{"id":268174,"date":"2018-12-26T06:06:05","date_gmt":"2018-12-26T09:06:05","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=268174"},"modified":"2018-12-26T06:06:05","modified_gmt":"2018-12-26T09:06:05","slug":"partidario-do-nada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/partidario-do-nada\/","title":{"rendered":"Partid\u00e1rio do nada"},"content":{"rendered":"<div class=\"articulo__apertura\">\n<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div class=\"articulo-encabezado-texto\">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\"><em>A prosa de Jorge Edwards, escritor e diplomata chileno, est\u00e1 carregada de uma fina ironia que d\u00e1 um encanto especial a tudo o que conta eu seu livro de mem\u00f3rias, por onde desfilam personagens fascinantes como Rubem Braga ou Carlos Fuentes<\/em><\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"firma \">\n<div class=\"autor\">\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Mario Vargas Llosa\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/mario_vargas_llosa\/a\/\">MARIO VARGAS LLOSA<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"articulo-datos\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<figure class=\"foto  izquierda  foto_w360\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2018\/12\/21\/opinion\/1545413000_440374_1545502349_noticia_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2018\/12\/21\/opinion\/1545413000_440374_1545502349_noticia_normal_recorte1.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2018\/12\/21\/opinion\/1545413000_440374_1545502349_noticia_normal.jpg 360w\" alt=\"Partid\u00e1rio do nada\" width=\"360\" height=\"555\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">FERNANDO VICENTE<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cPartid\u00e1rio do nada\u201d, declara-se\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/jorge_edwards\/a\/\">Jorge Edwards<\/a>\u00a0no segundo volume de suas mem\u00f3rias, que ele acaba de publicar (<a href=\"https:\/\/www.amazon.com\/Esclavos-consigna-Spanish-Jorge-Edwards-ebook\/dp\/B07F476VBZ\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Esclavos de la Consigna<\/em>, editora Lumen<\/a>). A frase \u00e9 muito bonita, mas n\u00e3o \u00e9 verdadeira, porque ele tem suas ideias pol\u00edticas e liter\u00e1rias bastante claras e as defende com integridade. Mas sempre houve nele uma objetividade e um comedimento que se refletem muito exatamente nesse estilo sereno, demorado, claro e inteligente com o qual escreve suas espl\u00eandidas cr\u00f4nicas e mem\u00f3rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos anos narrados neste livro, os de sua juventude liter\u00e1ria at\u00e9 o instante em que\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/salvador_allende\/a\/\">Salvador Allende<\/a>, rec\u00e9m-eleito presidente do Chile, o envia a Cuba como adido de neg\u00f3cios para reabrir a embaixada que havia estado fechada desde o rompimento das rela\u00e7\u00f5es entre os dois pa\u00edses, durante o regime de Eduardo Frei Montalva, os sectarismos pol\u00edticos eram t\u00e3o apaixonados na Am\u00e9rica Latina que algu\u00e9m t\u00e3o pouco estridente, t\u00e3o bem educado e t\u00e3o respeitoso das formas poderia parecer inexistente. A boa prosa de Edwards est\u00e1 carregada de uma fina ironia que confere um encanto especial a tudo o que ele conta no livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ovelha negra de uma antiga fam\u00edlia chilena por causa das suas amizades esquerdistas, e esquerdista ele mesmo quando adolescente e em sua primeira etapa de maturidade, os primeiros cap\u00edtulos de\u00a0<em>Esclavos de la Consigna<\/em>(\u201cescravos da palavra de ordem\u201d) se referem sobretudo aos seus primeiros passos no dom\u00ednio da literatura, como esta voca\u00e7\u00e3o foi se impondo sobre todo o resto\u00a0\u2014seus estudos de Direito, o ano de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Princeton que o marcou com for\u00e7a, seu