{"id":266492,"date":"2018-12-08T17:44:01","date_gmt":"2018-12-08T20:44:01","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=266492"},"modified":"2018-12-08T17:44:01","modified_gmt":"2018-12-08T20:44:01","slug":"por-que-este-especialista-diz-que-a-culinaria-mineira-e-um-mito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/por-que-este-especialista-diz-que-a-culinaria-mineira-e-um-mito\/","title":{"rendered":"Por que este especialista diz que a &#8216;culin\u00e1ria mineira \u00e9 um mito&#8217;"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"byline\"><span class=\"byline__name\">Jo\u00e3o Fellet<\/span><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/0A46\/production\/_104603620_doria.jpg\" alt=\"Soci\u00f3logo Carlos Alberto D\u00f3ria, autor de 'A culin\u00e1ria caipira da Paulist\u00e2nia'\" width=\"3383\" height=\"2585\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Para soci\u00f3logo, incorpora\u00e7\u00e3o de s\u00edtios por grandes fazendas de caf\u00e9 no s\u00e9culo 19 e expans\u00e3o da agroind\u00fastria golpearam a culin\u00e1ria caipira<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">Anos atr\u00e1s, o soci\u00f3logo Carlos Alberto D\u00f3ria caminhava por Taubat\u00e9, cidade paulista pr\u00f3xima \u00e0 divisa com Minas Gerais, quando topou com restaurantes que diziam oferecer &#8220;comida mineira&#8221;. O fato chamou sua aten\u00e7\u00e3o, pois, segundo ele, a cozinha tradicional de Taubat\u00e9 &#8211; e a de todo o interior paulista &#8211; \u00e9 a mesma que a de Minas Gerais.<\/p>\n<p>&#8220;Fiquei intrigado: como Minas se apropriou dessa cozinha?&#8221;, ele questiona em entrevista \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n<p>A pergunta o levou a mergulhar nas origens da culin\u00e1ria que se criou naquela parte do Brasil &#8211; e resultou no livro &#8220;A culin\u00e1ria caipira da Paulist\u00e2nia&#8221; (ed. Tr\u00eas Estrelas), publicado em outubro em parceria com o chef paranaense radicado em S\u00e3o Paulo Marcelo Corr\u00eaa Bastos.<\/p>\n<p>Na obra, D\u00f3ria e Bastos defendem que uma mesma cozinha caipira, criada principalmente a partir de t\u00e9cnicas e ingredientes de tr\u00eas etnias guaranis, espalhou-se pelo que hoje s\u00e3o os Estados de S\u00e3o Paulo, Minas Gerais, Goi\u00e1s, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paran\u00e1, Santa Catarina, parte do Rio de Janeiro e do Esp\u00edrito Santo, al\u00e9m da regi\u00e3o das Miss\u00f5es, no Rio Grande do Sul &#8211; onde os guaranis inventaram o churrasco, aproveitando carca\u00e7as abandonadas por vendedores de couro. Hoje, grupos dessas tr\u00eas etnias (nhandeva, mbya e kaiow\u00e1) seguem espalhados por partes de seu territ\u00f3rio original, mas est\u00e3o confinados em reservas superpovoadas ou em acampamentos \u00e0 beira de estradas.<\/p>\n<p>Combatendo a ideia de que cada um desses Estados tenha uma culin\u00e1ria t\u00edpica e singular, eles optam por agrup\u00e1-los num territ\u00f3rio que chamam de Paulist\u00e2nia &#8211; termo usado no passado para nomear a \u00e1rea que os bandeirantes, partindo de S\u00e3o Paulo, percorreram nos primeiros s\u00e9culos da coloniza\u00e7\u00e3o. Para sustentar a tese, baseiam-se numa extensa pesquisa de receitas tradicionais de todos os Estados abarcados, cujas culin\u00e1rias &#8220;apresentam contantes t\u00e3o not\u00e1veis que s\u00f3 podem ser tomadas como tra\u00e7os de uma mesma hist\u00f3ria&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/5866\/production\/_104603622_kaiowa.jpg\" alt=\"Avatikyry\" width=\"960\" height=\"654\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Avati Kyry, cerim\u00f4nia de &#8216;batismo do milho&#8217; celebrada entre ind\u00edgenas do povo guarani