{"id":264485,"date":"2018-11-20T10:43:58","date_gmt":"2018-11-20T13:43:58","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=264485"},"modified":"2018-11-20T10:43:58","modified_gmt":"2018-11-20T13:43:58","slug":"consciencia-negra-escravidao-e-o-assunto-mais-importante-da-historia-brasileira-diz-laurentino-gomes-apos-percorrer-africa-para-trilogia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/consciencia-negra-escravidao-e-o-assunto-mais-importante-da-historia-brasileira-diz-laurentino-gomes-apos-percorrer-africa-para-trilogia\/","title":{"rendered":"Consci\u00eancia Negra: &#8216;Escravid\u00e3o \u00e9 o assunto mais importante da hist\u00f3ria brasileira&#8217;, diz Laurentino Gomes ap\u00f3s percorrer \u00c1frica para trilogia"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"byline\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"byline__name\">Vin\u00edcius Mendes<\/span><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/114EA\/production\/_104409807_f1b8a3b4-e1e0-416a-a022-4c2b76c41d97.jpg\" alt=\"Laurentino e um guia local na praia de Ouid\u00e1, ponto de embarque de escravos no Benim, oeste da \u00c1frica\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span>Laurentino e um guia local na praia de Ouid\u00e1, ponto de embarque de escravos no Benim, oeste da \u00c1frica<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\" style=\"text-align: justify;\">Quando estava pesquisando sobre a chegada da fam\u00edlia real portuguesa ao Brasil para escrever o best-seller\u00a0<i>1808<\/i>, lan\u00e7ado em 2007, o escritor Laurentino Gomes acreditava que ali n\u00e3o estava contemplada a grande hist\u00f3ria brasileira. &#8220;A\u00a0<a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/topics\/9062bf9d-2d07-4204-bf3b-1eb1bcbbc269\">escravid\u00e3o<\/a>\u00a0\u00e9 que \u00e9 o nosso principal assunto. Imposs\u00edvel compreender o pa\u00eds, tanto do passado quanto do futuro, sem voltarmos \u00e0s ra\u00edzes africanas&#8221;, disse \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais de uma d\u00e9cada depois do lan\u00e7amento do livro (o primeiro de uma trilogia sobre o imp\u00e9rio brasileiro, seguido por\u00a0<i>1822<\/i>\u00a0e\u00a0<i>1889<\/i>), Laurentino Gomes passou a trabalhar no &#8220;assunto mais importante de toda a hist\u00f3ria brasileira&#8221; para uma nova trilogia\u00a0<a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/topics\/03eb3674-6190-4cd7-8104-1a00991d67a3\">hist\u00f3rica<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro livro, com lan\u00e7amento previsto no segundo semestre do ano que vem, se passa entre o primeiro leil\u00e3o de escravos africanos enviados \u00e0s Am\u00e9ricas, organizado em Portugal ainda no s\u00e9culo 16, at\u00e9 a morte do escravo pernambucano Zumbi dos Palmares, decapitado em 20 de novembro de 1695 &#8211; em 2003, o governo federal decretou a data como feriado nacional da Consci\u00eancia Negra. O texto j\u00e1 foi conclu\u00eddo e enviado para a editora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O segundo, previsto para sair em 2020, vai cobrir todo o s\u00e9culo 18, considerado o auge do tr\u00e1fico negreiro da \u00c1frica para as Am\u00e9ricas. Em 2021 deve sair a obra final, abordando a crise da estrutura escravista brasileira e a Lei \u00c1urea, assinada pela princesa Isabel em maio de 1888. Estima-se que 4,8 milh\u00f5es de africanos escravizados chegaram ao Brasil entre os s\u00e9culos 16 e 19.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo o escritor, &#8220;a participa\u00e7\u00e3o dos africanos no tr\u00e1fico de escravos se tornou um tema politicamente explosivo no Brasil&#8221;. Para ele, &#8220;o fato de chefes africanos terem participado do tr\u00e1fico nada tem a ver com a enorme d\u00edvida social e real que o Brasil tem com os seus afrodescendentes&#8221;. &#8220;N\u00e3o se pode culpar os escravos pela sua pr\u00f3pria escravid\u00e3o&#8221;, falou Gomes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tema foi motivo de pol\u00eamica durante a campanha presidencial de 2018, devido declara\u00e7\u00e3o do ent\u00e3o candidato Jair Bolsonaro de que os\u00a0<a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-45092235\">portugueses n\u00e3o entraram na \u00c1frica para capturar escravos<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Basta ver as estat\u00edsticas, onde a nossa popula\u00e7\u00e3o negra aparece como a parcela da sociedade com menos oportunidades e a que mais sofre com a desigualdade social cr\u00f4nica. Precisamos corrigir isso urgentemente, e n\u00e3o podemos nos esconder atr\u00e1s de falsas e incorretas discuss\u00f5es a respeito de fatos hist\u00f3ricos&#8221;, afirmou o escritor.