{"id":263996,"date":"2018-11-14T08:49:50","date_gmt":"2018-11-14T11:49:50","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=263996"},"modified":"2018-11-14T08:49:50","modified_gmt":"2018-11-14T11:49:50","slug":"o-novo-apostolo-da-psicodelia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-novo-apostolo-da-psicodelia\/","title":{"rendered":"O novo ap\u00f3stolo da psicodelia"},"content":{"rendered":"<div class=\"cabecera__envoltorio\">\n<header id=\"cabecera\" class=\"cabecera\">\n<div id=\"cabecera__interior\" class=\"cabecera__interior\">\n<div class=\"cabecera-inferior\">\n<div class=\"cabecera-inferior__interior\">\n<div id=\"cabecera-seccion\" class=\"cabecera-seccion \">\n<div class=\"seccion\">\n<div class=\"seccion-migas\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<\/div>\n<div class=\"articulo__envoltorio\">\n<article class=\"articulo articulo_reportaje\">\n<div id=\"articulo_interior\" class=\"articulo__interior\">\n<div class=\"articulo__apertura\" style=\"text-align: justify;\">\n<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div class=\"articulo-encabezado-texto\">\n<figure class=\"foto superior foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2018\/10\/22\/eps\/1540216778_993145_1540224752_noticia_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2018\/10\/22\/eps\/1540216778_993145_1540224752_noticia_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2018\/10\/22\/eps\/1540216778_993145_1540224752_noticia_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2018\/10\/22\/eps\/1540216778_993145_1540224752_noticia_normal.jpg 980w\" alt=\"Michael Pollan\" width=\"980\" height=\"502\" \/><\/p>\n<div class=\"seedtag-gohan seedtag-adunit\">\n<div class=\"st-container\"><\/div>\n<\/div><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">ERIK TANNER<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \">\n<div class=\"articulo-datos\"><\/div>\n<div id=\"articulo-introduccion\" class=\"articulo-introduccion\">\n<p>Michael Pollan, renomado jornalista e ativista da alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel, decidiu investigar os novos usos de drogas como o LSD ou a psilocibina no tratamento de depress\u00e3o, v\u00edcio e ansiedade associada ao c\u00e2ncer. E de passagem ousou experiment\u00e1-las aos 60 anos de idade. Ele conta isso em seu \u00faltimo ensaio<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O locutor Patrick Mettes tinha 53 anos quando um artigo mudou sua vida. Seria melhor dizer que a morte o mudou. Doente de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/cancer_pulmon\">c\u00e2ncer de pulm\u00e3o<\/a>, soube pelo jornal que na Universidade de Nova York estava sendo usada a psilocibina, princ\u00edpio ativo dos cogumelos alucin\u00f3genos, para aliviar o \u201cestresse existencial\u201d de pacientes terminais. Ele se inscreveu imediatamente, apesar da resist\u00eancia de Lisa, sua esposa, que associou a decis\u00e3o a uma recusa em continuar lutando. Mettes viveu mais 17 meses e continuou na luta da quimioterapia, que, segundo Lisa, conciliou com uma pl\u00e1cida aceita\u00e7\u00e3o de que o fim estava chegando. Quando a coisa n\u00e3o tinha mais solu\u00e7\u00e3o, ele fez desfilar seus entes queridos no quarto da unidade de cuidados paliativos do Hospital Mount Sinai para se despedir deles.