kaiow\u00e1 da regi\u00e3o de Dourados, no Mato Grosso do Sul<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Foi essa cozinha, amparada em variadas t\u00e9cnicas de conserva\u00e7\u00e3o e nascida em s\u00edtios onde se praticava uma agricultura de subsist\u00eancia, que sustentou as marchas para escravizar \u00edndios e ocupar as terras do Brasil central, triplicando o territ\u00f3rio reservado a Portugal pelo Tratado de Tordesilhas, de 1494. Os pilares dessa culin\u00e1ria eram o milho, o feij\u00e3o e a ab\u00f3bora &#8211; al\u00e9m das frutas do pomar e de duas esp\u00e9cies de animais trazidas pelos portugueses, o porco e a galinha.<\/p>\n<p>Autor de v\u00e1rios livros sobre gastronomia e doutor pela Unicamp, D\u00f3ria diz que esses modos de comer entram em decl\u00ednio a partir do s\u00e9culo 19, quando os sitiantes abandonam as ro\u00e7as e se tornam assalariados nas fazendas de caf\u00e9. Paralelamente, o avan\u00e7o da agroind\u00fastria e campanhas sanitaristas v\u00e3o aniquilando a diversidade da cozinha caipira, relegada ao &#8220;solene desprezo que o Brasil devota ao seu passado ind\u00edgena&#8221;.<\/p>\n<p>Restaram-lhe ilhas, onde, impulsionada por campanhas tur\u00edsticas ou por projetos regionalistas, ela sobrevive com outros nomes &#8211; caso das ditas cozinhas mineira e goiana, segundo ele.<\/p>\n<p>J\u00e1 na capital paulista &#8211; onde, no s\u00e9culo 19, quitandeiras vendiam nas ruas pinh\u00e3o quente, i\u00e7\u00e1 torrada, cuscuz de bagre, amendoim torrado, pamonha e peixe frito -, comidas caipiras foram dando lugar a ingredientes importados, vistos como mais higi\u00eanicos e sofisticados por uma popula\u00e7\u00e3o deslumbrada pela modernidade.<\/p>\n<p>Confira os principais trechos da entrevista do soci\u00f3logo \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Seu livro diz que a ideia de uma culin\u00e1ria mineira \u00e9 um mito. Pode explicar?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Carlos Alberto D\u00f3ria\u00a0<\/strong>&#8211; A partir dos anos 1970, houve um esfor\u00e7o do governo de Minas para criar o mito da mineiridade. V\u00e1rios intelectuais foram envolvidos, inclusive Carlos Drummond de Andrade. Em contraposi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o existem refer\u00eancias fortes ao passado caipira entre os paulistas e, especialmente, entre os paulistanos. At\u00e9 porque, quando olhamos para tr\u00e1s, nossos av\u00f3s (em S\u00e3o Paulo) s\u00e3o italianos, espanh\u00f3is, asi\u00e1ticos.<\/p>\n<p>\u00c9 como se Minas houvesse se apropriado da mem\u00f3ria que se apagou em S\u00e3o Paulo. Houve uma transfer\u00eancia para Minas do conceito de cozinha caipira, que se fundiu e se confundiu com a mineiridade.<\/p>\n<p>Houve tamb\u00e9m um outro processo. Para o turismo, \u00e9 fundamental voc\u00ea dizer porque algu\u00e9m deve ir a um Estado e n\u00e3o a outro, ent\u00e3o voc\u00ea tem que enfatizar as diferen\u00e7as nas culin\u00e1rias.<\/p>\n<p>Hoje, por exemplo, muita gente acredita que os pratos com pequi s\u00e3o restritos a Goi\u00e1s. Mas isso se deve \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o do cerrado, que antes era muito mais extenso. O (naturalista franc\u00eas) Saint-Hilaire (1779-1853) encontrou p\u00e9s de pequi perto de Itu (SP), o que n\u00e3o existe h\u00e1 muito tempo.