ingresso na diplomacia, o entusiasmo com que leu Unamuno e a outros escritores da\u00a0<em>Gera\u00e7\u00e3o de 98<\/em>, seus primeiros livros de contos\u2014, e \u00e0 bo\u00eamia pertinaz, feita de h\u00e1bitos noturnos, \u00e1lcool e travessuras com as chilenas, talvez as primeiras a alcan\u00e7arem uma margem de liberdade e independ\u00eancia que o resto das mulheres latino-americanas ainda desconhecia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um personagem central na vida de Jorge Edwards foi\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/pablo_neruda\/a\/\">Pablo Neruda<\/a>; ficaram amigos desde que ele era muito jovem, e essa amizade permitiu a Jorge conhecer um Neruda muito mais \u00edntimo, a quem descreve nestas p\u00e1ginas com admira\u00e7\u00e3o e carinho pela grandeza de sua poesia, mas que tamb\u00e9m mostra como algu\u00e9m dominado por d\u00favidas e ang\u00fastias pol\u00edticas secretas que \u00e0s vezes o devoravam (\u201cEnganei-me\u201d confessou nos anos finais). Tamb\u00e9m relata os esfor\u00e7os que fez para evitar que Jorge escrevesse\u00a0<em>Persona Non Grata<\/em>, seu testemunho cr\u00edtico sobre a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, que seria lido em todo mundo e que lhe traria \u2014como anteviu o poeta\u2014 uma tempestade de cr\u00edticas de uma ferocidade sem precedentes por parte de uma esquerda deslumbrada com a suposta \u201crevolu\u00e7\u00e3o com festa\u201d de Cuba. Aqui conta como o pr\u00f3prio Julio Cort\u00e1zar, rec\u00e9m-convertido \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o naqueles anos, confessou que, apesar de serem amigos, preferia n\u00e3o voltar a v\u00ea-lo por ter escrito aquela mem\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conheci Jorge nesses anos, rec\u00e9m-chegado a Paris como terceiro-secret\u00e1rio da embaixada do Chile. Ficamos muito amigos, nos faz\u00edamos visitas liter\u00e1rias nos fins de semana e troc\u00e1vamos livros. Era ent\u00e3o mais para o t\u00edmido, mas, depois de dois whiskies, saltava sobre uma mesa e, muito s\u00e9rio, interpretava uma endiabrada \u201cdan\u00e7a hindu\u201d que consistia em mover ao mesmo tempo a cabe\u00e7a, as m\u00e3os e os p\u00e9s. Tenho certeza de que cumpria suas fun\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas de maneira cabal, mas a literatura foi sempre sua primeira prioridade; j\u00e1 desde ent\u00e3o costumava se levantar ao alvorecer para escrever \u2014sempre \u00e0 m\u00e3o, em folhas brancas e com canetas de tinta azul\u2014, e assim li eu seu primeiro romance,\u00a0<em>El Peso de la Noche<\/em>, que est\u00e1 sempre vivo em minha mem\u00f3ria, tanto como nossas discuss\u00f5es sobre se Dostoi\u00e9vski ou Tolst\u00f3i era o melhor escritor (eu defendia Tolst\u00f3i).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pelo livro desfilam uma s\u00e9rie de personagens fascinantes, como\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Rubem_Braga\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">o brasileiro Rubem Braga<\/a>, Carlos Fuentes, \u201ccom sua cara de pr\u00f3cer da Revolu\u00e7\u00e3o Mexicana\u201d, e Enrique Bello, um sibarita que me confessou uma noite que estava feliz por ter conseguido materializar um sonho ep\u00f4nimo; perguntei-lhe qual era e me respondeu, muito s\u00e9rio: \u201cDar \u00e0 carne bovina um tratamento que a fa\u00e7a parecer carne de ca\u00e7a\u201d. Talvez o mais terno deles seja o apelidado de Queque Sanhueza, intelectual e erudito bibli\u00f3grafo que parecia extraviado neste mundo (salvo dentro de uma biblioteca), pequeno ele mesmo e apaixonado por mulheres muito altas e musculosas, que se acidentou ao montar numa bicicleta na ilha grega de Leros e morreu em Santiago, sem ter entendido uma palavra daquela terra, mesmo depois de ter lido milhares de livros. Seu di\u00e1logo com o pope [sacerdote da igreja ortodoxa grega] que descobre ao seu lado, depois do acidente naquela ilhota grega, \u00e9 