{"id":271522,"date":"2019-01-26T17:13:21","date_gmt":"2019-01-26T20:13:21","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=271522"},"modified":"2019-01-26T17:13:21","modified_gmt":"2019-01-26T20:13:21","slug":"haruki-murakami-o-trabalho-de-um-romancista-e-sonhar-acordado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/haruki-murakami-o-trabalho-de-um-romancista-e-sonhar-acordado\/","title":{"rendered":"Haruki Murakami: \u201cO trabalho de um romancista \u00e9 sonhar acordado\u201d"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"font-style: inherit; text-align: justify;\"><\/h1>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a style=\"font-style: inherit; font-weight: 400;\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/raquel_garzon\/a\/\">Raquel Garz\u00f3n<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-style: inherit; font-weight: 400;\">NATHAN BAJAR<\/span><\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit; text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Escritor\u00a0<i><em style=\"font-weight: inherit;\">best-seller<\/em><\/i>\u00a0e favorito nas apostas do Nobel, com seus 69 anos o japon\u00eas Haruki Murakami calcula que sua literatura lhe permitir\u00e1 continuar perseguindo \u201cvidas diferentes\u201d durante mais uma d\u00e9cada. Avesso a entrevistas, recebeu com exclusividade o\u00a0<i><em style=\"font-weight: inherit;\">El Pa\u00eds Semanal<\/em><\/i>\u00a0no Equador para falar do poder da imagina\u00e7\u00e3o, dos medos, das maratonas, do casamento e da vontade de experimentar coisas novas. Desde agosto apresenta em T\u00f3quio um programa de r\u00e1dio no qual cultiva outra de suas paix\u00f5es: a m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-271525 size-large\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/chi3-620x339.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"339\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/chi3-620x339.jpg 620w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/chi3-300x164.jpg 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/chi3-768x420.jpg 768w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/chi3-93x50.jpg 93w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/chi3-160x87.jpg 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/chi3-225x123.jpg 225w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/chi3-640x350.jpg 640w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/chi3.jpg 1960w\" sizes=\"auto, (max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit; text-align: justify;\">&#8220;TODOS VIVEMOS em uma esp\u00e9cie de jaula. Pode ser de ouro e bonita, mas \u00e9 a jaula que cabe a cada um\u201d, diz ele, que vende livros aos milh\u00f5es e cujo nome soa sem falta como candidato ao Nobel h\u00e1 uma d\u00e9cada. Haruki Murakami, autor de romances como\u00a0<i><em style=\"font-weight: inherit;\">Tokio blues<\/em><\/i>,\u00a0<i><em style=\"font-weight: inherit;\">Dance, dance, dance<\/em><\/i>\u00a0e\u00a0<i><em style=\"font-weight: inherit;\">1Q84<\/em><\/i>, e escritor japon\u00eas traduzido para 50 idiomas, fez da literatura um salvo-conduto para burlar essa pris\u00e3o. E n\u00e3o conceder entrevistas faz parte de sua lenda.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit; text-align: justify;\">Murakami, aquele que corre uma maratona por ano h\u00e1 37 anos, escreve improvisando como um jazzista e tem uma cole\u00e7\u00e3o de 10.000 vinis? O que pontua suas hist\u00f3rias com personagens sem nome, can\u00e7\u00f5es, t\u00faneis, gatos, solid\u00f5es, espectros, sonhos, crueldades e volta ao amor e ao desamor \u2014v\u00e1rias vezes\u2014 como se na verdade pud\u00e9ssemos entend\u00ea-los?