{"id":261025,"date":"2018-10-17T06:38:41","date_gmt":"2018-10-17T09:38:41","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=261025"},"modified":"2018-10-17T06:38:50","modified_gmt":"2018-10-17T09:38:50","slug":"quando-minha-mae-fechava-as-janelas-para-que-eu-nao-visse-os-fuzilamentos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/quando-minha-mae-fechava-as-janelas-para-que-eu-nao-visse-os-fuzilamentos\/","title":{"rendered":"Quando minha m\u00e3e fechava as janelas para que eu n\u00e3o visse os fuzilamentos"},"content":{"rendered":"<div class=\"articulo__apertura\">\n<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div class=\"articulo-encabezado-texto\">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\"><em>Disse-me que, quando eclodiu a guerra civil, os espanh\u00f3is se matavam entre si por n\u00e3o pensarem todos do mesmo jeito. O que ela n\u00e3o p\u00f4de evitar foi que me acompanhasse por toda a vida o ranger dos fuzis matando<\/em><\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"firma \">\n<div class=\"autor\">\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Juan Arias\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/juan_arias\/a\/\">JUAN ARIAS<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"articulo-datos\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<figure class=\"foto centro foto_w980\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/10\/16\/opinion\/1539725433_437379_1539726468_noticia_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/10\/16\/opinion\/1539725433_437379_1539726468_noticia_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/10\/16\/opinion\/1539725433_437379_1539726468_noticia_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/10\/16\/opinion\/1539725433_437379_1539726468_noticia_normal.jpg 980w\" alt=\"Imagem de um confronto na Guerra Civil espanhola. \" width=\"980\" height=\"552\" \/><\/p>\n<div class=\"seedtag-gohan seedtag-adunit\">\n<div class=\"st-container\"><\/div>\n<\/div><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Imagem de um confronto na Guerra Civil espanhola.\u00a0<\/span><span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">GETTY IMAGES<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns amigos brasileiros me perguntam como\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/elecciones_brasil_2018\/\">eu votaria no dia 28<\/a>\u00a0se pudesse faz\u00ea-lo. Antes de lhes responder, vou contar uma hist\u00f3ria da minha inf\u00e2ncia que marcaria minha vis\u00e3o futura sobre a pol\u00edtica e a viol\u00eancia. Quando na Espanha eclodiu a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/guerra_civil_espanola\/\">Guerra Civi<\/a>l, depois do golpe militar contra o governo da Segunda Rep\u00fablica, eu tinha cinco anos. Enfrentaram-se ent\u00e3o a ditadura e a democracia republicana. O balan\u00e7o foi de um milh\u00e3o de mortos entre os dois lados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os fuzilamentos e julgamentos sum\u00e1rios se davam at\u00e9 dentro de uma fam\u00edlia. Bastava a suspeita ou a acusa\u00e7\u00e3o de ser de um ou outro bando, vermelho ou branco,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/franquismo\">franquista<\/a>ou republicano, para poder morrer fuzilado. Foi uma orgia de mortes violentas e b\u00e1rbaras torturas. Um campo f\u00e9rtil tamb\u00e9m para velhos ajustes de contas e vingan\u00e7as pessoais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os fuzilamentos se davam \u00e0s vezes na rua, ao vivo. Tamb\u00e9m em frente \u00e0 minha casa, por onde passava uma estrada. Nossa casa era ao mesmo tempo a escola numa aldeia do interior da Gal\u00edcia. Meu pai era o professor que nos ensinava a ler, a escrever e a nos interrogar. Foi castigado pelo regime franquista porque os alunos que sa\u00edam de sua pequena escola, quando chegavam ao colegial, \u201cfaziam muitas perguntas aos professores\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os massacres de um e outro lado n\u00e3o se limitaram aos tr\u00eas anos da guerra. Continuaram, sobretudo as torturas, durante os quase 40 anos da ditadura. \u00c9 um cap\u00edtulo que ainda n\u00e3o foi totalmente escrito. Soube que aquelas torturas n\u00e3o s\u00f3 eram brutais como tamb\u00e9m at\u00e9 repugnantemente refinadas. Sendo j\u00e1 jornalista, um advogado me contou, em Madri, que recebeu certa manh\u00e3 um telefonema dizendo que um velho cliente dele, com quem brigara, seria torturado. Convidaram-no a participar fisicamente da sua tortura \u201cpara que aproveitasse e se vingasse dele\u201d. Recordo que, ao me contar isso, o advogado murmurou: \u201cQue canalhas!