memor\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E a fugaz apari\u00e7\u00e3o de Pepe Bianco, o eterno secret\u00e1rio de reda\u00e7\u00e3o da revista\u00a0<em>SUR<\/em>, em Buenos Aires, que \u201caspirava a ser pobre, j\u00e1 que agora era menos que pobre, miser\u00e1vel\u201d. Que eu me recorde, Pepe Bianco s\u00f3 publicou um par de livros \u2014em todo caso, s\u00e3o os \u00fanicos que li dele\u2014, mas era um desses intelectuais argentinos que tinham lido a melhor literatura do mundo em cinco idiomas e opinava sobre ela com um gosto liter\u00e1rio delicioso e infal\u00edvel. Garc\u00eda M\u00e1rquez n\u00e3o aparece em pessoa, mas sim\u00a0<em>Cem Anos de Solid\u00e3o<\/em>, cuja \u201cfantasia excessiva\u201d, diz Edwards, \u201co aborreceu\u201d. (Sobre isto poder\u00edamos ter tamb\u00e9m uma dessas discuss\u00f5es apaixonadas da nossa juventude.) E \u00e9 perversa a apari\u00e7\u00e3o do poeta e escritor sueco \u2013 ainda por cima hispanista \u2013 Artur Lundqvist, \u201cque parecia convencido de um curioso axioma pol\u00edtico e liter\u00e1rio: o escritor partid\u00e1rio de Fidel Castro e do castrismo era necessariamente bom escritor, e vice-versa\u201d. Tamb\u00e9m \u00e9 inesquec\u00edvel a imagem, durante o Congresso Cultural de Havana, do pintor Roberto Matta e outros surrealistas dando pontap\u00e9s no traseiro do veterano David Alfaro Siqueiros e gritando \u201cpor Trotski!\u201d a cada chute.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma dimens\u00e3o muito especial neste livro \u00e9 o testemunho pol\u00edtico. \u00c9 surpreendente saber que, se algu\u00e9m anteviu a cat\u00e1strofe que poderia sobrevir com a elei\u00e7\u00e3o de Salvador Allende e as reformas que a Unidade Popular prometia, esse algu\u00e9m foi Neruda. Perguntaram-lhe se votaria em Allende e, pesaroso, ele disse: \u201cN\u00e3o tenho outro rem\u00e9dio\u201d. Mas Matilde Neruda votou em Radomiro Tomic. E aqui aparece o poeta, angustiado com os pesadelos com o que poderia ocorrer no Chile \u2014ou seja, o flagelo radical de Pinochet\u2014 ante a perspectiva de que o radicalismo da Unidade Popular desestabilizasse a solidez democr\u00e1tica de seu pa\u00eds. Estas institui\u00e7\u00f5es estavam muito arraigadas, de fato. S\u00f3 no Chile democr\u00e1tico de ent\u00e3o poderia um diplomata, como fazia Edwards, ir comigo \u00e0 embaixada de Cuba em Paris a cada 26 de Julho para celebrar a Revolu\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds com o qual seu governo estava em um questionamento inflamado (tanto que haviam rompido rela\u00e7\u00f5es). E, apesar do esquerdismo de Edwards de ent\u00e3o, o ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores de Frei Montalva, o democrata-crist\u00e3o Gabriel Vald\u00e9s, ligava para ele consultando-o sobre escritores e a pol\u00edtica cultural do Governo. Bons costumes que, felizmente, logo depois do pesadelo da ditadura militar voltaram ao Chile e que este livro recria com delicadeza e humor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte:\u00a0EL PA\u00cdS<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A prosa de Jorge Edwards, escritor e diplomata chileno, est\u00e1 carregada de uma fina ironia que d\u00e1 um encanto especial a tudo o que conta eu seu livro de mem\u00f3rias, por onde desfilam personagens fascinantes como Rubem Braga ou Carlos Fuentes<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":268175,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-268174","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/desenhos.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/268174","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=268174"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/268174\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/268175"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=268174"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=268174"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=268174"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}