{"id":268541,"date":"2018-12-29T16:00:58","date_gmt":"2018-12-29T19:00:58","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=268541"},"modified":"2018-12-30T08:02:55","modified_gmt":"2018-12-30T11:02:55","slug":"tecnologia-permite-destruir-amazonia-mais-rapido-do-que-fizemos-com-a-mata-atlantica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/tecnologia-permite-destruir-amazonia-mais-rapido-do-que-fizemos-com-a-mata-atlantica\/","title":{"rendered":"&#8216;Tecnologia permite destruir Amaz\u00f4nia mais r\u00e1pido do que fizemos com a Mata Atl\u00e2ntica&#8217;"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"byline\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"byline__name\">Jo\u00e3o Fellet<\/span><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/1347E\/production\/_104947987_museu_japonesa.jpg\" alt=\"Imigrantes japoneses derrubam \u00e1rvore centen\u00e1ria no interior de S\u00e3o Paulo\" width=\"2778\" height=\"2005\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span>S\u00f3 3% da madeira derrubada na Mata Atl\u00e2ntica para dar lugar a fazendas foi aproveitada; em geral, matas eram incendiadas e transformadas em pastos para prepar\u00e1-las para a agricultura, assim como hoje ocorre na Amaz\u00f4nia<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\" style=\"text-align: justify;\">Em 2005, ent\u00e3o rec\u00e9m-formado na faculdade de\u00a0<a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/topics\/e6628cd5-c2d2-421f-a04d-7de92a105ba1\">Biologia<\/a>\u00a0da USP, o bot\u00e2nico Ricardo Cardim teve a ideia de percorrer \u00e1reas desflorestadas da Mata Atl\u00e2ntica atr\u00e1s de \u00e1rvores gigantes que haviam sobrevivido isoladas no meio de planta\u00e7\u00f5es e pastagens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pesquisa ganhou corpo ao longo dos \u00faltimos 13 anos e se transformou numa das maiores investiga\u00e7\u00f5es sobre a hist\u00f3ria da destrui\u00e7\u00e3o de uma das regi\u00f5es mais biodiversas do planeta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em &#8220;Remanescentes da Mata Atl\u00e2ntica: As Grandes \u00c1rvores da Floresta Original e Seus Vest\u00edgios&#8221; (ed. Olhares), livro lan\u00e7ado em novembro, Cardim documenta a vertiginosa expans\u00e3o econ\u00f4mica sobre o bioma, que, em pouco mais de um s\u00e9culo, o fez perder 90% de sua vegeta\u00e7\u00e3o original e dividiu as \u00e1reas sobreviventes em 245 mil fragmentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao lado do fot\u00f3grafo C\u00e1ssio Vasconcellos e do bot\u00e2nico Luciano Zandon\u00e1, Cardim tamb\u00e9m elaborou um invent\u00e1rio de tesouros que resistiram \u00e0s derrubadas &#8211; entre os quais exemplares centen\u00e1rios de figueiras, perobas e paus-brasil, retratados em expedi\u00e7\u00f5es por seis Estados das regi\u00f5es Sul, Sudeste e Nordeste.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u00e1rvore mais alta identificada, numa antiga fazenda de cacau em Camac\u00e3 (BA), foi um jequitib\u00e1 com 58 metros de altura e tronco com 13,6 metros de circunfer\u00eancia &#8211; dimens\u00f5es extraordin\u00e1rias, mas aqu\u00e9m das \u00e1rvores gigantes do bioma no passado, como um jequitib\u00e1 na regi\u00e3o de Campinas (SP) cujo caule alcan\u00e7ava 19,5 metros de circunfer\u00eancia no in\u00edcio do s\u00e9culo 20.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em entrevista \u00e0 BBC News Brasil, Cardim diz que as condi\u00e7\u00f5es que permitiram o desenvolvimento das \u00e1rvores gigantes da Mata Atl\u00e2ntica n\u00e3o existem mais. Compartimentadas e cercadas por\u00a0<a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/topics\/b6313976-a311-480f-a813-08caddad7a2f\">lavouras<\/a>, muitas \u00e1reas de floresta sobreviventes se despovoaram de animais &#8211; essenciais para a renova\u00e7\u00e3o das plantas &#8211; e sofrem com a invas\u00e3o de esp\u00e9cies ex\u00f3ticas e altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele diz acreditar, por\u00e9m, que as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es conseguir\u00e3o reconectar os fragmentos da floresta e trazer os bichos de volta, garantindo a sobreviv\u00eancia do bioma, ainda que sem a mesma riqueza original.