{"id":266929,"date":"2018-12-13T06:36:57","date_gmt":"2018-12-13T09:36:57","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=266929"},"modified":"2018-12-13T21:01:51","modified_gmt":"2018-12-14T00:01:51","slug":"50-anos-do-ai-5-artistas-censurados-contam-como-a-repressao-influenciou-suas-obras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/50-anos-do-ai-5-artistas-censurados-contam-como-a-repressao-influenciou-suas-obras\/","title":{"rendered":"50 anos do AI-5: Artistas censurados contam como a repress\u00e3o influenciou suas obras"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"byline\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"byline__name\">J\u00falia Dias Carneiro<\/span><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/3C69\/production\/_104756451_screenshot_2.jpg\" alt=\"Obra Carlos Z\u00edlio\" width=\"1398\" height=\"846\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span>No in\u00edcio dos anos 1970, Carlos Z\u00edlio foi preso pelo regime militar e executou essa s\u00e9rie de desenhos no c\u00e1rcere. Eles foram expostos ao p\u00fablico pela primeira vez em 1996<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\" style=\"text-align: justify;\">Numa tarde de maio de 1969, soldados invadiram o Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio \u00e0 ca\u00e7a de elementos subversivos. O alvo da opera\u00e7\u00e3o? A arte. Os militares foram enviados para impedir a exposi\u00e7\u00e3o VI Bienal de Jovens em Paris, que estava prestes a abrir as portas ao p\u00fablico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mostra reunia obras de artistas brasileiros que haviam sido selecionados para a Bienal de Paris daquele ano, como o ainda jovem Antonio Manuel, que nos anos seguintes viveria uma s\u00e9rie de epis\u00f3dios de censura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Era uma exposi\u00e7\u00e3o de arte, mas o n\u00edvel de viol\u00eancia que se vivia era tamanho que ela foi fechada por soldados de metralhadora&#8221;, lembra Manuel, hoje com 71 anos. &#8220;Meu trabalho foi muito marcado pelo clima repressivo, de exce\u00e7\u00e3o, que vivemos. E o per\u00edodo mais agressivo, mais violento, veio com o AI-5.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Decretado pelo presidente Artur da Costa e Silva h\u00e1 cinquenta anos, em 13 de dezembro de 1968, o Ato Institucional n\u00ba 5 foi o mais duro dos 17 atos institucionais decretados a partir de 1964 pelo regime militar, autorizando o presidente a fechar o Congresso por tempo indeterminado, cassar mandatos parlamentares e suspender direitos pol\u00edticos de qualquer cidad\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ato suspendeu o habeas corpus para presos pol\u00edticos e institucionalizou a repress\u00e3o estatal e a pr\u00e1tica da censura, inaugurando o per\u00edodo mais violento da ditadura &#8211; e impondo uma forte ruptura sobre a produ\u00e7\u00e3o cultural brasileira, no cinema, na m\u00fasica, no teatro e nas artes visuais.<\/p>\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-parrot\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">A exposi\u00e7\u00e3o do MAM foi uma de muitas mostras fechadas, inviabilizadas ou esvaziadas a partir de ent\u00e3o, e Antonio Manuel \u00e9 um de muitos artistas que tiveram obras e projetos censurados, seja diretamente pelo regime militar ou pela censura pr\u00e9via de institui\u00e7\u00f5es de arte, temerosas de afrontar o regime.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/BBDF\/production\/_104759084_cbe6fd9a-5c65-4f7d-97a0-65dd21cfa5bc.jpg\" alt=\"Mesa Executiva 1\" width=\"1121\" height=\"659\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Mesa Executiva 1 (1975), de Regina Silveira, fez parte de uma exposi\u00e7\u00e3o sobre o impacto do ato institucional nas artes visuais, realizada entre setembro e novembro deste ano em S\u00e3o Paulo<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Houve o decreto do dia para a noite. E, de uma hora para a outra, tudo mudou&#8221;, lembra o artista pl\u00e1stico carioca Carlos Z\u00edlio, de 74 