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/171C\/production\/_104361950_nypl.digitalcollections.510d47db-c310-a3d9-e040-e00a18064a99.001.w.jpg\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia contra escravos: um a\u00e7oite a escravo amarrado em tronco, com n\u00e1degas ensanguentadas\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>&#8216;O fato de chefes africanos terem participado do tr\u00e1fico na \u00c1frica nada tem a ver com a enorme d\u00edvida social e real que o Brasil tem com os seus afrodescendentes&#8217;, diz Gomes<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para escrever os novos livros, Laurentino Gomes passou seis meses em 2017 viajando por Angola, Cabo Verde, Mo\u00e7ambique, Senegal, Gana, Benim, Marrocos e \u00c1frica do Sul, al\u00e9m do per\u00edodo de pesquisas e entrevistas em Lisboa, capital portuguesa, onde vive h\u00e1 alguns anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos meses em que viajou pela \u00c1frica, Laurentino admite que descobriu realidades diferentes do que esperava. Para al\u00e9m do futebol e da m\u00fasica, por exemplo, que s\u00e3o idolatrados na maior parte do continente, ele percebeu que o Brasil \u00e9 um &#8220;parente&#8221; distante do qual eles queriam estar mais perto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;N\u00e3o observei qualquer tra\u00e7o de ressentimento ou cobran\u00e7a relacionados \u00e0 hist\u00f3ria da escravid\u00e3o. Ao contr\u00e1rio: se pudessem, os africanos estariam mais pr\u00f3ximos dos brasileiros do que s\u00e3o hoje&#8221;, conta. Mas tamb\u00e9m lamenta: &#8220;H\u00e1 ainda muito preconceito no Brasil em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00c1frica, \u00e9 uma pena&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A seguir, trechos da entrevista que Laurentino Gomes concedeu \u00e0 BBC News Brasil sobre a nova trilogia e as viagens pela \u00c1frica:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; Como a hist\u00f3ria sobre a escravid\u00e3o africana para as Am\u00e9ricas \u00e9 contada hoje nos pa\u00edses africanos que voc\u00ea visitou?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Laurentino Gomes &#8211;<\/strong>\u00a0Existem algumas distor\u00e7\u00f5es parecidas com o estudo e o ensino oficial da escravid\u00e3o fora da \u00c1frica. L\u00e1 estuda-se e discute-se pouco o papel dos pr\u00f3prios africanos no processo de escraviza\u00e7\u00e3o, com uma \u00eanfase muito grande no papel dos europeus, dos traficantes e dos compradores de cativos que estavam na Am\u00e9rica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os africanos s\u00e3o apontados nos discursos hegem\u00f4nicos como v\u00edtimas do regime escravista. De fato, pelo menos 12 milh\u00f5es de prisioneiros africanos foram v\u00edtimas do tr\u00e1fico, porque cruzaram o Oceano Atl\u00e2ntico como escravos a bordo dos navios negreiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas h\u00e1 ainda uma lacuna que precisa ser preenchida, e que diz respeito ao papel dos chefes africanos aliados aos traficantes europeus e brasileiros, que capturavam pessoas no interior do continente e os vendiam depois no litoral. Esses chefes se enriqueceram muito com isso, tanto \u00e9 que grande parte da elite africana atual \u00e9 herdeira desses comerciantes de escravos nativos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; O presidente eleito, Jair Bolsonaro, disse durante a campanha que os portugueses n\u00e3o entraram na \u00c1frica para capturar escravos. Como o senhor v\u00ea essa afirma\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Gomes &#8211;<\/strong>\u00a0A participa\u00e7\u00e3o dos africanos no tr\u00e1fico de escravos se tornou um tema politicamente explosivo no Brasil. Obviamente, os portugueses entraram, sim, na \u00c1frica. Ocuparam e colonizaram Angola, por exemplo, um territ\u00f3rio enorme naquela \u00e9poca, para abastecer o tr\u00e1fico negreiro para as Am\u00e9ricas. Mas essa discuss\u00e3o pode ter