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cardim n\u00e3o nutre o mesmo otimismo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Amaz\u00f4nia &#8211; que, segundo ele, vive hoje, passo a passo, o mesmo roteiro da destrui\u00e7\u00e3o da Mata Atl\u00e2ntica. Segundo o bot\u00e2nico, enquanto o desflorestamento da Mata Atl\u00e2ntica parece ter sido contido, a Amaz\u00f4nia sofre com a a\u00e7\u00e3o &#8220;de um arco de aventureiros que s\u00e3o incontrol\u00e1veis&#8221; e fragmentar\u00e3o o bioma antes que a sociedade se conscientize sobre sua import\u00e2ncia. &#8220;Hoje a tecnologia permite que a gente fa\u00e7a a destrui\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia com a mesma velocidade, ou at\u00e9 mais r\u00e1pido, do que fizemos na Mata Atl\u00e2ntica. Com nossas estradas, caminh\u00f5es, motosseras, o ganho de escala \u00e9 absurdo&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Confira os principais trechos da entrevista.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/C336\/production\/_104947994_zandona_1.jpg\" alt=\"Reserva Natural Vale, no Esp\u00edrito Santo\" width=\"3216\" height=\"2283\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Colar de brom\u00e9lias em torno de \u00e1rvore na Reserva Natural Vale, em Linhares, no Esp\u00edrito Santo.<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; O livro mostra que, ao contr\u00e1rio do que muitos pensam, a destrui\u00e7\u00e3o da Mata Atl\u00e2ntica foi um processo bem recente. Como o bioma foi aniquilado t\u00e3o rapidamente?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ricardo Cardim &#8211;<\/strong>\u00a0At\u00e9 1890, o que estava mexido no Brasil era um pedacinho de Pernambuco, por causa do ciclo do a\u00e7\u00facar no s\u00e9culo 17, e do Rio de Janeiro, por causa das fazendas de caf\u00e9. O resto era mata fechada, com \u00edndios dentro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parece incr\u00edvel, mas a destrui\u00e7\u00e3o da Mata Atl\u00e2ntica se deu mesmo no s\u00e9culo 20. A grande cobi\u00e7a era pelos h\u00famus que fertilizaram o solo da Mata Atl\u00e2ntica ao longo de mil\u00eanios. A madeira era muito mais um empecilho do que um benef\u00edcio. S\u00f3 no final do processo, quando j\u00e1 t\u00ednhamos muito caminh\u00e3o e transporte facilitado pelas ferrovias, que a madeira come\u00e7ou a ser aproveitada. Mesmo assim, o \u00edndice de aproveitamento da madeira foi de cerca de 3% de tudo o que foi derrubado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ordem era &#8220;limpa logo para a gente come\u00e7ar a colher o ouro verde&#8221;, que era o caf\u00e9. Fizemos como aquele cara que herda uma fortuna e na mesma noite vai gastar tudo em farra, e acorda pobre. Demoramos milhares de anos para formar aquele solo, criar aquelas condi\u00e7\u00f5es perfeitas, e em cinco ou dez anos, aquilo n\u00e3o existia mais. Os solos que a gente cultiva hoje s\u00f3 s\u00e3o cultiv\u00e1veis por causa da tecnologia, porque j\u00e1 foram exauridos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; Voc\u00ea destaca no livro a destrui\u00e7\u00e3o das matas de arauc\u00e1rias, na por\u00e7\u00e3o sul da Mata Atl\u00e2ntica. O que houve de peculiar nesse processo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Cardim<\/strong>\u00a0&#8211; A velocidade com que ocorreu. Essa \u00e9 uma floresta que passa do s\u00e9culo 19 ao 20 praticamente intacta. Brincava-se que era poss\u00edvel atravessar os Estados