anos. No dia da publica\u00e7\u00e3o do ato, ele participava de uma reuni\u00e3o de diret\u00f3rios acad\u00eamicos na PUC-RJ &#8211; at\u00e9 que a pol\u00edcia chegou. Quase foi preso, mas conseguiu escapar. Um ano depois, n\u00e3o teria a mesma sorte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Depois do ato, o pouco espa\u00e7o de atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e cultural que t\u00ednhamos nos primeiros anos (ap\u00f3s o golpe), ainda que com tens\u00e3o permanente, cessou. A ditadura ficou escancarada. Passamos a uma repress\u00e3o absoluta&#8221;, afirma Z\u00edlio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Voc\u00ea n\u00e3o podia se expressar de modo nenhum. As atividades p\u00fablicas foram proibidas e o ambiente geral era de proibi\u00e7\u00e3o, intimida\u00e7\u00e3o, opress\u00e3o&#8221;, lembra.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">&#8216;Parede invis\u00edvel&#8217;<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O carioca Cildo Meireles, de 70 anos, foi um dos artistas que tinham obras na exposi\u00e7\u00e3o repentinamente fechada pelos militares no MAM em 1969. Ele lembra o choque que ato causou, e a repercuss\u00e3o que teve em v\u00e1rios \u00e2mbitos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquele ano, a Bienal de Paris acabou ficando sem representa\u00e7\u00e3o brasileira e, a partir dali, ganhou for\u00e7a o movimento de boicote \u00e0 Bienal de S\u00e3o Paulo, que ganhou dimens\u00e3o internacional. A Bienal permaneceria esvaziada por uma d\u00e9cada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No \u00e2mbito pessoal, por\u00e9m, a repress\u00e3o fez com que Cildo e outros artistas mudassem seus rumos criativos. Ele lembra de como interrompeu investiga\u00e7\u00f5es que vinha fazendo, que tinham foco mais formal, para fazer obras de forte cunho pol\u00edtico, como Quem Matou Herzog? (1975) e Tiradentes: Totem-monumento ao Preso Pol\u00edtico (1970). Nesta, queimou galinhas vivas penduradas a um totem de madeira em um dia 21 de abril, dia de Tiradentes, ironizando o culto promovido pelo regime militar ao l\u00edder da Inconfid\u00eancia Mineira, executado pelo Estado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Foram trabalhos decorrentes da indigna\u00e7\u00e3o e de ver meu projeto pessoal de artista t\u00e3o invadido pelas circunst\u00e2ncias&#8221;, afirma. &#8220;Eu vinha me dedicando \u00e0s s\u00e9ries Espa\u00e7os Virtuais e Volumes Virtuais, mas me senti impelido a tratar dessas quest\u00f5es pol\u00edticas no trabalho.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A censura \u00e9 uma obstru\u00e7\u00e3o permanente da mente&#8221;, considera Cildo. &#8220;Voc\u00ea vira escravo de uma parede invis\u00edvel.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Da arte para a guerrilha<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O in\u00edcio da atua\u00e7\u00e3o de Carlos Z\u00edlio como artista coincidiu com a ditadura. No ano do golpe, em 1964, ele era um jovem estudante de arte. Nos primeiros anos do regime, participou de exposi\u00e7\u00f5es importantes para afirmar uma linguagem de contesta\u00e7\u00e3o na arte brasileira, como Opini\u00e3o 65, Opini\u00e3o 66 e Nova Objetividade Brasileira (1967).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cunho pol\u00edtico de seu trabalho foi se acentuando. At\u00e9 que, em 1968, teve uma virada mais radical. &#8220;Chegou um momento em que a demanda pol\u00edtica sobre mim era maior do que o meu trabalho poderia dar conta. E resolvi me engajar politicamente com maior empenho&#8221;, conta Z\u00edlio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Z\u00edlio se engajou na pol\u00edtica estudantil e na guerrilha urbana. Em 1970, j\u00e1 na clandestinidade, foi atingido por tr\u00eas tiros em um confronto com policiais e levado preso. Passou dois anos e meio na pris\u00e3o &#8211; e se debru\u00e7ou novamente sobre o desenho, com os parcos recursos que tinha: papel e canetinhas hidrogr\u00e1ficas coloridas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os trabalhos