{"id":270204,"date":"2019-01-15T06:15:09","date_gmt":"2019-01-15T09:15:09","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=270204"},"modified":"2019-01-15T06:15:09","modified_gmt":"2019-01-15T09:15:09","slug":"malu-fontes-praias-de-salvador-sempre-foram-laboratorio-de-comportamentos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/malu-fontes-praias-de-salvador-sempre-foram-laboratorio-de-comportamentos\/","title":{"rendered":"Malu Fontes: Praias de Salvador sempre foram laborat\u00f3rio de comportamentos"},"content":{"rendered":"<div class=\"row visible-lg\">\n<div class=\"col-xs-12\">\n<div class=\"noticias-single__tags\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"row\">\n<div class=\"col-xs-12 col-lg-3\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"noticias-single__meta\">\n<div class=\"noticias-single__author\">\n<div>Malu Fontes*<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"noticias-single__date\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-lg-9\">\n<div class=\"row\">\n<div class=\"col-xs-12\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"noticias-single__image\"><img decoding=\"async\" class=\"noticias-single__image-source\" src=\"https:\/\/correio-cdn2.cworks.cloud\/fileadmin\/_processed_\/c\/7\/csm_praia01_ARQUIVO_5cb9721a11.jpg\" alt=\"\" \/><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 noticias-single__stick-parent\">\n<div class=\"row\">\n<div class=\"col-xs-12 col-md-7 col-lg-7\">\n<div class=\"row\">\n<div class=\"col-xs-12\">\n<h1 class=\"noticias-single__title noticias-single__title--with-image visible visible-lg\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"noticias-single__description visible-lg\" style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Vai do topless na Boca do Rio a micareta aqu\u00e1tica no Porto da Barra<\/strong><\/em><\/div>\n<div class=\"noticias-single__content\">\n<div class=\"noticias-single__content__text js-mediator-article\">\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\">Em 1979, Jo\u00e3o Figueiredo, o \u00faltimo presidente da ditadura militar, assumiu o governo e assinou a anistia, autorizando os exilados do regime a voltarem para casa. A anistia de 79 antecipava o tom dos anos 80.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\">O Brasil come\u00e7ava, assim, um ano antes, a viver sob os signos que marcariam os anos 80, a d\u00e9cada que parecia colocar em pr\u00e1tica\u00a0ampliada o que havia sido um ensaio restrito aos\u00a0adeptos da contracultura\u00a0dos anos 60. Politizados e nem tanto pareciam transformar sexualmente o corpo em instrumento pol\u00edtico, para al\u00e9m da voz, do texto.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Moralidade na areia<\/strong><br \/>\nSe na d\u00e9cada de 80 nos liberamos sexualmente, nas d\u00e9cadas de 90 e nos anos 2000 encaretamos. E t\u00e3o diversos foram os motivos, embora a Aids tenha sido o maior deles, que n\u00e3o caberiam aqui. As imagens da Praia dos Artistas, na Boca do Rio, traduzem o abismo entre o comportamento das pessoas na praia nos anos 80 e hoje.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o, n\u00e3o era todo mundo. Mas hoje n\u00e3o \u00e9 daquele jeito em lugar nenhum. Qualquer mulher que, numa praia de Salvador, ouse tirar a parte de cima do biqu\u00edni em 2019 corre o risco de ver a pol\u00edcia chegar. Algu\u00e9m vai cham\u00e1-la para restaurar a moralidade na areia.<\/p>\n<table class=\"table\">\n<tbody>\n<tr>\n<td class=\"text-center\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/correio-cdn2.cworks.cloud\/fileadmin\/_processed_\/1\/c\/csm_praia04_ARQUIVO_ff274b35d1.jpg\" width=\"777\" height=\"1000\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td class=\"text-center\">(Foto: Arquivo CORREIO)<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Comer \u00e1gua<\/strong><br \/>\nPoucas cidades brasileiras traduzem t\u00e3o bem a express\u00e3o \u201cn\u00f3is sofre, mais n\u00f3is goza\u201d como Salvador. Para compreender o quanto isso \u00e9 verdade, os dois cen\u00e1rios privilegiados de observa\u00e7\u00e3o s\u00e3o o Carnaval e a praia. H\u00e1 quem tenha teses geogr\u00e1ficas para explicar as diferen\u00e7as de comportamento entre as praias do Rio de Janeiro e as de Salvador. O carioca vai \u00e0 praia para se exibir. O baiano, para \u201ccomer \u00e1gua\u201d.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\">Para quem explica isso pelo relevo e pela topografia, os cariocas que se exibem na praia vivem a orla como o templo onde simultaneamente exercitam o corpo e exibem o resultado. O elemento determinante para a rela\u00e7\u00e3o entre a praia, a malha\u00e7\u00e3o e a exibi\u00e7\u00e3o seria o fato de as praias do Rio situarem-se no mesmo n\u00edvel do cal\u00e7ad\u00e3o, do asfalto, das avenidas que as margeiam. Em Salvador, as praias emburacam-se cal\u00e7adas abaixo, o corpo sai da rua e desce para a faixa de areia lambida pelo mar l\u00e1 embaixo. E l\u00e1 embaixo, a maioria n\u00e3o est\u00e1 nem a\u00ed para quilos a mais e barrigas negativas.