<\/p>\n<div id=\"elpais_gpt-INTEXT\" style=\"text-align: justify;\" data-google-query-id=\"CO60j_zn094CFUh_wQod9UwBbQ\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/eps\/intext_0__container__\"><iframe id=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/eps\/intext_0\" title=\"3rd party ad content\" name=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/eps\/intext_0\" width=\"1\" height=\"1\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\" data-google-container-id=\"5\" data-load-complete=\"true\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hist\u00f3rias como esta convenceram o jornalista norte-americano Michael Pollan a colocar em jogo sua consider\u00e1vel reputa\u00e7\u00e3o em um assunto certamente delicado: um estudo sobre o renascimento do uso cient\u00edfico das subst\u00e2ncias psicod\u00e9licas em pacientes como Mettes. O resultado \u00e9 o ensaio\u00a0<em>Como Mudar Sua Mente<\/em>\u00a0(Intr\u00ednseca, 2018).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O t\u00edtulo original funciona melhor:\u00a0<em>How to Change Your Mind<\/em>\u00a0tamb\u00e9m pode ser traduzido por \u201ccomo mudar de ideia\u201d, que foi exatamente o que fez Pollan (Long Island, Nova York, 1953). Fumante ocasional de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/marihuana\">maconha<\/a>, estava prestes a completar 60 anos quando decidiu ir um pouco mais longe no caminho \u00edngreme das subst\u00e2ncias alucin\u00f3genas. Ele tem a idade de um hippie, mas simplesmente nunca ousou experiment\u00e1-las na juventude. \u201cE foi quase melhor assim\u201d, diz ele, \u201cs\u00e3o drogas que conv\u00eam tomar quando voc\u00ea j\u00e1 tem a cabe\u00e7a completamente mobiliada\u201d.<\/p>\n<section id=\"sumario_1|html\" class=\"sumario_html izquierda\"><a name=\"sumario_1\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\">\u201cNunca ousei experiment\u00e1-las na juventude. Foi melhor assim, pois s\u00e3o drogas que conv\u00eam tomar quando se \u00e9 adulto\u201d<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pollan n\u00e3o \u00e9 um psiconauta ultrapassado, nem o t\u00edpico autor de literatura enteog\u00eanica (sem d\u00favida, um g\u00eanero \u00e0 parte), mas um jornalista conhecido principalmente por longos artigos investigativos que publica em alguns dos mais prestigiados ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o dos\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/estados_unidos\/a\">Estados Unidos<\/a>\u00a0que logo transforma em livros sobre a ind\u00fastria agroalimentar (<em>O Dilema do On\u00edvoro<\/em>), a obsess\u00e3o contempor\u00e2nea pela alimenta\u00e7\u00e3o (<em>O Detetive no Supermercado<\/em>) ou as virtudes de cozinhar, de prefer\u00eancia em fam\u00edlia, para al\u00e9m do c\u00edrculo insuport\u00e1vel da gastronomia (<em>Cozinhar \u2013 Uma Hist\u00f3ria Natural da Transforma\u00e7\u00e3o<\/em>, que tamb\u00e9m \u00e9 uma s\u00e9rie da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/netflix\">Netflix<\/a>). Costuma ser definido como um \u201cativista alimentar\u201d por seu interesse nas implica\u00e7\u00f5es \u201cpol\u00edticas e ambientais\u201d do ato de comer. Colaborou como assessor da Administra\u00e7\u00e3o Obama e h\u00e1 uma m\u00e1xima sua que fez tanta fortuna que o perseguir\u00e1 sempre: \u201cComa alimentos [de verdade]. Especialmente verduras. Com modera\u00e7\u00e3o\u201d. Em 2010, Pollan foi inclu\u00eddo na lista dos 100 personagens mais influentes do ano da revista\u00a0<em>Time<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando lhe digo que agora \u00e9 mais prov\u00e1vel que seja escolhido pela publica\u00e7\u00e3o\u00a0<em>High Times<\/em>, b\u00edblia nova-iorquina da cultura da\u00a0<em>cannabis<\/em>, ele ri e faz uma confiss\u00e3o: \u201cUma das raz\u00f5es que me levaram a escrever\u00a0<em>Como Mudar Sua