s\u00f3 sobreviveram porque sua mulher ia levando-os embora a cada visita \u00e0 pris\u00e3o. Foram expostos pela primeira vez em 1996, e novamente neste ano, em uma exposi\u00e7\u00e3o no Instituto Tomie Ohtake, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1F9F\/production\/_104759080_screenshot_3.png\" alt=\"Obra Lute\" width=\"1201\" height=\"915\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>O in\u00edcio da carreira de Carlos Z\u00edlio coincide com os primeiros anos da ditadura militar e ganha forte carga pol\u00edtica. Lute (1967) foi idealizado como um m\u00faltiplo de tiragem ilimitada<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Foi uma supera\u00e7\u00e3o da minha intimidade. Achei que deveriam ganhar uma dimens\u00e3o p\u00fablica, porque era o testemunho de uma \u00e9poca&#8221;, afirma Z\u00edlio<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A s\u00e9rie de desenhos foi um dos destaques da exposi\u00e7\u00e3o AI-5 50 anos &#8211; Ainda N\u00e3o Terminou de Acabar, sobre o impacto do ato institucional sobre as artes visuais, realizada entre setembro e novembro deste ano no Tomie Ohtake.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;\u00c9 uma produ\u00e7\u00e3o que constitui um di\u00e1rio de c\u00e1rcere, com as ampulhetas, o calend\u00e1rio dos dias que n\u00e3o passam, o corpo ensanguentado, o corpo preso em jaulas&#8221;, pontua Paulo Miyada, curador-chefe do instituto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Era uma produ\u00e7\u00e3o que n\u00e3o chegava a p\u00fablico nenhum, n\u00e3o podia ser vista por ningu\u00e9m. Ficou como um grito guardado que agora podemos conhecer, e nos fala muito daquela \u00e9poca&#8221;, considera.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">&#8216;Aquele abra\u00e7o&#8217;<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pre\u00e2mbulo do AI-5 enaltecia os objetivos da &#8220;Revolu\u00e7\u00e3o Brasileira de 31 de mar\u00e7o de 1964&#8221;. De acordo com o documento, o decreto vinha refor\u00e7ar os esfor\u00e7os do governo militar de assegurar a &#8220;aut\u00eantica ordem democr\u00e1tica, baseada na liberdade, no respeito \u00e0 dignidade da pessoa humana, no combate \u00e0 subvers\u00e3o e \u00e0s ideologias contr\u00e1rias \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es de nosso povo, na luta contra a corrup\u00e7\u00e3o (&#8230;)&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se o regime militar buscava negar a alcunha de ditadura, entretanto, o AI-5 tornou-a expl\u00edcita, dando amplos poderes aos governantes para punir os que fossem considerados inimigos do regime. O Congresso foi fechado no dia da publica\u00e7\u00e3o do decreto, e permaneceu fechado por quase um ano. Nesse per\u00edodo, mais de 300 pol\u00edticos tiveram seus direitos cassados.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/6DBF\/production\/_104759082_screenshot_4.png\" alt=\"Cl\u00e1udio Tozzi, 'A Pris\u00e3o' (1968)\" width=\"913\" height=\"896\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>A obra Pris\u00e3o (1968), de Cl\u00e1udio Tozzi, tamb\u00e9m foi exibida em exposi\u00e7\u00e3o no Instituto Tomie Ohtake que lembrou o impacto do ato institucional nas artes visuais<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">No cen\u00e1rio cultural, o ato marcou a dissemina\u00e7\u00e3o da censura na imprensa, no cinema, no teatro, na m\u00fasica e nas artes visuais. Vieram as pris\u00f5es de artistas como Caetano Veloso e Gilberto Gil, e o \u00eaxodo de artistas que tinham atua\u00e7\u00e3o mais incisiva, como Glauber Rocha, Chico Buarque, Geraldo Vandr\u00e9, Jos\u00e9 Celso e os pr\u00f3prios Caetano e Gil, ap\u00f3s a pris\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gil comp\u00f4s Aquele Abra\u00e7o como uma can\u00e7\u00e3o de despedida antes de partir para o ex\u00edlio em Londres, enaltecendo as belezas e riquezas culturais que mais lhe eram caras no Brasil, ao mesmo tempo em que dava as costas para o local onde ficou preso, a que se refere no verso &#8220;al\u00f4, al\u00f4, Realengo&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se