do Paran\u00e1 e de Santa Catarina nos galhos das arauc\u00e1rias, de t\u00e3o grudadinhas que elas estavam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), o Brasil importava madeira &#8211; o que era surreal para um pa\u00eds que estava destruindo florestas adoidado para plantar caf\u00e9. Mas, quando a Primeira Guerra impede esse com\u00e9rcio, o mercado come\u00e7a a lembrar a arauc\u00e1ria &#8211; um pinheiro maravilhoso, muito f\u00e1cil de cortar. Come\u00e7a um saque da floresta voltado para a madeira como se nunca viu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A arauc\u00e1ria vira uma grande divisa. Todo mundo que quer ficar rico vai para a floresta de arauc\u00e1ria montar sua serrraria. Isso chega no auge nos anos 1950 e 1960. Cortavam tanta madeira que boa parte dela apodrecia antes de ser escoada para o mercado. Nos anos 1970, a floresta acabou. Houve uma quebradeira geral nas serrarias. Fam\u00edlias que eram riqu\u00edssimas ficaram pobres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A arauc\u00e1ria simplesmente acabou. O que temos hoje s\u00e3o arauc\u00e1rias rebrotando, pequenas. O que sobrou hoje \u00e9 uma sombra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; O qu\u00e3o virgem era a Mata Atl\u00e2ntica antes de 1500?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Cardim\u00a0<\/strong>&#8211; (O antrop\u00f3logo) Darcy Ribeiro falava que havia entre 4 e 6 milh\u00f5es de \u00edndios vivendo aqui no territ\u00f3rio. Acho poss\u00edvel, mas n\u00e3o acho que o impacto deles na floresta foi t\u00e3o grande quanto o historiador americano Warren Dean falou em &#8220;A ferro e fogo: a hist\u00f3ria da devasta\u00e7\u00e3o da Mata Atl\u00e2ntica brasileira&#8221; (1996). Ele diz que n\u00e3o existia floresta intocada, porque os \u00edndios j\u00e1 tinham cortado aquilo pelo menos uma vez em um mil\u00eanio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu acredito que os \u00edndios tinham capacidade de alterar o meio, mas com ferramentas muito primitivas &#8211; machados de pedra, fogo -, e tamb\u00e9m tinham popula\u00e7\u00f5es muito pulverizadas. As coivaras que eles faziam para queimar e plantar ro\u00e7as n\u00e3o eram suficientes para gerar uma extensa derrubada. Acho que os \u00edndios deixavam as \u00e1rvores grandes no meio da coivara e plantavam embaixo delas. E n\u00e3o acho que tenham conseguido trabalhar todo o territ\u00f3rio a ponto de alter\u00e1-lo.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/11E44\/production\/_104948237_ff6e9464-73f3-433b-a50a-787f61cc7d2c.jpg\" alt=\"Jequitib\u00e1 de Camac\u00e3\" width=\"3113\" height=\"2599\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>O jequitib\u00e1 de Camac\u00e3, na Bahia, \u00e9 considerado atualmente a maior \u00e1rvore da Mata Atl\u00e2ntica, com 58 metros de altura e 13,6 metros de circunfer\u00eancia do tronco, medida a 1,3 metro do solo.<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; Qual o cen\u00e1rio hoje para as \u00e1rvores gigantes remanescentes da Mata Atl\u00e2ntica?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Cardim\u00a0<\/strong>&#8211; \u00c9 terrivelmente amea\u00e7ado. A Mata Atl\u00e2ntica virou uma colcha de retalhos. Sobrou um d\u00e9cimo do que ela era, e ainda por cima esse d\u00e9cimo \u00e9 formado por vegeta\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria &#8211; por florestas que j\u00e1 foram queimadas, exploradas, derrubadas &#8211; e dividido em 245 mil fragmentos de diferentes tamanhos. As \u00e1rvores gigantes que sobraram nesses pedacinhos, especialmente nos menores, est\u00e3o superamea\u00e7adas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O clima local altera quando se derrubam florestas &#8211; basta lembrar que S\u00e3o Paulo era a terra da garoa, e hoje n\u00e3o temos mais garoa porque sumiu o verde dentro e no