{"id":259177,"date":"2018-10-01T07:17:16","date_gmt":"2018-10-01T10:17:16","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=259177"},"modified":"2018-10-01T18:09:55","modified_gmt":"2018-10-01T21:09:55","slug":"antes-da-abolicao-intelectuais-faziam-vaquinha-para-libertar-escravos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/antes-da-abolicao-intelectuais-faziam-vaquinha-para-libertar-escravos\/","title":{"rendered":"Antes da aboli\u00e7\u00e3o, intelectuais faziam &#8220;vaquinha&#8221; para libertar escravos"},"content":{"rendered":"<div class=\"story-body\">\n<h1 class=\"story-body__h1\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"byline\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"byline__name\">Paula Sperb<\/span><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share-row\">\n<div class=\"share-tools--no-event-tag\">\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-twite\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-259250 size-full\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss1.jpg\" alt=\"\" width=\"660\" height=\"371\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss1.jpg 660w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss1-300x169.jpg 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss1-620x349.jpg 620w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss1-160x90.jpg 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss1-480x270.jpg 480w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss1-640x360.jpg 640w\" sizes=\"auto, (max-width: 660px) 100vw, 660px\" \/><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\" style=\"text-align: justify;\">Ex-escravos fotografados em est\u00fadio, no final do s\u00e9culo XIX, em Porto Alegre: Luta pela liberdade come\u00e7ou muito antes da aboli\u00e7\u00e3o<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\" style=\"text-align: justify;\">O primeiro teatro constru\u00eddo em Porto Alegre, o S\u00e3o Pedro, recebeu centenas de pessoas em 19 de setembro de 1869. Com sua fachada imponente no estilo neocl\u00e1ssico, o pr\u00e9dio ficou com o sal\u00e3o e os camarotes lotados naquela noite. O p\u00fablico saiu de casa para assistir a um espet\u00e1culo com desfecho impens\u00e1vel para a elite econ\u00f4mica da \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando a cortina foi levantada, a plateia viu a personagem Liberdade visitando o Brasil. Na pe\u00e7a, ela encontra um\u00a0<a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/topics\/9062bf9d-2d07-4204-bf3b-1eb1bcbbc269\">escravo<\/a>, &#8220;coberto de andrajos e cicatrizes recentes, entregue \u00e0 lida diurna&#8221;. A Liberdade, ent\u00e3o, &#8220;invoca o aux\u00edlio do c\u00e9u&#8221;. Um anjo mensageiro responde o chamado e devolve o escravo \u00e0 Liberdade. Al\u00e9m disso, ele tamb\u00e9m ordena a\u00a0<a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/resources\/idt-sh\/lutapelaabolicao\">liberta\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0das crian\u00e7as escravizadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No palco, ent\u00e3o, surgem 21 crian\u00e7as. Nenhuma delas \u00e9 aspirante a ator mirim. Todas s\u00e3o negras e filhas de escravas. Elas recebem cartas leg\u00edtimas de alforria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A este espet\u00e1culo as l\u00e1grimas correram e o entusiasmo dos cora\u00e7\u00f5es sens\u00edveis tocou at\u00e9 o del\u00edrio&#8221;, escreveu depois o m\u00e9dico Jos\u00e9 Antonio do Valle Caldre Fi\u00e3o, presidente da Sociedade Partenon Liter\u00e1rio, grupo criado h\u00e1 150 anos, que organizou o espet\u00e1culo abolicionista e que fazia &#8220;vaquinhas&#8221; para comprar a liberdade de escravos.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-259251 size-large\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss2-620x422.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"422\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss2-620x422.jpg 620w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss2-300x204.jpg 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss2-768x523.jpg 768w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss2-160x109.jpg 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss2-640x436.jpg 640w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss2.