{"id":268598,"date":"2018-12-30T06:36:34","date_gmt":"2018-12-30T09:36:34","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=268598"},"modified":"2018-12-30T06:36:34","modified_gmt":"2018-12-30T09:36:34","slug":"miles-davis-continua-sendo-o-jazz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/miles-davis-continua-sendo-o-jazz\/","title":{"rendered":"Miles Davis continua sendo o jazz"},"content":{"rendered":"<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\"><em>25 anos ap\u00f3s morte, o trompetista permanece como prot\u00f3tipo de um artista sem concess\u00f5es<\/em><\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"firma \">\n<div class=\"autor\">\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Diego A. Manrique\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/diego_alfredo_manrique_martinez\/a\/\">DIEGO A. MANRIQUE<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<figure class=\"foto  izquierda  foto_w360\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2016\/07\/28\/actualidad\/1469729681_530839_1469729823_noticia_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2016\/07\/28\/actualidad\/1469729681_530839_1469729823_noticia_normal_recorte1.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2016\/07\/28\/actualidad\/1469729681_530839_1469729823_noticia_normal.jpg 360w\" alt=\"Miles Davis, durante um show em Sevilha, em 1985.\" width=\"360\" height=\"580\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Miles Davis, durante um show em Sevilha, em 1985.<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">PABLO JULI\u00c1<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/miles_davis\/a\">Miles Davis<\/a>\u00a0morreu furioso, de mal com o mundo. Havia sido internado num hospital de Santa Monica (Calif\u00f3rnia), onde os m\u00e9dicos diagnosticaram uma pneumonia bronquial. Quiseram intub\u00e1-lo; raivoso, se remexeu e nesse momento sofreu um enfarte que o deixou em coma. Em 28 de setembro de 1991, o respirador que o mantinha vivo foi desligado.<\/p>\n<div id=\"elpais_gpt-INTEXT\" style=\"text-align: justify;\" data-google-query-id=\"CKGdyIigx98CFQIUgQod28oD8A\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/cultura\/intext_0__container__\"><iframe id=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/cultura\/intext_0\" title=\"3rd party ad content\" name=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/cultura\/intext_0\" width=\"1\" height=\"1\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\" data-google-container-id=\"9\" data-load-complete=\"true\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tinha 65 anos e muitos planos: deixar as turn\u00eas, aprofundar os novos modos de produ\u00e7\u00e3o, talvez concretizar a alardeada colabora\u00e7\u00e3o com\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/prince\/a\">Prince<\/a>, pintar mais daqueles quadros tipo Basquiat que amigos e colecionadores arrancavam das suas m\u00e3os. Estava muito castigado, mas no planeta jazz era inimagin\u00e1vel um futuro sem Miles, sem o grande agitador.<\/p>\n<div class=\"teads-adCall\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em muitas ocasi\u00f5es, a morte de uma grande figura \u00e9 o pretexto para uma pirot\u00e9cnica efus\u00e3o midi\u00e1tica que desemboca no sil\u00eancio do cemit\u00e9rio. N\u00e3o foi assim com Miles Davis: sua m\u00fasica continua dialogando com o presente. Robert Glasper, respons\u00e1vel pela inteligente trilha sonora de\u00a0<em>Miles Ahead<\/em>, lan\u00e7ou um disco audacioso,\u00a0<em>Everything\u2019s Beautiful<\/em>, onde artistas como Laura Mvula, Erykah Badu e\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/stevie_wonder\/a\">Stevie Wonder<\/a>\u00a0criam novas can\u00e7\u00f5es a partir de fragmentos instrumentais de Davis. Tamb\u00e9m o produtor Bill Laswell remixou grava\u00e7\u00f5es do Miles el\u00e9trico em\u00a0<em>Panthalassa<\/em>.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><strong>Mestres ofuscados<\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Simplificando: Miles Davis ainda encarna o jazz. Da mesma maneira que, em outros tempos, essa representatividade recaiu sobre Louis Armstrong, Duke Ellington e, fugazmente, sobre John Coltrane. Com quase meio s\u00e9culo de grava\u00e7\u00f5es, Miles ocupa o lugar central na saga do g\u00eanero. Ofuscou seus competidores, que podiam ser mestres do calibre de Dizzy Gillespie ou admiradores como Chet Baker. Ok, vamos repetir se voc\u00eas fazem quest\u00e3o: era o Picasso do jazz.