Mente<\/em>, embora s\u00f3 tenha percebido isso depois, \u00e9 que meu pai [a quem o livro \u00e9 dedicado] tinha c\u00e2ncer. Ele morreu em janeiro. Nunca entendi como estava processando a imin\u00eancia da morte: aos 88 anos, foi perdendo a mem\u00f3ria e quando estava em seu ju\u00edzo perfeito n\u00e3o queria falar sobre o que estava acontecendo. Eu me dediquei a satisfazer minha necessidade de entender com outros pacientes que estava entrevistando para o livro\u201d. No ensaio, Pollan d\u00e1 conta dos \u201cincr\u00edveis resultados dos estudos com psilocibina para o c\u00e2ncer nas universidades Johns Hopkins e de Nova York, que tinham sido publicados [em 2016] em uma edi\u00e7\u00e3o especial do\u00a0<em>Journal of Psychopharmacology<\/em>\u00a0(&#8230;). Cerca de 80% dos pacientes apresentaram diminui\u00e7\u00f5es clinicamente significativas da ansiedade e da depress\u00e3o medidas de maneiras convencionais, um efeito que durou pelo menos seis meses ap\u00f3s a sess\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 v\u00e1rias fotografias de seu pai, advogado e homem de m\u00faltiplos talentos, na sala elegante \u2014 com seu jeito entre tribal e dos anos setenta\u00a0\u2014 em que a entrevista foi realizada. O encontro foi em setembro, em Nova York, na casa de Corky, a m\u00e3e, num desses refinados apartamentos da Park Avenue, na parte alta de Manhattan, onde o porteiro anuncia a chegada das visitas por telefone. Para l\u00e1 se mudou o jovem Pollan em 1971. Agora ele vive com a esposa, Judith, pintora, professora e autora de algumas das pinturas abstratas que adornam a casa da sogra, entre Berkeley, localidade californiana que foi o epicentro da revolu\u00e7\u00e3o hippie, e Cambridge, lar da excel\u00eancia educacional de Harvard. Quando n\u00e3o est\u00e1 escrevendo, Pollan d\u00e1 aulas de jornalismo cient\u00edfico e escrita criativa de n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o em ambas as universidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma noite, cerca de 10 anos atr\u00e1s, durante um jantar com amigos em Berkeley, ouviu a hist\u00f3ria de uma das convidadas, \u201cuma psic\u00f3loga proeminente\u201d, e suas rec\u00e9m-descobertas experi\u00eancias com LSD, que considerava \u201cintelectualmente estimulantes e valiosas para o seu trabalho\u201d. Pollan perguntou se ela pretendia compartilhar essas descobertas com seus colegas. A mulher olhou para ele como se contemplasse o desvario de um louco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dia seguinte, o jornalista remexeu em sua caixa de entrada at\u00e9 encontrar um artigo cient\u00edfico que um tal Bob Jesse lhe enviara alguns anos antes e ao qual ele n\u00e3o tinha prestado muita aten\u00e7\u00e3o. O artigo reunia as conclus\u00f5es de um estudo da Johns Hopkins realizado com 30 pacientes sem experi\u00eancia lis\u00e9rgica pr\u00e9via que receberam \u201cuma dose sint\u00e9tica significativa\u201d dessa droga ou um placebo ativo. Era intitulado:\u00a0<em>A Psilocibina Pode Ocasionar Experi\u00eancias de Tipo M\u00edstico com um Significado Pessoal Substancial e Sustentado e uma Grande Import\u00e2ncia Espiritual<\/em>, e pretendia demonstrar exatamente isso, o potencial dos cogumelos alucin\u00f3genos para aqueles que buscavam um pouco de transcend\u00eancia. Pollan ficou surpreso com o uso de palavras como \u201cm\u00edstico\u201d ou \u201cespiritual\u201d em um ambiente normalmente emp\u00edrico. \u201cCoincidiu com um momento em que sentia que n\u00e3o tinha nada de novo a dizer sobre comida\u201d, recorda. \u201cEnt\u00e3o resolvi parar