{"id":271095,"date":"2019-01-23T07:50:29","date_gmt":"2019-01-23T10:50:29","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=271095"},"modified":"2019-01-23T07:50:29","modified_gmt":"2019-01-23T10:50:29","slug":"escravidao-autobiografia-rara-em-arabe-conta-historia-de-intelectual-muculmano-capturado-na-africa-e-vendido-como-escravo-nos-eua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/escravidao-autobiografia-rara-em-arabe-conta-historia-de-intelectual-muculmano-capturado-na-africa-e-vendido-como-escravo-nos-eua\/","title":{"rendered":"Escravid\u00e3o: autobiografia rara em \u00e1rabe conta hist\u00f3ria de intelectual mu\u00e7ulmano capturado na \u00c1frica e vendido como escravo nos EUA"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\" style=\"text-align: justify;\">Escravid\u00e3o: autobiografia rara em<\/h1>\n<div class=\"byline\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"byline__name\">Alessandra Corr\u00eaa<\/span><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/0734\/production\/_105244810_foto1_omar_ibn_said_yale_university_library.jpg\" alt=\"Omar Ibn Said\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span>Autobiografia de Omar Ibn Said, em foto de 1850, \u00e9 a \u00fanica feita por um escravo escrita em \u00e1rabe nos Estados Unidos de que se tem conhecimento, segundo especialista<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\" style=\"text-align: justify;\">Omar Ibn Said era um intelectual mu\u00e7ulmano de fam\u00edlia rica que vivia na \u00c1frica Ocidental quando, no in\u00edcio do S\u00e9culo 19, a regi\u00e3o onde morava foi invadida por um ex\u00e9rcito inimigo que matou grande parte da popula\u00e7\u00e3o. Ibn Said sobreviveu, mas foi capturado,\u00a0<a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-44009360\">vendido como escravo<\/a>\u00a0e transportado em um navio negreiro aos Estados Unidos, onde morreu em 1863, com mais de 90 anos, em meio \u00e0 Guerra Civil que levaria \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1831, Ibn Said narrou sua trajet\u00f3ria, desde a vida como estudioso na \u00c1frica at\u00e9 os anos de trabalho for\u00e7ado no sul dos Estados Unidos, em uma autobiografia escrita em \u00e1rabe e depois traduzida para o ingl\u00eas. Neste m\u00eas, a Biblioteca do Congresso anunciou a aquisi\u00e7\u00e3o do manuscrito e de outros 41 documentos relacionados, que est\u00e3o dispon\u00edveis para consultas online.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Essa cole\u00e7\u00e3o rara \u00e9 extremamente importante, porque a autobiografia de Omar Ibn Said \u00e9 a \u00fanica autobiografia de um escravo escrita em \u00e1rabe nos Estados Unidos de que se tem conhecimento&#8221;, diz a chefe da divis\u00e3o de \u00c1frica e Oriente M\u00e9dio da biblioteca, Mary-Jane Deeb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A maioria dos escravos no pa\u00eds n\u00e3o sabia ler nem escrever, e pouqu\u00edssimos americanos na \u00e9poca tinham conhecimento de \u00e1rabe. Deeb ressalta que, ao contr\u00e1rio de relatos de outros escravos escritos em ingl\u00eas, o texto de Ibn Said n\u00e3o foi editado por seus donos. &#8220;Por isso, \u00e9 mais aut\u00eantico&#8221;, salienta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;\u00c9 um importante documento que atesta para o alto n\u00edvel de educa\u00e7\u00e3o e a longa tradi\u00e7\u00e3o de cultura escrita que existia na \u00c1frica na \u00e9poca. Tamb\u00e9m revela que muitos africanos trazidos aos Estados Unidos como escravos eram seguidores do Isl\u00e3, uma religi\u00e3o abra\u00e2mica e monote\u00edsta. Isso contradiz suposi\u00e7\u00f5es anteriores sobre a vida e a cultura africana&#8221;, destaca.<\/p>\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-parrot\" style=\"text-align: justify;\" data-variation=\"default-0\"><\/div>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Estudo e esmolas aos pobres<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O relato tem 15 p\u00e1ginas e o t\u00edtulo (traduzido do ingl\u00eas)\u00a0<i>A vida de Omar ben Saeed, chamado Morro, um Escravo Fula em Fayetteville, NC<\/i>\u00a0(Carolina do Norte).<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/A374\/production\/_105244814_foto2_pagina_arabe_library_of_congress.jpg\" alt=\"Autobiografia de Omar Ibn Said\" width=\"549\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\">P\u00e1gina da autobiografia de Omar Ibn Said, escrita em \u00e1rabe<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ibn Said conta que nasceu em Futa Toro, em uma regi\u00e3o ao longo da bacia do rio Senegal, em uma fam\u00edlia da etnia fulani. Seu pai era um homem rico que tinha seis filhos e cinco filhas. Ele diz que sua m\u00e3e tinha tr\u00eas filhos e uma filha, o que, segundo Deeb, significa que seu pai tinha mais de uma esposa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pai de Ibn Said foi morto em uma guerra tribal quando tinha cinco anos, e ele e o resto da fam\u00edlia se mudaram para outra cidade. Ele conta que estudou em Bundu, onde hoje \u00e9 o Senegal. &#8220;Eu continuei buscando conhecimento por 25 anos&#8221;, escreve.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ibn Said diz que era seguidor de &#8220;Maom\u00e9, o Profeta de Deus&#8221;, rezava cinco vezes por dia e fez peregrina\u00e7\u00e3o a Meca. &#8220;Eu costumava doar aos pobres&#8221;, escreve. &#8220;Todo ano em ouro, prata, colheita, gado, ovelhas, cabras, arroz, trigo e cevada, tudo eu costumava doar.