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Esse apagamento da mem\u00f3ria culin\u00e1ria em S\u00e3o Paulo se deveu s\u00f3 \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>D\u00f3ria\u00a0<\/strong>&#8211; N\u00e3o, isso \u00e9 algo muito fortemente ideol\u00f3gico. \u00c9 sobretudo a rejei\u00e7\u00e3o de um modo de vida caipira, rural, que n\u00e3o se coaduna com a modernidade que os paulistas atribuem a si pr\u00f3prios, especialmente ap\u00f3s a industrializa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/CD96\/production\/_104603625_milho_emater_ro.jpg\" alt=\"Pratos feitos com milho\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Pratos \u00e0 base de milho em festa em Rond\u00f4nia; pilar da cozinha caipira, gr\u00e3o se espalhou por todas as regi\u00f5es do pa\u00eds<\/figure>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; O senhor diz que a culin\u00e1ria caipira teve grande influ\u00eancia dos ind\u00edgenas guaranis. Pode dar exemplos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>D\u00f3ria\u00a0<\/strong>&#8211; As etnias guaranis est\u00e3o na base da cozinha caipira. E isso n\u00e3o \u00e9 reconhecido na hist\u00f3ria. Estou falando especialmente daquilo que \u00e9 a base de sua alimenta\u00e7\u00e3o: o milho, o feij\u00e3o, a ab\u00f3bora, o amendoim.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, na Paulist\u00e2nia, h\u00e1 uma presen\u00e7a muito clara da farinha de milho. \u00c9 algo que era feito pelos \u00edndios usando t\u00e9cnicas como o pil\u00e3o e que, com advento do monjolo, se torna um apoio muito importante para a conquista territorial. \u00c9 uma farinha j\u00e1 pronta para comer, diferentemente da farinha de trigo, e ela sustenta o internamento no sert\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m uma apropria\u00e7\u00e3o dos fogos usados pelos \u00edndios. Na cultura caipira tem o que \u00e9 assado no moqu\u00e9m &#8211; um jirau que se p\u00f5e longe do fogo -, o que \u00e9 assado sobre pedras ou sobre as brasas, sob as brasas, enterrado embaixo de fogueira&#8230; S\u00e3o t\u00e9cnicas de coc\u00e7\u00e3o totalmente ind\u00edgenas e que marcam muito a cultura brasileira.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; O senhor tamb\u00e9m atribui aos guaranis a inven\u00e7\u00e3o do churrasco no pa\u00eds. Como isso ocorreu?<\/strong><\/p>\n<p><strong>D\u00f3ria\u00a0<\/strong>&#8211; Enquanto no Nordeste o boi tinha um valor econ\u00f4mico muito maior, porque era criado para fornecer tra\u00e7\u00e3o animal e alimento para os engenhos, no Sul ele s\u00f3 tinha valor para a extra\u00e7\u00e3o do couro. O churrasco surge do abandono da carne.<\/p>\n<p>Os guaranis se apropriaram da carne que n\u00e3o tinha valor algum, que era o lixo da produ\u00e7\u00e3o do couro. Essa \u00e9 a carne que vira o churrasco.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; O senhor defende no livro que, al\u00e9m de sua riqueza culin\u00e1ria, os guaranis tamb\u00e9m eram muito sofisticados no trato com a terra &#8211; uma ideia que se contrap\u00f5e a teses difundidas ainda hoje e que consideram a agricultura praticada por ind\u00edgenas brasileiros como menos desenvolvida que a de outros povos e civiliza\u00e7\u00f5es. Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p><strong>D\u00f3ria\u00a0<\/strong>&#8211; A partir dos anos 1970, v\u00e3o se avolumando estudos que mostram que esses povos (ind\u00edgenas brasileiros), aos quais se atribu\u00eda uma alimenta\u00e7\u00e3o baseada na ca\u00e7a e coleta, na verdade desenvolviam formas sofisticadas de intera\u00e7\u00e3o e manejo da floresta, de modo que esse manejo possa se considerar uma agricultura desenvolvida.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o povos que estavam l\u00e1 atr\u00e1s e que foram civilizados no contato com os brancos. Ao contr\u00e1rio: eles tinham uma cultura sofisticada de manejo da floresta, e muito disso se perdeu pela coloniza\u00e7\u00e3o. Me impacta muito a quest\u00e3o da chamada sele\u00e7\u00e3o artificial inconsciente. Esses povos se apropriavam de frutas da floresta. Voc\u00ea chupa uma jabuticaba, a mais bonita, joga o caro\u00e7o fora, outro p\u00e9 nasce, e isso vai transformando a esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>H\u00e1 claras evid\u00eancias de que uma fruta como o abiu, que normalmente tem entre 70 e 100 gramas, pode alcan\u00e7ar at\u00e9 900 gramas entre grupos ind\u00edgenas da Amaz\u00f4nia. Muitas vezes viam-se esses produtos como se fossem naturais, e n\u00e3o frutos do trato humano.