o que estava fazendo e comecei a investigar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O autor considera aquele teste cl\u00ednico um dos marcos iniciais da viagem de retorno da psicodelia \u00e0 respeit\u00e1vel superf\u00edcie m\u00e9dica. Os outros dois, ambos de 2006, s\u00e3o a comemora\u00e7\u00e3o na Su\u00ed\u00e7a do centen\u00e1rio do nascimento de Albert Hofmann, descobridor do LSD (que morreu aos 102 anos), e a decis\u00e3o un\u00e2nime da Suprema Corte dos Estados Unidos de permitir que uma pequena seita importasse do Brasil a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2015\/11\/06\/ciencia\/1446809463_803822.html\">ayahuasca, po\u00e7\u00e3o alucin\u00f3gena<\/a>\u00a0usada em seus rituais e que cont\u00e9m DMT, uma subst\u00e2ncia ilegal (os ju\u00edzes preferiram a liberdade religiosa \u00e0 proibi\u00e7\u00e3o aos narc\u00f3ticos). Assim, inadvertidamente, come\u00e7ou o renascimento da pesquisa cient\u00edfica em torno das drogas psicod\u00e9licas, uma \u201cmudan\u00e7a cultural\u201d que tem suas resist\u00eancias. \u201cOuvi m\u00e9dicos da Universidade de Nova York dizerem que muitos de seus colegas oncologistas se opunham \u00e0 administra\u00e7\u00e3o de alucin\u00f3genos aos seus pacientes com c\u00e2ncer\u201d, explica Pollan. \u201cN\u00e3o gosto da ideia de dar crack a eles, disseram, o que demonstra acima de tudo uma grande ignor\u00e2ncia.\u201d<\/p>\n<section id=\"sumario_4|foto\" class=\"sumario_foto centro\"><a name=\"sumario_4\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2018\/10\/22\/eps\/1540216778_993145_1540224974_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2018\/10\/22\/eps\/1540216778_993145_1540224974_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2018\/10\/22\/eps\/1540216778_993145_1540224974_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2018\/10\/22\/eps\/1540216778_993145_1540224974_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"O novo ap\u00f3stolo da psicodelia\" width=\"980\" height=\"668\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">ERIK TANNER<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os detalhes da g\u00eanese da primeira onda psicod\u00e9lica s\u00e3o, como parte da grande hist\u00f3ria da contracultura, mais conhecidos que os da segunda. Albert Hofmann sintetizou o LSD por acaso em 1938, em um laborat\u00f3rio em Basel (<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/suiza\">Su\u00ed\u00e7a<\/a>), mas somente cinco anos mais tarde, quando experimentou a poderosa subst\u00e2ncia (uma \u00fanica gota \u00e9 suficiente para abalar a consci\u00eancia durante cerca de 10 horas). Naquele dia, Hofmann foi para casa de bicicleta. Durante aquela viagem inaugural, verificou pela primeira vez os efeitos inesperados de sua criatura. A nova droga, que \u00e9 legalmente exportada para os Estados Unidos pelo laborat\u00f3rio su\u00ed\u00e7o Sandoz, gozou de uma saud\u00e1vel reputa\u00e7\u00e3o mais ou menos na mesma \u00e9poca em que a experi\u00eancia com cogumelos mexicanos de um banqueiro de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/nueva_york\">Nova York<\/a>, R. Gordon Wasson, ocupou a capa da revista\u00a0<em>Life<\/em>\u00a0(que na \u00e9poca tinha uma tiragem de 5,7 milh\u00f5es de exemplares). Foram os anos da lua de mel entre os alucin\u00f3genos e a opini\u00e3o p\u00fablica norte-americana. Duas mol\u00e9culas poderosas, a dietilamida do \u00e1cido lis\u00e9rgico e a psilocibina usada no M\u00e9xico e na\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/centroamerica\">Am\u00e9rica Central<\/a>h\u00e1 centenas de anos, deixaram uma marca profunda na hist\u00f3ria social, cultural e pol\u00edtica do s\u00e9culo XX, do escritor Aldous Huxley, um entusiasta de primeira hora, ao ator Cary Grant, que cantou as virtudes de uma boa viagem (na verdade, ele se submeteu a 60 sess\u00f5es, no final das quais sentiu como \u201ca tristeza e a vaidade desapareciam\u201d, segundo disse em uma entrevista em 1959).