<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit; text-align: justify;\">Esse mesmo Murakami (Quioto, 1949), f\u00e3 dos Beatles e casado como Lennon h\u00e1 47 anos com uma mulher chamada Yoko, acaba de entrar no sal\u00e3o do quarto andar do hotel que ocupa hoje o solar da primeira casa constru\u00edda no centro colonial de Quito, fundada por Francisco Pizarro no s\u00e9culo XVI. O narrador que imagina romances por encomenda com livros iniciais de 600 p\u00e1ginas e tem os leitores ligados como viciados, esperando as pr\u00f3ximas 400, visita a Am\u00e9rica do Sul pela primeira vez para a comemora\u00e7\u00e3o de um s\u00e9culo de rela\u00e7\u00f5es entre Equador e Jap\u00e3o. \u201c\u00c9 perigoso correr aqui por causa da altitude, mas visitei Gal\u00e1pagos, que \u00e9 muito bonito. Falei tamb\u00e9m em um teatro onde umas 2.000 pessoas me fizeram sentir um Bruce Springsteen\u201d, brinca.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit; text-align: justify;\">Usa barba grisalha de v\u00e1rios dias e cal\u00e7a t\u00eanis esportivos pretos com cadar\u00e7os cor-de-laranja chamativos, que fazem temer que sair\u00e1 correndo se as perguntas o incomodarem. Confirma no papo o que foi lido: tempos atr\u00e1s comprou a casa no Hava\u00ed onde o filme\u00a0<i><em style=\"font-weight: inherit;\">Perdidos<\/em><\/i>\u00a0foi rodado. \u201cFoi por acaso, n\u00e3o conhecia; quando vi, gostei, mas foram outros que disseram: \u2018\u00c9 a sua casa!\u2019. N\u00e3o consegui reconhecer\u201d.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit; text-align: justify;\">Cort\u00eas, ao falar em ingl\u00eas, cultiva um tique: antes de responder, alonga os sil\u00eancios como se os degustasse, e desvia os olhos para a direita buscando palavras que o expliquem nesse idioma alheio. Seu d\u00e9cimo quarto romance \u00e9 a desculpa para este encontro:\u00a0<i><em style=\"font-weight: inherit;\">O assassinato do comendador<\/em><\/i>se refere a uma cena da \u00f3pera\u00a0<i><em style=\"font-weight: inherit;\">Don Giovanni<\/em><\/i>, de Mozart, e a uma pintura encontrada pelo protagonista, um retratista em plena crise existencial. Ser\u00e1 publicado em dois volumes (o primeiro saiu em novembro, pela Companhia das Letras, no Brasil) e s\u00f3 no Jap\u00e3o vendeu 1.800.000 exemplares.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit; text-align: justify;\">Isso \u00e9 mais do que suficiente para imaginar toda a cidade de Barcelona (beb\u00eas inclu\u00eddos) lendo ao mesmo tempo o homem que agora sorri, enquanto lembra de sua visita a Santiago de Compostela em 2009. \u201cOs alunos de um col\u00e9gio [IES Rosal\u00eda de Castro] escolheram\u00a0<i><em style=\"font-weight: inherit;\">Kafka \u00e0 beira-mar<\/em><\/i>\u00a0como o livro do ano e viajei para receber o pr\u00eamio. Sempre me lembro disso: eram garotos muito inteligentes. Gostei da Gal\u00edcia; os mariscos e o vinho s\u00e3o maravilhosos\u201d.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit; text-align: justify;\"><b><strong style=\"font-style: inherit;\"><i><em style=\"font-weight: inherit;\">A morte do comendador<\/em><\/i>\u00a0come\u00e7a com um sonho inquietante: um artista deve pintar o retrato de um homem sem rosto. Chegou assim a ideia do livro?<\/strong><\/b>N\u00e3o, acrescentei esse pr\u00f3logo. A primeira coisa que apareceu foi a paisagem. Uma casa perto do mar, no alto de uma montanha, e no limite: para a frente o c\u00e9u est\u00e1 limpo e, atr\u00e1s, sempre nebuloso. Escrevi esses par\u00e1grafos iniciais e me perguntei o que aconteceria, pois n\u00e3o fazia ideia. O protagonista conta a hist\u00f3ria de sua esposa, de quem se separa quando ela lhe diz que n\u00e3o pode continuar vivendo com ele. Percorre o Jap\u00e3o de carro, sozinho, aturdido, sem entender o que acontece, at\u00e9 que v\u00e1rios meses depois um amigo lhe empresta a casa.