{"id":260917,"date":"2018-10-16T06:39:07","date_gmt":"2018-10-16T09:39:07","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=260917"},"modified":"2018-10-16T06:39:07","modified_gmt":"2018-10-16T09:39:07","slug":"e-ingenuo-dar-por-garantidas-liberdades-que-custaram-a-ser-conquistadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/e-ingenuo-dar-por-garantidas-liberdades-que-custaram-a-ser-conquistadas\/","title":{"rendered":"\u00c9 ing\u00eanuo dar por garantidas liberdades que custaram a ser conquistadas"},"content":{"rendered":"<div class=\"articulo__apertura\">\n<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div class=\"articulo-encabezado-texto\">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\"><em>Os rostos deformados pelo \u00f3dio e os gritos de supremacia branca n\u00e3o est\u00e3o mais s\u00f3 nos filmes dos anos sessenta<\/em><\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"firma \">\n<div class=\"autor\">\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Antonio Mu\u00f1oz Molina\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/antonio_munoz_molina\/a\/\">ANTONIO MU\u00d1OZ MOLINA<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"articulo-datos\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<figure class=\"foto centro foto_w980\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2018\/10\/09\/babelia\/1539093914_004943_1539094902_noticia_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2018\/10\/09\/babelia\/1539093914_004943_1539094902_noticia_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2018\/10\/09\/babelia\/1539093914_004943_1539094902_noticia_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2018\/10\/09\/babelia\/1539093914_004943_1539094902_noticia_normal.jpg 980w\" alt=\"Manifesta\u00e7\u00e3o pelos direitos civis em Memphis, 1968.\" width=\"980\" height=\"598\" \/><\/p>\n<div class=\"seedtag-gohan seedtag-adunit\">\n<div class=\"st-container\"><\/div>\n<\/div><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Manifesta\u00e7\u00e3o pelos direitos civis em Memphis, 1968.<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">BETTMANN<\/span>\u00a0<span class=\"foto-agencia\">GETTY<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 faz mais de quatro anos que viajei a Memphis, no\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/tennessee\">Tennessee<\/a>, para ver com meus pr\u00f3prios olhos os lugares em que se passaram os \u00faltimos dias da vida de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/martin_luther_king\">Martin Luther King<\/a>. O downtown de Memphis \u2014equivalente ao que chamamos de centro em uma cidade europeia\u2014 conservava em parte a antiga gl\u00f3ria fantasmag\u00f3rica, mas tamb\u00e9m a deteriora\u00e7\u00e3o e a ru\u00edna irremedi\u00e1veis. O carro, a casa isolada com jardim, os\u00a0<em>shopping malls<\/em>\u00a0favoreceram durante d\u00e9cadas um abandono dos antigos centros urbanos que s\u00f3 nos \u00faltimos tempos come\u00e7ou a se reverter, pelo menos at\u00e9 certo ponto. Est\u00fadios de artistas e designers,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/restaurantes\">restaurantes da moda<\/a>, lojas de antiguidade ocupam agora espa\u00e7os industriais e antigas lojas ou oficinas salvos da ru\u00edna. Durante muito tempo, os \u00fanicos habitantes dos centros urbanos eram os pobres, marginais inclu\u00eddos. Agora os filhos e netos das classes m\u00e9dias que se mudavam para os sub\u00farbios fugindo da inseguran\u00e7a e da sujeira fazem o caminho inverso e ocupam apartamentos de alto pre\u00e7o em antigos edif\u00edcios restaurados, e frequentam as lojas de alimentos org\u00e2nicos e os caf\u00e9s com wifi que substitu\u00edram os antigos mercadinhos e oficinas. Os moradores pobres desapareceram sem deixar vest\u00edgios. Restaram mendigos pedindo em algumas esquinas e \u00e0s vezes doentes mentais que gesticulam e falam sozinhos pela rua, dormem em qualquer lugar e acabam com frequ\u00eancia presos, j\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de sa\u00fade mental que os acolham.<\/p>\n<div id=\"elpais_gpt-INTEXT\" style=\"text-align: justify;\" data-google-query-id=\"CL7wuOPUit4CFUZ3wQod7ToIqQ\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/cultura\/intext_0__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Memphis, h\u00e1 cinco anos, esse processo estava em andamento. A hist\u00f3rica rua Beale, imortalizada nas letras de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/jazz\">blues<\/a>, era pouco mais do que um parque tem\u00e1tico com restaurantes de comida sulista e bares r\u00fasticos de autenticidade duvidosa e m\u00fasica ao vivo, al\u00e9m das habituais lojas de suvenires tur\u00edsticos. Pela Beale Street havia passado em 1968 a manifesta\u00e7\u00e3o de apoio \u00e0 greve dos trabalhadores de coleta de lixo encabe\u00e7ado por Martin Luther King algumas semanas antes de ser assassinado. Uma caminhada de 20 minutos se tanto separa Beale Street do antigo Lorraine Motel, onde Luther King\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/04\/03\/internacional\/1522748570_422069.html\">caiu abatido por um \u00fanico tiro de rifle<\/a>\u00a0em 4 de abril de 1968, e onde agora est\u00e1 instalado o Museu dos Direitos Civis. Para chegar a ele se atravessava uma regi\u00e3o de antigas f\u00e1bricas e armaz\u00e9ns nas proximidades da esta\u00e7\u00e3o. Em um hotel gigante abandonado h\u00e1 muito tempo, com todas as portas e janelas com tapumes, uma \u00e1rvore de ferocidade sulista cresceu em um dos \u00faltimos andares e estendia