{"id":261589,"date":"2018-10-22T20:57:04","date_gmt":"2018-10-22T23:57:04","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=261589"},"modified":"2018-10-22T20:57:04","modified_gmt":"2018-10-22T23:57:04","slug":"terrorismo-eleitoral-de-direita-infantilizacao-e-agressividade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/terrorismo-eleitoral-de-direita-infantilizacao-e-agressividade\/","title":{"rendered":"Terrorismo eleitoral de direita: infantiliza\u00e7\u00e3o e agressividade"},"content":{"rendered":"<div class=\"container\">\n<h1><\/h1>\n<p class=\"description\">Homens velhos e formados, riem e compartilham fake news e memes que adotam uma est\u00e9tica adolescente. Foi assim que gente adulta e milion\u00e1ria interesseira decidiu investir e interferir no processo eleitora, porque est\u00e1 mais que claro que a massa, a qual pretende manipular, excita-se com essas piadas juvenis<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"load-image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"img-responsive center-block wp-post-image\" src=\"https:\/\/www.revistaforum.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/bolsonaro-no-roda-viva.jpg\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" srcset=\"https:\/\/www.revistaforum.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/bolsonaro-no-roda-viva.jpg 640w, https:\/\/www.revistaforum.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/bolsonaro-no-roda-viva-300x288.jpg 300w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"614\" \/><\/p>\n<div class=\"wp-caption-text\">Charge de Vitor Teixeira<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"marginbottom\"><\/div>\n<div class=\"container\">\n<div class=\"row\">\n<div class=\"col-lg-8 col-md-8 col-sm-12 col-xs-12\">\n<div class=\"author\">\n<div class=\"pull-left\"><a href=\"https:\/\/www.revistaforum.com.br\/autor\/raphaelsilvafagundes\/\">Por Raphael Silva Fagundes<\/a><\/div>\n<div class=\"pull-right socials\"><i class=\"fa fa-facebook-official\" aria-hidden=\"true\"><\/i>\u00a0<i class=\"fa fa-twitter-square\" aria-hidden=\"true\"><\/i>\u00a0<i class=\"fa fa-whatsapp\" aria-hidden=\"true\"><\/i><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"text\">\n<p>Um dos planos mais mirabolantes formulado pelo servi\u00e7o secreto norte-americano durante a Segunda Guerra mundial foi o que visava conter a ret\u00f3rica de Hitler. Consistia em implantar horm\u00f4nios femininos nas refei\u00e7\u00f5es do chanceler alem\u00e3o, \u201cque tornariam sua qualidade vocal cada vez mais aguda e sua complei\u00e7\u00e3o cada vez mais afeminada\u201d.<strong><em>1<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O plano n\u00e3o foi realizado, mas nos anos seguintes, a ret\u00f3rica pol\u00edtica adquiriu uma menor agressividade. De Kennedy a Barack Obama, passando por Tony Blair e Lula, ouve a introdu\u00e7\u00e3o de uma fala carregada de emo\u00e7\u00e3o, empatia e autenticidade, o que Karpf identificar\u00e1 como um \u201cmovimento de feminiza\u00e7\u00e3o nos usos p\u00fablicos da voz masculina\u201d.<\/p>\n<div class=\"code-block code-block-1\">\n<div id=\"div-gpt-ad-1527260796756-5\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Esse modelo eloquente foi usado tanto por conservadores quanto por progressistas, contudo, com a ascens\u00e3o da extrema direita ao poder, tudo indica que esse cen\u00e1rio mudou.<\/p>\n<p>A ret\u00f3rica pol\u00edtica que usa estrat\u00e9gias para denegrir seus alvos, injuriar advers\u00e1rios, enfim, a ret\u00f3rica agressiva de Hitler, voltou. \u00c9 a remasculiniza\u00e7\u00e3o da fala p\u00fablica. N\u00e3o apenas homens a usam, mas as mulheres, como Marine Le Pen.<\/p>\n<div class=\"code-block code-block-6\"><\/div>\n<p>Essa fala n\u00e3o precisa mais da tev\u00ea. Foi suavizando o seu discurso que Lula conseguiu usar da tev\u00ea para construir uma imagem carism\u00e1tica e, assim, chegar ao poder. Mas hoje, o discurso agressivo que se elege dispensou a tev\u00ea e se apoiou nas redes sociais. N\u00e3o ir aos debates televisivos tornou-se estrat\u00e9gico. Porque soa mal ser agressivo na tev\u00ea. Dizer, por exemplo, que ir\u00e1 banir a oposi\u00e7\u00e3o. Isso porque o ciberespa\u00e7o permite que o ideal narcisista p\u00f3s-moderno se realize, pois, por exemplo, nas redes sociais o indiv\u00edduo pode defender seu estilo de vida, sua personalidade acima de tudo, em um local \u201caparentemente neutro\u201d. Um lugar de encontro relativamente igual para todos. Nele \u201cas regras garantem que o espa\u00e7o \u2018privado\u2019 das idiossincrasias pessoais, imperfei\u00e7\u00f5es, fantasias violentas etc. n\u00e3o transborde numa domina\u00e7\u00e3o direta dos outros\u201d.