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit; text-align: justify;\"><b><strong style=\"font-style: inherit;\">Muitas de suas fic\u00e7\u00f5es apresentam protagonistas em crise, aos 30 e poucos anos. Qual o significado dessa idade para o senhor?<\/strong><\/b>\u00a0Em\u00a0<i><em style=\"font-weight: inherit;\">Cr\u00f4nica do p\u00e1ssaro de corda<\/em><\/i>, um romance longo dos anos noventa, narrei a vida de um homem de 30 e poucos anos cujo cotidiano muda quando desaparecem primeiro seu gato e depois sua mulher. Comecei em terceira pessoa, mas voltei \u00e0 primeira porque sentia que o que queria contar exigia mais intimidade. N\u00e3o sei por que escolho esses protagonistas. Talvez seja esse vi\u00e9s pessoal, essa busca de sentido em meio \u00e0 hesita\u00e7\u00e3o, o que me interessa. \u00c9 como se nessa idade nos d\u00e9ssemos conta de que essa vida \u00e9 a nossa. Esse processo de apropria\u00e7\u00e3o me intriga. A pessoa j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o jovem, mas n\u00e3o \u00e9 velha. \u00c9 livre e vulner\u00e1vel ao mesmo tempo.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit; text-align: justify;\"><b><strong style=\"font-style: inherit;\">Esta personagem, no entanto, n\u00e3o se sente t\u00e3o livre, certo?<\/strong><\/b>\u00a0Sua crise \u00e9 radical: pinta retratos, vive disso, mas n\u00e3o sabe qual \u00e9 sua obra. Luta para entender o que quer expressar; \u00e9 uma busca definidora. O romance conta tamb\u00e9m isso: sua descoberta como artista, seu estado mental como criador.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: 500; text-align: justify;\">\u201cEu n\u00e3o sonho. Ou n\u00e3o lembro dos sonhos, mas minha literatura est\u00e1 cheia deles; imagino. Um amigo psiquiatra me disse: \u2018Escreve, n\u00e3o precisa sonhar\u201d<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit; text-align: justify;\"><span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">\u201cEu n\u00e3o sonho. Ou n\u00e3o me lembro dos sonhos, mas minha literatura est\u00e1 cheia deles; imagino. Um amigo psiquiatra me disse: \u2018Escreve, n\u00e3o precisa sonhar\u2019\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit; text-align: justify;\"><b><strong style=\"font-style: inherit;\">Que cores usaria para pintar seu pr\u00f3prio retrato?<\/strong><\/b>Cores? Quando escrevo penso em m\u00fasica, n\u00e3o vejo nenhuma cor. Talvez seja uma forma de poder usar todas. Uma coisa parecida acontece com os sonhos. Eu n\u00e3o sonho. Ou n\u00e3o lembro, mas minha literatura est\u00e1 cheia deles; imagino. Um amigo meu, psiquiatra, costumava me dizer: \u201cEscreva, n\u00e3o precisa sonhar\u201d.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit; text-align: justify;\"><b><strong style=\"font-style: inherit;\">J\u00e1 fez an\u00e1lise?<\/strong><\/b>\u00a0N\u00e3o, a psican\u00e1lise n\u00e3o me interessa, mas deveria ter perguntado a ele por que acreditava que n\u00e3o era necess\u00e1rio sonhar. Lamento; morreu h\u00e1 alguns anos.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit; text-align: justify;\"><b><strong style=\"font-style: inherit;\">Sente falta de algo de sua vida anterior \u00e0 literatura, na \u00e9poca em que sua mulher e o sr. administravam um clube de jazz?<\/strong><\/b>\u00a0Sinto falta do ambiente, dos m\u00fasicos. Mas desde agosto apresento um programa de r\u00e1dio em T\u00f3quio. Sou disc-j\u00f3quei e recuperei o que era mais divertido naquele tempo. Escolho a m\u00fasica \u2014rock, pop, jazz\u2014 e falo sobre ela e sobre literatura. Tinha minhas d\u00favidas, mas Yoko me consolou: \u201cVoc\u00ea pode fazer isso. Seria um bom DJ\u201d. E estou aproveitando. O sentimento \u00e9 de puro prazer.