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\">Vista do Teatro S\u00e3o Pedro, em Porto Alegre, em 1881; no local, apresenta\u00e7\u00e3o libertou 21 crian\u00e7as escravas<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas n\u00e3o s\u00f3 no Rio Grande do Sul atividades de liberta\u00e7\u00e3o de escravos ocorreram no per\u00edodo. Por todo o Brasil, de 1868 a 1888, h\u00e1 registros de grupos mobilizados pela causa abolicionista. No Rio de Janeiro, S\u00e3o Paulo, Cear\u00e1, Pernambuco e Esp\u00edrito Santo, por exemplo, as cartas de alforrias tamb\u00e9m eram entregues em apresenta\u00e7\u00f5es culturais com direito a registro na imprensa.<\/p>\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-parrot\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 10 de agosto de 1886, Nadina Bulicioff, uma cantora russa, apresentou a opera\u00a0<i>Aida<\/i>, de Verdi, no Teatro L\u00edrico do Rio de Janeiro. Ao final, &#8220;arrebentou suas algemas cenogr\u00e1ficas e, diante do p\u00fablico, que de p\u00e9 afitava len\u00e7os, entregou-lhes (a seis escravas) cartas de liberdade&#8221;, conta a pesquisadora Angela Alonso, no livro\u00a0<i>Flores, votos e balas: o movimento abolicionista brasileiro<\/i>\u00a0(Cia das Letras, 2015). A apresenta\u00e7\u00e3o carioca foi organizada pelos abolicionistas Andr\u00e9 Rebou\u00e7as, Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio e Joaquim Nabuco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto ao grupo ga\u00facho Partenon Liter\u00e1rio, sua bandeira ia al\u00e9m das letras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O Partenon n\u00e3o foi uma sociedade meramente liter\u00e1ria, mas de ordem cultural e com vi\u00e9s pol\u00edtico. A maioria dos partenonistas tinha dois ideais. Eles defendiam sobretudo a Rep\u00fablica, sendo contr\u00e1rios \u00e0 Monarquia vigente, e eram abolicionistas&#8221;, explicou Maria Eunice Moreira, professora da Faculdade de Letras da PUCRS \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Juntamente com os pesquisadores Alice Campos Moreira e Mauro Nicola P\u00f3voas, a professora escreveu um estudo que servir\u00e1 de apresenta\u00e7\u00e3o a todo o acervo digitalizado da &#8220;Revista Mensal da Sociedade Partenon Liter\u00e1rio&#8221;. A revista, publicada entre 1869 e 1879, poder\u00e1 ser acessada pela internet a partir de outubro (o site ainda n\u00e3o divulgado). No peri\u00f3dico tamb\u00e9m eram publicados textos contra a escravid\u00e3o, como o registro de Caldre Fi\u00e3o sobre o teatro apresentado no S\u00e3o Pedro.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-259252 size-full\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss3.jpg\" alt=\"\" width=\"624\" height=\"783\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss3.jpg 624w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss3-239x300.jpg 239w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss3-398x500.jpg 398w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss3-160x201.jpg 160w\" sizes=\"auto, (max-width: 624px) 100vw, 624px\" \/><\/figure>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\">Ex-escravos que trabalhavam como vendedores ambulantes em Porto Alegre, no final do s\u00e9culo 19<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atualmente, quem deseja pesquisar todas as 71 edi\u00e7\u00f5es precisa alternar visitas a diferentes acervos, entre eles o da cole\u00e7\u00e3o especial da biblioteca da PUCRS, onde esteve a reportagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As revistas eram diminutas para o padr\u00e3o atual, com menos de vinte cent\u00edmetros de largura e altura, com somente a capa em papel colorido e raras ilustra\u00e7\u00f5es, como nos casos de textos sobre figuras hist\u00f3ricas.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">&#8216;Ultraje&#8217;<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pe\u00e7a teatral de 1869 foi considerada um ultraje por quem defendia a escravid\u00e3o. Vale lembrar que, no Brasil, a aboli\u00e7\u00e3o ocorreu 19 anos depois do espet\u00e1culo, em 13 de maio de 1888. A Lei do Ventre Livre, que daria liberdade \u00e0s crian\u00e7as, tamb\u00e9m foi posterior \u00e0 montagem teatral, assinada em 1871. A Lei dos Sexagen\u00e1rios, que libertou os escravos idosos, foi firmada em 1885.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Rio Grande do Sul, a escravid\u00e3o foi abolida em 1884, resultado da press\u00e3o de diversos grupos, como o Centro Abolicionista e o Partenon Liter\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro que cont\u00e9m a ata original da sess\u00e3o na C\u00e2mara de Vereadores da capital ga\u00facha que acabou com a escravid\u00e3o no Estado est\u00e1 preservado no Arquivo Hist\u00f3rico de Porto Alegre Moys\u00e9s Vellinho, da prefeitura.