<\/p>\n<section id=\"sumario_3|html\" class=\"sumario_html centro\"><a name=\"sumario_3\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conv\u00e9m lembrar que estamos diante de um buscador insaci\u00e1vel, cujo temperamento art\u00edstico se manifestou numa evolu\u00e7\u00e3o permanente: bebop, cool jazz, jazz orquestral, jazz modal, jazz-funk-rock, hip-hop. Ao seu lado se formaram centenas de m\u00fasicos, hoje astros do jazz, que tentavam decifrar suas cr\u00edpticas instru\u00e7\u00f5es, descobrindo nesse processo que o m\u00e9todo Davis de ensinar a nadar consistia em atirar o novato na piscina de uma casa de shows lotada ou um est\u00fadio de grava\u00e7\u00e3o, preparado para captar improvisos pouco ou nada ensaiados. Precisam desenvolver poderes de telepatia para antecipar os desejos do l\u00edder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um l\u00edder que n\u00e3o estava nem a\u00ed para ningu\u00e9m. Nos tempos do\u00a0<em>black power<\/em>, ignorou os militantes que o recriminavam por contratar m\u00fasicos brancos. Muito consciente de que o jazz era a grande contribui\u00e7\u00e3o negra \u00e0 cultura americana, acreditava, por\u00e9m, que a combina\u00e7\u00e3o com instrumentistas de diferentes origens\u00a0\u2014 tamb\u00e9m trabalhou com brasileiros, indianos e europeus\u00a0\u2014 provocava uma fric\u00e7\u00e3o criativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alheio a quest\u00f5es te\u00f3ricas, agia por instinto; propunha seus pr\u00f3prios desafios. Assim explicou a Keith Jarrett por que se afastou dos\u00a0<em>standards<\/em>: \u201cSabe por que j\u00e1 n\u00e3o toco mais baladas? Porque gosto muito de tocar baladas\u201d. Tamb\u00e9m assumia que isso n\u00e3o vendia mais; com a expans\u00e3o do rock e do soul, o p\u00fablico jazz\u00edstico encolhera, ao menos nos\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/estados_unidos\/a\">Estados Unidos<\/a>. O contrabaixista ingl\u00eas Dave Holland, a quem Miles contratou em 1968, fala de desmoralizantes shows para 30 ou 40 pessoas.<\/p>\n<section id=\"sumario_1|foto\" class=\"sumario_foto izquierda\"><a name=\"sumario_1\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w360\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2016\/07\/28\/actualidad\/1469729681_530839_1469729876_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2016\/07\/28\/actualidad\/1469729681_530839_1469729876_sumario_normal_recorte1.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2016\/07\/28\/actualidad\/1469729681_530839_1469729876_sumario_normal.jpg 360w\" alt=\"Dom Cheadle, em cena de 'Miles Ahead'.\" width=\"360\" height=\"321\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Dom Cheadle, em cena de &#8216;Miles Ahead&#8217;.<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi dos primeiros\u00a0<em>jazzmen<\/em>\u00a0a entenderem que o est\u00fadio de grava\u00e7\u00e3o era o grande instrumento. O produtor Teo Macero registrava tudo o que sa\u00eda das sess\u00f5es de Davis, incluindo as conversas; depois, sozinho ou com Miles, esse Dr. Frankenstein moldava o repert\u00f3rio que sa\u00eda nos discos. As fitas originais, perfeitamente catalogadas e conservadas, permitiam posteriormente o lan\u00e7amento de deslumbrantes caixas como\u00a0<em>The Complete \u2018Bitches Brew\u2019 Sessions<\/em>\u00a0e\u00a0<em>The Complete Jack Johnson Sessions<\/em>. Regularmente saem\u00a0<em>novidades<\/em>\u00a0de Miles, que \u00e0s vezes podem desequilibrar qualquer or\u00e7amento:\u00a0<em>The Complete Miles Davis at Montreux<\/em>\u00a0faz o f\u00e3 se perguntar se realmente precisa de 20 discos ao vivo com copiosas vers\u00f5es de\u00a0<em>Tutu<\/em>,\u00a0<em>Human Nature<\/em>,\u00a0<em>Jean Pierre<\/em>\u00a0ou\u00a0<em>Time After Time<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A resposta \u00e9, obviamente, um \u201csim\u201d com ressalvas. Emociona comprovar como os temas v\u00e3o mudando \u00e0 medida que os m\u00fasicos de apoio se renovam, ou como isso responde \u00e0s circunst\u00e2ncias. Comove detectar como Miles vai poupando suas energias\u00a0\u2014 se protege atr\u00e1s da surdina, evita os agudos, raciona suas frases. Al\u00e9m dos clich\u00eas sobre o lirismo e a melancolia da sua m\u00fasica, observamos o elemento tr\u00e1gico, o esfor\u00e7o para manter seu pr\u00f3prio personagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Miles Davis lend\u00e1rio \u00e9 uma espl\u00eandida constru\u00e7\u00e3o pessoal. Fugia das suas origens burguesas, como filho de um pr\u00f3spero dentista. Era um homem educado que se expressava no jarg\u00e3o do gueto, viciado em Ferraris e armas de fogo. Sua pose de\u00a0<em>hipster<\/em>\u00a0m\u00e1ximo o obrigava a dissimular: nem sequer em sua rala autobiografia menciona sua bissexualidade. Em sua epopeia, era o lutador solit\u00e1rio, disposto a derrotar seus dem\u00f4nios: escapou da hero\u00edna (come\u00e7o dos anos cinquenta) e da coca\u00edna (final dos setenta, a etapa retratada em\u00a0<em>Miles Ahead<\/em>). Um pugilista manhoso, que s\u00f3 perdeu por nocaute t\u00e9cnico.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alheio a quest\u00f5es te\u00f3ricas, agia por instinto; propunha seus pr\u00f3prios desafios. Assim explicou a Keith Jarrett por que se afastou dos\u00a0standards: \u201cSabe por que j\u00e1 n\u00e3o toco mais baladas? Porque gosto muito de tocar baladas\u201d. 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