entorno da cidade. Os ventos, altera\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas como a infesta\u00e7\u00e3o de cip\u00f3s, uma s\u00e9rie de desequil\u00edbrios ecol\u00f3gicos causados pela invas\u00e3o do homem na floresta est\u00e3o colocando em risco as poucas \u00e1rvores gigantes que sobreviveram no bioma &#8211; tanto dentro da floresta quanto aquelas que est\u00e3o isoladas em pastos, planta\u00e7\u00f5es, meios urbanos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nossa gera\u00e7\u00e3o talvez seja uma das \u00faltimas a conseguir enxergar essas \u00e1rvores gigantes, porque elas est\u00e3o desaparecendo. E acho dif\u00edcil que novas \u00e1rvores desse porte surjam se a gente n\u00e3o reconectar os fragmentos de floresta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; \u00c9 vi\u00e1vel reconectar esses fragmentos, considerando as for\u00e7as econ\u00f4micas e pol\u00edticas atuais? As paisagens na regi\u00e3o parecem estar muito consolidadas.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Cardim<\/strong>\u00a0&#8211; Nasci em 1978 e cresci numa casa que tinha telefone de disco, uma TV com bombril espetado em cima e meu pai assinando jornal. O mundo mudou muito, e n\u00e3o s\u00f3 em tecnologia, em vis\u00e3o do planeta, sociedade. As crian\u00e7as est\u00e3o vindo com outro olhar sobre a natureza. Tenho muita f\u00e9 de que elas v\u00e3o causar uma revolu\u00e7\u00e3o, e a tecnologia vai resolver muitos problemas, produzindo muito alimento sem precisar de grandes territ\u00f3rios. Vai chegar o momento em que vamos conseguir ter a harmonia entre o conforto moderno e o modo de produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mico, e conseguiremos restabelecer parte do territ\u00f3rio natural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2100, teremos a Mata Atl\u00e2ntica reconectada, sobrevivendo, em harmonia com as cidades e as atividades agr\u00edcolas. Sou otimista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; A Mata Atl\u00e2ntica ser\u00e1 capaz de se regenerar sozinha?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Cardim<\/strong>\u00a0&#8211; Se o ser humano desaparecesse da Terra neste instante, a Mata Atl\u00e2ntica iria recompor todo seu espa\u00e7o. O que a atrapalharia s\u00e3o as plantas invasoras. Trouxemos muitas plantas estrangeiras. Quando voc\u00ea traz algo de fora, isso pode prejudicar enormemente quem j\u00e1 estava aqui antes. Vemos isso no parque Trianon (em S\u00e3o Paulo) e na Floresta da Tijuca (no Rio de Janeiro).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A floresta abandonada, sem ser manejada, iria virar um h\u00edbrido de Mata Atl\u00e2ntica com\u00a0<i>Pinus elliotti<\/i>\u00a0(pinheiro nativo da Am\u00e9rica do Norte), com palmeira seafortia (esp\u00e9cie australiana), com jaqueiras (oriundas da \u00c1sia), e isso poderia comprometer grande parte da bidiversidade at\u00e9 chegar num ponto de equilibrio. Ter\u00edamos uma floresta mais pobre do que aquela que os portugueses encontraram em 1500.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/85EC\/production\/_104948243_cardim_balsas.jpg\" alt=\"Transporte de madeira por balsas no rio Uruguai, na regi\u00e3o Sul\" width=\"3316\" height=\"2631\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Balsas usadas para escoar madeira no rio Uruguai, na regi\u00e3o Sul; mesma t\u00e9cnica \u00e9 usada atualmente para transportar madeira pelos rios amaz\u00f4nicos.<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; O ge\u00f3grafo Altair Sales costuma dizer que os trechos remanescentes de Cerrado s\u00e3o como fotografias do passado, porque muitas das intera\u00e7\u00f5es entre insetos, plantas e animais que permitiram o desenvolvimento daquelas paisagens deixaram de existir \u00e0 medida que o bioma foi sendo degradado &#8211; e que no futuro aquelas paisagens desaparecer\u00e3o. Isso se aplica \u00e0 Mata Atl\u00e2ntica?