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Pink Money<\/strong><br \/>\nO Carnaval passou por diversas transforma\u00e7\u00f5es, mas os modos do povo de apropriar-se da festa continuam espantosamente vivos e revolucion\u00e1rios. Em camarotes, espremidas numa massa uniforme atr\u00e1s da Baiana System, na Pipoca de Igor Kann\u00e1rio ou encostadas em qualquer placa de madeirite num beco em torno do isopor e do churrasquinho de gato, as pessoas reinventam todo dia formas de inclus\u00e3o na alegria. Para al\u00e9m da problematiza\u00e7\u00e3o e teoriza\u00e7\u00e3o da exclus\u00e3o, os pobres entram na festa e a fazem tamb\u00e9m sua.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\">Da morte das mortalhas e mam\u00e3es-sacodes \u00e0 camarotiza\u00e7\u00e3o, o Carnaval continua laborat\u00f3rio de produ\u00e7\u00e3o de comportamento popular. Na sua esteira, as festas de Ver\u00e3o e toda a diversidade de ensaios, hoje com um p\u00fablico predominantemente gay. Se o pink money, local e tur\u00edstico, deixasse de frequentar os ensaios musicais da moda da cidade, rar\u00edssimos aconteceriam.<\/p>\n<table class=\"table\">\n<tbody>\n<tr>\n<td>\n<p class=\"text-center\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/correio-cdn3.cworks.cloud\/fileadmin\/user_upload\/correio24horas\/2019\/01\/11\/praia03_ARQUIVO.jpg\" width=\"800\" height=\"740\" \/><\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td class=\"text-center\">(Foto: Arquivo CORREIO)<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\">E, assim, o povo de Salvador e seu comportamento surfam sobre o tempo e fogem de enquadramentos. Os mais pobres sempre \u201cd\u00e3o a ideia\u201d, com seus espetinhos e seu isopor, em qualquer lugar onde circule gente. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, \u00e9 verdade que todo mundo correu para a seguran\u00e7a, o conforto e o ar-condicionado dos mega shoppings centers, mas n\u00e3o se confinou l\u00e1 dentro.<\/p>\n<p><strong>Micareta aqu\u00e1tica<\/strong><br \/>\nSe em 1979 e no come\u00e7o dos anos 80 os desbundados transformavam a Praia dos Artistas no metro quadrado mais liberal da orla de Salvador, de l\u00e1 para c\u00e1 o Porto da Barra nunca perdeu sua majestade quando o assunto \u00e9 diversidade e tribos. L\u00e1 tem sempre de \u00a0tudo. Em janeiro de 2019, qual foi a lacra\u00e7\u00e3o mais comentada da praia? A micareta produzida pelo DJ Maroca, dentro d\u2019\u00e1gua, no Porto. Quanto mais a Sucom o encurralava, esperando-o na areia para confiscar o equipamento, mais a gambiarra sonora causava nas redes sociais, transformado-se em fen\u00f4meno do Ver\u00e3o.<\/p>\n<div class=\"embed-content\" style=\"text-align: justify;\"><iframe id=\"instagram-embed-0\" class=\"instagram-media instagram-media-rendered\" src=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/BsJxgmXlsdt\/embed\/?cr=1&amp;v=12&amp;wp=538&amp;rd=https%3A%2F%2Fwww.correio24horas.com.br&amp;rp=%2Fnoticia%2Fnid%2Fmalu-fontes-praias-de-salvador-sempre-foram-laboratorio-de-comportamentos%2F#%7B%22ci%22%3A0%2C%22os%22%3A3950.000000069849%7D\" height=\"744\" frameborder=\"0\" scrolling=\"no\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-instgrm-payload-id=\"instagram-media-payload-0\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Engarrafamento de gente<\/strong><br \/>\nA cidade espraiou-se a perder de vista, primeiro em torno do Iguatemi e depois seguindo o espinha\u00e7o da Avenida Paralela, fundindo-se com o mar e Lauro de Freitas. Mas isso n\u00e3o fez com que a Avenida Sete perdesse a caracter\u00edstica que continua a faz\u00ea-la \u00edmpar: o engarrafamento de gente, sobretudo em v\u00e9speras de festas. Que venham os pr\u00f3ximos 40 anos. Salvador e seu povo se dobram para n\u00e3o romper e continuam fazendo as melhores festas populares do pa\u00eds. A heran\u00e7a africana \u00e9 o combust\u00edvel essencial dessa engrenagem que, apesar do abismo social, das dores e da segrega\u00e7\u00e3o, constr\u00f3i essa festa que n\u00e3o acaba nunca.<\/p>\n<table class=\"table\">\n<tbody>\n<tr>\n<td>\n<p class=\"text-center\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/correio-cdn1.cworks.cloud\/fileadmin\/_processed_\/6\/5\/csm_praia02_ARQUIVO_c74d388b1b.jpg\" width=\"1000\" height=\"622\" \/><\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td class=\"text-center\">(Foto: Arquivo CORREIO)<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\"><em>* Jornalista e professora<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1979, Jo\u00e3o Figueiredo, o \u00faltimo presidente da ditadura militar, assumiu o governo e assinou a anistia, autorizando os exilados do regime a voltarem para casa. 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