{"id":265024,"date":"2018-11-25T08:25:50","date_gmt":"2018-11-25T11:25:50","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=265024"},"modified":"2018-11-25T08:25:50","modified_gmt":"2018-11-25T11:25:50","slug":"a-cidade-brasileira-que-esta-no-centro-da-maior-cratera-de-asteroide-na-america-do-sul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/a-cidade-brasileira-que-esta-no-centro-da-maior-cratera-de-asteroide-na-america-do-sul\/","title":{"rendered":"A cidade brasileira que est\u00e1 no centro da maior cratera de asteroide na Am\u00e9rica do Sul"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"byline\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"byline__name\">Vin\u00edcius Lemos<\/span><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/4D29\/production\/_104435791_araguainha1.jpg\" alt=\"Parte das montanhas de Araguainha, na \u00e1rea central da cratera\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span>Parte das montanhas de Araguainha, na \u00e1rea central da cratera<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\" style=\"text-align: justify;\">In\u00fameras montanhas anunciam a chegada a Araguainha, Mato Grosso, a terceira cidade menos populosa do Brasil, com 956 habitantes. Na estrada de ch\u00e3o que leva ao munic\u00edpio, \u00e9 poss\u00edvel avistar rochas compostas por minerais que em outros lugares s\u00e3o encontrados somente no subsolo. Essa paisagem geogr\u00e1fica t\u00eam um motivo: Araguainha est\u00e1 localizada no centro da maior cratera causada por um asteroide na Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O impacto com o corpo celeste ocorreu h\u00e1 250 milh\u00f5es de anos e causou uma cicatriz de 40 quil\u00f4metros de di\u00e2metro &#8211; correspondente a uma \u00e1rea de, aproximadamente, 1,3 mil quil\u00f4metros quadrados. Na cratera caberia, por exemplo, a regi\u00e3o metropolitana de\u00a0<a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/topics\/91dfae31-dac6-4c48-8287-411182142c03\">S\u00e3o Paulo<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u00e1rea da colis\u00e3o do asteroide est\u00e1 dividida entre tr\u00eas cidades de Mato Grosso &#8211; onde est\u00e1 localizada 60% da cratera &#8211; e tr\u00eas do Estado vizinho, Goi\u00e1s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estudos apontam que o impacto pode ter provocado a maior extin\u00e7\u00e3o de vida na Terra &#8211; maior, inclusive, que a dos dinossauros. A colis\u00e3o teria destru\u00eddo, imediatamente, tudo o que estava num raio de at\u00e9 250 quil\u00f4metros e, posteriormente, gerado um r\u00e1pido e fatal aquecimento global, causando tsunamis e terremotos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O impacto foi indireto, diferente daquele asteroide que matou os dinossauros. A colis\u00e3o em Araguainha provocou um sismo enorme, respons\u00e1vel pela liquefa\u00e7\u00e3o dos sedimentos da Bacia do Paran\u00e1, lan\u00e7ando para a atmosfera uma grande quantidade de metano, um g\u00e1s com poderoso efeito de estufa, 60 vezes maior que o di\u00f3xido de carbono&#8221;, explica o ge\u00f3logo norte-americano Eric Tohver, um dos autores dos estudos e professor visitante da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como consequ\u00eancia, milh\u00f5es de seres vivos teriam morrido. Segundo os estudos, teriam sido extintas cerca de 90% das esp\u00e9cies de seres que habitavam o planeta. No per\u00edodo, a Terra era composta por r\u00e9pteis e anf\u00edbios. O desaparecimento de vida decorrente do meteorito de Araguainha, conforme pesquisadores, foi mais intenso que o fen\u00f4meno que levou \u00e0 extin\u00e7\u00e3o dos dinossauros, que ocorreu h\u00e1 65 milh\u00f5es de anos, tamb\u00e9m causado por um corpo celeste. Neste, foram extintas de 60% a 65% das esp\u00e9cies de seres vivos da Terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Mas \u00e9 importante ressaltar que essas afirma\u00e7\u00f5es de que o asteroide de Araguainha causou a maior extin\u00e7\u00e3o de vida na terra n\u00e3o foram comprovadas, ao menos por ora. Ent\u00e3o \u00e9 um pouco especulativo ainda&#8221;, diz Alvaro Cr\u00f3sta, professor de Geologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e estudioso sobre a cratera de Araguainha h\u00e1 mais de 40 anos.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/11079\/production\/_104435796_satelite-araguainha.jpg\" alt=\"A cratera de Araguainha vista por sat\u00e9lite; os pontilhados brancos no circulo mostram os 40 km de di\u00e2metro da cratera.