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Cardim<\/strong>\u00a0&#8211; Sim. Temos hoje na Mata Atl\u00e2ntica florestas que s\u00e3o rel\u00edquias, restos de uma era quando t\u00ednhamos macacos muriquis andando de galho em galho do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul, quando t\u00ednhamos antas, varas de queixadas e catetus, on\u00e7as em todos os lugares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os bichos s\u00e3o fundamentais para plantar e polinizar a floresta. Nos anos 1930, o homem chegou \u00e0 mata metralhando os bichos, ca\u00e7ava tudo o que via por ali. A vegeta\u00e7\u00e3o tropical \u00e9 intimamente ligada a seus bichos, uma evoluiu com o outro, com complexas intera\u00e7\u00f5es que a gente nem imagina ainda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Mata Atl\u00e2ntica, temos hoje a figura da floresta vazia, da floresta zumbi, como a do Parque Trianon, que n\u00e3o tem como se renovar. Para que a semente de um jatob\u00e1 germine, ela tem de ter a dorm\u00eancia quebrada pelo intestino da anta. Sem anta, isso n\u00e3o acontece mais, a semente cai no ch\u00e3o e n\u00e3o germina. Os mecanismos est\u00e3o profundamente comprometidos tanto no Cerrado quanto na Mata Atl\u00e2ntica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso, quando formos investir para reconectar os fragmentos, precisamos procriar os bichos para que eles possam voltar a transitar e reabilitar a floresta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; Em vez de homog\u00eanea, a Mata Atl\u00e2ntica \u00e9 descrita no livro como um bioma com m\u00faltiplas faces. O qu\u00e3o diversa \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Cardim<\/strong>\u00a0&#8211; As pessoas tendem a pensar que a Mata Atl\u00e2ntica \u00e9 aquele tapet\u00e3o de floresta, como na Serra do Mar. Pensam que s\u00f3 ocorre no litoral, sem saber que ela vai at\u00e9 o Paraguai. Ela era realmente extensa. Outra coisa interessante \u00e9 a diversidade de paisagens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Mata Atl\u00e2ntica, podemos encontrar desde a restinga arenosa, um areial com ilhas de brom\u00e9lias, cactos, pequenos arbustos, pitangueiras, verdadeiros jardins prontos &#8211; n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que Burle Marx se inspirava nessas paisagens -, a campos de altitude, como em Itatiaia, ou na Serra dos \u00d3rg\u00e3os, que s\u00e3o campos com plantinhas no topo, at\u00e9 florestas monstruosas como as que existiram no norte do Paran\u00e1 e no sul da Bahia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela tem maior biodiverisade, comparativamente, do que a Amaz\u00f4nia, porque ela concentra diversas paisagens e esp\u00e9cies num territ\u00f3rio relativamente pequeno, gra\u00e7as \u00e0 proximidade do oceano em alguns pontos e do relevo, que \u00e9 bastante movimentado e cria diferentes condi\u00e7\u00f5es para a vegeta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; J\u00e1 tivemos perdas irrepar\u00e1veis de esp\u00e9cies de \u00e1rvores gigantes na Mata Atl\u00e2ntica?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Cardim\u00a0<\/strong>&#8211; Suspeito que sim. Por exemplo, a peroba-rosa encobria centenas de quil\u00f4metros de florestas. Ela foi t\u00e3o cortada, sobrou t\u00e3o pouco, que nos faz questionar o quanto sofreu de erso\u00e3o gen\u00e9tica a ponto de se tornar vi\u00e1vel. Uma doen\u00e7a talvez seja capaz de matar todas as restantes. S\u00e3o os \u00faltimos moicanos. Tenho a sensa\u00e7\u00e3o de que muitas \u00e1rvores da Mata Atl\u00e2ntica s\u00e3o os \u00faltimos moicanos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas expedi\u00e7\u00f5es que fiz durante a produ\u00e7\u00e3o do livro, tinha o objetivo de ver a floresta original, mas acho que n\u00e3o consegui. A grande verdade \u00e9 essa. Eu vi florestas que podem ter sido pr\u00f3ximas daquilo, mas fiquei com a sensa\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o existe mais a floresta original, que meu tatarav\u00f4 possa ter visto quando estavam abrindo as fazendas.