{"id":269496,"date":"2019-01-08T05:47:26","date_gmt":"2019-01-08T08:47:26","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=269496"},"modified":"2019-01-08T05:47:26","modified_gmt":"2019-01-08T08:47:26","slug":"buscar-trabalho-no-liquidificador-de-gente-do-nordeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/buscar-trabalho-no-liquidificador-de-gente-do-nordeste\/","title":{"rendered":"Buscar trabalho no \u201cliquidificador de gente\u201d do Nordeste"},"content":{"rendered":"<div class=\"articulo__apertura\">\n<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div class=\"articulo-encabezado-texto\">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\"><em>Complexo, em Pernambuco, volta a crescer em meio a quest\u00f5es ambientais, mas emprego n\u00e3o se recuperou. Criar vagas \u00e9 desafio da retomada prometida por Bolsonaro<\/em><\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \" style=\"text-align: justify;\">\n<figure class=\"foto superior foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/08\/31\/nordeste_vizinho\/1535718445_361619_1535719014_noticia_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/08\/31\/nordeste_vizinho\/1535718445_361619_1535719014_noticia_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/08\/31\/nordeste_vizinho\/1535718445_361619_1535719014_noticia_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/08\/31\/nordeste_vizinho\/1535718445_361619_1535719014_noticia_normal.jpg 980w\" alt=\"Barcos de pescadores na praia de Gaibu, no Cabo de Santo Agostinho (PE), com navios pr\u00f3ximos ao Porto de Suape no fundo.\" width=\"980\" height=\"579\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Barcos de pescadores na praia de Gaibu, no Cabo de Santo Agostinho (PE), com navios pr\u00f3ximos ao Porto de Suape no fundo.<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">BRENDA ALC\u00c2NTARA<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"firma \">\n<div class=\"autor\">\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Marina Rossi\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/marina_rossi_fernandes\/a\/\">MARINA ROSSI<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Desempregado na cidade onde vivia, Cama\u00e7ari, na Bahia, o pintor industrial Ubiray de Carvalho Santos decidiu se mudar \u00e0s pressas para Pernambuco, a mais de 800 quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia, quando soube que ali poderia haver uma nova oportunidade de trabalho. \u201cSoube que tinha emprego e vim\u201d, conta o trabalhador de 43 anos, sobre sua mudan\u00e7a para o Cabo de Santo Agostinho, a 40 quil\u00f4metros do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/recife\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Recife<\/a>, em 2009. Ele vendeu o pouco que tinha e partiu, em um esfor\u00e7o que, naquela \u00e9poca, n\u00e3o foi em v\u00e3o. Ao longo de cinco anos, Santos conseguiu estabilidade trabalhando na constru\u00e7\u00e3o do Complexo Industrial Portu\u00e1rio Governador Eraldo Gueiros, conhecido tamb\u00e9m como\u00a0<a href=\"http:\/\/www.suape.pe.gov.br\/pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Porto de Suape<\/a>, hoje o quarto maior porto p\u00fablico do pa\u00eds em movimenta\u00e7\u00e3o de carga.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Localizado em sua maior parte nos munic\u00edpios do Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca, no litoral sul pernambucano, Suape, cujo nome \u00e9 hom\u00f4nimo a uma das praias onde o complexo foi constru\u00eddo, foi criado em novembro de 1978, mas s\u00f3 come\u00e7aria a operar efetivamente cinco anos mais tarde, em 1983. Inicialmente, era somente um porto de distribui\u00e7\u00e3o de combust\u00edvel. Aos poucos, os terminais foram sendo constru\u00eddos, e o porto se expandindo, at\u00e9 se instalarem dezenas de ind\u00fastrias, recebendo maior ou menor aporte, dependendo da gest\u00e3o que comandava o Estado e o pa\u00eds no momento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi durante os primeiros anos de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/eduardo_henrique_accioly_campos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Eduardo Campos<\/a>\u00a0\u00e0 frente do Governo do Estado (2007 a 2014) que