consequ\u00eancias pol\u00edticas muito ruins atualmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muita gente afirma que, se os africanos participaram e lucraram com a escravid\u00e3o, n\u00e3o haveria raz\u00e3o para manter no Brasil um sistema de cotas de inclus\u00e3o dos afrodescendentes em escolas, universidades ou postos da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica. A chamada &#8220;d\u00edvida social&#8221; brasileira em rela\u00e7\u00e3o aos descendentes de escravos estaria anulada pelo fato de os africanos serem co-respons\u00e1veis pelo regime escravista. Desse modo, n\u00e3o haveria porque indeniz\u00e1-los ou compens\u00e1-los pelos preju\u00edzos sociais e hist\u00f3ricos decorrentes disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo isso \u00e9 muito injusto porque, obviamente, n\u00e3o se pode culpar os escravos pela pr\u00f3pria escravid\u00e3o. O fato de chefes africanos terem participado do tr\u00e1fico nada tem a ver com a enorme d\u00edvida social e real que o Brasil tem com os seus afrodescendentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Basta ver as estat\u00edsticas, onde a nossa popula\u00e7\u00e3o negra aparece como a parcela da sociedade com menos oportunidades e a que mais sofre com a desigualdade social cr\u00f4nica. Precisamos corrigir isso urgentemente e n\u00e3o podemos nos esconder atr\u00e1s de falsas e incorretas discuss\u00f5es a respeito de fatos hist\u00f3ricos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m de tudo isso, h\u00e1 um enorme equ\u00edvoco conceitual nesse tipo de racioc\u00ednio, porque dizer hoje que africanos escravizavam africanos \u00e9 o que os historiadores chamam de anacronismo, ou seja, o uso indevido de valores e refer\u00eancias de uma \u00e9poca para julgar ou avaliar personagens ou acontecimentos de outro per\u00edodo hist\u00f3rico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A no\u00e7\u00e3o de uma identidade pan-africana, que unisse os habitantes de todo o continente, ainda n\u00e3o existia nos tempos do tr\u00e1fico de escravos. Ningu\u00e9m se reconhecia como africano, at\u00e9 porque a \u00c1frica sempre foi um territ\u00f3rio de grande diversidade e de riqueza culturais diversas, habitado por uma mir\u00edade de povos, etnias, na\u00e7\u00f5es, linhagens e reinos que frequentemente estavam envolvidos em guerras e disputas territoriais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aceitar, portanto, a ideia de uma identidade continental naquele tempo seria o equivalente a imaginar que, antes da chegada de Cabral \u00e0 Bahia, um \u00edndio guarani do sul do Brasil identificasse como irm\u00e3o pan-americano um \u00edndio navajo, dos Estados Unidos, ou um asteca, do M\u00e9xico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; Como Portugal lida hoje com seu papel central de articula\u00e7\u00e3o desse mercado de escravos do passado?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Gomes &#8211;<\/strong>\u00a0H\u00e1 uma discuss\u00e3o enorme e passional entre os portugueses sobre o passado escravagista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tempos atr\u00e1s, a inaugura\u00e7\u00e3o de uma est\u00e1tua em homenagem ao padre Ant\u00f4nio Vieira foi alvo de protestos em Lisboa. O motivo foi que Vieira \u00e9 hoje considerado um defensor da escravid\u00e3o africana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Obviamente, a hist\u00f3ria \u00e9 din\u00e2mica e conceitos que valem hoje certamente n\u00e3o valiam no passado. Seria injusto julgar personagens e acontecimentos do passado com os olhos, os valores e as refer\u00eancias de hoje. Mas eu acho que h\u00e1 um lado saud\u00e1vel nisso: o de chamar a aten\u00e7\u00e3o para o problema do legado da escravid\u00e3o entre n\u00f3s.