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No in\u00edcio do S\u00e9culo 19, Ibn Said voltou \u00e0 regi\u00e3o onde nasceu. Ele permaneceu l\u00e1 por seis anos, at\u00e9 que, em 1807, um &#8220;grande ex\u00e9rcito&#8221; invadiu a regi\u00e3o e &#8220;matou muitas pessoas&#8221;. Calcula-se que ele tinha em torno de 37 anos na \u00e9poca.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">&#8216;Grande mar&#8217; e vida como escravo<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s ser capturado, Ibn Said conta que foi vendido a um homem que o levou a &#8220;um grande navio no grande mar&#8221;. A travessia no navio negreiro da \u00c1frica at\u00e9 os Estados Unidos durou um m\u00eas e meio. Ele desembarcou em Charleston, na Carolina do Sul, por onde passavam grande parte dos africanos levados como escravos aos Estados Unidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ibn Said revela que foi comprado por &#8220;um homem pequeno e cruel, que n\u00e3o temia a Deus&#8221;, chamado Johnson. Ele fugiu depois de um m\u00eas e conseguiu chegar at\u00e9 Fayetteville, na Carolina do Norte, onde foi recapturado e passou 16 dias preso. Foi ent\u00e3o comprado por James Owen e seu irm\u00e3o John Owen, futuro governador da Carolina do Norte, com quem permaneceu pelo resto da vida.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/10194\/production\/_105304956_gettyimages-912263362.jpg\" alt=\"Gravura de 1864 mostra negros indo trabalhar em meio \u00e0 Guerra Civil dos EUA\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Omar Ibn Said morreu em meio \u00e0 Guerra Civil dos EUA, que levaria \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o da escravatura no pa\u00eds<\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ibn Said descreve os Owen como &#8220;homens bons&#8221;. &#8220;O que quer que eles comem, eu tamb\u00e9m como, e o que quer que eles vestem, eles me d\u00e3o para vestir&#8221;, escreve. Mas ele morreu como escravo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Documentos da \u00e9poca mostram que Ibn Said ganhou dos donos uma c\u00f3pia do Alcor\u00e3o em ingl\u00eas e, posteriormente, uma B\u00edblia em \u00e1rabe, e que se converteu ao cristianismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo o Departamento de Hist\u00f3ria Cultural da Carolina do Norte, Ibn Said era conhecido por v\u00e1rios nomes, como Omar, Umar, Umaru, Omaroh, Morro, Monroe e Moreau, e ganhou notoriedade como um dos escravos com maior n\u00edvel de educa\u00e7\u00e3o no Estado, sendo tema de artigos em jornais e revistas da \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deeb observa que a erudi\u00e7\u00e3o e o refinamento de Ibn Said chamavam a aten\u00e7\u00e3o daqueles que o conheceram, e sua hist\u00f3ria aparece em artigos da \u00e9poca sobre sua flu\u00eancia em \u00e1rabe e a convers\u00e3o ao cristianismo.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/0FF8\/production\/_105288040_foto3_capa_library_of_congress.jpg\" alt=\"Autobiografia de Omar Ibn Said\" width=\"549\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\">T\u00edtulo (em ingl\u00eas) da autobiografia de Omar Ibn Said<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Hist\u00f3ria complexa<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deeb diz que Ibn Said escreveu o texto a pedido de um homem a quem se refere como &#8220;Xeque Hunter&#8221;. O manuscrito acabou depois nas m\u00e3os do abolicionista Theodore Dwight, um dos fundadores da Sociedade Etnol\u00f3gica Americana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cole\u00e7\u00e3o que est\u00e1 na Biblioteca do Congresso foi reunida por Dwight e inclui sua correspond\u00eancia com indiv\u00edduos que traduziram e estudaram o relato de Ibn Said, al\u00e9m de outros documentos em ingl\u00eas e \u00e1rabe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo Deeb, o objetivo de Dwight com a autobiografia de Ibn Said e sua tradu\u00e7\u00e3o, ressaltando o alto n\u00edvel de educa\u00e7\u00e3o e o monote\u00edsmo do autor, era enfraquecer os argumentos que justificavam a escravid\u00e3o nos Estados Unidos. Dwight tamb\u00e9m queria aprofundar o conhecimento dos americanos sobre os povos e a cultura da \u00c1frica Ocidental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os documentos passaram por diversos donos at\u00e9 chegar \u00e0s m\u00e3os do colecionador Derrick Beard e, em 2017, serem adquiridos pela Biblioteca do Congresso, onde as p\u00e1ginas fr\u00e1geis do manuscrito receberam um longo tratamento e foram refor\u00e7adas por especialistas em conserva\u00e7\u00e3o antes de serem colocadas em exposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Essa cole\u00e7\u00e3o \u00e9 uma ferramenta formid\u00e1vel para pesquisa sobre a \u00c1frica nos s\u00e9culos 18 e 19 e vai jogar luz sobre a complexa hist\u00f3ria da escravid\u00e3o nos Estados Unidos&#8221;, afirma a diretora da biblioteca, Carla Hayden.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Omar Ibn Said era um intelectual mu\u00e7ulmano de fam\u00edlia rica que vivia na \u00c1frica Ocidental quando, no in\u00edcio do S\u00e9culo 19, a regi\u00e3o onde morava foi invadida por um ex\u00e9rcito inimigo que matou grande parte da popula\u00e7\u00e3o. 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