\" width=\"1380\" height=\"1372\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>A cratera de Araguainha vista por sat\u00e9lite<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">O impacto do asteroide com a Terra<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os primeiros estudos sobre o tema apontam que o asteroide atingiu a regi\u00e3o no in\u00edcio do per\u00edodo Tri\u00e1ssico, de 250 a 201 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s, primeira fase da era Mesoz\u00f3ica &#8211; que posteriormente teve os per\u00edodos Jur\u00e1ssico e Cret\u00e1ceo -, conhecida como a &#8220;idade dos dinossauros&#8221;. Nesta \u00e9poca, os dinossauros ainda n\u00e3o existiam. Eles surgiram milh\u00f5es de anos depois, ainda durante o per\u00edodo Mesoz\u00f3ico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Quando o asteroide atingiu a regi\u00e3o em que hoje est\u00e1 Araguainha, havia r\u00e9pteis e anf\u00edbios. No per\u00edodo, alguns peixes estavam come\u00e7ando a rastejar&#8221;, explica Alvaro Cr\u00f3sta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O asteroide tinha pouco mais de 1,7 quil\u00f4metros de di\u00e2metro e atingiu a terra em uma velocidade de 15 a 18 quil\u00f4metros por segundo &#8211; maior que a de uma bala de canh\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo estudiosos, a regi\u00e3o atingida pelo asteroide era considerada uma plataforma mar\u00edtima continental, ou seja, um mar raso e com sedimentos depositados em seu interior. A \u00e1rea est\u00e1 localizada na Bacia Sedimentar do Paran\u00e1. Na \u00e9poca da colis\u00e3o, todos os continentes estavam agrupados em um s\u00f3, chamado Pangeia, que era circundado pelo oceano Phantalassa &#8211; atualmente o Pac\u00edfico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Em raz\u00e3o das dimens\u00f5es da rocha e da velocidade, a energia produzida pelo impacto formou uma cratera muito grande. Por ser um asteroide de grande dimens\u00e3o, ele se chocou, praticamente, sem ser freado pela atmosfera, que consegue alterar apenas corpos menores&#8221;, afirma o professor da Unicamp.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os r\u00e9pteis e os anf\u00edbios que viviam na regi\u00e3o foram afetados pelo impacto. &#8220;J\u00e1 havia, por exemplo, tubar\u00f5es. S\u00e3o formas de vida muito antigas&#8221;, diz Cr\u00f3sta. Segundo ele, todos seres que viviam na \u00e1rea ou nas proximidades do astroblema &#8211; como s\u00e3o definidas crateras de impacto deixadas na superf\u00edcie terrestre &#8211; foram atingidos pela colis\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O asteroide atingiu a Terra ao ser atra\u00eddo pela gravidade, assim como outros corpos celestes que ca\u00edram no planeta. &#8220;H\u00e1 milhares de asteroides, assim como cometas, vagando pelo universo. Eles t\u00eam \u00f3rbitas que, \u00e0s vezes, trazem esses corpos para perto da Terra. H\u00e1 uma for\u00e7a de atra\u00e7\u00e3o, que tem a ver com a gravidade de planetas como o nosso, que \u00e9 um grande corpo do sistema solar. Ent\u00e3o se um desses asteroides, ou cometas, se aproximar muito, acaba sendo atra\u00eddo pela gravidade da Terra&#8221;, explica Cr\u00f3sta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao se chocar com a Terra, o asteroide adentrou dois quil\u00f4metros e meio de profundidade. Com isso, al\u00e9m de formar montanhas e relevos, trouxe \u00e0 superf\u00edcie minerais que estavam abaixo do solo &#8211; como granito, turmalina, feldspato e hematita. Em muitas \u00e1reas do astroblema, \u00e9 comum encontrar tais minerais com facilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mineral mais comum na regi\u00e3o, por\u00e9m, \u00e9 outro: o ferro. &#8220;Entre Ponte Branca [que tamb\u00e9m est\u00e1 dentro do astroblema] e Araguainha h\u00e1 algo superior a 40 hectares de ferro. Isso acontece porque, normalmente, quando um meteorito cai em determinada regi\u00e3o, algum mineral acaba se tornando mais comum. No Canad\u00e1, por exemplo, foi n\u00edquel. Na \u00c1frica do Sul, o diamante&#8221;, diz Ruy Ojeda, do Instituto de Defesa Agropecu\u00e1ria do Estado e Mato Grosso (Indea).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra transforma\u00e7\u00e3o causada pelo asteroide \u00e9 que diversas rochas da regi\u00e3o possuem formatos distintos &#8211; muitos moradores, inclusive, guardam algumas delas em casa.