\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando come\u00e7avam a disparar os fuzis do pelot\u00e3o de execu\u00e7\u00e3o na frente da nossa casa, minha m\u00e3e corria a fechar as janelas, para que eu n\u00e3o pudesse ver aquele horror. Contou-me isso quando eu j\u00e1 era maior. Disse-me que, quando eclodiu a guerra civil, os espanh\u00f3is se matavam entre si por n\u00e3o pensarem todos do mesmo jeito. Fechando as janelas, evitou que eu visse os fuzilamentos. O que n\u00e3o p\u00f4de evitar foi que me acompanhasse por toda a vida o ranger dos fuzis matando. Acompanhou-me de tal modo aquela lembran\u00e7a que, vivendo no Rio do Janeiro, nos baixos da favela do Turano, ao ouvir os tiroteios cruzados dos traficantes e policiais, sentia automaticamente o impulso de fechar as janelas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 maior, prometi n\u00e3o s\u00f3 nunca usar uma arma, como tamb\u00e9m jamais toc\u00e1-la. J\u00e1 sou velho, e nunca esses objetos de morte ro\u00e7aram minhas m\u00e3os. Minha m\u00e3e me revelou algo a mais que eu n\u00e3o sabia daqueles anos de terror e guerra entre irm\u00e3os: que meu pai muitas vezes foi levado, ao cair da tarde, para fora de casa. Alguns camponeses o escondiam por medo de que pudessem fuzil\u00e1-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pecado do meu pai para os franquistas s\u00f3 podia ser que, naquela aldeia, o professor era dos poucos que sabiam ler e escrever. A maioria daqueles camponeses era de pobres e analfabetos. Quando recebiam alguma carta das autoridades, tremiam de medo. Corriam ent\u00e3o ao meu pai: \u201cE ent\u00e3o, por favor,\u00a0<em>don<\/em>\u00a0Guillermo, o que me escrevem aqui\u201d. Meu pai lhes lia a carta em voz alta, enquanto eles permaneciam em p\u00e9. Se fosse o caso, lhes redigia uma resposta defendendo-os. Al\u00e9m de professor, atuava como conselheiro e advogado. Confiavam nele. Sua \u00fanica recompensa era o carinho que recebia. Quando morreu, aos 41 anos, por causa de umas febres para as quais n\u00e3o conseguimos penicilina, \u00e0 \u00e9poca um luxo reservado aos ricos, foi preciso adiar o enterro em um dia para que os camponeses de outras aldeias pudessem comparecer. N\u00e3o havia transporte p\u00fablico. Foram em mulas ou a p\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nunca soube as ideias pol\u00edticas do meu pai. Minha m\u00e3e, tamb\u00e9m professora rural, contava-nos que ele era do partido \u201cde todos os que sofriam injustamente\u201d. Antes de morrer, meu pai chamou a mim e aos meus dois irm\u00e3os mais novos ao p\u00e9 de sua cama e nos disse: \u201cLembrem-se que, at\u00e9 na pris\u00e3o, se \u00e9 menos infeliz se se tiver o gosto pela leitura.\u201d Naquele tempo, ia-se para a pris\u00e3o por lutar contra a tirania.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos meus amigos que me perguntam como eu votaria no Brasil, gostaria de lhes dizer que votaria como o faria hoje meu pai, para quem, sem a capacidade cr\u00edtica de pensamento, sem a cultura e anatematizando as diferen\u00e7as, n\u00e3o era poss\u00edvel redimir-se nem da pobreza nem da viol\u00eancia.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Disse-me que, quando eclodiu a guerra civil, os espanh\u00f3is se matavam entre si por n\u00e3o pensarem todos do mesmo jeito. O que ela n\u00e3o p\u00f4de evitar foi que me acompanhasse por toda a vida o ranger dos fuzis matando<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":261026,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-261025","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/primeira-guerra.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/261025","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=261025"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/261025\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/261026"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=261025"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=261025"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=261025"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}