{"id":271639,"date":"2019-01-28T05:47:25","date_gmt":"2019-01-28T08:47:25","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=271639"},"modified":"2019-01-28T05:47:25","modified_gmt":"2019-01-28T08:47:25","slug":"o-estilo-muito-especial-de-fernando-pessoa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-estilo-muito-especial-de-fernando-pessoa\/","title":{"rendered":"O estilo muito especial de Fernando Pessoa\u00a0"},"content":{"rendered":"<div class=\"entry-header\">\n<h1 class=\"entry-title\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<\/div>\n<div class=\"entry-content\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Por: *<strong>Jos\u00e9 Paulo Cavalcanti Filho<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cSe, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 nada mais simples<br \/>\nTem s\u00f3 duas datas \u2013 a da minha nascen\u00e7a e a da minha morte<br \/>\nEntre uma e outra coisa todos os dias s\u00e3o meus.\u201d<\/p>\n<figure id=\"attachment_271640\" aria-describedby=\"caption-attachment-271640\" style=\"width: 620px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-271640 size-large\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/fernando-pessoa-620x465.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"465\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/fernando-pessoa-620x465.jpg 620w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/fernando-pessoa-300x225.jpg 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/fernando-pessoa-80x60.jpg 80w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/fernando-pessoa-118x88.jpg 118w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/fernando-pessoa-160x120.jpg 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/fernando-pessoa-640x480.jpg 640w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/fernando-pessoa.jpg 700w\" sizes=\"auto, (max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-271640\" class=\"wp-caption-text\">Fernando Pessoa<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Poemas inconjuntos,\u00a0<\/em>Alberto Caeiro<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escrever biografias \u00e9, de alguma forma, viver a vida que se quer contar. Diferente dos versos de Caeiro, descrever, ou adivinhar, o que se passa entre as datas de\u00a0<em>nascen\u00e7a<\/em>\u00a0e\u00a0<em>morte<\/em>\u00a0das pessoas. Nesta s\u00e9rie de textos do Jornal de Letras, sobre o tema, v\u00eania para enfrentar uma quest\u00e3o concreta. \u00c9 que, ao escrever a biografia de Fernando Pessoa, percebi haver muitas passagens de sua vida que n\u00e3o estavam claras. S\u00f3 que, no caso, tudo restou facilitado pelo fato de que, mais que qualquer outro escritor nesse vasto mundo, ele apenas escrevia sobre ele mesmo e sua circunst\u00e2ncia. Isso percebi, em um momento m\u00e1gico, depois de caminhar juntos por anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tanto que ao ler seus pap\u00e9is, depois, era f\u00e1cil saber (quase) sempre quando foi escrito, para quem, por qu\u00ea. E, ao fazer essa\u00a0<em>leitura\u00a0<\/em>do que escreveu<em>,\u00a0<\/em>poder completar sua biografia. Aproveito para ilustrar o que digo a partir de\u00a0<em>Tabacaria.\u00a0<\/em>Cinco personagens s\u00e3o referidos nesse poema. Al\u00e9m de Pessoa, que tem sua pr\u00f3pria vida marcada em quase todos os versos \u2013 o gosto pela bebida, o medo de enlouquecer, cigarro, sonhos, ang\u00fastias, esperan\u00e7as v\u00e3s, ilus\u00f5es perdidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro dos cinco personagens est\u00e1 nesses versos, entre par\u00eanteses:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c(Come chocolates, pequena;<br \/>\nCome chocolates!<br \/>\nOlha que n\u00e3o h\u00e1 mais metaf\u00edsica no mundo sen\u00e3o chocolates\u2026)\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O leitor desatento, aqui, poderia ser enganado. Tida ent\u00e3o, essa\u00a0<em>pequena<\/em>\u00a0que comia chocolates, como uma especula\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica sobre o sem sentido da vida. Mas se trata de\u00a0sua sobrinha Manuela Nogueira. Como ela pr\u00f3pria me confessou,\u00a0<em>a leiteria onde comprava chocolates com moedas dadas pelo tio Fernando era aproximadamente dois pr\u00e9dios a seguir ao n\u00ba 16 da Rua Coelho da Rocha, talvez n\u00ba 10 ou 12. O propriet\u00e1rio era o senhor Trindade, de que me lembro como se fosse hoje.