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O\u00a0<em>establishment<\/em>\u00a0psiqui\u00e1trico via pela frente um horizonte de possibilidades enquanto Richard Alpert e o extrovertido Timothy Leary faziam experimentos com psilocibina na Universidade de Harvard, que foram proibidos depois de um esc\u00e2ndalo na imprensa em 1963. Aqui Pollan situa o fim da \u00e9poca de ouro da pesquisa com psicotr\u00f3picos, que at\u00e9 1977 sobreviveu sigilosamente em uma unidade psiqui\u00e1trica do Estado de Maryland para \u201ctratar o alcoolismo, a esquizofrenia e o mal-estar existencial de pacientes com c\u00e2ncer\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os historiadores da d\u00e9cada de sessenta costumam definir o que veio depois de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/universidad_harvard\">Harvard<\/a>\u00a0com uma imagem eficaz: as drogas psicod\u00e9licas saltaram do laborat\u00f3rio para capturar os sonhos e os pesadelos de uma gera\u00e7\u00e3o que descobriu no LSD um rito de passagem fascinante, assustador e radicalmente diferente das inicia\u00e7\u00f5es pelas quais seus pais haviam passado. A coisa j\u00e1 flu\u00eda fora de controle quando em janeiro de 1967, ano do ver\u00e3o do amor, cerca de 25.000 hippies ouviram no festival Human Be-In, em San Francisco, o c\u00e9lebre convite \u201cTurn on, tune in and drop out\u201d (Se liga, sintoniza e desencana) da boca de Leary, talvez a figura mais controversa desta hist\u00f3ria; algu\u00e9m que em menos de uma d\u00e9cada passou de an\u00f4nimo professor com blazer a um fugitivo da lei com t\u00fanica e besta negra da sociedade norte-americana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando os Beatles \u2014 depois de suas pr\u00f3prias experi\u00eancias psicotr\u00f3picas\u00a0\u2014 mandaram um conselho camuflado para superar a vertigem inicial e se render a uma experi\u00eancia lis\u00e9rgica\u00a0\u2014 \u201cDesconecte sua mente, relaxe e flutue rio abaixo\u201d, cantava\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/john_lennon\">John Lennon<\/a>\u00a0em\u00a0<em>Tomorrow Never Knows<\/em>\u00a0\u2014, o LSD, j\u00e1 legalizado, era consumido com fins pouco cient\u00edficos por dezenas de milhares de jovens de cabelos compridos que tinham abandonado o ninho familiar em ritmo de rock psicod\u00e9lico em busca do sonho hippie. Leary foi considerado \u201co homem mais perigoso dos EUA\u201d (na defini\u00e7\u00e3o de Nixon), e \u2014 para aterrorizar os potenciais consumidores \u2014, imprensa, pais e professores divulgavam not\u00edcias falsas sobre rapazes que consumiram \u00e1cido e tinham ficado cegos olhando o sol. A hist\u00f3ria que convenceu o jovem Pollan a n\u00e3o se arriscar circulou no in\u00edcio dos anos setenta e garantia que o consumo de LSD podia \u201cdanificar os cromossomos\u201d.