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/2512\/production\/_104409490_14405e51-cfef-4f9c-997e-8f89c46322ad.jpg\" alt=\"Rua Brasil, em Acra, capital de Gana. A Rua fica no bairro do Tabons, comunidade de descendentes de escravos do Brasil que retornaram para a \u00c1frica\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Rua Brasil, em Acra, capital de Gana. A Rua fica no bairro do Tabons, comunidade de descendentes de escravos do Brasil que retornaram para a \u00c1frica<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; Como o Brasil \u00e9 visto hoje nos pa\u00edses africanos de onde partiram escravos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Gomes &#8211;\u00a0<\/strong>Em todas as minhas cinco viagens por oito pa\u00edses africanos eu, como brasileiro, me senti sempre muito bem acolhido e bem tratado. N\u00e3o observei qualquer tra\u00e7o de ressentimento ou cobran\u00e7a relacionados \u00e0 hist\u00f3ria da escravid\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Coisa bem diferente ocorre, por exemplo, com os angolanos em rela\u00e7\u00e3o aos portugueses, que hoje ainda s\u00e3o apontados como os principais culpados pelos grandes problemas do pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso acontece porque o chamado processo de &#8220;descoloniza\u00e7\u00e3o&#8221; ainda \u00e9 bem recente, j\u00e1 que a guerra contra Portugal pela independ\u00eancia acabou meio s\u00e9culo atr\u00e1s. O clima de m\u00e1 vontade de parte a parte \u00e9 ainda muito grande, mas em rela\u00e7\u00e3o ao Brasil isso n\u00e3o acontece.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao contr\u00e1rio: senti que, se dependesse dos africanos, a aproxima\u00e7\u00e3o seria maior do que a que temos hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; Muito se fala sobre os impactos da escravid\u00e3o africana na sociedade brasileira, mas voc\u00ea conseguiu captar esses efeitos nas sociedades atuais da \u00c1frica?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Gomes &#8211;\u00a0<\/strong>Existem estudos importantes feitos na \u00c1frica sobre o impacto da escravid\u00e3o na demografia do continente e tamb\u00e9m no processo de desenvolvimento posterior desses pa\u00edses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tr\u00e1fico de escravos drenou uma quantidade inacredit\u00e1vel de recursos humanos do continente africano e distorceu a economia e as rela\u00e7\u00f5es de poder nas sociedades afetadas pelo com\u00e9rcio de cativos, sem contar o fato de que regi\u00f5es inteiras do continente foram redesenhadas em raz\u00e3o do tr\u00e1fico de escravos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As marcas dessa hist\u00f3ria ainda todas l\u00e1, bem presentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; Muitos locais que outrora foram pontos centrais da escravid\u00e3o hoje s\u00e3o roteiros tur\u00edsticos, como os port\u00f5es de n\u00e3o retorno. Como voc\u00ea percebe esse tipo de turismo moderno?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Gomes &#8211;\u00a0<\/strong>Existem dezenas desses port\u00f5es nas cidades africanas, que simbolizam antigos portos de embarque dos escravos para a Am\u00e9rica. A mais famosa e fotografada fica na Ilha de Goreia, na Ba\u00eda de Dacar, capital do Senegal. Eles se orgulham com o fato de que diversas celebridades internacionais, incluindo o papa Jo\u00e3o Paulo 2\u00ba, o presidente norte-americano Barack Obama, e o sul-africano Nelson Mandela foram visit\u00e1-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das bases dos livros sobre a escravid\u00e3o \u00e9 o banco de dados\u00a0<a class=\"story-body__link-external\" href=\"http:\/\/www.slavevoyages.org\/\">Slave Voyages<\/a>, que cataloga mais de 37 mil viagens de navios negreiros ao longo de tr\u00eas s\u00e9culos e meio e registra um total de 188 portos de partida de cativos no continente africano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante desses n\u00fameros, acho importante a exist\u00eancia dos port\u00f5es hoje como pontos tur\u00edsticos, porque ajudam na reflex\u00e3o sobre a hist\u00f3ria da escravid\u00e3o. O ruim disso, para mim, \u00e9 que eles s\u00e3o pouco visitados por brasileiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; Quais s\u00e3o as influ\u00eancias do Brasil nos pa\u00edses africanos que voc\u00ea visitou para escrever o novo livro?