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-259253 size-full\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss4.jpg\" alt=\"\" width=\"624\" height=\"904\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss4.jpg 624w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss4-207x300.jpg 207w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss4-345x500.jpg 345w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss4-160x232.jpg 160w\" sizes=\"auto, (max-width: 624px) 100vw, 624px\" \/><\/figure>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\">Ex-escravos fotografados em est\u00fadio, no final do s\u00e9culo 19, em Porto Alegre<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Barreiras<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os integrantes do Partenon Liter\u00e1rio n\u00e3o organizaram o espet\u00e1culo sem encontrar barreiras. Pelo contr\u00e1rio. Se conseguiram libertar as 21 crian\u00e7as em 19 de setembro foi por que foram impedidos na data originalmente planejada &#8211; 7 de setembro, Dia da Independ\u00eancia do Brasil, declarada em 1822.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Alguns senhores mal-intencionados especularam. Riu-se com est\u00fapido desd\u00e9m, e a situa\u00e7\u00e3o pressentiu um golpe certeiro que lhe dirig\u00edamos. Da\u00ed os \u00f3bices, as dificuldades com que o Partenon teve que lutar e que retardaram a festa da santa liberdade at\u00e9 o dia 19&#8221;, relembrou Caldre Fi\u00e3o. A passagem tamb\u00e9m est\u00e1 registrada no livro\u00a0<i>Hist\u00f3ria da Academia Rio-Grandense de Letras (1901-2016)<\/i>\u00a0e\u00a0<i>Parthenon Litterario (1868-1885)<\/i>\u00a0(Metamorfose, 2016), de Jos\u00e9 Carlos Laitano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo a historiadora Mar\u00edlia Conforto, autora de\u00a0<i>Escravo de Papel<\/i>\u00a0(Educs, 2012) e\u00a0<i>Faces da Personagem Escrava<\/i>\u00a0(Educs, 2001), muitos dos escravos que chegavam ao Rio Grande do Sul vinham pela rota do com\u00e9rcio interno, j\u00e1 que o tr\u00e1fico internacional era proibido desde 1850. O tr\u00e1fico passou a ser ilegal por press\u00e3o da Inglaterra, que chegou a apreender navios negreiros. Com o desenvolvimento do capitalismo ingl\u00eas e da consequente industrializa\u00e7\u00e3o, novos mercados consumidores eram necess\u00e1rios para o com\u00e9rcio dos produtos da Inglaterra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Escravo n\u00e3o tinha sal\u00e1rio e n\u00e3o consumia&#8221;, resumiu criticamente a pesquisadora durante a entrevista.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-259254 size-full\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss5.jpg\" alt=\"\" width=\"624\" height=\"1016\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss5.jpg 624w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss5-184x300.jpg 184w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss5-307x500.jpg 307w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss5-160x261.jpg 160w\" sizes=\"auto, (max-width: 624px) 100vw, 624px\" \/><\/figure>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\">Mulher identificada como escrava de Martin Gestum, em 1880, em Porto Alegre<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">&#8216;Purgat\u00f3rio dos negros&#8217;?<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conforme Conforto, ser vendido com destino ao Rio Grande do Sul era um novo castigo aos escravizados. &#8220;Se criou a ideia de que o Estado era o &#8216;purgat\u00f3rio dos negros&#8217;. O negro que se rebelava era o primeiro a ser vendido e mandado para o Rio Grande do Sul. No inverno, as temperaturas eram g\u00e9lidas, muitas vezes abaixo de zero. Se n\u00e3o ficavam no espa\u00e7o urbano, como em Porto Alegre, eram mandados para o campo. L\u00e1, trabalhavam nas charqueadas, que exigia manejo de facas afiadas. Eles tinham que matar os bois a pauladas, tirar o couro, cortar, colocar o sal nas chamadas &#8216;mantas&#8217; de carne, algo muito bruto&#8221;, explica a pesquisadora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m de Caldre Fi\u00e3o, outro l\u00edder do Partenon que teve forte atua\u00e7\u00e3o abolicionista foi o professor Apolin\u00e1rio Porto Alegre. O primeiro estudou Medicina no Rio de Janeiro, o segundo, estudou direito em S\u00e3o Paulo. Segundo Conforto, &#8220;estudar fora&#8221; influenciava os intelectuais que depois retornavam ao Estado trazendo novas ideias influenciados pelos ideais do positivismo europeu, entre eles a liberdade, por exemplo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apolin\u00e1rio publicou na revista do Partenon diversas pe\u00e7as de teatro e textos abolicionistas. Uma pe\u00e7a, em especial, foi a mais pol\u00eamica e chegou a ser proibida pela pol\u00edcia.