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit; text-align: justify;\"><b><strong style=\"font-style: inherit;\">O sr. publicou seu primeiro romance em 1979 e mudou sua rotina: deixou de virar noites, come\u00e7ou a correr diariamente&#8230; Gostaria que seus leitores lessem tamb\u00e9m com todo o corpo?\u00a0Gostaria que de seus leitores o lessem tamb\u00e9m com todo o corpo?<\/strong><\/b>\u00a0[Ri] N\u00e3o, escrever romances longos como os meus exige um esfor\u00e7o sustentado e met\u00f3dico. N\u00e3o \u00e9 um trabalho leve; escrevo com a sensa\u00e7\u00e3o f\u00edsica de dar tudo de mim; administro minha energia como o ar nas maratonas e tento oferecer sempre algo novo. S\u00f3 espero que o leitor desfrute do livro. Essa \u00e9 a parte dele.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit; text-align: justify;\"><b><strong style=\"font-style: inherit;\">Perguntei sobre a forma como seus relatos acionam todos os sentidos. H\u00e1 m\u00fasica, sexo, comida&#8230;<\/strong><\/b>\u00a0Gosto das coisas f\u00edsicas. Se escrevo sobre algu\u00e9m que bebe uma cerveja, espero que os leitores queiram uma. Procuro imprimir \u00e0 minha literatura essa dimens\u00e3o porque confio na rea\u00e7\u00e3o corporal como algo aut\u00eantico, incontrol\u00e1vel, e se aparece creio que a hist\u00f3ria est\u00e1 funcionando. Se algu\u00e9m no livro adoece, gostaria que o leitor vivesse seus sintomas. Esse \u00e9 o prop\u00f3sito do relato.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit; text-align: justify;\"><b><strong style=\"font-style: inherit;\">Escrever sobre a solid\u00e3o, a viol\u00eancia, a loucura, o que \u00e9 mais desafiador?<\/strong><\/b>\u00a0Conseguir que os leitores riam. N\u00e3o sorrir; falo de rir \u00e0s gargalhadas. Muitos japoneses leem meus livros de p\u00e9 no metr\u00f4 ou no trem, quando v\u00e3o para o trabalho; as pessoas em volta olham para eles, pode ser at\u00e9 embara\u00e7oso. Mas sinto que consegui o que procurava.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit; text-align: justify;\"><b><strong style=\"font-style: inherit;\">Por que isso \u00e9 t\u00e3o importante para o senhor?<\/strong><\/b>\u00a0Rir e chorar s\u00e3o emo\u00e7\u00f5es mais transparentes. Mas fazer chorar \u00e9 mais simples. Quando voc\u00ea ri \u00e9 porque sua aten\u00e7\u00e3o relaxou; est\u00e1 ali, entre o que o livro conta e o que sente h\u00e1 um ponto de encontro, uma humanidade corp\u00f3rea. Gosto de chegar a esse espa\u00e7o comum. Sou escritor e, sem d\u00favida, tenho opini\u00f5es e ideias para expressar, mas sem esse n\u00edvel f\u00edsico essencial riso e choro, creio que seria muito dif\u00edcil transmitir o que quero contar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-271524 size-large\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/chi2-381x500.jpg\" alt=\"\" width=\"381\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/chi2-381x500.jpg 381w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/chi2-228x300.jpg 228w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/chi2-768x1009.jpg 768w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/chi2-160x210.jpg 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/chi2-640x840.jpg 640w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/chi2.jpg 1960w\" sizes=\"auto, (max-width: 381px) 100vw, 381px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Haruki Murakami, retratado no final do ano passado em Nova York.\u00a0<span style=\"font-style: inherit; font-weight: 400;\">NATHAN BAJAR\u00a0CONTACTO<\/span><\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit; text-align: justify;\"><b><strong style=\"font-style: inherit;\">Menshiki, o milion\u00e1rio solit\u00e1rio que homenageia Gatsby neste romance, n\u00e3o pensa na paternidade at\u00e9 saber que Marie pode ser sua filha. Como foi sua viv\u00eancia desse tema?