{"id":26709,"date":"2013-11-04T05:18:06","date_gmt":"2013-11-04T08:18:06","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=26709"},"modified":"2013-11-04T05:18:06","modified_gmt":"2013-11-04T08:18:06","slug":"serra-pelada-renasce-com-novas-tecnologias-e-com-as-suspeitas-de-sempre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/serra-pelada-renasce-com-novas-tecnologias-e-com-as-suspeitas-de-sempre\/","title":{"rendered":"Serra Pelada renasce com novas tecnologias &#8211; e com as suspeitas de sempre"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">O formigueiro humano que cavou \u00e0 m\u00e3o uma cratera de 190 metros desapareceu por completo da paisagem de Serra Pelada. Foi substitu\u00eddo por um lago formado pelas chuvas. N\u00e3o h\u00e1 mais ouro na superf\u00edcie, mas \u00e9 ainda poss\u00edvel encontrar um ou outro peda\u00e7o de quartzo. Uma nova mina est\u00e1 sendo aberta a menos de um quil\u00f4metro da Serra Pelada &#8220;original&#8221;, mas a paisagem \u00e9 t\u00e3o distante da vista 30 anos atr\u00e1s que mais parece sa\u00edda da imagina\u00e7\u00e3o de Julio Verne, autor de Viagem ao Centro da Terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">A\u00a0mineradora canadense Colossus alugou o mesmo &#8220;tatuz\u00e3o&#8221; usado nas obras de metr\u00f4 em S\u00e3o Paulo para cavar a galeria de 200 metros de profundidade. Os v\u00e1rios caminhos que levam \u00e0s fontes de ouro, no entanto, formam uma \u00e1rea subterr\u00e2nea de dois quil\u00f4metros de extens\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-26710\" alt=\"serra-01\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/serra-01-300x200.jpg\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/serra-01-300x200.jpg 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/serra-01-460x307.jpg 460w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/serra-01.jpg 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para descer os t\u00faneis escuros \u00e9 preciso embarcar num ve\u00edculo com tra\u00e7\u00e3o nas quatro rodas e usar macac\u00e3o, capacete com lanterna e cinto especial que inclui uma m\u00e1scara de oxig\u00eanio para casos de inc\u00eandio ou deslizamento. Somente 20 trabalhadores descem a mina a cada turno, por raz\u00f5es de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se muita coisa mudou dentro da mina, a Vila de Serra Pelada continua praticamente a mesma. As ruas nunca foram asfaltadas e precisam receber um jato de \u00e1gua no fim da tarde para que as casas de madeira n\u00e3o sejam tomadas pelo p\u00f3 vermelho. O vilarejo n\u00e3o tem uma s\u00f3 torneira de \u00e1gua pot\u00e1vel nem tratamento de esgoto. Para chegar, o visitante precisa percorrer 35 quil\u00f4metros de estrada de terra. O sinal de somente uma operadora de telefonia chega a Serra Pelada &#8211; ainda assim, em pontos espec\u00edficos que j\u00e1 quase viraram pontos de encontro dos moradores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Esperan\u00e7as.<\/strong>\u00a0Com tamanha falta de estrutura, a popula\u00e7\u00e3o tem, naturalmente, grande expectativa em rela\u00e7\u00e3o ao rein\u00edcio da explora\u00e7\u00e3o do ouro. Como os funcion\u00e1rios administrativos da Colossus tamb\u00e9m usam macac\u00f5es facilmente identific\u00e1veis a quadras de dist\u00e2ncia, os moradores de Serra Pelada tentam, sempre que podem, apresentar suas demandas. A empresa tem um funcion\u00e1rio dedicado a ouvir a comunidade, mas diz que n\u00e3o tem obriga\u00e7\u00e3o de resolver os problemas sociais. Afirma que ajuda a comunidade com a gera\u00e7\u00e3o de emprego e renda. Lembra ter investido R$ 600 milh\u00f5es no projeto e que gera 1,5 mil empregos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Boa parte da comunidade de Serra Pelada \u00e9 de ex-garimpeiros &#8211; portanto, s\u00f3cios da Colossus no projeto. A mineradora s\u00f3 teve acesso \u00e0 \u00e1rea ap\u00f3s acordo com a cooperativa dos trabalhadores de Serra Pelada, a Coomingasp. O governo federal repassou a eles o direito da mina, que pertencia \u00e0 Vale, em 2007. Ap\u00f3s bancar o desenvolvimento do projeto, a m\u00falti vai ficar com 75% do ouro. Em 2010, o Minist\u00e9rio de Minas e Energia ratificou o acordo sobre os porcentuais. O minist\u00e9rio nega benef\u00edcio \u00e0 mineradora e diz que j\u00e1 interveio para garantir que a fatia dos trabalhadores n\u00e3o fosse dilu\u00edda ainda mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde ent\u00e3o, a Colossus j\u00e1 pagou R$ 54 milh\u00f5es em royalties \u00e0 cooperativa, mas o dinheiro nunca chegou \u00e0s m\u00e3os dos garimpeiros (ler mais na p\u00e1g. B7). A Colossus se defende. Diz que s\u00f3 usou as contas escolhidas pelos dirigentes da Coomingasp. Por\u00e9m, para o promotor H\u00e9lio Rubens Pereira, do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Par\u00e1, a mineradora agiu de forma no m\u00ednimo &#8220;at\u00edpica&#8221;. &#8220;Como pode uma multinacional confiar um patrim\u00f4nio coletivo numa conta privada?&#8221;, questiona.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">Na Justi\u00e7a.<\/strong><span style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">\u00a0Como desaparecer com R$ 54 milh\u00f5es? No caso dos pagamentos feitos pela mineradora canadense Colossus \u00e0 Coomingasp, cooperativa que re\u00fane os garimpeiros de Serra Pelada, as suspeitas s\u00e3o de que a f\u00f3rmula inclui dep\u00f3sitos milion\u00e1rios em contas pessoais, processos &#8220;combinados&#8221; na Justi\u00e7a e de venda indiscriminada de carteiras de garimpeiro que d\u00e3o direito a uma fatia da compensa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o projeto da Colossus pr\u00f3ximo da conclus\u00e3o, a tens\u00e3o escalou entre os garimpeiros, que n\u00e3o viram um tost\u00e3o. Em agosto, um grupo contr\u00e1rio ao acordo entre Coomingasp e Colossus entrou em conflito com a pol\u00edcia, que reagiu com balas de borracha e g\u00e1s lacrimog\u00eaneo. Foi quando o Minist\u00e9rio P\u00fablico do Par\u00e1 obteve autoriza\u00e7\u00e3o judicial para intervir na cooperativa. Na varredura dos repasses feitos at\u00e9 ent\u00e3o, explica o promotor H\u00e9lio Rubens Pereira, o MP descobriu que todo o dinheiro repassado pela Colossus \u00e0 cooperativa era depositado em contas pessoais de ex-dirigentes da entidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo o promotor, a justificativa para o dep\u00f3sito em contas pessoais seriam as d\u00edvidas judiciais da Coomingasp, que &#8220;comeriam&#8221; todos os recursos. Por\u00e9m, o Minist\u00e9rio P\u00fablico apurou que parte desses processos seria &#8220;combinada&#8221; e a cooperativa &#8220;esquecia&#8221; de contestar v\u00e1rios deles. O dinheiro seria dividido posteriormente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O MP investiga ainda um esquema de venda de carteiras de garimpeiro que inflou o n\u00famero de associados da Coomingasp a cerca de 40 mil. A ideia \u00e9 revogar as carteiras fraudulentas e reduzir esse n\u00famero, elevando o valor pago aos reais garimpeiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tanto interesse nas carteiras tem raz\u00e3o de ser: com o in\u00edcio da produ\u00e7\u00e3o da mina, em 2014, o valor repassado pela Colossus &#8211; R$ 330 mil por m\u00eas &#8211; deve subir. Os trabalhadores teriam direito ainda a uma indeniza\u00e7\u00e3o de R$ 600 milh\u00f5es da Caixa Econ\u00f4mica Federal, que tinha monop\u00f3lio do ouro extra\u00eddo nos anos 80. A dire\u00e7\u00e3o da Coomingasp j\u00e1 recorreu ao Tribunal de Justi\u00e7a do Par\u00e1 para retirar o interventor da cooperativa, negando as acusa\u00e7\u00f5es e pedindo sua recondu\u00e7\u00e3o \u00e0 entidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O fantasma do garimpo.