<\/p>\n<section id=\"sumario_2|html\" class=\"sumario_html izquierda\"><a name=\"sumario_2\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\">\u201cMuitos leitores com problemas me pediram ajuda para participar de um teste cl\u00ednico\u201d<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">No livro, o jornalista afirma que \u00e9 praticamente imposs\u00edvel morrer de overdose dessa droga ou de psilocibina, e que nenhuma das duas subst\u00e2ncias \u00e9 viciante. \u201cDepois de experiment\u00e1-las uma vez, os animais n\u00e3o procuram uma segunda dose, e o uso repetido por parte das pessoas reduz seu efeito. \u00c9 verdade que as experi\u00eancias aterrorizantes que algumas pessoas viveram com as drogas psicod\u00e9licas podem arrast\u00e1-las para estados psic\u00f3ticos, raz\u00e3o pela qual ningu\u00e9m com antecedentes familiares ou predisposi\u00e7\u00e3o para doen\u00e7as mentais deve tom\u00e1-las\u201d. Tamb\u00e9m \u00e9 verdade que as pessoas podem fazer coisas realmente est\u00fapidas sob sua influ\u00eancia. Coisas como atravessar a rua sem olhar, se jogar no vazio ou se suicidar. \u201cAs viagens ruins s\u00e3o muito reais e podem se tornar uma das experi\u00eancias mais dif\u00edceis da vida. Por isso \u00e9 importante saber o que pode acontecer quando essas drogas s\u00e3o usadas em situa\u00e7\u00f5es n\u00e3o controladas, sem prestar aten\u00e7\u00e3o na atitude e no lugar, ao contr\u00e1rio do que acontece em condi\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas, depois de um cuidadoso exame e sob supervis\u00e3o. Desde que a pesquisa controlada foi reativada a partir da d\u00e9cada de 1990, quase 1.000 volunt\u00e1rios receberam doses e nenhum \u00fanico evento adverso grave foi relatado\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui est\u00e1 uma quest\u00e3o chave: Pollan n\u00e3o fala em seu livro sobre o uso recreativo das drogas, nem sobre tom\u00e1-las para dar uma volta pelos bares, mas sobre seu uso sob supervis\u00e3o m\u00e9dica. \u201cO af\u00e3 evangelizador de Leary confundiu tudo ao apagar a fronteira entre a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/seccion\/ciencia\">ci\u00eancia<\/a>\u00a0e a festa\u201d, adverte. Os psiconautas mais viajados d\u00e3o grande import\u00e2ncia a dois conceitos: o\u00a0<em>set<\/em>\u00a0(estado mental em que se est\u00e1 no momento do consumo) e o\u00a0<em>setting<\/em>\u00a0(condi\u00e7\u00f5es ambientais). As experi\u00eancias descritas no livro s\u00e3o realizadas em locais semelhantes ao silencioso consult\u00f3rio de um dentista, com o paciente deitado, com fones de ouvido, m\u00fasica suave e uma m\u00e1scara para favorecer a introspec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 assim que se trabalha h\u00e1 anos em institui\u00e7\u00f5es como as universidades de Nova York, Los Angeles, Novo M\u00e9xico, Zurique ou o Imperial College de Londres, que tem um programa que estuda a influ\u00eancia dos psicoativos na atividade cerebral. Em setembro, especialistas da Johns Hopkins pediram \u00e0s autoridades norte-americanas que retirassem a psilocibina da rela\u00e7\u00e3o das drogas mais perigosas (onde figura desde 1970 ao lado da hero\u00edna) para coloc\u00e1-la ao lado do Valium e do Xanax na categoria IV de subst\u00e2ncias com baixo potencial de abuso ou depend\u00eancia. Para Pollan, a proibi\u00e7\u00e3o do uso cient\u00edfico das drogas psicod\u00e9licas durante d\u00e9cadas como consequ\u00eancia dos excessos dos\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/hippies\">hippies<\/a>\u00a0nos anos sessenta \u00e9 como se tivessem feito desaparecer a morfina do arm\u00e1rio de medicamentos dos m\u00e9dicos em resposta aos estragos da hero\u00edna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em\u00a0<em>Como Mudar Sua Mente<\/em>\u00a0desfila uma galeria de personagens exc\u00eantricos que passaram suas vidas lutando para mudar isso: al\u00e9m de Hofmann e Leary, o