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/6A1B\/production\/_104436172_81f19926-71b6-4c52-b1a0-6c2406553ade.jpg\" alt=\"Rocha guardada por um dos moradores da cidade, que acredita que ela foi alterada pela colis\u00e3o do asteroide\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Rocha guardada por um dos moradores da cidade, que acredita que ela foi alterada pela colis\u00e3o do asteroide<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Pesquisas indicam que impacto pode ter causado a maior extin\u00e7\u00e3o de vida na Terra<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um estudo de 2013, conduzido por pesquisadores de diferentes pa\u00edses e publicado na revista cient\u00edfica Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology afirma que a maior extin\u00e7\u00e3o conhecida no planeta foi causada pelo asteroide que atingiu Araguainha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diferentemente do que havia sido apontado nas primeiras pesquisas sobre o tema, o estudo de 2013 defende que o asteroide teria atingido a Terra no fim do per\u00edodo Permiano, de 290 a 250 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s, o \u00faltimo da era Paleozoica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 apenas uma diverg\u00eancia de datas. O Permiano se encerrou em meio \u00e0 maior extin\u00e7\u00e3o de vida na Terra. Assim, dizem os cientistas, essa extin\u00e7\u00e3o teria sido motivada pelo asteroide que atingiu Araguainha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo os pesquisadores, h\u00e1 evid\u00eancias geol\u00f3gicas de que a colis\u00e3o do meteorito pode ter gerado terremotos com magnitude de at\u00e9 9,9 graus na escala Richter, em um raio de mil quil\u00f4metros em torno da cratera. Os tremores teriam afetado rochas ricas em carbono org\u00e2nico e liberado uma quantidade descomunal de metano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em julho deste ano, um novo artigo, publicado na revista Geological Society of America Bulletin, tamb\u00e9m defende que o asteroide que atingiu Araguainha foi respons\u00e1vel pela maior extin\u00e7\u00e3o de vida na Terra. A pesquisa \u00e9 assinada por especialistas de diferentes pa\u00edses, entre eles o ge\u00f3logo norte-americano Eric Tohver, que tamb\u00e9m participou do estudo de 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com o estudo recente, o asteroide de Araguainha teve como principal consequ\u00eancia um tsunami que afetou at\u00e9 mil quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia da cratera. &#8220;O material oriundo da cratera comprovou que o tsunami foi causado pelo impacto do asteroide. Isso faz com que Araguainha seja a cratera mais antiga, j\u00e1 documentada, a preservar uma camada tsunam\u00edtica&#8221;, relata Tohver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tais consequ\u00eancias teriam matado milh\u00f5es de seres vivos e dado fim \u00e0 era Paleozoica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, ainda n\u00e3o h\u00e1 um consenso cient\u00edfico sobre o assunto.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria da descoberta da origem da cratera de Araguainha<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cratera come\u00e7ou a ser descoberta na d\u00e9cada de 60, quando equipes da Petrobras procuravam petr\u00f3leo em diversas regi\u00f5es do Brasil. Naquele per\u00edodo, &#8220;ge\u00f3logos viram que havia uma estrutura circular na regi\u00e3o, s\u00f3 que ela era muito grande para ser uma estrutura vulc\u00e2nica. Ent\u00e3o, imaginaram que o magma subiu pela crosta da terra, se solidificou e deixou aquela estrutura arredondada&#8221;, conta Cr\u00f3sta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Anos depois, na d\u00e9cada de 1970, imagens de sat\u00e9lite identificaram o astroblema. &#8220;Alguns ge\u00f3logos dos Estados Unidos, que trabalham com cratera, viram aquele buraco e avaliaram que poderia ter sido causado pelo impacto de uma rocha&#8221;, relata o especialista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pouco ap\u00f3s saber da descoberta feita por meio do sat\u00e9lite, Cr\u00f3sta, que fazia mestrado, passou a se aprofundar no tema. Por diversas vezes, ele foi \u00e0 regi\u00e3o de Araguainha. A partir de ent\u00e3o, tiveram in\u00edcio os estudos sobre o astroblema da regi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em raz\u00e3o da descoberta, a cidade localizada no centro da cratera passou a ser conhecida como Domo de Araguainha &#8211; termo usado em refer\u00eancia aos c\u00edrculos formados pelas montanhas na \u00e1rea central do munic\u00edpio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, grande parte das \u00e1reas montanhosas da cratera ou que guardam rochas com forma\u00e7\u00f5es distintas est\u00e1 localizada em propriedades particulares, principalmente em fazendas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m de Araguainha, a cidade mato-grossense de Ponte Branca tamb\u00e9m est\u00e1 localizada dentro da cratera de impacto, na borda do astroblema. O meteorito acertou tamb\u00e9m parte de Alto Araguaia (MT) e das cidades de Doverl\u00e2ndia, Mineiros e Santa Rita do Araguaia, em Goi\u00e1s.