\u00a0<i>Os Filhos da Desgra\u00e7a<\/i>\u00a0contava a hist\u00f3ria de amor entre uma senhora e um escravo (o contr\u00e1rio era mais aceito no Brasil colonial). &#8220;Com tal tem\u00e1tica, Apolin\u00e1rio n\u00e3o poderia colocar a a\u00e7\u00e3o em Porto Alegre, porque provocaria a revolta de muitos chefes de fam\u00edlia&#8221;, explicou o historiador Moacyr Flores, em artigo de 1978, sobre a obra do autor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como a ideia de &#8220;proximidade&#8221; chocava demais os &#8220;chefes de fam\u00edlia&#8221;, o escritor optou por situar a trama em Salvador. &#8220;O drama est\u00e1 inserido na filosofia dos abolicionistas que por princ\u00edpios \u00e9ticos, al\u00e9m dos econ\u00f4micos, n\u00e3o admitem a escravid\u00e3o&#8221;, acrescentou Flores sobre a pe\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apolin\u00e1rio tamb\u00e9m liderou o projeto de aulas gratuitas noturnas para os pobres e libertos, explica a professora Maria Eunice Moreira, da PUCRS. Ainda de acordo com ela, enquanto ficcionistas, o tema da liberdade interessava os partenonistas de maneira abrangente, incluindo figura do ga\u00facho cavalgando livre pelos campos, o m\u00edtico &#8220;centauro dos pampas&#8221;, que surge na literatura regionalista do per\u00edodo influenciada pelo Partenon.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-259255 size-full\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss6.jpg\" alt=\"\" width=\"624\" height=\"410\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss6.jpg 624w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss6-300x197.jpg 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss6-620x407.jpg 620w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss6-70x45.jpg 70w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss6-160x106.jpg 160w\" sizes=\"auto, (max-width: 624px) 100vw, 624px\" \/><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\">Rua dos Andradas, em Porto Alegre, na d\u00e9cada de 1860; nesta rua, em 1884, os abolicionistas fizeram uma campanha, batendo de porta em porta, para que os senhores libertassem seus escravos<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Campanha pela liberdade<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">No mesmo ano em que a escravid\u00e3o foi abolida no Rio Grande do Sul, em 1884, 15 anos depois da alforria das crian\u00e7as no teatro, o Partenon Liter\u00e1rio fez uma nova campanha de liberta\u00e7\u00e3o. Os integrantes batiam de porta em porta das casas da regi\u00e3o central, especialmente na Rua das Andradas, pedindo a liberdade dos escravos. Com dinheiro arrecadado em a\u00e7\u00f5es, compravam alforrias. Os libertos foram reunidos no local que hoje \u00e9 conhecido como Parque da Reden\u00e7\u00e3o, oficialmente chamado de Parque Farroupilha. Pr\u00f3ximo dali, montavam barracos na chamada &#8220;Col\u00f4nia Africana&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com tamanha movimenta\u00e7\u00e3o abolicionista, no in\u00edcio do ano seguinte, em janeiro de 1885, a Princesa Isabel, que assinou a Lei \u00c1urea em 1888, visitou Porto Alegre. A princesa chegou a lan\u00e7ar a pedra fundamental da constru\u00e7\u00e3o da sede do Partenon, com projeto inspirado no templo de Atenas, o que n\u00e3o se concretizou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se n\u00e3o h\u00e1 registro fotogr\u00e1fico da visita de Isabel ou do espet\u00e1culo de 19 de setembro de 1869, o Museu Municipal de Porto Alegre Joaquim Jos\u00e9 Felizardo guarda um verdadeiro tesouro em forma de retratos. S\u00e3o diversos registros fotogr\u00e1ficos, alguns de 1868, de escravos e ex-escravos, em Porto Alegre. Quase nenhum dos retratados, por\u00e9m, est\u00e1 identificado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das fotografias encontrada pela reportagem, do final do s\u00e9culo 19, mostra dois ex-escravos: s\u00e3o duas crian\u00e7as, uma aparentemente com tr\u00eas anos e outra por volta de dez anos. Elas est\u00e3o de p\u00e9s descal\u00e7os, vestidas, seguram ramalhetes de flores e olham para a c\u00e2mera de Virg\u00edlio Calegari, um fot\u00f3grafo italiano que instalou um est\u00fadio na capital ga\u00facha. Calegari fotografou outros escravos e ex-escravos no seu est\u00fadio, mas era conhecido por fotografar tamb\u00e9m a alta sociedade porto-alegrense. Al\u00e9m de Calegari, os Irm\u00e3os Ferrari tamb\u00e9m fotografaram escravos libertos no seu est\u00fadio montado na rua Volunt\u00e1rios da P\u00e1tria.