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/7516\/production\/_104947992_remanescentes.jpg\" alt=\"On\u00e7as pintadas mortas em Santa Catarina\" width=\"3077\" height=\"2306\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Ca\u00e7ada de on\u00e7as pintadas em Santa Catarina, no come\u00e7o do s\u00e9culo 20; quando despovoada de animais, Mata Atl\u00e2ntica se torna incapaz de renovar a vegeta\u00e7\u00e3o original.<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; Quando se critica o desmatamento no Brasil, alguns representantes do agroneg\u00f3cio costumam citar a destrui\u00e7\u00e3o das florestas na Europa e reivindicar o direito de fazer o mesmo por aqui. Como seria nossa sociedade se a Mata Atl\u00e2ntica n\u00e3o tivesse sido destru\u00edda?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Cardim\u00a0<\/strong>&#8211; Esse argumento \u00e9 t\u00e3o hediondo como falar que, j\u00e1 que houve o Holocausto na Alemanha, podemos fazer um aqui tamb\u00e9m. A Europa hoje est\u00e1 preocupad\u00edssima em restabelecer suas florestas e nunca mais vai restabelecer do jeito que era, porque as matas l\u00e1 v\u00eam sendo derrubadas desde a \u00e9poca romana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se tiv\u00e9ssemos encontrado outros meios de produzir riqueza, atrav\u00e9s da educa\u00e7\u00e3o, da tecnologia, ter\u00edamos agora um patrim\u00f4nio maravilhoso. N\u00e3o sou contra a explora\u00e7\u00e3o de madeira. Sem a madeira, n\u00e3o ter\u00edamos orquestras, por exemplo. Eu adoro m\u00f3veis de madeira nobre. Mas, se tiv\u00e9ssemos explorado de forma sustent\u00e1vel, poder\u00edamos ter m\u00f3veis de jacarand\u00e1 pelo resto da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ter\u00edamos um potencial gastron\u00f4mico inacreditavelmente grande, como alguns j\u00e1 come\u00e7aram a perceber, como (o chef) Alex Atala. Ter\u00edamos muito potencial no ramo da biotecnologia, de medicamentos. E tamb\u00e9m de turismo, pois \u00e9 imposs\u00edvel ficar indiferente diante dessas \u00e1rvores gigantes. \u00c9 como algu\u00e9m diante da pir\u00e2mide de Que\u00f3ps.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; O processo de destrui\u00e7\u00e3o da Mata Atl\u00e2ntica \u00e9 compar\u00e1vel ao que hoje enfrenta a Amaz\u00f4nia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Cardim<\/strong>\u00a0&#8211; A grande sacada desse livro \u00e9 mostrar que fizemos uma coisa na Mata Atl\u00e2ntica nos \u00faltimos 100 ou 150 anos que \u00e9 exatamente igual ao que estamos fazendo hoje na Amaz\u00f4nia. O que muda \u00e9 a propor\u00e7\u00e3o, por causa da extens\u00e3o da Amaz\u00f4nia e a tecnologia. Hoje a tecnologia permite que a gente fa\u00e7a a destrui\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia com a mesma velocidade, ou at\u00e9 mais r\u00e1pido, do que fizemos na Mata Atl\u00e2ntica. Com nossas estradas, caminh\u00f5es, motosseras, o ganho de escala \u00e9 absurdo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; Quais foram as etapas da destrui\u00e7\u00e3o da Mata Atl\u00e2ntica que agora se repetem na Amaz\u00f4nia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Cardim\u00a0<\/strong>&#8211; Primeiro, criar uma motiva\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica para um acesso \u00e0 floresta. Na \u00e9poca (dos presidentes) Costa e Silva e M\u00e9dici, nos anos 1970, come\u00e7a a surgir a ideia da terra sem homens da Amaz\u00f4nia para o homem sem terras do Nordeste. Esse caminho para o interior da Amaz\u00f4nia, que come\u00e7a com a rodovia