<strong><em>2<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Em nome da amea\u00e7a, mesmo que o p\u00fablico n\u00e3o seja alvo dela, acaba sendo levado a se identificar com o sujeito das agress\u00f5es. E como est\u00e1 na B\u00edblia, a qual assegura que primeiro veio a fala e somente em seguida as coisas fizeram-se reais, a ret\u00f3rica agressiva come\u00e7a no discurso, mas, em pouco tempo, espalha-se pelas ruas.<\/p>\n<div class=\"code-block code-block-7\"><\/div>\n<p>A postura m\u00e1scula e a voz forte e agressiva era uma caracter\u00edstica de Hitler, que usava o r\u00e1dio em larga escala para difundir seu pensamento nazista. Hoje, as tecnologias mudaram. N\u00e3o h\u00e1 mais necessidade de duas horas de discurso. Precisa-se de frases curtas que possam caber em uma postagem de f\u00e1cil replica\u00e7\u00e3o, ou em um meme c\u00f4mico. Somou-se a isso o que podemos chamar de infantiliza\u00e7\u00e3o da cultura de massas.<\/p>\n<p>A \u201cespetaculariza\u00e7\u00e3o\u201d da cultura e da informa\u00e7\u00e3o \u00e9 um prato cheio para a manipula\u00e7\u00e3o e infantiliza\u00e7\u00e3o das opini\u00f5es, pois esta cultura \u00e9 feita para vender em quantidade e de forma atrativa, tendo assim de metamorfosear tudo que produz em espet\u00e1culo, impedindo, desta maneira, uma compreens\u00e3o mais aprofundada do conte\u00fado. A transforma\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o em algo de consumo r\u00e1pido, prendeu os jornais a pol\u00eamicas e a informa\u00e7\u00f5es sensacionalistas, e isso ocorreu n\u00e3o s\u00f3 com os ve\u00edculos da grande imprensa, mas, em muitos casos, tamb\u00e9m, com os da m\u00eddia independente.<\/p>\n<div class=\"code-block code-block-8\"><\/div>\n<p>Desta maneira, certos pol\u00edticos se aproveitam desse car\u00e1ter ef\u00eamero e extravagante da m\u00eddia para lan\u00e7ar suas pol\u00eamicas. Agora, esse modelo que tinha fins mercadol\u00f3gicos adquiriu, tamb\u00e9m, uma finalidade pol\u00edtica e invadiu um meio onde adquirir \u201cconhecimento\u201d de forma veloz (rolar a p\u00e1gina no Facebook ou ligar o telefone para acessar o Whatsapp) predomina.<\/p>\n<p>Os pais sentam ao lado dos seus filhos para assistir as bobagens ditas que, por sua vez, s\u00e3o\u00a0 interpretadas sem dificuldades. Da\u00ed a explos\u00e3o dos filmes da Marvel e das anima\u00e7\u00f5es. N\u00e3o precisa um m\u00ednimo de esfor\u00e7o. As mentes se equiparam. Atrofiam-se. Surge ent\u00e3o um cen\u00e1rio perfeito para a febre dos memes que circulam de forma viral.<\/p>\n<p>Desta forma, homens velhos e formados, riem e compartilham fakenews e memes que adotam uma est\u00e9tica adolescente. Foi assim que gente adulta e milion\u00e1ria interesseira decidiu investir e interferir no processo eleitoral porque est\u00e1 mais que claro que a massa, a qual pretende manipular, excita-se com essas piadas juvenis.<\/p>\n<p>Tudo deve ser ris\u00edvel, c\u00f4mico, ou, na linguagem dos jovens, \u201czoeira\u201d. E a cada minuto novas palha\u00e7adas s\u00e3o apresentadas. Aproveitando-se de que as redes sociais deram espa\u00e7o a essa cultura imbecilizada, pol\u00eamica e agressiva, o pol\u00edtico que quer apenas ganhar votos n\u00e3o titubear\u00e1 em se valer de uma vida acelerada, constru\u00edda propositalmente para que as pessoas n\u00e3o tenham tempo para pensar no que ouvem, em criar posts potencialmente virais, reproduzindo o seu discurso de forma porca, mas capaz de gerar prazer.<\/p>\n<div class=\"code-block code-block-9\"><\/div>\n<p>A crian\u00e7a, que tem um acesso cada vez maior ao mundo dos adultos, com maquiagens e computadores que acessam o que h\u00e1 de dispon\u00edvel, adultaliza-se nessa cultura infantilizada. Um paradoxo. Os adultos s\u00e3o cada vez mais infantis, por isso seus filhos s\u00e3o cada vez mais adultalizados. Os mundos se fundem. Crian\u00e7as e adultos s\u00e3o apenas engrenagem em um mercado pol\u00edtico que quer apenas formar indiv\u00edduos acr\u00edticos para dar a ele funcionalidade.