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/11BB6\/production\/_104603627_roca.jpg\" alt=\"Ro\u00e7a pr\u00f3xima a aldeia ind\u00edgena\" width=\"620\" height=\"412\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">Ro\u00e7a pr\u00f3xima a aldeia na Amaz\u00f4nia; segundo soci\u00f3logo, manejo praticado por povos nativos brasileiros equivale a agricultura sofisticada<\/figure>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Sagrado para os guaranis e base da cozinha caipira, o milho \u00e9 hoje uma das principais commodities agr\u00edcolas produzidas no pa\u00eds. Ainda assim, o espa\u00e7o simb\u00f3lico que a planta ocupa na dieta do brasileiro parece bem menor do que no passado &#8211; diferentemente do que ocorre no M\u00e9xico, onde o milho tamb\u00e9m era cultivado por ind\u00edgenas, mas preservou seu protagonismo na cozinha local. Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p><strong>D\u00f3ria\u00a0<\/strong>&#8211; Imagine um cen\u00e1rio em que haja 3.000 esp\u00e9cies alimentares. Dessas, mais ou menos 30 alimentam 90% da popula\u00e7\u00e3o mundial. A busca do lucro est\u00e1 ligada \u00e0 racionaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, que est\u00e1 ligada \u00e0 especializa\u00e7\u00e3o. V\u00e3o predominar as esp\u00e9cies mais prol\u00edficas, de manejo mais f\u00e1cil, com ciclo mais curto. E isso vai eliminando a diversidade. H\u00e1 um estrangulamento das formas mais espont\u00e2neas e n\u00e3o taylorizadas de produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola.<\/p>\n<p>O milho \u00e9 uma das esp\u00e9cies mais expressivas na alimenta\u00e7\u00e3o global hoje. Mas essa produ\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m a base de boa parte da ind\u00fastria de alimentos. A industrializa\u00e7\u00e3o do milho \u00e9 o que substitui o milho em suas formas primitivas.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m uma substitui\u00e7\u00e3o do milho por outros produtos, como a mandioca e o arroz, ao passo que em pa\u00edses como o M\u00e9xico ou o Peru, o milho resiste mais. Isso tem muito a ver com a identidade, com o orgulho nacional, e no Brasil n\u00e3o \u00e9 assim, porque o milho n\u00e3o teve essa import\u00e2ncia nacional que tem nesses pa\u00edses.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Em que medida a influ\u00eancia portuguesa na culin\u00e1ria brasileira se deve ao que os portugueses absorveram de outros povos nas Grandes Navega\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p><strong>D\u00f3ria\u00a0<\/strong>&#8211; O que os portugueses fazem \u00e9 conectar o mundo. Muito mais do que ter uma culin\u00e1ria expressiva, que se imp\u00f5e e se torna hegem\u00f4nica, eles conectam todos. Tanto trazem frutas para c\u00e1 como levam para l\u00e1 milho, mandioca, amendoim.<\/p>\n<p>A culin\u00e1ria portuguesa nos primeiros tempos, assim como as africanas e as ind\u00edgenas, s\u00e3o de potaria, de coisas cozidas em pote. As t\u00e9cnicas eram muito pr\u00f3ximas, embora houvesse uma grande diferen\u00e7a de ingredientes. Mas os portugueses v\u00e3o trabalhando e diminuindo essa diferen\u00e7a.