leitor descobre figuras como Paul Stamets, que confia na intelig\u00eancia dos cogumelos (e n\u00e3o s\u00f3 dos alucin\u00f3genos) para salvar o mundo (ele tem uma palestra no TED que ultrapassou 4,5 milh\u00f5es de visitas); Al Hubbard, que introduziu cerca de 6.000 pessoas no LSD entre 1951 e 1966 e ajudou a definir o protocolo terap\u00eautico que permanece at\u00e9 hoje; e Myron Stolaroff, que deixou um cargo de dire\u00e7\u00e3o na Ampex, empresa pioneira de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/silicon_valley\">Silicon Valley<\/a>, para se dedicar \u00e0 pesquisa lis\u00e9rgica. O ensaio \u00e9 tamb\u00e9m um testemunho da obstina\u00e7\u00e3o da gera\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>baby boom<\/em>, nascida durante a bonan\u00e7a que se seguiu \u00e0\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/segunda_guerra_mundial\">Segunda Guerra Mundial<\/a>. Muitos daqueles que se envolveram com estas subst\u00e2ncias pela primeira vez tamb\u00e9m est\u00e3o por tr\u00e1s do ressurgimento dos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de ouvir hist\u00f3rias de experi\u00eancias \u201cm\u00edsticas e cheias de significado\u201d de uma d\u00fazia de pessoas, Pollan se sentiu preparado para vencer o medo e provar \u201csob supervis\u00e3o\u201d uma dose alta de tr\u00eas subst\u00e2ncias: LSD, psilocibina e DMT. No livro ele deixa de fora drogas sobre as quais n\u00e3o existem estudos cient\u00edficos, como a ayahuasca (que est\u00e1 experimentando um boom tamb\u00e9m fora dos pa\u00edses da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/sudamerica\">Am\u00e9rica do Sul<\/a>, onde \u00e9 usada h\u00e1 s\u00e9culos) ou microdoses de LSD, cujo ritual \u2014 tomar em dias alternados quantidades impercept\u00edveis da subst\u00e2ncia\u00a0\u2014 faz furor no Silicon Valley como ferramenta para melhorar o desempenho e a criatividade. (Pollan v\u00ea nisto uma l\u00f3gica perversa: \u201c\u00c9 a manobra t\u00edpica do capitalismo, pegam uma droga como o LSD, com um alto poder subversivo e anti-hier\u00e1rquico, e a transformam em algo produtivo e \u00fatil, como tomar um caf\u00e9\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para as suas viagens, explica o jornalista, teria preferido participar como volunt\u00e1rio em um dos testes experimentais de uma universidade que estivesse \u201cperto do pronto-socorro de um hospital\u201d, mas estes n\u00e3o aceitam \u201cpessoas de sa\u00fade normal\u201d. Ele teve de recorrer ao grupo subterr\u00e2neo dos orientadores psicod\u00e9licos que trabalham na clandestinidade; prepararam os volunt\u00e1rios, os acompanham durante a experi\u00eancia e lhes d\u00e3o conselhos a posteriori para assimilarem o vivido. Ele contou com a ajuda de Fritz, um alem\u00e3o que vive nas montanhas; Mary, \u201cuma mulher de sessenta e poucos anos, s\u00f3bria e compassiva\u201d, e Roc\u00edo, \u201cterapeuta mexicana de 35 anos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cap\u00edtulo em que conta isto, intitulado Di\u00e1rio de Viagem, \u00e9 \u201co mais pessoal\u201d que j\u00e1 escreveu, acostumado como jornalista a falar mais sobre o que acontece com os outros do que a respeito do que acontece em sua mente. Em seus experimentos, ele descreve \u201cuma torrente de amor\u201d por todos os membros de sua fam\u00edlia, se funde com uma su\u00edte para violoncelo de Bach e sente desaparecer, \u201cdesintegrado em uma nuvem de confetes por uma for\u00e7a explosiva que n\u00e3o p\u00f4de localizar\u201d em sua cabe\u00e7a. Essas p\u00e1ginas tamb\u00e9m est\u00e3o