<\/strong>\u00a0Em Serra Pelada, o fantasma do garimpo ainda est\u00e1 bem vivo. As hist\u00f3rias de homens que ficaram ricos da noite para o dia sobreviveram ao tempo. Nem os 20 anos de inatividade da mina foram suficientes para eliminar entre os habitantes do pequeno vilarejo de ruas de terra a sensa\u00e7\u00e3o de que, algum dia, os bons tempos voltariam. L\u00e1 no fundo, os poucos que ficaram \u2013 cerca de 8 mil, de um total de 100 mil que se acotovelavam por ali nos anos 80 \u2013 ainda guardam o sonho de &#8220;bamburrar&#8221; (enriquecer com o ouro, na g\u00edria local).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">&#8220;Do que mais tenho saudade da \u00e9poca de garimpeiro?&#8221;, diz Raimundo Gon\u00e7alves Dias, 56 anos, devolvendo a pergunta direcionada a ele. Sentado na sala de sua casa de madeira, rodeado por p\u00f4steres com fotos dos filhos, um dos pioneiros de Serra Pelada \u2013 chegou em junho de 1980 \u2013 faz uma longa pausa e responde: &#8220;Tenho saudade da esperan\u00e7a de ser rico.&#8221;<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa esperan\u00e7a foi alimentada porque Raimundo presenciou, em primeira m\u00e3o, donos de barrancos localizados bem pr\u00f3ximos aos seus encontrarem dezenas de quilos de ouro. Apesar de ter administrado quatro barrancos ao mesmo tempo, o garimpeiro diz que s\u00f3 achou &#8220;ourinho&#8221;. Uns quilinhos suficientes somente para manter os custos ao longo do tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tomado pela febre do ouro, chegou a carregar 2,5 mil sacos de areia de um barranco que n\u00e3o produziu nada. Raimundo jamais desistiu da procura mesmo muito depois de os parentes que o haviam seguido voltarem para casa. N\u00e3o largou a peneira e a bateia por uma d\u00e9cada. Ele s\u00f3 desistiu quando o governo Collor fechou o garimpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de seu nome soar como um press\u00e1gio para o enriquecimento com ouro, Aurino Francisco dos Santos, 73 anos, hoje s\u00f3 tem dinheiro para se sustentar gra\u00e7as a uma padaria que abriu j\u00e1 perto do fim do auge de Serra Pelada. Nos anos 80, na esperan\u00e7a de bamburrar, ele reinvestia tudo o que ganhava no garimpo. &#8220;Esperava ficar rico, e a esperan\u00e7a nunca acabava, porque tinha gente que achava muito ouro.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desanimado com Serra Pelada, \u00e0 medida que ouro pr\u00f3ximo \u00e0 superf\u00edcie come\u00e7ou a rarear, Aurino tamb\u00e9m tentou garimpar no Piau\u00ed \u2013 sem sucesso. Voltou a Serra Pelada. Vive numa casa sem pintura e, todos os dias, sempre \u00e0s 17h, re\u00fane-se com amigos para trocar hist\u00f3rias de garimpo e jogar domin\u00f3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ciclo.<\/strong>\u00a0Josaf\u00e1 Alves de Souza tinha 18 anos quando deixou a Santa Luzia, no Maranh\u00e3o, em dire\u00e7\u00e3o a Serra Pelada. Chegou tarde: em 1983, o garimpo j\u00e1 era um formigueiro humano. Teve de come\u00e7ar por baixo, como carregador de sacos do &#8220;empres\u00e1rio&#8221; (dono do barranco) em troca de comida. S\u00f3 recebia um porcentual quando achava ouro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por 20 anos, Josaf\u00e1 perambulou por empregos na constru\u00e7\u00e3o civil no Par\u00e1 e no Maranh\u00e3o. Deixou a fam\u00edlia na vila e s\u00f3 fazia visitas a cada 40 ou 50 dias. H\u00e1 tr\u00eas anos, arranjou seu primeiro emprego perto de casa e fechou seu ciclo na ind\u00fastria do ouro. O ex-carregador de sacos agora opera equipamentos pesados na Colossus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: Estado de S. Paulo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O formigueiro humano que cavou \u00e0 m\u00e3o uma cratera de 190 metros desapareceu por completo da paisagem de Serra Pelada. 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