{"id":268596,"date":"2018-12-30T06:29:28","date_gmt":"2018-12-30T09:29:28","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=268596"},"modified":"2018-12-30T06:29:28","modified_gmt":"2018-12-30T09:29:28","slug":"a-vida-secreta-de-louis-armstrong","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/a-vida-secreta-de-louis-armstrong\/","title":{"rendered":"A vida secreta de Louis Armstrong"},"content":{"rendered":"<div class=\"articulo__apertura\">\n<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div class=\"articulo-encabezado-texto\">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\"><em>A Casa Museu do trompetista digitalizou suas cole\u00e7\u00f5es, revelando facetas desconhecidas de Satchmo<\/em><\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"firma \">\n<div class=\"autor\">\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Diego A. Manrique\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/diego_alfredo_manrique_martinez\/a\/\">DIEGO A. MANRIQUE<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<figure class=\"foto izquierda foto_w980\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2018\/12\/28\/actualidad\/1546028790_925677_1546028937_noticia_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2018\/12\/28\/actualidad\/1546028790_925677_1546028937_noticia_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2018\/12\/28\/actualidad\/1546028790_925677_1546028937_noticia_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2018\/12\/28\/actualidad\/1546028790_925677_1546028937_noticia_normal.jpg 980w\" alt=\"Louis Armstrong, em sua casa em seu 70\u00ba anivers\u00e1rio em 1970.\" width=\"980\" height=\"1495\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Louis Armstrong, em sua casa em seu 70\u00ba anivers\u00e1rio em 1970.<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">BETTMANN<\/span>\u00a0<span class=\"foto-agencia\">BETTMANN ARCHIVE<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Poucos artistas foram mal interpretados como Louis Armstrong (1901-1971), conhecido como Satchmo. Sua imagem p\u00fablica era a do negro risonho, cantando com uma boca grande e dentes branqu\u00edssimos, disparando rajadas de trompete e secando o suor com um len\u00e7o. Onipresente durante cinco d\u00e9cadas, chegou aos primeiros lugares inclusive nos anos sessenta, com can\u00e7\u00f5es ador\u00e1veis como\u00a0<em>Hello Dolly<\/em>\u00a0e\u00a0<em>What a Wonderful World<\/em>. No entanto, e foi t\u00e3o revolucion\u00e1rio em seu tempo quanto\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/jimi_hendrix\">Jimi Hendrix<\/a>: com suas grava\u00e7\u00f5es dos anos vinte, transformou uma m\u00fasica grupal (o hot, o primeiro\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/jazz\">jazz<\/a>) em express\u00e3o de solistas intr\u00e9pidos, de grande talento f\u00edsico e criatividade inesgot\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">T\u00e3o suave acabou sendo sua reputa\u00e7\u00e3o que causa certa surpresa verificar que por tr\u00e1s dessa imagem havia uma pessoa briguenta e curiosa. J\u00e1 sab\u00edamos de alguma coisa, gra\u00e7as a sua extensa bibliografia, mas agora podemos ver a que Louis Armstrong se dedicava em seu tempo livre. Sua Casa Museu digitalizou cartas, fotografias, manuscritos, colagens, partituras, livros de recortes e outros documentos aos quais se pode ter acesso de qualquer parte do mundo (<a href=\"https:\/\/www.louisarmstronghouse.org\/\">www.louisarmstronghouse.org<\/a>).<\/p>\n<div class=\"teads-adCall\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Armstrong vivia em uma casa modesta no bairro de Corona, no distrito nova-iorquino do Queens. Sua quarta esposa, Lucille, com quem conviveu por trinta anos, teria preferido um endere\u00e7o mais elegante, mas Louis apreciava as vantagens de estar rodeado por sua gente. Ali ningu\u00e9m se escandalizava que Pops, como o chamavam, fumasse maconha, um \u201ch\u00e1bito medicinal\u201d que causava consterna\u00e7\u00e3o em admiradores brancos (e puritanos) como o produtor John Hammond. Diz a lenda que, em 1953, encontrou\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/richard_nixon\">Richard Nixon<\/a>\u00a0na pista de um aeroporto. O ent\u00e3o vice-presidente o respeitava: carregou uma de suas malas e o conduziu para a entrada das autoridades, evitando sua passagem pela alf\u00e2ndega. Sem saber, Nixon tinha autorizado o contrabando de Armstrong.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Riscos que Louis assumia conscientemente (s\u00f3 foi detido pelo consumo de erva em\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/los_angeles\">Los Angeles<\/a>, depois da den\u00fancia de um concorrente, e se saiu bem do incidente). Tinha vivido situa\u00e7\u00f5es muito mais dif\u00edceis nos anos vinte e trinta, quando atuava em clubes controlados por mafiosos que \u2014 como no caso de Al Capone \u2014 at\u00e9 podiam apreciar o jazz, mas exigiam que os m\u00fasicos atendessem suas exig\u00eancias. A solu\u00e7\u00e3o foi aliar-se a um deles, Joe Glaser, que o representou at\u00e9 morrer em 1969.<\/p>\n<section id=\"sumario_1|foto\" class=\"sumario_foto centro\"><a name=\"sumario_1\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2018\/12\/28\/actualidad\/1546028790_925677_1546029058_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2018\/12\/28\/actualidad\/1546028790_925677_1546029058_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2018\/12\/28\/actualidad\/1546028790_925677_1546029058_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2018\/12\/28\/actualidad\/1546028790_925677_1546029058_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"O est\u00fadio de Louis Armstrong em sua casa no Queens, Nova York.