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/E969\/production\/_104435795_araguainha5.jpg\" alt=\"Igreja de Araguainha, pequena e pintada de cor de rosa, \u00e0 frente de uma \u00e1rvore florida com flores vermelhas\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Cidade de Araguainha \u00e9 pequena e pacata, com menos de mil moradores<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Lenda conta que Hitler teria enviado tropas para a cratera<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Araguainha, os moradores sabem que a cidade est\u00e1 no centro de uma cratera causada por um asteroide. Poucos, por\u00e9m, conhecem, de fato, a hist\u00f3ria sobre a colis\u00e3o entre o corpo celeste e o solo. Apesar disso, possuem hist\u00f3rias e lendas sobre o fato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das hist\u00f3rias contadas pelos moradores do munic\u00edpio diz que Adolf Hitler enviou aliados para a regi\u00e3o antes da Segunda Guerra Mundial. O objetivo do l\u00edder nazista, segundo os relatos na cidade, seria buscar for\u00e7as para o embate, em raz\u00e3o de supostas energias c\u00f3smicas da regi\u00e3o atingida pelo asteroide.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vers\u00e3o, no entanto, \u00e9 desmentida por estudiosos. &#8220;N\u00e3o h\u00e1 nenhuma comprova\u00e7\u00e3o sobre essa hist\u00f3ria de Hitler ter ido a Araguainha. Os moradores podem ter pensado isso porque muitos estudiosos alem\u00e3es foram ao local logo ap\u00f3s a descoberta da cratera, mas isso foi depois dos anos 70&#8221;, comenta Ruy Ojeda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra hist\u00f3ria que os moradores contam \u00e9 que estrangeiros foram \u00e0 cratera e pegaram rochas para comercializar em outros pa\u00edses. Esta vers\u00e3o \u00e9 considerada verdadeira. Uma estudiosa sobre o Domo de Araguainha descobriu durante pesquisa na internet, em 2006, que amostras retiradas do astroblema estavam sendo expostas e comercializadas em galerias de artes de Paris, na Fran\u00e7a. O fato tornou-se alvo de investiga\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF) de Mato Grosso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A BBC News Brasil teve acesso ao inqu\u00e9rito sobre a suposta comercializa\u00e7\u00e3o de rochas retiradas da cratera. Conforme os autos da investiga\u00e7\u00e3o, o MPF tentou recuperar os f\u00f3sseis ou fazer um acordo com a Fran\u00e7a. No entanto, as apura\u00e7\u00f5es apontaram que a medida seria invi\u00e1vel, em raz\u00e3o da falta de legisla\u00e7\u00e3o a respeito do Domo de Araguainha. As investiga\u00e7\u00f5es foram arquivadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Poss\u00edveis acordos com a Fran\u00e7a foram prejudicados, segundo o MPF, em raz\u00e3o da falta de a\u00e7\u00f5es de prote\u00e7\u00e3o referentes ao Domo de Araguainha. Na regi\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma determina\u00e7\u00e3o sobre a preserva\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o ou de seus itens. Tal situa\u00e7\u00e3o foi criticada pelo procurador da Rep\u00fablica Everton Pereira Aguiar Ara\u00fajo, respons\u00e1vel pelo inqu\u00e9rito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A aus\u00eancia de legisla\u00e7\u00e3o protetiva d\u00e1 azos ao abandono cultural de patrim\u00f4nios extremamente ricos, tanto em mat\u00e9ria como em oportunidade de expans\u00e3o cient\u00edfica, impedindo sua inser\u00e7\u00e3o na identidade p\u00e1tria. Tal fator impede que atitudes como a retirada e venda de amostras de um astroblema &#8211; como ocorreu pela galeria francesa &#8211; signifique uma transgress\u00e3o de direitos culturais aos olhos da popula\u00e7\u00e3o e das pr\u00f3prias autoridades p\u00fablicas&#8221;, assinala o membro do MPF, em publica\u00e7\u00e3o feita em junho deste ano.