os investimentos ganharam f\u00f4lego, gra\u00e7as \u00e0 rela\u00e7\u00e3o de amizade entre ele e o ent\u00e3o presidente\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/luiz_inacio_da_silva\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Luiz In\u00e1cio Lula da Silva<\/a>. Na \u00e9poca, a alian\u00e7a garantiu grandes investimentos do Governo Federal, resultando, por exemplo, na constru\u00e7\u00e3o do Estaleiro Atl\u00e2ntico Sul e na Refinaria Abreu e Lima, a \u201cmais moderna refinaria\u201d constru\u00edda pela Petrobras, como a estatal a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.petrobras.com.br\/pt\/nossas-atividades\/principais-operacoes\/refinarias\/refinaria-abreu-e-lima.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">apresenta em seu site<\/a>. Ao mesmo tempo, o Estado atra\u00eda empresas privadas por meio da concess\u00e3o de benef\u00edcios fiscais. Assim, Suape tornou-se rapidamente o eldorado dos investimentos, o s\u00edmbolo de um Pernambuco que crescia a taxas chinesas em meio \u00e0 bonan\u00e7a brasileira empurrada pelo pre\u00e7o internacional das mat\u00e9rias primas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os n\u00fameros eram eloquentes na menina dos olhos do Nordeste. Entre 2008 e 2012, a economia de Pernambuco cresceu, em m\u00e9dia, 4%, ante 2,6% da m\u00e9dia nacional para o per\u00edodo. Naquela \u00e9poca, al\u00e9m dos investidores, Suape tamb\u00e9m recebia, diariamente, 50.000 trabalhadores diretos e indiretos, milhares deles de outros Estados. A oferta de trabalho atraiu n\u00e3o somente o pintor Ubiray Santos, como tamb\u00e9m sua fam\u00edlia toda. Com ele, vieram a m\u00e3e e os irm\u00e3os com suas respectivas fam\u00edlias. A fam\u00edlia ajudou a construir parte do complexo que hoje ocupa 13.500 hectares, tr\u00eas vezes a cidade de Olinda. \u201cTinha trabalho para todo mundo\u201d, lembra o pintor.<\/p>\n<section id=\"sumario_2|foto\" class=\"sumario_foto centro\"><a name=\"sumario_2\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/08\/31\/nordeste_vizinho\/1535718445_361619_1535719539_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/08\/31\/nordeste_vizinho\/1535718445_361619_1535719539_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/08\/31\/nordeste_vizinho\/1535718445_361619_1535719539_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/08\/31\/nordeste_vizinho\/1535718445_361619_1535719539_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"O pintor industrial Ubiray de Carvalho Santos na casa onde vive, no Areal.\" width=\"980\" height=\"580\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">O pintor industrial Ubiray de Carvalho Santos na casa onde vive, no Areal.<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">BRENDA ALC\u00c2NTARA<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas em 2014 essa sorte mudaria. Naquele ano, a crise econ\u00f4mica mundial finalmente bateu com for\u00e7a no Brasil. Al\u00e9m disso, Eduardo Campos, que havia deixado o Governo para ser candidato \u00e0 presid\u00eancia,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/08\/13\/politica\/1534112534_792160.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">morreu em um acidente a\u00e9reo.<\/a>\u00a0E no mesmo ano fora deflagrada a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/operacion_lava_jato\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato<\/a>, colocando no alvo algumas das empresas que formam Suape. \u201cQuando estourou a crise nacional, em 2014, houve essa infeliz coincid\u00eancia\u201d, explica Jorge Jatob\u00e1, economista e s\u00f3cio-diretor da Consultoria Econ\u00f4mica e Planejamento (Ceplan). \u201cNo momento em que Suape estava bombando e chegando \u00e0 fase de conclus\u00e3o dos seus grandes investimentos, empregando dezenas de milhares de trabalhadores, deu-se in\u00edcio \u00e0 crise\u201d, diz ele. A for\u00e7a de trabalho foi ent\u00e3o reduzida drasticamente, levando ao desemprego milhares de trabalhadores. Muitos deles n\u00e3o conseguiram mais se recolocar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fam\u00edlia inteira de Ubiray Santos faz parte dessa estat\u00edstica. At\u00e9 hoje, quatro anos ap\u00f3s o in\u00edcio da crise, eles n\u00e3o conseguiram um emprego formal. \u201cEu estou desempregado, meu irm\u00e3o est\u00e1 desempregado, meu cunhado, minha irm\u00e3, minha mulher&#8230;\u201d, contabiliza ele. \u201cA \u00fanica fonte de renda que cai todo m\u00eas \u00e9 a aposentadoria da minha m\u00e3e\u201d.