorial de Aires. Nessas mem\u00f3rias, n\u00e3o temos um narrador comum: temos um \u201cdefunto autor\u201d que decide contar a sua hist\u00f3ria j\u00e1 falecido. \u201cEsta \u00e9 a grande vantagem da morte, que, se n\u00e3o deixa boca para rir, tamb\u00e9m n\u00e3o deixa olhos para chorar\u201d, escreve Br\u00e1s Cubas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das grandes cenas do livro \u00e9 a do del\u00edrio do personagem antes de morrer. Ao perder a raz\u00e3o, Br\u00e1s Cubas imagina-se cavalgando um hipop\u00f3tamo, que afirma o levar para a \u201corigem dos s\u00e9culos\u201d. L\u00e1, ele encontra a deusa Pandora, a quem pede mais tempo. Ela responde: \u201cPara que queres tu mais alguns instantes de vida? Para devorar e seres devorado depois? N\u00e3o est\u00e1s farto do espet\u00e1culo e da luta? Conheces de sobejo tudo o que eu te deparei menos torpe ou menos aflitivo: o alvor do dia, a melancolia da tarde, a quieta\u00e7\u00e3o da noite, os aspectos da Terra, o sono, enfim, o maior benef\u00edcio das minhas m\u00e3os. Que mais queres tu, sublime idiota?\u201d. Br\u00e1s diz: \u201cViver somente, n\u00e3o te pe\u00e7o mais nada\u201d.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">LEGADO DA NOSSA MIS\u00c9RIA<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Machado, ainda que a vida seja o \u201clegado de nossa mis\u00e9ria\u201d, a morte \u00e9 muitas vezes o impedimento para o turbilh\u00e3o da exist\u00eancia, em seus caminhos ora tr\u00e1gicos, ora pat\u00e9ticos. \u201cPorquanto, verdadeiramente h\u00e1 s\u00f3 uma desgra\u00e7a: \u00e9 n\u00e3o nascer\u201d, diz Quincas Borba em Mem\u00f3rias P\u00f3stumas. Para o cr\u00edtico e professor da UFPE Anco M\u00e1rcio Ten\u00f3rio Vieira, o livro \u00e9 o ponto alto da obra de Machado, \u201cmomento em que ele encontra a forma que vai orientar a sua obra a partir de ent\u00e3o\u201d, e traz a morte em todo o seu percurso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cInicialmente, estar morto oferece uma condi\u00e7\u00e3o privilegiada a esse personagem: o de poder fazer um balan\u00e7o completo da sua vida: do primeiro ao \u00faltimo dia da sua exist\u00eancia. Em um segundo momento, descobrimos que essa narrativa dos tempos idos e vividos foi escrita \u2018com a pena da galhofa e a tinta da melancolia\u2019. \u00c9 nesse entremear entra a \u2018galhofa\u2019 e a \u2018melancolia\u2019 que Machado vai tratar n\u00e3o s\u00f3 a vida do seu personagem Br\u00e1s, mas tamb\u00e9m a morte de Rubi\u00e3o, personagem de um outro romance: Quicas Borba\u201d, aponta Anco.<\/p>\n<div id=\"smartIntxt\" class=\"publicidade-entre-texto\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"player_dynad_tv\"><\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na cena, uma das mais simb\u00f3licas na obra de Machado para o cr\u00edtico, Rubi\u00e3o, insano, acredita ser Napole\u00e3o III e chega a colocar uma coroa imagin\u00e1ria na cabe\u00e7a, em uma quase c\u00f4mica. Depois, pede para que guardem sua coroa e muda o semblante, ficando s\u00e9rio, \u201cporque a morte \u00e9 s\u00e9ria\u201d. \u201cA morte, em Machado, \u00e9 sempre perpassada por essa abordagem \u2018galhofeira\u2019 \u2014 de quem ri todo o tempo da mis\u00e9ria humana \u2014, mas tamb\u00e9m \u2018melanc\u00f3lica\u2019: de quem sabe que n\u00e3o \u00e9 apenas a mis\u00e9ria humana que iguala todos os homens, mas tamb\u00e9m a morte, a heran\u00e7a que herdamos ao perdermos o Para\u00edso\u201d, afirma o cr\u00edtico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre Mem\u00f3ria P\u00f3stumas, Anco destaca que a mortalidade assume outros sentidos no romance. \u201cA morte est\u00e1 presente em Mem\u00f3rias P\u00f3stumas do princ\u00edpio ao fim, pois n\u00f3s, leitores, temos consci\u00eancia que o narrador \u00e9 um defunto. No entanto, n\u00e3o \u00e9 a morte da mat\u00e9ria, do corpo, o objeto de Mem\u00f3rias P\u00f3stumas, apesar das v\u00e1rias mortes simb\u00f3licas e reais que atravessam a vida do personagem-narrador, mas uma morte que reside em certa incapacidade dele, Br\u00e1s Cubas, de realizar os seus sonhos, de perfazer algum projeto que imaginou ou sonhou para si. Nesse ponto, ele \u00e9 uma esp\u00e9cie de alegoria da elite brasileira: sonha e apregoa o discurso da mudan\u00e7a, pois tem consci\u00eancia que os signos que definem o mundo moderno s\u00e3o aqueles que encerram a\u00e7\u00f5es transformadoras que solapam as velhas estruturas, mas sente p\u00e2nico s\u00f3 em pensar que o mundo que o cerca pode mudar ou perecer\u201d, analisa o cr\u00edtico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cE mudar, aqui, \u00e9 admitir que todas as certezas e verdades que cal\u00e7am o seu mundo s\u00e3o provis\u00f3rias, que a roda que gira o mundo moderno \u00e9 respons\u00e1vel tanto por sepultar os valores de um determinado tempo quanto em forjar novas e provis\u00f3rias certezas e verdades. Assim, n\u00e3o \u00e9 da morte, enquanto perfazimento de uma exist\u00eancia, que trata o romance de Machado, mas de um mundo de valores sociais, pol\u00edticos e econ\u00f4micos que permitem aos membros da elite a \u2018boa fortuna de n\u00e3o comprar o p\u00e3o com o suor do (seu) rosto\u2019. Para tal, \u00e9 preciso cultivar uma s\u00e9rie de \u2018negativas\u2019. S\u00e3o essas \u2018negativas\u2019 que permitem a imobilidade da vida e o retardamento da morte\u201d, continua Anco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No j\u00e1 citado texto de Euclides, apesar do lamento pela falta de \u201ccomo\u00e7\u00e3o nacional\u201d, o escritor descreve uma cena (talvez retocada pela vontade da homenagear o amigo) que parece sa\u00edda de um conto. Enquanto amigos e colegas est\u00e3o reunidos na casa de Machado, aparece um desconhecido, \u201cum adolescente, de 16 a 18 anos no m\u00e1ximo\u201d. \u201cPerguntaram-lhe o nome. Declarou ser desnecess\u00e1rio diz\u00ea-lo: ningu\u00e9m ali o conhecia; n\u00e3o conhecia, por sua vez, ningu\u00e9m; n\u00e3o conhecia o pr\u00f3prio dono da casa, a n\u00e3o ser pela leitura de seus livros, que o encantavam\u201d, conta Euclides.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O jovem soube pelos jornais do estado de sa\u00fade e ficou com vontade de visitar Machado, para cumpriment\u00e1-lo ou, ao menos, obter not\u00edcias. O garoto foi conduzido ao quarto do Bruxo de Cosme Velho: \u201cChegou. N\u00e3o disse uma palavra. Ajoelhou-se. Tomou a m\u00e3o do mestre; beijou-a num belo gesto de carinho filial. Aconchegou-o depois por algum tempo ao peito. Levantou-se e, sem dizer palavra, saiu\u201d. Talvez essa rever\u00eancia an\u00f4nima, reveladora de uma gratid\u00e3o \u00edntima e inesgot\u00e1vel, seja o gesto que unifica at\u00e9 hoje os leitores de Machado.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apesar de ter escrito mais sobre as contradi\u00e7\u00f5es da vida, Machado tamb\u00e9m trouxe o tema da morte na sua obra<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":258968,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-258967","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/machado-de-assis.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/258967","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=258967"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/258967\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/258968"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=258967"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=258967"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=258967"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}