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/9B49\/production\/_104435793_araguainha3.jpg\" alt=\"Entrada da cidade de Araguainha, com uma placa de boas-vindas derrubada pelo vento: 'Sejam bem-vindos \u00e0 cidade do domo'\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Entrada da cidade de Araguainha, com uma placa de boas-vindas derrubada pelo vento: &#8216;Sejam bem-vindos \u00e0 cidade do domo&#8217;<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Moradores querem promover o turismo para a cratera<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A popula\u00e7\u00e3o de Araguainha tem reduzido. Em 1970, tinha 1,7 mil moradores &#8211; quase o dobro da popula\u00e7\u00e3o atual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O principal motivo \u00e9 a aus\u00eancia de empregos. Na cidade, a principal fonte de renda \u00e9 o servi\u00e7o p\u00fablico &#8211; um de cada cinco moradores s\u00e3o funcion\u00e1rios p\u00fablicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apenas metade das ruas s\u00e3o asfaltadas &#8211; a outra metade tem cal\u00e7amento r\u00fastico, feito com pedra de garimpo e areia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para os moradores da cidade, a aus\u00eancia de iniciativas do poder p\u00fablico em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cratera da regi\u00e3o \u00e9 prejudicial ao munic\u00edpio. &#8220;O turismo poderia ser melhor explorado e tamb\u00e9m geraria empregos. Mas isso n\u00e3o acontece, porque falta estrutura&#8221;, diz uma moradora de Araguainha, que pediu para n\u00e3o ser identificada. Propriet\u00e1ria do \u00fanico hotel da cidade, Juscima Angela Mascena lamenta a falta de visitantes no munic\u00edpio. &#8220;H\u00e1 semanas em que n\u00e3o recebo nenhum h\u00f3spede novo. \u00c9 muito complicado&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Prefeitura de Araguainha diz que n\u00e3o h\u00e1 recursos para investir no turismo da regi\u00e3o. A cidade tem como principal fonte de recursos R$ 11 milh\u00f5es repassados por meio do Fundo de Participa\u00e7\u00e3o dos Munic\u00edpios (FPM). Segundo o Executivo municipal, os recursos s\u00e3o empregados em setores como sa\u00fade, seguran\u00e7a e educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas ruas da cidade, \u00e9 comum ver casas abandonadas. Os moradores que v\u00e3o embora comumente n\u00e3o vendem suas resid\u00eancias. &#8220;N\u00e3o tem ningu\u00e9m para comprar, por isso h\u00e1 tantas constru\u00e7\u00f5es sem donos&#8221;, explica a aposentada Iza\u00edna Pereira de Souza, de 74 anos, que mora na regi\u00e3o desde a inf\u00e2ncia e n\u00e3o planeja ir embora. &#8220;Hoje, para mim aqui \u00e9 o melhor lugar do mundo, porque \u00e9 muito tranquilo&#8221;, relata \u00e0 reportagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os filhos de Iza\u00edna deixaram Araguainha d\u00e9cadas atr\u00e1s, para estudar ou trabalhar em munic\u00edpios vizinhos. Entre os mais jovens, \u00e9 comum sair do munic\u00edpio para fazer curso superior. Na cidade h\u00e1 duas escolas, uma estadual e outra municipal, que possuem turmas at\u00e9 o fim do ensino m\u00e9dio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 poucos com\u00e9rcios na cidade: uma farm\u00e1cia, tr\u00eas restaurantes, tr\u00eas mercados e uma lot\u00e9rica. N\u00e3o h\u00e1 ind\u00fastrias. &#8220;Para quem n\u00e3o trabalha no servi\u00e7o p\u00fablico, \u00e9 muito dif\u00edcil encontrar oportunidade de emprego por aqui&#8221;, diz a aut\u00f4noma Josiane Franco, 42 anos, que nasceu em Araguainha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra fonte de renda da regi\u00e3o \u00e9 a agropecu\u00e1ria. Por\u00e9m, o segmento n\u00e3o emprega muitas pessoas no munic\u00edpio. &#8220;Geralmente s\u00e3o as pr\u00f3prias fam\u00edlias que cuidam disso&#8221;, explica o prefeito de Araguainha, Silvio Jos\u00e9 de Morais Filho, o Silvinho (PSD).