por um lado a repress\u00e3o gerou uma s\u00e9rie de viol\u00eancias e interdi\u00e7\u00f5es na arte, por outro, fomentou modos de resist\u00eancia, de resili\u00eancia e inven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;De 1969 em diante, h\u00e1 um grande refluxo das formas de agir e se expressar&#8221;, diz Paulo Miyada. &#8220;Uma parte da produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica come\u00e7a a emular modos da guerrilha, no sentido de agir clandestinamente, sem aviso, sem identifica\u00e7\u00e3o, no espa\u00e7o urbano. Outras iniciativas v\u00e3o para redes subterr\u00e2neas de distribui\u00e7\u00e3o, como os cineclubes clandestinos. Uma parte da produ\u00e7\u00e3o fica altamente cifrada para poder produzir um discurso cr\u00edtico, mas de forma que a maior parte da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o entende, como maneira de proteger a express\u00e3o&#8221;, explica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O artista continua produzindo, mas o alcance do seu trabalho para a popula\u00e7\u00e3o de uma maneira geral diminui muito&#8221;, ressalta o curador.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">&#8216;Impot\u00eancia&#8217;<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fechamento da VI Bienal de Jovens em Paris no MAM-RJ, conhecida como a Pr\u00e9-Bienal de Paris, foi o primeiro de diversos epis\u00f3dios de censura e interdi\u00e7\u00e3o que marcaram a carreira de Antonio Manuel &#8211; que nasceu em Portugal, mas chegou ao Rio aos cinco anos de idade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O crescente inconformismo levou-o a inscrever &#8220;seu pr\u00f3prio corpo&#8221; como obra no Sal\u00e3o Nacional de Arte Moderna do Rio, em 1970, novamente no MAM-RJ. Sua inscri\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi aceita, mas ao se ver no vernissage, no meio do p\u00fablico e das outras obras, Manuel decidiu executar a sua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Pelo clima de exce\u00e7\u00e3o que a gente vivia, eu senti que os quadros, a escultura e o desenho n\u00e3o tinham mais uma for\u00e7a de comunica\u00e7\u00e3o t\u00e3o grande. Assim, pelo clima de exce\u00e7\u00e3o que a gente vivia, resolvi tirar a roupa toda dentro do museu. Fiquei nu, e completei a minha obra&#8221;, relata.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/A145\/production\/_104758214_arqpesso.jpg\" alt=\"A obra &quot;Repressao outra vez&quot;\" width=\"1280\" height=\"850\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>A obra &#8216;Repress\u00e3o outra vez&#8217; (1968), de Antonio Manuel, havia sido selecionada para a Bienal de Paris de 1969 e faria parte da VI Bienal de Jovens em Paris, no Museu de Arte Moderna do Rio, antes de ir para a Fran\u00e7a. No dia previsto para a abertura, o MAM foi invadido por militares e a mostra foi impedida de acontecer<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seu gesto foi descrito pelo cr\u00edtico Mario Pedrosa como um &#8220;exerc\u00edcio experimental de liberdade&#8221;, que se tornaria um importante conceito para a arte de contesta\u00e7\u00e3o de sua gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1973, viveu mais um epis\u00f3dio de desgosto, mais uma vez no MAM-RJ. Convidado para uma exposi\u00e7\u00e3o individual, reuniu-se com a dire\u00e7\u00e3o do museu para apresentar poss\u00edveis projetos. Uma a uma, elas foram sendo vetadas. Eram consideradas pol\u00edticas demais e poderiam levar a novas retalia\u00e7\u00f5es do governo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A exposi\u00e7\u00e3o acabou sendo cancelada e as ideias foram organizadas por Manuel em um encarte de seis p\u00e1ginas que conseguiu publicar como um suplemento no impresso O Jornal, que tinha circula\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para a capa e a contracapa do encarte, Manuel se deixou fotografar nu, sentado dentro de um ninho constru\u00eddo em escala humana no meio de uma paisagem de dunas, em uma performance em que &#8220;tentava botar um ovo&#8221;, e que batizou de &#8220;The Cock&#8221; (&#8220;o galo&#8221;, na tradu\u00e7\u00e3o formal, ou &#8220;o p\u00eanis&#8221;, na g\u00edria popular em ingl\u00eas) &#8211; simbolizando o regime de espera e de impot\u00eancia a que estava imposto.