{"id":267425,"date":"2018-12-18T14:02:31","date_gmt":"2018-12-18T17:02:31","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=267425"},"modified":"2018-12-18T14:02:31","modified_gmt":"2018-12-18T17:02:31","slug":"ha-100-anos-o-baiano-mestre-bimba-criou-a-capoeira-regional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/ha-100-anos-o-baiano-mestre-bimba-criou-a-capoeira-regional\/","title":{"rendered":"H\u00e1 100 anos, o baiano Mestre Bimba criou a Capoeira Regional"},"content":{"rendered":"<header class=\"entry-header mh-clearfix\"><\/header>\n<div class=\"entry-content mh-clearfix\">\n<figure class=\"entry-thumbnail\" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" title=\"mestre_bimba\" src=\"http:\/\/bahianow.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/mestre_bimba.png\" alt=\"\" \/><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"wpsdc-drop-cap\">M<\/span>estre Cafun\u00e9, 80 anos, lembra bem de quando foi \u00e0 escola de capoeira de mestre Bimba (1899-1974) pela primeira vez. Percorreu uma longa dist\u00e2ncia, do Polo Petroqu\u00edmico de Cama\u00e7ari, onde trabalhava, ao Pelourinho. Tinha lido sobre o mestre num jornal e decidiu conhec\u00ea-lo. \u201cEu era uma pessoa t\u00edmida, medrosa. Passei pela Baixa dos Sapateiros com medo, depois subi essa ladeira a\u00ed com as pernas j\u00e1 tremendo\u201d, lembra. Bateu na porta e disse ao capoeirista que queria tomar algumas aulas. Foi botado para fora. Naquela \u00e9poca, Cafun\u00e9 se chamava S\u00e9rgio D\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cMinha cabe\u00e7a foi xingando ele de todos os nomes poss\u00edveis por ter me tirado de l\u00e1. Fiquei muito chateado\u201d, brinca. At\u00e9 que descobriu o motivo da expuls\u00e3o. Na porta, uma plaquinha dizia: \u201cVisita, 2 mil cruzeiros. Mensalidade, 2 mil cruzeiros\u201d. Resolveu pagar a mensalidade, voltou a mestre Bimba e, naquele dia, recebeu o primeiro ensinamento. \u201cEle me disse: \u2018Quando voc\u00ea chegar num lugar, n\u00e3o entre de primeira. Primeiro voc\u00ea observa, veja quando pode entrar, quando pode sair, tome cuidado\u2019. A primeira aula que ele me deu foi essa\u201d. Pode at\u00e9 parecer coisa pouca, mas, garante Cafun\u00e9, \u00e9 um conselho para a vida. \u201cEle nos ensinava a ter respeito pelos espa\u00e7os, ser mais observador, mais equilibrado, \u00e9 algo que tem um sentido muito amplo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2018, a capoeira regional, criada por Manoel dos Reis Machado, o mestre Bimba, comemora 100 anos de exist\u00eancia. Em setembro de 1918, ele criou e come\u00e7ou a aplicar o m\u00e9todo de ensino usado at\u00e9 hoje. E n\u00e3o foi um caminho f\u00e1cil. Manoel come\u00e7ou a praticar a luta \u2013 ou dan\u00e7a, ou jogo, como preferir \u2013 aos 12 anos. \u201cMeu av\u00f4 era lutador de batuque, uma luta africana que parece com a capoeira. Por muito anos, meu pai acompanhou o meu av\u00f4 e foi aprendendo\u201d, conta Manoel Machado, mestre Nenel, filho de Bimba. Como o esporte era ilegal e n\u00e3o podia ser praticado e muito menos ensinado, alguns dos movimentos se perderam com o tempo. \u201cPara preencher esse vazio, meu pai uniu a capoeira com o batuque. E a\u00ed nasceu a capoeira regional\u201d, diz Nenel. Na \u00e9poca, batizou a inven\u00e7\u00e3o de luta regional baiana. \u201cSe levasse o nome de capoeira, poderia ser criminalizado, a capoeira estava no C\u00f3digo Penal Brasileiro, n\u00e3o podia\u201d, conclui Nenel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 11 de outubro de 1890, o presidente Deodoro da Fonseca proibiu a pr\u00e1tica por meio do decreto 847. No documento consta que \u00e9 proibido \u201cfazer nas ruas e pra\u00e7as p\u00fablicas exerc\u00edcio de agilidade e destreza corporal conhecida pela denomina\u00e7\u00e3o capoeiragem: andar em carreiras, com armas ou instrumentos capazes de produzir les\u00e3o corporal, provocando tumulto ou desordens, amea\u00e7ando pessoa certa ou incerta, ou incutindo temor de algum mal\u201d. A pena era pris\u00e3o de dois a seis meses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos \u201cchefes\u201d, ou seja, professores, a pena dobrava e, em caso de reincid\u00eancia, podia chegar a tr\u00eas anos de pris\u00e3o. Estrangeiros que infringissem a lei eram deportados de pronto depois de cumprirem a pena. Era preciso bravura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E foi com bravura que, em 1932, Bimba fundou a primeira academia no bairro do Engenho Velho de Brotas. O alvar\u00e1 s\u00f3 veio em 1937, quando a pr\u00e1tica deixou de ser ilegal. Mesmo sob tantos riscos, conta Marinalva Machado, filha do mestre, ele nunca pensou em desistir. \u201cEra uma miss\u00e3o de vida. Ele era muito determinado, tinha certeza de que iria conseguir levar a nossa arte para o resto do Brasil e do mundo\u201d, diz dona Nalvinha, como gosta de ser chamada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos momentos mais importantes para o reconhecimento da luta pa\u00eds afora foi quando o capoeirista se apresentou para Get\u00falio Vargas numa visita do ent\u00e3o presidente a Salvador, em 1953. Mesmo que j\u00e1 n\u00e3o fosse crime, explica dona Nalvinha, a pr\u00e1tica ainda n\u00e3o tinha tanto espa\u00e7o fora da Bahia. \u201cO presidente se encantou e ajudou a divulgar a capoeira, a levar esse legado para outros estados. Disse que era o \u00fanico esporte verdadeiramente brasileiro\u201d, lembra ela. Mas foi s\u00f3 em 1972, dois anos antes da morte do mestre, que a capoeira foi reconhecida como modalidade desportiva pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e Cultura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para celebrar o centen\u00e1rio da capoeira regional, a Funda\u00e7\u00e3o Mestre Bimba (FMB) organizar\u00e1, entre os dias 18 e 22 deste m\u00eas, uma por\u00e7\u00e3o de atividades gratuitas espalhadas pela cidade. Al\u00e9m de semin\u00e1rios, apresenta\u00e7\u00f5es de capoeira, oficinas de maculel\u00ea, samba de roda e puxada de rede, haver\u00e1 o lan\u00e7amento do livro Bimba, Um s\u00e9culo da Capoeira Regional, escrito por mestre Nenel. O lan\u00e7amento ser\u00e1 no dia 22, \u00e0s 10h, no Teatro Sesc-Senac Pelourinho. \u201c\u00c9 a nossa mem\u00f3ria, a mem\u00f3ria de um povo. Vejo meu pai como um \u00eddolo, algu\u00e9m que pensava muito al\u00e9m do tempo dele, n\u00e3o sabia nem ler nem escrever e conseguiu transformar algo perseguido pela sociedade em arte\u201d, diz Nenel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pendurados nas paredes da funda\u00e7\u00e3o, retratos marcam a hist\u00f3ria do esporte baiano. Entre os alunos destacados nas paredes est\u00e3o figuras conhecidas, como o senador Otto Alencar e Luiz Carreira, chefe da Casa Civil da Prefeitura de Salvador. Na capoeira, o apelido dele \u00e9 Secret\u00e1rio. \u201cMas s\u00e3o mais de 200 disc\u00edpulos e 600 alunos. Alguns deixaram a capoeira depois da morte de Bimba, acabaram perdendo a refer\u00eancia. Ele era quem nos animava a continuar\u201d, lamenta Cafun\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, essa heran\u00e7a est\u00e1 em mais de 160 pa\u00edses. H\u00e1 n\u00facleos da Filhos de Bimba Escola de Capoeira nos Estados Unidos, Canad\u00e1, L\u00edbano, Cro\u00e1cia, Fran\u00e7a e Reino Unido. Todos os anos, dona Nalvinha vai aos Estados Unidos dar aulas de samba de roda. L\u00e1, diz, sente-se mais bem recebida do que na Bahia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cN\u00e3o sei dizer o motivo disso, mas tem muito preconceito. Temos o preconceito racial\u2026 uma vez, uma pessoa daqui trouxe um amigo estrangeiro que queria aprender capoeira. Perguntei se ele iria se matricular tamb\u00e9m. E ele disse: \u2018N\u00e3o, Deus me livre! \u00c9 s\u00f3 ele\u2019\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para manter viva essa mem\u00f3ria na Bahia, a FMB mant\u00e9m o projeto Capoer\u00ea, que oferece aulas para crian\u00e7as e adolescentes de bairros da periferia de Salvador. \u201cTemos casos de meninos que j\u00e1 estavam entrando no crime, mas foram resgatados pela capoeira. Se eles est\u00e3o em aula, n\u00e3o est\u00e3o mais fazendo o que faziam antes. E tirar pelo menos um menino dessa vida j\u00e1 faz toda a diferen\u00e7a\u201d, opina Nalvinha. Muitos desses alunos se tornam professores, e alguns deles ensinam fora do Brasil. \u201cPerceba que a ideia \u00e9 manter o legado circulando, viajando, alcan\u00e7ando mais culturas\u201d, diz a filha do mestre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No \u00faltimo ano de vida, aos 74 anos, mestre Bimba deixou a Bahia. N\u00e3o se sentia valorizado pelo governo e, a convite de um ex-aluno, mudou-se para Goi\u00e2nia. E foi l\u00e1, a 1.658 quil\u00f4metros de casa, que morreu. Mas a filosofia dele persiste \u2013 na Bahia, em Goi\u00e1s, em tudo quanto \u00e9 canto a que chegou. Quem explica \u00e9 Cafun\u00e9: \u201c\u00c9 a arte de viver bem. Ele nos ensinava tudo sobre voc\u00ea viver bem\u201d.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mestre Cafun\u00e9, 80 anos, lembra bem de quando foi \u00e0 escola de capoeira de mestre Bimba (1899-1974) pela primeira vez.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":267426,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-267425","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/capoeira.png","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/267425","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=267425"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/267425\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/267426"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=267425"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=267425"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=267425"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}