<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Projetos para preservar a cratera ainda n\u00e3o foram para frente<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2002, a Comiss\u00e3o Brasileira de S\u00edtios Geol\u00f3gicos e Paleobiol\u00f3gicos (SIGEP) declarou o Domo de Araguainha como um s\u00edtio geol\u00f3gico &#8211; \u00e1rea de interesse para o estudo da geologia e relevante para o turismo. Na \u00e9poca, a entidade apontou que deveria ser feita a preserva\u00e7\u00e3o do lugar e conscientiza\u00e7\u00e3o dos moradores da regi\u00e3o sobre a import\u00e2ncia do local. Por\u00e9m, tais medidas nunca chegaram a ser feitas. O principal motivo teria sido a falta de apoio do poder p\u00fablico ou da iniciativa privada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No MPF de Mato Grosso, apesar de o procurador da Rep\u00fablica ter determinado o arquivamento das apura\u00e7\u00f5es sobre a poss\u00edvel comercializa\u00e7\u00e3o de itens do astroblema, ele manteve o inqu\u00e9rito sobre a cratera, cobrando medidas de preserva\u00e7\u00e3o da \u00e1rea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;\u00c9 necess\u00e1ria uma abordagem multifuncional, que promova ao mesmo tempo a preserva\u00e7\u00e3o, possibilite estudos, mas que tamb\u00e9m divulgue e d\u00ea acesso \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, disseminando a correta valoriza\u00e7\u00e3o de bens paleontol\u00f3gicos brasileiros, como o Domo de Araguainha&#8221;, afirma o procurador da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Instituto do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional (Iphan) h\u00e1 um processo de tombamento do astroblema. Em comunicado enviado \u00e0 BBC News Brasil, o instituto limita-se a informar que o procedimento sobre a cratera est\u00e1 em an\u00e1lise e dentro dos prazos legais para que haja uma resposta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Instituto Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade (ICMBio), existe um projeto para a cria\u00e7\u00e3o de uma Unidade de Conserva\u00e7\u00e3o denominada &#8220;Domo de Araguainha&#8221;, para cuidar da preserva\u00e7\u00e3o da \u00e1rea. A medida tamb\u00e9m est\u00e1 em andamento e sem prazo para ser conclu\u00edda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro projeto de preserva\u00e7\u00e3o \u00e9 um estudo elaborado pelo Servi\u00e7o Geol\u00f3gico do Brasil para que a regi\u00e3o se torne um geoparque, para que possa receber estrutura adequada para visitantes e estudiosos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Para ser considerado geoparque, \u00e9 preciso mostrar para a popula\u00e7\u00e3o e para os turistas que se trata de algo de interesse geotur\u00edstico. No Brasil s\u00f3 existe um, que \u00e9 o parque de pegadas de dinossauros, no Nordeste. Foi o \u00fanico que deu certo&#8221;, relata Cr\u00f3sta, um dos autores da proposta para transformar o astroblema de Araguainha em geoparque.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O geoparque mant\u00e9m as coisas exatamente como est\u00e3o e s\u00f3 separa alguns locais de interesse para visita\u00e7\u00e3o. Neste caso, s\u00e3o pequenas pedreiras. N\u00e3o \u00e9 nada que vai afetar a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola ou a agropecu\u00e1ria. Mas \u00e9 dif\u00edcil de explicar isso para os fazendeiros, porque eles reagem muito fortemente a esse tipo de ideia&#8221;, acrescenta Cr\u00f3sta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O geoparque somente pode ser criado ap\u00f3s autoriza\u00e7\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Educa\u00e7\u00e3o, a Ci\u00eancia e a Cultura (Unesco). Para que a entidade avalie o projeto, a proposta deve ser enviada por meio de representantes do poder p\u00fablico ou da iniciativa privada que demonstrem interesse em auxiliar na a\u00e7\u00e3o. Ao menos por ora, a proposta n\u00e3o foi levada para avalia\u00e7\u00e3o da Unesco.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das hist\u00f3rias contadas pelos moradores do munic\u00edpio diz que Adolf Hitler enviou aliados para a regi\u00e3o antes da Segunda Guerra Mundial. O objetivo do l\u00edder nazista, segundo os relatos na cidade, seria buscar for\u00e7as para o embate, em raz\u00e3o de supostas energias c\u00f3smicas da regi\u00e3<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":265025,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[2,6],"tags":[],"class_list":["post-265024","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cotidiano","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/igreja-em-araguaina.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/265024","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=265024"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/265024\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/265025"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=265024"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=265024"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=265024"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}