Transamaz\u00f4nica, tem como paralelo a entrada das ferrovias no seio da Mata Atl\u00e2ntica por causa do caf\u00e9. A ferrovia entrava e rasgava a Mata Atl\u00e2ntica &#8211; vem o eixo de penetra\u00e7\u00e3o, saem estradas vicinais para saquear a floresta e aproveitar a terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 o que est\u00e1 ocorrendo hoje na Amaz\u00f4nia: primeiro vem o cara saquear madeira, depois se faz a queimada para aproveitar o solo, o fogo fertiliza aquela terra e planta-se capim para que o gado pisoteie os entulhos da floresta. Com dois ou tr\u00eas anos, aquela floresta desaparece e vira carbono, e a\u00ed entra a soja. No nosso caso, era o caf\u00e9 que entrava. Temos registros em Campinas (SP), em 1840, da presen\u00e7a do gado entre ru\u00ednas de \u00e1rvores colossais da Mata Atl\u00e2ntica. Era um modo de domar a terra para o caf\u00e9.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/F734\/production\/_104948236_cardim_pau_br.jpg\" alt=\"Ricardo Cardim\" width=\"960\" height=\"720\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Ricardo Cardim visitou seis Estados para a produ\u00e7\u00e3o do livro; na Bahia, encontrou alguns dos poucos trechos remanescentes com exemplares centen\u00e1rios de pau-brasil<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; Seremos capazes de frear o desmatamento na Amaz\u00f4nia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Cardim\u00a0<\/strong>&#8211; Sou otimista quanto \u00e0 Mata Atl\u00e2ntica, mas n\u00e3o quanto \u00e0 Amaz\u00f4nia. Acho que n\u00e3o vai dar tempo. A Amaz\u00f4nia vai ser fragmentada antes que as gera\u00e7\u00f5es futuras consigam entender a import\u00e2ncia dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existe l\u00e1 um arco de aventureiros -pol\u00edticos, grileiros &#8211; que s\u00e3o incontrol\u00e1veis. Eles v\u00e3o fragmentar a floresta antes que a gente consiga mudar a sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BBC News Brasil &#8211; As tecnologias e a legisla\u00e7\u00e3o para evitar o desmatamento tamb\u00e9m n\u00e3o avan\u00e7aram?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Cardim<\/strong>\u00a0&#8211; Com certeza, mas ainda acho que s\u00e3o fracas perante o que est\u00e1 acontecendo l\u00e1. O que houve em Rond\u00f4nia \u00e9 emblem\u00e1tico. A floresta do Estado sumiu em dez anos. E hoje a \u00faltima fronteira \u00e9 o Estado do Amazonas, porque o Par\u00e1 j\u00e1 foi muito detonado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Est\u00e3o derrubando por mais que coloquemos multas. Tem muita gente l\u00e1 que n\u00e3o tem nada a perder e vai fazer isso acontecer. Talvez, daqui a 40 anos, algu\u00e9m fa\u00e7a um livro como este que eu fiz contando como a Amaz\u00f4nia foi destru\u00edda.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00f3 3% da madeira derrubada na Mata Atl\u00e2ntica para dar lugar a fazendas foi aproveitada; em geral, matas eram incendiadas e transformadas em pastos para prepar\u00e1-las para a agricultura, assim como hoje ocorre na Amaz\u00f4nia<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":268542,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[6,8],"tags":[],"class_list":["post-268541","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-municipios","category-noalvo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/amazonia-destruicao.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/268541","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=268541"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/268541\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/268542"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=268541"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=268541"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=268541"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}