<\/p>\n<section id=\"sumario_1|foto\" class=\"sumario_foto centro\"><a name=\"sumario_1\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/08\/31\/nordeste_vizinho\/1535718445_361619_1535719254_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/08\/31\/nordeste_vizinho\/1535718445_361619_1535719254_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/08\/31\/nordeste_vizinho\/1535718445_361619_1535719254_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/08\/31\/nordeste_vizinho\/1535718445_361619_1535719254_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"Parada de \u00f4nibus na entrada do S\u00edtio Areal.\" width=\"980\" height=\"579\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Parada de \u00f4nibus na entrada do S\u00edtio Areal.<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">BRENDA ALC\u00c2NTARA<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquele momento, a dimens\u00e3o dessa massa de desempregados chegou a ser comparada \u00e0 da constru\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia. \u201cNa hist\u00f3ria do Brasil, s\u00f3 houve desmobiliza\u00e7\u00e3o similar quando Bras\u00edlia foi constru\u00edda. E a gente sabe como \u00e9 o entorno de Bras\u00edlia at\u00e9 hoje\u201d, afirmou M\u00e1rcio Stefani o ent\u00e3o secret\u00e1rio de Desenvolvimento de Pernambuco na \u00e9poca.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">A vila de desempregados<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem emprego e sem dinheiro para voltar para a Bahia, a \u00fanica sa\u00edda encontrada pela fam\u00edlia de Santos foi se mudar para o S\u00edtio Areal, uma ocupa\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima ao Complexo, onde hoje vivem cerca de 1.000 pessoas, a imensa maioria desempregados de Suape. O local pode ser considerado um dos maiores s\u00edmbolos da ascens\u00e3o e queda do imp\u00e9rio do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.suape.pe.gov.br\/pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Porto de Suape<\/a>. \u00c0 franja de um cen\u00e1rio paradis\u00edaco, em meio a praias de areia branca e mar azul, a ocupa\u00e7\u00e3o surgiu h\u00e1 cerca de cinco anos, erguida por trabalhadores demitidos. Em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias, at\u00e9 hoje as casas do Areal n\u00e3o t\u00eam acesso \u00e0 rede de \u00e1gua, luz e esgoto, mas, ainda assim, \u00e9 a \u00fanica alternativa para quem vive ali.\u00a0 \u201cAqui pelo menos eu n\u00e3o pago aluguel\u201d, diz Santos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, dos mais de 50.000 trabalhadores que participaram da constru\u00e7\u00e3o do porto, n\u00e3o restam mais que 20.000 empregados diretos e indiretos nas mais de 70 empresas do complexo. Orbitam por Suape companhias do ramo de bebidas, alimentos, embalagens, material de constru\u00e7\u00e3o, fabrica\u00e7\u00e3o de torres e\u00f3licas, log\u00edstica, automobil\u00edstica e combust\u00edvel.<\/p>\n<section id=\"sumario_3|foto\" class=\"sumario_foto centro\"><a name=\"sumario_3\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/08\/31\/nordeste_vizinho\/1535718445_361619_1535719695_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/08\/31\/nordeste_vizinho\/1535718445_361619_1535719695_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/08\/31\/nordeste_vizinho\/1535718445_361619_1535719695_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/08\/31\/nordeste_vizinho\/1535718445_361619_1535719695_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"Jos\u00e9 Rodrigues trabalhou por cinco anos na constru\u00e7\u00e3o do Complexo e hoje faz bico de gar\u00e7om na praia. \" width=\"980\" height=\"579\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Jos\u00e9 Rodrigues trabalhou por cinco anos na constru\u00e7\u00e3o do Complexo e hoje faz bico de gar\u00e7om na praia.