<\/p>\n<p><strong>A s\u00edndrome de Buzz Lightyear<\/strong><\/p>\n<p>Um outro fen\u00f4meno atual assoma-se a isso tudo. Na antiguidade greco-romana, a crian\u00e7a era preparada para a vida p\u00fablica. O p\u00fablico era mais importante que o privado. Inclusive, a palavra idiota vem de idiotes que designava \u201cpessoa privada, simples cidad\u00e3o\u201d, isto \u00e9, aquele que n\u00e3o participava da coisa p\u00fablica. Para o soci\u00f3logo Richard Sennet, a privatiza\u00e7\u00e3o da vida ocorreu quando a crian\u00e7a foi percebida pela sociedade como um ser fr\u00e1gil.<strong><em>3<\/em><\/strong>\u00a0A exist\u00eancia da fam\u00edlia era fundamental para a linhagem, um destino natural. Deste modo, o mundo p\u00fablico tornou-se cada vez mais hostil \u00e0 inoc\u00eancia de uma crian\u00e7a, for\u00e7ando os adultos a valorizarem o lar. A casa se tornou um local onde as pessoas n\u00e3o precisavam mais usar os sinais p\u00fablicos de reconhecimento, bastavam ser elas mesmas.<\/p>\n<p>O p\u00fablico foi sendo vilipendiado gradativamente pelas pessoas. E n\u00e3o s\u00f3 desprezado, mas execrado, visto como um lugar onde reina a l\u00e1bia interesseira, a corrup\u00e7\u00e3o, a rapina. Mas, a moderniza\u00e7\u00e3o da sociedade trouxe v\u00e1rias altera\u00e7\u00f5es, uma delas \u00e9 que com a urbaniza\u00e7\u00e3o a natalidade diminuiu. Hoje chegamos a patamares surpreendentes onde a popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 envelhecendo cada vez mais, enquanto que as pessoas t\u00eam cada vez menos vontade de ter filhos. O desejo de consumir, de modo geral, e a liberdade feminina acompanhada de uma necessidade de realizar os sonhos que a ind\u00fastria do consumo apresenta, chocam-se com o desejo de constituir uma fam\u00edlia, onde novas responsabilidades aparecem. A fam\u00edlia deixou de ser um destino natural e passou a ser desejada, planejada.<strong><em>4<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Deste modo, os jovens sem filhos, voltam-se novamente para a vida p\u00fablica, no entanto, desta vez, carregando todo o \u00f3dio a ela desenvolvido ao longo dos s\u00e9culos, entranhado em uma tradi\u00e7\u00e3o. Consumidores de uma cultura que valoriza apenas o superficial, apropriam-se de instrumentos fr\u00e1geis para compreender a complexidade da vida p\u00fablica que, por sua vez, sustenta uma l\u00f3gica de domina\u00e7\u00e3o de agentes que raramente aparecem.<\/p>\n<p>Acaba sendo relativamente f\u00e1cil entrar nas mentes desses indiv\u00edduos que caminham em dire\u00e7\u00e3o do que mais os excita, do que promete o prazer insaci\u00e1vel, quando n\u00e3o frustrado, que um sistema excludente promete, mas na maioria das vezes n\u00e3o consegue realizar. O uso das redes sociais por pol\u00edticos, de programas sensacionalistas, que promovem uma com\u00e9dia na l\u00f3gica do riso instant\u00e2neo de coisas s\u00e9rias, e de outros mecanismos, est\u00e1 atraindo um n\u00famero cada vez maior de indiv\u00edduos que sofre da s\u00edndrome de Buzz Lightyear, personagem do filme\u00a0Toy Story\u00a0da Disney (j\u00e1 que estamos falando de infantiliza\u00e7\u00e3o): n\u00e3o percebem que s\u00e3o apenas bonecos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>1 PIOVEZANI, Carlos. Falar em p\u00fablico na pol\u00edtica contempor\u00e2nea. In: COURTINE, J-J E PIOVEZANI, C. (orgs.). Hist\u00f3ria da fala p\u00fablica. Petr\u00f3polis: Vozes, 2015.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>2 ZIZEK, Slavoj.\u00a0Em defesa das causas perdidas. Trad: Maria Beatriz de Medina. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2011. p. 53<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>3 SENNET, Richard.\u00a0O decl\u00ednio do homem p\u00fablico.\u00a0Trad: Lygia Araujo Watanabe. Rio de Janeiro: Record, 2014. p. 147.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>4 BECK, Ulrich.\u00a0Sociedade de risco. S\u00e3o Paulo: editora34, 2011. p.169.<\/em><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos planos mais mirabolantes formulado pelo servi\u00e7o secreto norte-americano durante a Segunda Guerra mundial foi o que visava conter a ret\u00f3rica de Hitler. 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