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Gomes &#8211;<\/strong>\u00a0Brasil e \u00c1frica compartilham ra\u00edzes mais profundas do que se imagina. Fomos a maior sociedade escravagista do hemisf\u00e9rio Ocidental por mais de 300 anos e, al\u00e9m disso, 40% de todos os 12 milh\u00f5es de cativos africanos trazidos para as Am\u00e9ricas tiveram como destino nosso pa\u00eds. Por conta desses n\u00fameros expressivos, as marcas brasileiras s\u00e3o bem vis\u00edveis hoje no continente africano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Gana e no Benim, por exemplo, encontrei uma numerosa comunidade de descendentes de ex-escravos que voltaram durante o s\u00e9culo 19 e que, nas sociedades atuais, ocupam posi\u00e7\u00f5es importantes da hierarquia social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns deles foram ministros, governadores e chegaram at\u00e9 a ser presidentes. Esses ex-escravos retornados deixaram contribui\u00e7\u00f5es importantes na arquitetura, nas artes e nos costumes em diversos pa\u00edses africanos. Na cidade de Porto Novo, no Benim, h\u00e1 uma mesquita mu\u00e7ulmana com tra\u00e7os arquitet\u00f4nicos semelhantes \u00e0s igrejas cat\u00f3licas brasileiras, que foi constru\u00edda por escravos libertos da Bahia. O of\u00edcio deles no Brasil era justamente erguer templos cat\u00f3licos, e eles levaram a t\u00e9cnica de constru\u00e7\u00e3o para a \u00c1frica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas eu vi influ\u00eancia tamb\u00e9m na enorme audi\u00eancia que as novelas da Rede Globo t\u00eam nos pa\u00edses de l\u00ednguas portuguesa. \u00c9 t\u00e3o grande que elas chegam a mudar o sotaque e o modo de falar desses locais.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/4C22\/production\/_104409491_7c6c6494-9290-4b50-a1ef-c216a6a1d371.jpg\" alt=\"Mesquita com estilo arquitet\u00f4nico das igrejas cat\u00f3licas brasileiras constru\u00eddas por ex-escravos que voltaram ao Benim, no oeste da \u00c1frica\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Mesquita com estilo arquitet\u00f4nico das igrejas cat\u00f3licas brasileiras constru\u00eddas por ex-escravos que voltaram ao Benim, no oeste da \u00c1frica<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; Qual capital da \u00c1frica se parece mais com uma cidade brasileira de hoje?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Gomes &#8211;<\/strong>\u00a0Praia, capital de Cabo Verde, \u00e9 uma mistura de Salvador e Rio de Janeiro, com a presen\u00e7a constante da m\u00fasica da brasileira, especialmente a Bossa Nova, que \u00e9 muito forte entre os compositores e int\u00e9rpretes caboverdianos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Luanda, capital de Angola, lembra muito o Rio, incluindo as muitas favelas que comp\u00f5em a periferia pobre da cidade. O biotipo da pessoas, o jeito de falar e de se comportar tamb\u00e9m lembram muito o carioca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tive a mesma sensa\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Bahia quando fui para Gana, Senegal e Benim, de onde, por sinal, vieram muitos cativos africanos para trabalhar nos engenhos de a\u00e7\u00facar do Rec\u00f4ncavo Baiano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Benim, especialmente, me impressionou a quantidade de templos e s\u00edmbolos ligados \u00e0 pr\u00e1tica do candombl\u00e9. A culin\u00e1ria desses pa\u00edses tamb\u00e9m \u00e9 muito parecida com a nossa: marcada pelo uso de ingredientes como a pimenta-malagueta, a mandioca, o feij\u00e3o, o quiabo, o inhame e o milho. Qualquer brasileiro que visitar a \u00c1frica, pelo menos nessas regi\u00f5es, vai se sentir imediatamente em casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; Nesses pa\u00edses que visitou, voc\u00ea notou que o Brasil \u00e9 um destino de migrantes africanos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Gomes &#8211;\u00a0<\/strong>O Brasil ocupa esse lugar sim. A migra\u00e7\u00e3o para o Brasil ainda \u00e9 muito forte entre os angolanos, os nigerianos e os cabo verdianos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Encontrei muitas pessoas que j\u00e1 tinham morado e estudado no Brasil e conheci outras muitas com desejo de viver pelo menos algum tempo neste outro lado do Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fiquei bastante surpreso ao ver que os africanos t\u00eam muita informa\u00e7\u00e3o sobre o Brasil, acompanham de perto das not\u00edcias a nosso respeito e at\u00e9 se ressentem pelo fato de a rec\u00edproca n\u00e3o ser a mesma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s, aqui no Brasil, acompanhamos pouco o que acontece na \u00c1frica. O turismo daqui para l\u00e1 tamb\u00e9m \u00e9 muito reduzido. Muitos brasileiros preferem passar f\u00e9rias na Fl\u00f3rida, em Los Angeles e Las Vegas, nos Estados Unidos &#8211; que n\u00e3o t\u00eam nada a ver com