seus galhos para fora do balc\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante aqueles dias tive a sensa\u00e7\u00e3o de estar submergindo no passado. A viol\u00eancia extrema da segrega\u00e7\u00e3o racial, o legado cruel da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/esclavitud\">escravid\u00e3o<\/a>\u00a0eram fatos hist\u00f3ricos confinados a uma dist\u00e2ncia temporal da qual o museu dava pleno testemunho. Nele estava contido, com admir\u00e1vel rigor documental e clareza pedag\u00f3gica, o hero\u00edsmo da luta pelos direitos civis, mais aterrador ainda porque tinha sido exercido com uma observ\u00e2ncia inflex\u00edvel da n\u00e3o viol\u00eancia. O passado adquiria sua sacralidade plena nas telas em que se projetavam dois dos grandes discursos de Martin Luther King, o que deu ao fim da marcha sobre\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/washington\/a\">Washington<\/a>em 1963, e o da noite de 3 de abril de 1968, quando lhe restavam menos de 24 horas de vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao longo da Main Street de Memphis circulam bondes. S\u00e3o velhos, muitos deles decr\u00e9pitos, e de modelos diferentes, como se tivessem sido adquiridos em um sald\u00e3o. Certa manh\u00e3 o bonde no qual viaj\u00e1vamos parou de repente entre duas esta\u00e7\u00f5es. Uma policial tinha dado sinal ao condutor. Ao lado dela, uma negra anci\u00e3 muito fr\u00e1gil, com cabelo branco e bengala. A policial e o condutor a ajudaram a subir no bonde, e ent\u00e3o a se sentar. A pessoa que ocupava o assento junto \u00e0 entrada se levantou para oferece-lo \u00e0 senhora. A policial e o condutor eram brancos, assim como o passageiro que cedeu lugar. Vendo a idosa perfilada contra a janelinha pensei que tinha idade para ter vivido os anos atrozes da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/racismo\">segrega\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0e ent\u00e3o os das lutas e conquistas dos direitos civis: esse ato t\u00e3o normal no qual ningu\u00e9m reparava, talvez nem ela mesma, era uma prova de todas as conquistas. Afinal, no in\u00edcio de tudo houve a decis\u00e3o valorosa e tranquila de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/rosa_parks\/a\">Rosa Parks<\/a>\u00a0de n\u00e3o se levantar de um assento de \u00f4nibus. Como de outras vezes, o que me estimulava a escrever um romance era a vontade de reconstruir e habitar um passado n\u00e3o vivido por mim, mas inscrito em minha pr\u00f3pria vida com uma intensidade semelhante \u00e0 de uma lembran\u00e7a pessoal, a da milit\u00e2ncia em uma causa que racional e visceralmente \u00e9 minha.<\/p>\n<section id=\"sumario_1|html\" class=\"sumario_html derecha\"><a name=\"sumario_1\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\">A pior ingenuidade de uma pessoa progressista \u00e9 dar por garantidas liberdades que se custou muito a conquistar<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">De forma gradual, desde aquela viagem a Memphis, ao longo desses anos, tive a sensa\u00e7\u00e3o de que o passado hist\u00f3rico, em vez de se afastar, de continuar relaxando em comemora\u00e7\u00f5es e museus, se torna cada vez mais presente. Os rostos deformados pelo fanatismo e pelo \u00f3dio e os gritos de supremacia branca j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o s\u00f3 nos filmes em preto e branco dos anos sessenta. \u00c9 muito prov\u00e1vel que em 2014 eu fosse mais ing\u00eanuo do que devesse, mas nada parecia vaticinar ent\u00e3o a presid\u00eancia de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/donald_trump\">Donald Trump<\/a>, nem a falta de vergonha de seus apelos ao racismo e \u00e0 xenofobia, nem a grosseria de sua linguagem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres, reproduzida em coro com j\u00fabilo tenebroso por seu p\u00fablico, homens e mulheres, imitada pelos demagogos e aspirantes a d\u00e9spotas que em meio mundo, Europa democr\u00e1tica inclu\u00edda, est\u00e3o tomando-o como exemplo e recebendo seu apoio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o era este o futuro que se podia imaginar em 2014. A pior ingenuidade de uma pessoa progressista \u00e9 dar por garantidas liberdades que custaram muito a ser conquistadas, direitos que parecem ainda mais indiscut\u00edveis porque fazem parte da simples dignidade humana. A coragem c\u00edvica atestada pelas fotografias e os filmes do museu de Memphis s\u00e3o cada dia menos uma lembran\u00e7a hist\u00f3rica: s\u00e3o uma advert\u00eancia e um manual de instru\u00e7\u00f5es para o porvir. Mas agora os advers\u00e1rios s\u00e3o ainda mais poderosos que ent\u00e3o. T\u00eam muito mais dinheiro e muito mais capacidade de dominar e mentir.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os rostos deformados pelo \u00f3dio e os gritos de supremacia branca n\u00e3o est\u00e3o mais s\u00f3 nos filmes dos anos sessenta<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":260918,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-260917","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ditadura-baioneta.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/260917","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=260917"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/260917\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/260918"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=260917"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=260917"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=260917"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}