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/10617\/production\/_104759076_arqpess.png\" alt=\"Revista\" width=\"597\" height=\"597\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\">Depois de ter uma exposi\u00e7\u00e3o cancelada no MAM por temor de que provocasse retalia\u00e7\u00f5es do governo militar, Antonio Manuel organizou as propostas que tinha submetido \u00e0 institui\u00e7\u00e3o neste suplemento<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Acho que as novas gera\u00e7\u00f5es n\u00e3o t\u00eam ideia do que foi o AI-5. Vimos teatros e exposi\u00e7\u00f5es serem fechadas, filmes censurados, cineastas presos, artistas, militantes e estudantes serem presos e torturados. Foi realmente um ano de chumbo. Tudo isso tinha um reflexo muito grande no trabalho da gente, como artista e como humano. Criou-se uma revolta e um inconformismo muito grande&#8221;, relembra.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Descontinuidade<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Carlos Z\u00edlio diz que o AI-5 teve um efeito imediato de fragmenta\u00e7\u00e3o &#8211; com o ex\u00edlio de artistas, a repress\u00e3o de reuni\u00f5es e atividades p\u00fablicas e a impossibilidade de realizar projetos culturais coletivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O ambiente se tornou absurdamente improdutivo&#8221;, descreve. &#8220;Houve uma dispers\u00e3o. Muitos artistas foram para fora do Brasil, como Antonio Dias, H\u00e9lio Oiticica, Lygia Clark, Rubens Gerchman. Toda a din\u00e2mica de produ\u00e7\u00e3o que vinha se desenvolvendo na arte, com novas caracter\u00edsticas, se diluiu. H\u00e1 uma dispers\u00e3o e descontinuidade no processo cultural que vinha se desenrolando, uma ruptura na din\u00e2mica. As consequ\u00eancias s\u00e3o dif\u00edceis de avaliar&#8221;, diz Z\u00edlio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para o curador-chefe do Instituto Tomie Ohtake, Paulo Miyada, a censura &#8220;ampla e irrestrita&#8221; imp\u00f4s &#8220;silenciamentos&#8221; que atingiram a todos os campos da cultura, e essa viol\u00eancia ser sempre lembrada ao lado das viola\u00e7\u00f5es f\u00edsicas, como os casos de morte, tortura, pris\u00e3o, ex\u00edlio e desaparecimentos que ocorreram no pa\u00eds entre 1964 e 1985.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;\u00c9 um clich\u00ea que n\u00e3o podemos deixar de repetir: um pa\u00eds sem mem\u00f3ria est\u00e1 destinado a repetir o seu passado. Divulgar essa hist\u00f3ria de forma insistente \u00e9 uma tarefa social fundamental&#8221;, considera Miyada.<\/p>\n<div class=\"social-embed\">\n<div class=\"social-embed-post social-embed-youtube\">\n<div class=\"embed embed-iframe-rendered\" style=\"border: 0px; color: inherit; font-style: inherit; font-variant: inherit; font-stretch: inherit; font-family: inherit; font-size: 14px; font-weight: inherit; letter-spacing: inherit; line-height: inherit; margin: 0px; padding: 0px; vertical-align: baseline;\" data-iframe=\"&lt;iframe width=&quot;480&quot; height=&quot;270&quot; src=&quot;https:\/\/www.youtube.com\/embed\/660qsQ7rfWE?feature=oembed&quot; frameborder=&quot;0&quot; allow=&quot;accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture&quot; allowfullscreen&gt;&lt;\/iframe&gt;\">\n<div class=\"embed-region embed-core-hidden\" style=\"text-align: justify;\" role=\"region\" aria-label=\"YouTube post de BBC News Brasil\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois de ter uma exposi\u00e7\u00e3o cancelada no MAM por temor de que provocasse retalia\u00e7\u00f5es do governo militar, Antonio Manuel organizou as propostas que tinha submetido \u00e0 institui\u00e7\u00e3o neste suplemento<br \/>\n&#8220;Acho que as novas gera\u00e7\u00f5es n\u00e3o t\u00eam ideia do que foi o AI-5. 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