<\/strong><\/b>\u00a0Perd\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit; text-align: justify;\"><b><strong style=\"font-style: inherit;\">O senhor n\u00e3o tem filhos\u2026<\/strong><\/b>\u00a0N\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit; text-align: justify;\"><b><strong style=\"font-style: inherit;\">Arrepende-se?<\/strong><\/b>\u00a0[Demora 30 segundos antes de responder]. N\u00e3o, n\u00e3o me arrependo muito disso. Mas quando escrevi o romance, pensava na possibilidade de ter tido um filho. Quis imaginar o que teria acontecido se, como ocorre com o personagem, minha \u00faltima namorada tivesse tido uma menina e eu n\u00e3o tivesse sabido de nada durante anos. H\u00e1 uma possibilidade muito remota, mas existe. Escrever romances \u00e9 perseguir possibilidades. Voc\u00ea escolheu algo quando tinha, digamos, 31 anos e aquilo te trouxe at\u00e9 aqui. \u00c9 o que voc\u00ea \u00e9. Mas se tivesse seguido outro caminho, teria uma [vida] distinta. Jogar com essa probabilidade \u00e9 o jogo da fic\u00e7\u00e3o. Vejo minha literatura como a busca dessas vidas diferentes. Todos vivemos em uma esp\u00e9cie de jaula, o que significa ser s\u00f3 voc\u00ea mesmo. Como escritor de fic\u00e7\u00e3o, voc\u00ea pode sair e ser diferente. \u00c9 isso que estou fazendo na maioria das vezes.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit; text-align: justify;\"><b><strong style=\"font-style: inherit;\">Escapar?<\/strong><\/b>\u00a0Viver meus\u00a0<i><em style=\"font-weight: inherit;\">eus<\/em><\/i>\u00a0alternativos. Meu protagonista sou eu ou \u00e9 esse outro personagem, Menshiki? Poderia ter sido eu; uso minhas coisas para comp\u00f4-lo, mas \u00e9 apenas uma possibilidade de mim. O trabalho de um romancista \u00e9 sonhar acordado. \u00c9 maravilhoso; desfruto disso h\u00e1 40 anos e acho que vou poder fazer isso por mais uma d\u00e9cada. Quando n\u00e3o escrevo relatos, escrevo ensaios ou fa\u00e7o tradu\u00e7\u00f5es. De alguma forma, escrevo todos os dias. Se n\u00e3o escrevo, n\u00e3o \u00e9 um bom dia.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit; text-align: justify;\"><b><strong style=\"font-style: inherit;\">Completar 70 anos tem um sentido especial?<\/strong><\/b>\u00a0N\u00e3o sinto nada de especial, mas tamb\u00e9m n\u00e3o me arrependo. Cometi erros, como todos, mas o que aconteceu, aconteceu. A inoc\u00eancia \u00e9 inevit\u00e1vel; nisso sou uma esp\u00e9cie de fatalista. Voc\u00ea me perguntou se me arrependo de n\u00e3o ter tido filhos. Simplesmente aconteceu. N\u00e3o posso fazer nada. Aceito o que acontece. Talvez nisto eu seja diferente de outras pessoas. Vivo e escrevo meus romances a partir dessa aceita\u00e7\u00e3o. \u00c9 importante para mim.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit; text-align: justify;\"><b><strong style=\"font-style: inherit;\">Aceita tamb\u00e9m seus medos? Do que tem medo?<\/strong><\/b>Estou ficando velho. N\u00e3o sei como \u00e9 nem o que se sente porque \u00e9 minha primeira experi\u00eancia [ri]. Mas tenho curiosidade, e ela \u00e9 mais forte que o medo. Eu gostaria de ver o que vai acontecer comigo. Corri maratonas durante 36 ou 37 anos. Mas como estou envelhecendo, pioro; sou cada vez mais lento. N\u00e3o importa. Quero saber durante quanto tempo mais eu poderei correr e desfrutar. Muitos amigos pararam porque os deprime. A mim, n\u00e3o. \u00c9 a vida e quero saber como continua, o que vai acontecer comigo. Isso me entusiasma.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit; text-align: justify;\"><b><strong style=\"font-style: inherit;\">Algumas de suas fic\u00e7\u00f5es foram levadas ao cinema. O que pensa quando outros contam hist\u00f3rias que o senhor imaginou?