\u00a0<\/span><span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">BRENDA ALC\u00c2NTARA<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, atingidas pela crise, muitas dessas empresas tiveram que mudar seus planos. E com isso, seus funcion\u00e1rios tamb\u00e9m. Jos\u00e9 Rodrigues, 34, \u00e9 laboratorista de solos e concreto, al\u00e9m de t\u00e9cnico em seguran\u00e7a de trabalho. Por\u00e9m, hoje, vive de bico como gar\u00e7om na praia de Gaibu. \u201cTrabalhei por cinco anos na constru\u00e7\u00e3o da Refinaria Abreu e Lima. Ao final das obras, a empresa para onde eu prestava servi\u00e7o ia me levar para o Maranh\u00e3o para outro empreendimento, mas veio a Lava Jato e nada disso aconteceu\u201d, diz. \u201cHoje, trabalho de dia para comer de noite. Voltamos aos velhos tempos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fam\u00edlia de Marcicl\u00e9ia Medeiros de Souza, 38, que veio de Bel\u00e9m (PA) est\u00e1 entre a maioria de desempregados do Cabo de Santo Agostinho. O marido, pintor, conseguiu emprego ao longo de um ano em Suape, at\u00e9 ser demitido em 2012 e nunca mais conseguir emprego formal. \u201cPerdemos tudo\u201d, resume ela. &#8220;T\u00ednhamos internet, TV \u00e0 cabo, mor\u00e1vamos bem&#8221;, conta. Hoje, a fam\u00edlia vive em uma pequena casa no S\u00edtio Areal. Ela faz malabarismos com as contas de casa e vende bombons para complementar a renda proveniente dos bicos que o marido faz. Enquanto caminha pelo ch\u00e3o de terra batida da ocupa\u00e7\u00e3o, Marcicl\u00e9ia conta a hist\u00f3ria do lugar. \u201cIsso aqui \u00e9 um liquidificador de gente, tem gente de tudo quanto \u00e9 lugar do Brasil que veio atr\u00e1s da promessa de um sonho\u201d.<\/p>\n<section id=\"sumario_7|foto\" class=\"sumario_foto centro\"><a name=\"sumario_7\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/08\/31\/nordeste_vizinho\/1535718445_361619_1535720698_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/08\/31\/nordeste_vizinho\/1535718445_361619_1535720698_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/08\/31\/nordeste_vizinho\/1535718445_361619_1535720698_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/08\/31\/nordeste_vizinho\/1535718445_361619_1535720698_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"Marcicl\u00e9ia Medeiros de Souza vende bombons para tentar complementar a renda da fam\u00edlia.\" width=\"980\" height=\"580\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Marcicl\u00e9ia Medeiros de Souza vende bombons para tentar complementar a renda da fam\u00edlia.<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">BRENDA ALC\u00c2NTARA<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/07\/24\/economia\/1532458704_807294.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O desemprego<\/a>\u00a0talvez seja um dos saldos mais negativos deixados por Suape. Segundo os dados mais recentes do IBGE, em 2016 em Ipojuca, onde fica a menor parte (30%) do complexo, dos 94.000 habitantes, menos da metade, 36%, estavam empregados. J\u00e1 no Cabo de Santo Agostinho, onde fica a maior parte de Suape, somente 19% dos 205.000 habitantes estavam ocupados naquele ano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os n\u00fameros tamb\u00e9m dialogam com a situa\u00e7\u00e3o do Brasil, que fechou 2018, e pela terceira consecutiva, com a taxa de desemprego maior que 10%, contra a m\u00e9dia que n\u00e3o chegava nem a 8% no auge do Governo Lula. As hist\u00f3rias tamb\u00e9m s\u00e3o eloquentes porque justamente est\u00e1 no Nordeste um dos maiores contingentes de desempregados do pa\u00eds:\u00a0<a href=\"https:\/\/agenciadenoticias.ibge.gov.br\/agencia-noticias\/2012-agencia-de-noticias\/noticias\/23028-desocupacao-cai-em-5-estados-e-sobe-apenas-em-roraima-nordeste-lidera\">14,4% dos nordestines est\u00e1 sem trabalho contra 11,9% da m\u00e9dia nacional no terceiro trimestre de 2018<\/a>. Pernambuco tem ainda taxa maior que a do Nordeste, 16,7%, quase cinco pontos acima da brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Temos o grande desafio de enfrentar os efeitos da crise econ\u00f4mica, do desemprego recorde&#8221;, disse\u00a0<a href=\"https:\/\/elpais.com\/tag\/jair_messias_bolsonaro\/a\/\">Jair Bolsonaro<\/a>\u00a0na cerim\u00f4nia de posse h\u00e1 uma semana. Diferentemente do que o novo presidente afirmou, a taxa de desocupa\u00e7\u00e3o atual n\u00e3o \u00e9 recorde (o patamar