entre as mais embara\u00e7osas do livro. Como quando descreve um desejo de urinar no meio de uma viagem. \u201cO arco de l\u00edquido que emiti era, realmente, a coisa mais linda que tinha visto na vida, uma cascata de diamantes caindo em uma piscina, rompendo sua superf\u00edcie em um bilh\u00e3o de sonoros fractais de luz\u201d, anota. \u201cMe obriguei a n\u00e3o me deixar vencer pela vergonha\u201d, desculpou-se durante a entrevista. \u201cN\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil narrar uma experi\u00eancia em ess\u00eancia inef\u00e1vel. E depois tem o fato de que a maior parte do meu p\u00fablico nunca passou por isso, ent\u00e3o eu tive de ser muito did\u00e1tico\u201d. A partir da leitura de suas aventuras, fica a sensa\u00e7\u00e3o de que Pollan, que n\u00e3o voltou a experimentar drogas novamente, permanece \u00e0s portas da experi\u00eancia m\u00edstica que estava procurando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao medo de alienar seus seguidores, mais acostumados a ler seus textos sobre o cultivo extensivo de milho em Iowa ou o lento cozimento da carne de porco, foram acrescentadas as preocupa\u00e7\u00f5es legais. \u201cTinha medo de colocar os orientadores em risco\u201d. Antes da publica\u00e7\u00e3o, revisou o texto \u201ccom dois advogados\u201d. O ensaio foi publicado nos Estados Unidos em maio, com ampla repercuss\u00e3o na imprensa e uma \u201csurpreendente recep\u00e7\u00e3o cr\u00edtica e comercial\u201d. \u201cE isso que diziam que livros sobre drogas n\u00e3o vendem bem\u201d, comenta. \u201cRecebi muitos telefonemas e mensagens de leitores que sofrem de ansiedade,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/depresion\">depress\u00e3o<\/a>, medo ou algum tipo de v\u00edcio, e que me pedem ajuda para saber como participar de um experimento. Neste momento, receio, a demanda supera em muito a oferta\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perguntado se acha que essa recep\u00e7\u00e3o confirma que o renascimento psicod\u00e9lico \u00e9 um fen\u00f4meno sem volta, responde: \u201cDiria que sim, especialmente por causa da crise mundial de sa\u00fade mental que estamos vivendo. Precisamos de respostas alternativas. N\u00e3o houve nenhum avan\u00e7o relevante nesse campo desde a descoberta dos\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/antidepresivos\">antidepressivos<\/a>\u00a0no fim da d\u00e9cada de oitenta. Estamos mais perto do dia em que o uso medicinal das drogas psicod\u00e9licas ser\u00e1 permitido do que quando comecei o livro\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para tanto, poderia ajudar, acrescenta, o fato de que no contexto da guerra contra as drogas as psicod\u00e9licas est\u00e3o longe da primeira linha de batalha de subst\u00e2ncias como os opi\u00e1ceos ou a coca\u00edna. \u201cAs empresas farmac\u00eauticas tampouco parecem ansiosas para entrar: n\u00e3o s\u00e3o rent\u00e1veis, n\u00e3o h\u00e1 patentes para explorar e n\u00e3o podem ser tomadas todos os dias. E j\u00e1 se sabe: as grandes empresas est\u00e3o muito mais interessadas nas drogas de que voc\u00ea depende todos os dias\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/article>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hist\u00f3rias como esta convenceram o jornalista norte-americano Michael Pollan a colocar em jogo sua consider\u00e1vel reputa\u00e7\u00e3o em um assunto certamente delicado: um estudo sobre o renascimento do uso cient\u00edfico das subst\u00e2ncias psicod\u00e9licas em pacientes como Mettes. 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