<\/strong><\/b>\u00a0J\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o minhas e me fazem sentir inc\u00f4modo. Eu gosto do cinema, mas tento ficar \u00e0 margem do que se faz a partir de meus relatos.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit; text-align: justify;\"><b><strong style=\"font-style: inherit;\">Sobre o mais recente desses filmes,\u00a0<i><em style=\"font-weight: inherit;\">Em Chamas<\/em><\/i>, de Lee Chang-dong, disseram que transmite uma certa \u201craiva\u00a0<i><em style=\"font-weight: inherit;\">millennial<\/em><\/i>\u201d. O senhor concorda?<\/strong><\/b>\u00a0N\u00e3o vi o filme. Quando escrevi o conto [no qual se baseou o filme],\u00a0<i><em style=\"font-weight: inherit;\">Queimar Celeiros<\/em><\/i>, o que surgiu em minha cabe\u00e7a foi o t\u00edtulo. Imaginei que tipo de hist\u00f3ria podia escrever para esse t\u00edtulo que me perseguia, e apareceu um jovem com carro importado que a cada dois meses queima um celeiro alheio e conta isso para um escritor enquanto fumam um baseado. Inventei uma hist\u00f3ria capaz de preencher essa imagem. N\u00e3o me propus a interpretar raiva nem viol\u00eancia. Para mim, foram s\u00f3 palavras. \u00c9 sempre assim.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit; text-align: justify;\"><b><strong style=\"font-style: inherit;\">Esse conto faz parte de\u00a0<i><em style=\"font-weight: inherit;\">O Elefante Desaparece<\/em><\/i>, um livro pr\u00f3digo em desconcertos. O estranho fascina?<\/strong><\/b>\u00a0A vida \u00e9 misteriosa e talvez certas coisas que conto sejam estranhas para outros, mas s\u00e3o naturais para mim. Que um esp\u00edrito tome a forma da figura de um quadro ou que haja personagens cujas sombras se desdobrem s\u00e3o ideias habituais em minha vida, metaforicamente falando. Como narrador, penso no n\u00edvel da hist\u00f3ria; tudo pode acontecer. As crian\u00e7as vivem isso com mais naturalidade. Quando voc\u00ea \u00e9 crian\u00e7a e em um livro algu\u00e9m atravessa a parede, \u00e9 algo natural. Os adultos dizem: \u201c\u00c9 estranho\u201d. Sou quase um velho, mas ainda acredito que se pode atravessar a parede, e espero que o leitor tamb\u00e9m acredite.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: 500; text-align: justify;\">\u201cN\u00e3o me interessam os v\u00ednculos familiares, mas sim explorar tudo o que acontece entre um homem e uma mulher. \u00c9 uma rela\u00e7\u00e3o especial, talvez a mais importante\u201d<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit; text-align: justify;\"><b><strong style=\"font-style: inherit;\">O senhor volta ao amor e ao casamento em suas hist\u00f3rias. O que os faz inextingu\u00edveis?<\/strong><\/b>\u00a0N\u00e3o me interessam os v\u00ednculos familiares, mas sim explorar tudo o que acontece entre um homem e uma mulher. \u00c9 uma rela\u00e7\u00e3o especial, talvez a mais importante. Voc\u00ea n\u00e3o pode escolher seus pais ou seus filhos, mas pode escolher seu parceiro \u2212 e tem de ser respons\u00e1vel com essa escolha. Sou casado h\u00e1 47 anos com Yoko. Ela \u00e9, al\u00e9m disso, a primeira leitora de meus livros. Por que a escolhi? N\u00e3o sei. Penso nisso com frequ\u00eancia e ainda n\u00e3o tenho uma resposta.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit; text-align: justify;\"><b><strong style=\"font-style: inherit;\">A cultura norte-americana foi decisiva para sua gera\u00e7\u00e3o. O que acha do projeto liderado por Trump?<\/strong><\/b>\u00a0Fui adolescente nos anos sessenta. A cultura norte-americana era empolgante, selvagem: nessa d\u00e9cada aconteceu de tudo, jazz, rock, literatura, pop. Absorvi isso e sou grato. Mas a cultura dos Estados Unidos j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o estimulante. Eu me interesso por pol\u00edtica, mas escrevo fic\u00e7\u00e3o. N\u00e3o fa\u00e7o declara\u00e7\u00f5es de outro tipo.