mais alto foi pouco acima de 13%, registrado em 2017). No entanto, um n\u00famero, sim, est\u00e1 no seu ponto mais alto desde 2012:\u00a0<a href=\"https:\/\/agenciadenoticias.ibge.gov.br\/agencia-noticias\/2012-agencia-de-noticias\/noticias\/23465-desemprego-cai-para-11-6-mas-informalidade-atinge-nivel-recorde\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">a taxa de trabalhadores na informalidade<\/a>, outro tra\u00e7o que aparece no Suape. As previs\u00f5es s\u00e3o, na m\u00e9dia, de que o Brasil cres\u00e7a em torno de 2,5%, mas nem isso \u00e9 um alento imediato: os \u00edndices de emprego costumam ser os \u00faltimos a reagir \u00e0 melhora.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">\u201cCasa bonita n\u00e3o enche barriga\u201d<\/h3>\n<section id=\"sumario_5|foto\" class=\"sumario_foto centro\"><a name=\"sumario_5\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/08\/31\/nordeste_vizinho\/1535718445_361619_1535720008_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/08\/31\/nordeste_vizinho\/1535718445_361619_1535720008_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/08\/31\/nordeste_vizinho\/1535718445_361619_1535720008_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/08\/31\/nordeste_vizinho\/1535718445_361619_1535720008_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"Jaqueline Ferreira do Nascimento, em frente \u00e0 casa onde vive, na Vila Tatuoca. \" width=\"980\" height=\"579\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Jaqueline Ferreira do Nascimento, em frente \u00e0 casa onde vive, na Vila Tatuoca.\u00a0<\/span><span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">BRENDA ALC\u00c2NTARA<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">O crescimento de Porto de Suape, que, apesar da crise,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/08\/31\/nordeste_vizinho\/1535725850_372563.html\">bateu recorde de movimenta\u00e7\u00e3o de cargas em 2017<\/a>\u00a0tamb\u00e9m transformou profundamente n\u00e3o s\u00f3 a paisagem urbana como tamb\u00e9m a ambiental. Segundo levantamento da companhia, em 2009, 6.800 fam\u00edlias viviam no territ\u00f3rio do complexo, sendo que 2.620 em \u00e1reas industriais ou de preserva\u00e7\u00e3o ambiental, como o caso do terreno onde est\u00e1 o S\u00edtio Areal. Aos que tiveram que deixar suas casas para ceder lugar \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do complexo, a empresa afirma que indeniza as fam\u00edlias e oferta novas resid\u00eancias, constru\u00eddas com recursos do programa\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/pmcmv_programa_minha_casa_minha_vida\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Minha Casa Minha Vida<\/a>. O Conjunto Habitacional Governador Eduardo Campos, visitado pela reportagem em fase de finaliza\u00e7\u00e3o, \u00e9 o maior j\u00e1 constru\u00eddo nesse contexto e promete acomodar mais de 2.000 fam\u00edlias que tiveram de ser retiradas de onde vivem para dar espa\u00e7o ao avan\u00e7o da expans\u00e3o de Suape.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em outra ponta do Cabo de Santo Agostinho est\u00e1 o conjunto Vila Nova Tatuoca, formado por 75 casas entregues pela companhia em 2014. As fam\u00edlias que vivem ali tiveram de ser removidas da ilha de Tatuoca, onde foram constru\u00eddos dois estaleiros. Em seu site, Suape ostenta o \u201cprojeto social completo\u201d constru\u00eddo pr\u00f3ximo \u00e0 praia. Mas dona Severina Silva, 58, uma das moradoras do conjunto, se lembra com m\u00e1goa de quando foi \u201ctirada\u201d de sua casa na ilha. \u201cEu fiquei uma semana triste, de cama\u201d, diz. Por isso, mais de quatro anos ap\u00f3s a mudan\u00e7a, ela ainda sonha em voltar para o local onde nasceu. \u201cQuero voltar para o meu canto\u201d, conta.<\/p>\n<section id=\"sumario_6|foto\" class=\"sumario_foto centro\"><a name=\"sumario_6\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/08\/31\/nordeste_vizinho\/1535718445_361619_1535720152_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/08\/31\/nordeste_vizinho\/1535718445_361619_1535720152_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/08\/31\/nordeste_vizinho\/1535718445_361619_1535720152_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/08\/31\/nordeste_vizinho\/1535718445_361619_1535720152_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"Edson Ant\u00f4nio da Silva, presidente da Associa\u00e7\u00e3o de Moradores da Vila Tatuoca. \" width=\"980\" height=\"579\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Edson Ant\u00f4nio da Silva, presidente da Associa\u00e7\u00e3o de Moradores da Vila Tatuoca.