a nossa cultura -, do que fazer uma visita, mesmo que r\u00e1pida e uma s\u00f3 vez na vida, aos pa\u00edses africanos em que est\u00e3o plantadas as nossas ra\u00edzes mais profundas. H\u00e1 ainda muito preconceito no Brasil em rela\u00e7\u00e3o a \u00c1frica, o que \u00e9 uma pena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; Voc\u00ea chegou a presenciar a rea\u00e7\u00e3o dos africanos \u00e0s elei\u00e7\u00f5es no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Gomes &#8211;\u00a0<\/strong>N\u00e3o, mas observei um grande desconforto em rela\u00e7\u00e3o ao que estava acontecendo ainda durante o governo Michel Temer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Brasil mant\u00e9m uma pol\u00edtica meio esquizofr\u00eanica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00c1frica, com surtos de aproxima\u00e7\u00e3o que se alternam com distanciamentos abruptos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u00faltimo desses surtos ocorreu durante os 14 anos de administra\u00e7\u00e3o petista, em que o governo brasileiro derramou muito dinheiro nos pa\u00edses africanos para obras de infraestrutura, usando como duto as empreiteiras que, mais tarde, estariam envolvidas na Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje \u00e9 s\u00f3 um distanciamento e at\u00e9 uma m\u00e1 vontade dos dois lados: encontrei obras paradas, projetos interrompidos e embaixadas e consulados com dificuldades at\u00e9 para pagar as contas, incluindo o aluguel, como resultado dos cortes do or\u00e7amento no Itamaraty. Entre os governos locais, at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s habituados a conviver com a generosidade do dinheiro do BNDES e de outras linhas de financiamentos brasileiras, impera agora uma franca revolta contra o governo do presidente Michel Temer, que fechou a torneira quando chegou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; O que mais o impressionou nessas viagens a \u00c1frica?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Gomes &#8211;\u00a0<\/strong>A presen\u00e7a chinesa que substituiu o v\u00e1cuo deixado pelo Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Encontrei projetos chineses espalhados por todos os lugares: em Cabo Verde, Angola e Mo\u00e7ambique &#8211; para citar apenas tr\u00eas dos pa\u00edses africanos de l\u00edngua portuguesa que visitei no meu trabalho de reportagens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o obras gigantescas identificadas com placas, tamb\u00e9m enormes, escritas em mandarim. A agressividade chinesa na \u00c1frica podia ser medida, entre outras provid\u00eancias, pela cria\u00e7\u00e3o do F\u00f3rum de Macau, organismo de coopera\u00e7\u00e3o com as na\u00e7\u00f5es lus\u00f3fonas na \u00c1frica, iniciativa que tem o \u00f3bvio prop\u00f3sito de se contrapor \u00e0 CPLP, a Comunidade dos Pa\u00edses de L\u00ednguas Portuguesa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Brasil, embora seja um dos fundadores da CPLP, nunca deu a devida import\u00e2ncia \u00e0 entidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; Como escritor de sucesso com a trilogia\u00a0<\/strong><strong><i>1808<\/i><\/strong><strong>,\u00a0<\/strong><strong><i>1822<\/i><\/strong><strong>\u00a0e\u00a0<\/strong><strong><i>1889<\/i><\/strong><strong>, qual \u00e9 a sua expectativa sobre as rea\u00e7\u00f5es em torno desse novo trabalho?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Gomes &#8211;<\/strong>\u00a0Acredito que a escravid\u00e3o seja o assunto mais importante de toda a hist\u00f3ria brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo que j\u00e1 fomos no passado, o que somos hoje e o que seremos no futuro tem a ver com as nossas ra\u00edzes africanas e a forma como nos relacionamos com elas. Minha trilogia segue a f\u00f3rmula dos meus livros anteriores, pelo uso de uma linguagem simples, f\u00e1cil de entender, capaz de atrair a aten\u00e7\u00e3o mesmo de leitores mais jovens e n\u00e3o habituados a estudar o tema. Mas espero dar uma contribui\u00e7\u00e3o pessoal para o desafio brasileiro de encarar a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria escravagista e dela tirar li\u00e7\u00f5es que nos ajudem a construir o futuro.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rua Brasil, em Acra, capital de Gana. 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