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit; text-align: justify;\"><b><strong style=\"font-style: inherit;\">Seu sucesso global o surpreende?<\/strong><\/b>\u00a0Eu gostaria que me explicassem isso! Aconteceu nos \u00faltimos 20 anos. \u00c9 gratificante, mas \u00e9 algo que aconteceu com os outros. Eu continuo igual: escrevo de manh\u00e3, quatro ou cinco horas, a mesma quantidade de p\u00e1ginas, e quando me levanto da cadeira, s\u00f3 quero saber aonde a hist\u00f3ria me levar\u00e1. Por isso, volto no dia seguinte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-271523 size-large\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/chi1-357x500.jpg\" alt=\"\" width=\"357\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/chi1-357x500.jpg 357w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/chi1-214x300.jpg 214w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/chi1-768x1076.jpg 768w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/chi1-160x224.jpg 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/chi1-640x897.jpg 640w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/chi1.jpg 1960w\" sizes=\"auto, (max-width: 357px) 100vw, 357px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Haruki Murakami.\u00a0<span style=\"font-style: inherit; font-weight: 400;\">NATHAN BAJAR<\/span><\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit; text-align: justify;\"><b><strong style=\"font-style: inherit;\">Um amigo japon\u00eas diz que em seu pa\u00eds o consideram uma \u201clenda viva\u201d. Como se sente isso?<\/strong><\/b>\u00a0[Ri] Bem, n\u00e3o sou t\u00e3o velho. Quando me transformei em escritor, durante d\u00e9cadas n\u00e3o fiz nada mais. N\u00e3o estou acostumado a aparecer em p\u00fablico. N\u00e3o dou entrevistas nem saio na televis\u00e3o ou no r\u00e1dio. S\u00f3 escrevo. Deixei meu pa\u00eds durante muitos anos; vivi nos Estados Unidos e na Europa. As pessoas quase n\u00e3o me conhecem no Jap\u00e3o. Aos 69 anos, senti que era uma boa idade para come\u00e7ar algo novo e decidi ser DJ. Suponho que tudo isso seja curioso. Enigm\u00e1tico, inclusive. Mas lend\u00e1rio parece demais para mim.<\/p>\n<p style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit; text-align: justify;\"><b><strong style=\"font-style: inherit;\">O senhor sabe que todos os anos \u00e9 cotado para o Nobel?<\/strong><\/b>\u00a0A Academia n\u00e3o publica finalistas. S\u00e3o especula\u00e7\u00f5es dos editores e n\u00e3o me interessam. Mas fiquei contente com os pr\u00eamios para Dylan e Ishiguro, porque valorizo suas obras. Escrever \u00e9 como o ar para mim. Gosto do puro prazer e da alegria de escrever. Esse \u00e9 o prop\u00f3sito da minha vida. Sou feliz com isso. O resto n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o importante.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cN\u00e3o me interessam os v\u00ednculos familiares, mas sim explorar tudo o que acontece entre um homem e uma mulher. \u00c9 uma rela\u00e7\u00e3o especial, talvez a mais importante\u201d<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":271525,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-271522","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/chi3.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/271522","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=271522"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/271522\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/271525"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=271522"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=271522"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=271522"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}