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1720A\/production\/_104603749_milho_embrapa.jpg\" alt=\"Planta\u00e7\u00e3o de milho irrigada\" width=\"634\" height=\"400\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Industrializa\u00e7\u00e3o do plantio de milho o substituiu em suas formas primitivas, diz D\u00f3ria<\/figure>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Como a mudan\u00e7a no regime de trabalho no campo, quando os sitiantes que viviam de subsist\u00eancia passam a trabalhar nas fazendas como assalariados, impacta a comida na Paulist\u00e2nia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>D\u00f3ria<\/strong>\u00a0&#8211; A lei de terras de 1850 permite aos grandes propriet\u00e1rios registrar terras devolutas, e os pequenos propriet\u00e1rios n\u00e3o tinham recursos para isso. H\u00e1 uma grande desapropria\u00e7\u00e3o dos sitiantes, que ficam como moradores de favor dos grandes propriet\u00e1rios. Quando h\u00e1 a expans\u00e3o do caf\u00e9, h\u00e1 a proletariza\u00e7\u00e3o dessa gente. O caf\u00e9 avan\u00e7a sobre as terras dos s\u00edtios, e esses caipiras v\u00e3o passando a morar nas fazendas.<\/p>\n<p>Houve a\u00ed a destrui\u00e7\u00e3o da unidade de produ\u00e7\u00e3o caipira, o s\u00edtio &#8211; que \u00e9 uma pequena propriedade onde est\u00e1 empenhada a m\u00e3o de obra familiar, que gravita em torno do milho e seus derivados, e dos animais que se alimentam do milho &#8211; principalmente porcos e galinhas. Tamb\u00e9m se perdem os frutos do pomar e os temperos da hora, que s\u00e3o basicamente vegetais europeus com fun\u00e7\u00f5es medicinais.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Quando as hortas deixaram de ser vistas como farm\u00e1cias e que impacto isso teve no consumo de hortali\u00e7as pelos brasileiros?<\/strong><\/p>\n<p><strong>D\u00f3ria\u00a0<\/strong>&#8211; H\u00e1 duas vertentes de aportes de vegetais \u00e0 cozinha brasileira. O que havia na horta caipira era uma reminisc\u00eancia da medicina gal\u00eanica, em que vegetais s\u00e3o pensados a partir de propriedades curativas e capacidades de equilibrar humores do corpo. Coentro, salsinha, erva doce, funcho &#8211; todos eles foram trazidos com esse sentido, e acho que isso ainda perdura, de certa forma.<\/p>\n<p>O consumo de hortali\u00e7as como conhecemos \u00e9 algo mais recente, influ\u00eancia de italianos e espanh\u00f3is, depois refor\u00e7ada pela presen\u00e7a de japoneses.<\/p>\n<p>\u00c9 curioso como isso influencia as identidades. H\u00e1 no Brasil uma regi\u00e3o do coentro e uma da salsinha, e elas n\u00e3o se interpenetram. No norte de Portugal, h\u00e1 o uso da salsinha exclusivamente, e no sul, do coentro. Ent\u00e3o de alguma maneira h\u00e1 aqui um espelhamento dessa especializa\u00e7\u00e3o dos colonizadores.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/3D72\/production\/_104603751_comida_mg_prefeitura_bh.jpg\" alt=\"Mesa com comida t\u00edpica mineira\" width=\"1600\" height=\"1063\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Constru\u00e7\u00e3o de &#8216;mineiridade&#8217; &#8211; o que inclui sua vertente culin\u00e1ria &#8211; foi patrocinada pelo governo de Minas e contou com participa\u00e7\u00e3o de intelectuais<\/figure>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Por que o senhor diz que os africanos n\u00e3o tiveram tanta influ\u00eancia na culin\u00e1ria caipira?<\/strong><\/p>\n<p><strong>D\u00f3ria<\/strong>\u00a0&#8211; O modo de produzir essa agricutura de subsist\u00eancia prescinde da m\u00e3o de obra escrava. Havia escravos na Paulist\u00e2nia ligados a algumas atividades, como a cultura do arroz, mas em pequeno n\u00famero. Outra coisa \u00e9 a grande concentra\u00e7\u00e3o do escravo nas minas.<\/p>\n<p>Mas, quando termina a minera\u00e7\u00e3o, esses grupos se dispersam e se acaipiram. O modo de subsist\u00eancia absorve os negros. Eles n\u00e3o ficam concentrados como em Salvador, onde ganham certa hegemonia cultural.