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-259256 size-full\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss7.jpg\" alt=\"\" width=\"624\" height=\"831\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss7.jpg 624w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss7-225x300.jpg 225w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss7-375x500.jpg 375w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss7-160x213.jpg 160w\" sizes=\"auto, (max-width: 624px) 100vw, 624px\" \/><\/figure>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\">Crian\u00e7as alforriadas no final do s\u00e9culo XIX, em foto de est\u00fadio, em Porto Alegre<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, as imagens encontradas de ex-escravos fora de est\u00fadio foram feitas por um fot\u00f3grafo amador, que assinava sob o psud\u00f4nimo de Lunara (das iniciais de Luiz do Nascimento Ramos). Lunara era um comerciante que revelava as fotos em casa. Mesmo amador, chegou a vencer diversos concursos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele registrou cenas buc\u00f3licas da capital ga\u00facha na virada do s\u00e9culo. Em 1900, Lunara fotografou um casal de negros libertos, em frente ao seu barraco. A foto est\u00e1 catalogada como &#8220;Deixa disso, nh\u00f4 Jo\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Os abolicionistas n\u00e3o-negros, os abolicionistas brancos, tinham uma vis\u00e3o ligada ao Iluminismo, de humaniza\u00e7\u00e3o. O que dava a possibilidade de uma pessoa negra ser escravizada era sua n\u00e3o-humaniza\u00e7\u00e3o. At\u00e9 1850, o c\u00f3digo comercial colocava os negros como &#8216;ser movente&#8217;, categoria de coisas que se movem. Est\u00e3o nessa categoria ate hoje, por \u00f3bvio, cavalos, cachorros da pol\u00edcia militar. Ent\u00e3o, a discuss\u00e3o dos abolicionistas era de que negros n\u00e3o eram coisas, mas pessoas&#8221;, afirma o especialista em direito p\u00fablico Gleidison Renato Martins, da coordena\u00e7\u00e3o nacional do Movimento Negro Unificado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Martins aponta o paradoxo de a pr\u00f3pria &#8220;era da raz\u00e3o&#8221; ter dado origem a artigos e experi\u00eancias que tentavam provar a inferioridade dos negros e apontavam os brancos como &#8220;ra\u00e7a superior&#8221; o que, se sabe, \u00e9 falso. &#8220;N\u00e3o basta apenas colocar as pessoas nessa outra estrutura sem mudar o pensamento racista e processos de discrimina\u00e7\u00e3o&#8221;, conclui.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-259258 size-full\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss8.jpg\" alt=\"\" width=\"624\" height=\"414\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss8.jpg 624w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss8-300x199.jpg 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss8-620x411.jpg 620w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss8-70x45.jpg 70w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss8-160x106.jpg 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss8-450x300.jpg 450w\" sizes=\"auto, (max-width: 624px) 100vw, 624px\" \/><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\">Casal de ex-escravos de m\u00e3os dadas em frente ao seu barraco, em Porto Alegre, em 1900<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ex-escravos fotografados em est\u00fadio, no final do s\u00e9culo XIX, em Porto Alegre: Luta pela liberdade come\u00e7ou muito antes da aboli\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":259250,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-259177","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/escravoss1.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/259177","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=259177"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/259177\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/259250"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=259177"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=259177"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=259177"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}