\u00a0<\/span><span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">BRENDA ALC\u00c2NTARA<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gr\u00e1vida do terceiro filho, a filha de dona Severina, Jaqueline Ferreira do Nascimento, 27, explica que a rela\u00e7\u00e3o com a ilha, onde a fam\u00edlia vivia, n\u00e3o era somente afetiva, mas uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia. \u201cSomos pescadores, viver l\u00e1 era mais simples, nosso alimento estava ali, f\u00e1cil\u201d. Hoje, o acesso \u00e0 ilha \u00e9 proibido para quem n\u00e3o tem a permiss\u00e3o de Suape. \u201cO pessoal aqui tem casa bonita. Mas casa bonita n\u00e3o enche barriga de ningu\u00e9m\u201d, diz Edson Ant\u00f4nio da Silva, 45, outro morador do conjunto. \u201cNa ilha, as pessoas acordavam dentro da empresa delas, que era o mar. Agora, mal tem mangue para tirar alguma coisa\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um estudo realizado pela Universidade de Pernambuco (UPE) mostra que as obras de expans\u00e3o de Suape foram respons\u00e1veis pela extin\u00e7\u00e3o de mais de 500 hectares de mangue da regi\u00e3o. De acordo com Clemente Coelho, professor de biologia UPE e especialista em manguezais, a supress\u00e3o dos mangues reflete diretamente na vida de quem vive da pesca. \u201cA pesca caiu drasticamente quando come\u00e7aram a aterrar os mangues\u201d, diz. \u201cIsso porque os servi\u00e7os ecossist\u00eamicos que o manguezal presta \u00e0 sociedade s\u00e3o in\u00fameros, como, por exemplo, servir de ber\u00e7\u00e1rio para novas esp\u00e9cies, de filtro biol\u00f3gico para a reten\u00e7\u00e3o de sedimentos, evitar a eros\u00e3o e aprisionar carbono, o que \u00e9 um importante aliado na luta contra o aquecimento global\u201d, afirma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para conseguir a permiss\u00e3o de avan\u00e7ar sobre o mangue, a empresa, de acordo com a lei, precisou propor pol\u00edticas compensat\u00f3rias, em que, para cada hectare suprimido, seria preciso plantar a mesma \u00e1rea ou criar a mesma \u00e1rea de unidade de conserva\u00e7\u00e3o. Para isso, a companhia elaborou um Plano Diretor, vigente desde 2011, determinando que 59% do territ\u00f3rio do Complexo fosse destinado \u00e0 Zona de Preserva\u00e7\u00e3o Ambiental. Est\u00e1 em curso tamb\u00e9m a restaura\u00e7\u00e3o de mais de 1.000 hectares de Mata Atl\u00e2ntica, restinga e mangue, com mudas produzidas em um viveiro pr\u00f3prio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As mudan\u00e7as que a constru\u00e7\u00e3o de Suape causaram no meio ambiente formam uma equa\u00e7\u00e3o de dif\u00edcil solu\u00e7\u00e3o. Desde a d\u00e9cada de 80, as praias do Recife se tornaram\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/06\/04\/politica\/1528141078_127074.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">alvo de sucessivos incidentes com tubar\u00f5es<\/a>. Suape sozinho n\u00e3o pode ser apontado como culpado, mas \u00e9 um fator que contribuiu para o desequil\u00edbrio ambiental, segundo o professor Coelho. \u201cOs ataques de tubar\u00f5es s\u00e3o reflexo de uma equa\u00e7\u00e3o de alguns fatores: a ocupa\u00e7\u00e3o da praia de Boa Viagem, maior tr\u00e1fego de navios na regi\u00e3o, falta de saneamento b\u00e1sico &#8211; que tornou os rios praticamente mortos &#8211; e a constru\u00e7\u00e3o de Suape\u201d, diz. \u201cQuando Suape foi instalado, houve mudan\u00e7as significativas nas din\u00e2micas costeiras, nas correntes, nas mar\u00e9s, aumentou a quantidade de lixo jogado pelo navios. Por isso, Suape \u00e9 uma vari\u00e1vel, que pode at\u00e9 ser a de maior peso, mas n\u00e3o est\u00e1 sozinha\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Complexo, em Pernambuco, volta a crescer em meio a quest\u00f5es ambientais, mas emprego n\u00e3o se recuperou. 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