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Quais os tra\u00e7os essenciais que diferenciam a culin\u00e1ria caipira de outras grandes tradi\u00e7\u00f5es gastron\u00f4micas brasileiras?<\/strong><\/p>\n<p><strong>D\u00f3ria\u00a0<\/strong>&#8211; No grosso da Paulist\u00e2nia, faz-se uma culin\u00e1ria de conserva\u00e7\u00e3o. H\u00e1 conservas \u00e0 base de a\u00e7\u00facar, por desidrata\u00e7\u00e3o, \u00e0 base de \u00e1lcool, como os licores, e as conservas de carne na banha, na gordura. Essa grande \u00e1rea privilegia a comida em conserva, ao passo que na Amaz\u00f4nia h\u00e1 uma culin\u00e1ria mais imediata, ligada aos rios, \u00e0 floresta, embora l\u00e1 tamb\u00e9m exista a conserva, que \u00e9 a farinha de mandioca, desidratada.<\/p>\n<p>No Nordeste, h\u00e1 o uso privilegiado da manteiga na conserva\u00e7\u00e3o e o uso da carne seca, uma t\u00e9cnica de desidratar do povo qu\u00e9chua (oriundo dos Andes), diferente das europeias. Nos Alpes, a carne \u00e9 desidratada no vento, ao sol. Aqui tem presen\u00e7a do sal, e isso ocupa toda a Am\u00e9rica Espanhola. O charque, que \u00e9 uma palavra qu\u00e9chua, vem da\u00ed.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/8B92\/production\/_104603753_milho_peru.jpg\" alt=\"Tipos de milho peruanos\" width=\"640\" height=\"480\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">Variedades de milho no Peru, onde o gr\u00e3o est\u00e1 associado \u00e0 identidade nacional<\/figure>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Como as campanhas sanitaristas afetaram a culin\u00e1ria caipira?<\/strong><\/p>\n<p><strong>D\u00f3ria\u00a0<\/strong>&#8211; Com a divulga\u00e7\u00e3o da gen\u00e9tica do (bi\u00f3logo austr\u00edaco Gregor) Mendel, no come\u00e7o do s\u00e9culo 20, os intelectuais se d\u00e3o conta de que os ditos &#8220;problemas da ra\u00e7a&#8221; no Brasil, especialmente o dos negros, n\u00e3o eram gen\u00e9ticos, mas alimentares. Chegaram \u00e0 conclus\u00e3o de que t\u00ednhamos uma popula\u00e7\u00e3o doente e mal alimentada que desenvolvia v\u00edcios como o alcoolismo, e era isso que t\u00ednhamos de combater se quis\u00e9ssemos o desenvolvimento.<\/p>\n<p>A partir de ent\u00e3o, h\u00e1 a apropria\u00e7\u00e3o do problema diet\u00e9tico pelo Estado. Cito no livro um sistema de normas que impedia em S\u00e3o Paulo a venda de milho verde, porque faria mal. Depois tem o problema sanit\u00e1rio com a banha de porco. Houve uma febre su\u00edna nos anos 1930, e isso termina por eliminar a gordura de porco da dieta e por substitu\u00ed-la por \u00f3leos vegetais.<\/p>\n<p>No per\u00edodo mais recente, h\u00e1 a cria\u00e7\u00e3o da Anvisa (Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria), que \u00e9 a fiscal da qualidade do que se produz. E ela traz uma s\u00e9rie de preconceitos, influenciada pelo higienismo americano, como, por exemplo, contra o leite cru.<\/p>\n<p>H\u00e1 um combate muito grande a um tipo de produ\u00e7\u00e3o alimentar considerado anti-higi\u00eanico ou de risco. Isso vai transformando a alimenta\u00e7\u00e3o por dentro. Hoje, por press\u00e3o de ambientalistas e de pessoas ligadas \u00e0 ideia de sustentabilidade alimentar e de comida tradicional, h\u00e1 uma recupera\u00e7\u00e3o de algumas formas passadas e proscritas por \u00f3rg\u00e3os de vigil\u00e2ncia sanit\u00e1ria. J\u00e1 se pode, por exemplo, reencontrar o queijo canastra, que ficou proscrito por muito tempo.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 um combate muito grande a um tipo de produ\u00e7\u00e3o alimentar considerado anti-higi\u00eanico ou de risco. Isso vai transformando a alimenta\u00e7\u00e3o por dentro. 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