\" width=\"980\" height=\"597\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">O est\u00fadio de Louis Armstrong em sua casa no Queens, Nova York.<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">STAN HONDA<\/span>\u00a0<span class=\"foto-agencia\">AFP\/GETTY IMAGES<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">Louis n\u00e3o era bobo nem inocente, como muitos acreditavam. Muito consciente de sua relev\u00e2ncia art\u00edstica, tentava analis\u00e1-la redigindo suas lembran\u00e7as e opini\u00f5es. Escrever lhe permitia enriquecer o personagem que se apresentava ao vivo. Ali tudo eram risadas e caretas; sozinho, refletia sobre suas viv\u00eancias. Dedicado e muito exigente consigo mesmo, mostrava-se tolerante com os v\u00edcios e caprichos de seus colegas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desenvolveu uma escrita que refletia seu dom\u00ednio da g\u00edria do mundinho do jazz e explicitava suas cren\u00e7as mais profundas. Assim, era um defensor da alian\u00e7a entre negros e\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/judios\">judeus<\/a>, duas minorias que se irmanaram de forma harmoniosa, pelo menos at\u00e9 o surgimento do movimento Black Power. Apesar de viajar com uma m\u00e1quina de escrever, em sua casa gravava a si mesmo com gravadores de fita aberta. Anos depois, quando\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/john_lennon\">John Lennon<\/a>\u00a0soube disso, imitou a ideia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Armstrong passava para a fita muitos discos de sua cole\u00e7\u00e3o, incluindo registros piratas dos insurgentes do be-bop; sabia que o criticavam, mas n\u00e3o podia deixar de reconhecer a intensidade expressiva de Charlie Parker e companhia. Louis adorava trabalhar como locutor de r\u00e1dio. Era um disc jockey erudito e veemente: no meio do \u201cprograma\u201d podia se por a discutir afirma\u00e7\u00f5es de companheiros j\u00e1 falecidos, como o pianista Jelly Roll Morton, formid\u00e1vel ambicioso, que alardeava para si os m\u00e9ritos que correspondiam a Armstrong, como a populariza\u00e7\u00e3o do scat (improvisa\u00e7\u00e3o vocal com voc\u00e1bulos inventados).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m usava seus aparelhos para gravar entrevistas com jornalistas em quem n\u00e3o confiava. Recordava experi\u00eancias ingratas com redatores a quem tinha proporcionado informa\u00e7\u00e3o com generosidade (e, em algum caso, pequenas quantidades de dinheiro) e que depois n\u00e3o cumpriram o prometido. Como o jazz tinha uma reputa\u00e7\u00e3o duvidosa (Armstrong guardava o recorte de um jornal brit\u00e2nico no qual era descrito como \u201cum gorila\u201d), o reflexo midi\u00e1tico favor\u00e1vel era uma necessidade b\u00e1sica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com cola e tesoura, Armstrong fazia colagens que revelavam seus gostos e preocupa\u00e7\u00f5es. Apareciam, por exemplo, figuras pol\u00edticas que combatiam o apartheid norte-americano. Tinha conhecimento suficiente dos mecanismos de Washington para entender que seu simp\u00e1tico amigo Nixon n\u00e3o foi o respons\u00e1vel por enviar tropas federais a Little Rock, capital do Arkansas, para garantir a entrada de estudantes negros em um col\u00e9gio reservado a brancos: Louis mandou um telegrama efusivo de felicita\u00e7\u00e3o ao presidente Eisenhower, depois de ter declarado que o persistente racismo sulista tornava dif\u00edcil agir como embaixador dos\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/estados_unidos\">Estados Unidos<\/a>\u00a0nas turn\u00eas pelo exterior organizadas pelo Departamento de Estado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As colagens funcionavam tamb\u00e9m como lista de \u00edcones musicais. Inclu\u00eda instrumentistas brancos como Bix Beiderbecke, prodigioso trompetista de origem alem\u00e3 que faleceu aos 28 anos. Sua presen\u00e7a merece ser destacada, j\u00e1 que Bix vinha de uma boa fam\u00edlia e isso, para Louis, era um inconveniente: acreditava que a pobreza funcionava como est\u00edmulo para a criatividade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, convertido em presen\u00e7a habitual em programas de televis\u00e3o e com\u00e9dias de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/hollywood\">Hollywood<\/a>, ficou marcado com o estere\u00f3tipo do Pai Tom\u00e1s. Sabia que era injusto e que um dia as particularidades de sua trajet\u00f3ria seriam reconhecidas. Durante as grava\u00e7\u00f5es de seu \u00faltimo LP, um de seus colegas mais ariscos apareceu no est\u00fadio:\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/miles_davis\">Miles Davis<\/a>. Mas para Davis era claro: \u201cNo trompete de jazz, n\u00e3o h\u00e1 nada que n\u00e3o venha de Louis\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Riscos que Louis assumia conscientemente (s\u00f3 foi detido pelo consumo de erva em\u00a0Los Angeles, depois da den\u00fancia de um concorrente, e se sa<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":268597,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-268596","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/amstrong.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/268596","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=268596"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/268596\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/268597"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=268596"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=268596"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=268596"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}