\u00a0<\/em>O endere\u00e7o era Rua Coelho da Rocha 2\/4, esquina com Rua Silva Carvalho 13\/15, a cerca de 50 metros do edif\u00edcio de Pessoa. J\u00falio Trindade n\u00e3o era propriet\u00e1rio, mas simples empregado. E o estabelecimento n\u00e3o era\u00a0<em>A Morgadinha,<\/em>\u00a0como \u00e9 comum se dizer em Portugal. Por ter sido criada s\u00f3 em 01\/01\/1938. Quando Pessoa estava j\u00e1 morto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seguem-se dois personagens, novamente entre par\u00eanteses:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira<br \/>\nTalvez fosse feliz)\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para muitos, essa\u00a0<em>filha da lavadeira<\/em>\u00a0poderia ser uma met\u00e1fora. Significando o desejo, do poeta, em ter uma vida mais simples. Em que pudesse vir a ser feliz. Mas n\u00e3o \u00e9 assim. Sempre houve interesse em saber se Pessoa teve alguma namorada, al\u00e9m de seu implaus\u00edvel\u00a0<em>amor<\/em>\u00a0Oph\u00e9lia Queiroz. Um companheiro de tert\u00falias, Peixoto Bourbon, chegou a insinuar que teria tido amante no prost\u00edbulo de madame Carri\u00e7o, na Rua do Ferragial de Baixo \u2013 j\u00e1 na descida para o Cais do Sodr\u00e9. Para proteger das maledic\u00eancias, na sociedade conservadora daquele tempo, um amigo que deu seu primeiro beijo s\u00f3 com 32 anos. Em\u00a0<em>A educa\u00e7\u00e3o do est\u00f3ico,\u00a0<\/em>escrito no mesmo ano de<em>\u00a0Tabacaria<\/em>\u00a0(1928),<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pessoa confessa: \u201cTive um dia a ocasi\u00e3o de casar, porventura ser feliz, com uma rapariga muito simples, mas entre mim e ela ergueram-se-me na indecis\u00e3o da alma quatorze gera\u00e7\u00f5es de bar\u00f5es\u201d. Explicando-se, essa refer\u00eancia \u00e0 nobreza, pelo fato de ser o texto assinado pelo heter\u00f4nimo Bar\u00e3o de Teive. A confiss\u00e3o se completa indicando que \u201cdata dessa hora suave e triste o princ\u00edpio do meu suic\u00eddio\u201d. Duas refer\u00eancias no mesmo sentido. Antes, em 1916, os esp\u00edritos dos heter\u00f4nimos More e Wardour haviam j\u00e1 sugerido que a mulher por quem se apaixonaria seria uma governanta \u2013 descri\u00e7\u00e3o muito mais pr\u00f3xima de uma filha da lavadeira que de Oph\u00e9lia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A lavadeira de agora, nos versos de\u00a0<em>Tabacaria,\u00a0<\/em>se chamava Irene. E, sua filha, Guiomar. Para confirmar os versos, bom lembrar o poeta e amigo Thomas d\u2019Almeida. Quando pede, a Pessoa, que registre sua filha \u2014 indicando, como nome que deveria ter,\u00a0<em>M\u00facia Leonor<\/em>. Sendo o registro feito, por Pessoa, com o nome de\u00a0<em>M\u00facia Guiomar d\u2019Almeida<\/em>. Mesmo nome daquela tardia Guiomar que quase mudara sua vida. Sem mais registros do fato. Nem no seu\u00a0<em>di\u00e1rio<\/em>, nem em algum papel perdido na Arca. Houve mesmo esse amor?, no cora\u00e7\u00e3o de Pessoa. Para quem andou sempre ao lado dele, e o conhecendo bem, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida. Pessoa pensou mesmo em casar com Guiomar, filha de sua lavadeira, entre as duas fases da rela\u00e7\u00e3o com Oph\u00e9lia. Teriam sido felizes? N\u00e3o sei. Mas quem \u00e9 que pode saber?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os dois derradeiros personagens est\u00e3o nesses versos:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das cal\u00e7as?).<br \/>\nAh, conhe\u00e7o-o; \u00e9 o Est\u00eaves sem metaf\u00edsica.<br \/>\n(O Dono da Tabacaria chegou \u00e0 Porta)<br \/>\nComo por um instinto divino o Est\u00eaves voltou-se e viu-me.<br \/>\nAcenou-me adeus, gritei-lhe Adeus \u00f3 Est\u00eaves!\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Est\u00eaves, no caso, seria s\u00f3 um apelido aleat\u00f3rio. Isso, fosse Pessoa um escritor como os outros. S\u00f3 que n\u00e3o \u00e9. Longe disso. Por partes. A tabacaria da\u00a0<em>Tabacaria<\/em>\u00a0era a\u00a0<em>Havaneza dos Retrozeiros<\/em>, que ficava bem em frente \u00e0\u00a0<em>Casa Moitinho\u00a0<\/em>\u2013 na esquina da ent\u00e3o Rua dos Retrozeiros (hoje da Concei\u00e7\u00e3o) 63\/65 com a hoje Rua da Prata (ent\u00e3o Bela da Rainha). Longe das \u201cjanelas do meu quarto\u201d, que nem janelas tinham. E esse Est\u00eaves n\u00e3o \u00e9 citado em nenhum outro escrito. \u00danica refer\u00eancia poss\u00edvel est\u00e1 no fragmento 481 do\u00a0<em>Desassossego,<\/em>\u00a0que fala num encontro de \u201cvelhote redondo e corado, de charuto, \u00e0 porta da Tabacaria\u201d. Completando, como Soares, \u201co que \u00e9 feito de todos eles que, porque os vi e os tornei a ver, foram parte de minha vida?\u201d Talvez fosse ele. A hip\u00f3tese n\u00e3o \u00e9 desarrazoada; que nesse fragmento, logo ap\u00f3s referir dito \u201cvelhote\u201d, imediatamente lembra \u201co dono p\u00e1lido da Tabacaria\u201d. Esse\u00a0<em>dono p\u00e1lido<\/em>\u00a0era Manuel Alves Rodrigues. Morto pouco depois, era mesmo previs\u00edvel. Tanto que, em\u00a0<em>Cruz na porta da Tabacaria\u00a0<\/em>(de 1930)<em>,\u00a0<\/em>Pessoa pergunta: \u201cQuem morreu, o pr\u00f3prio Alves?\u201d. Dois personagens que est\u00e3o coincidentemente juntos, em duas linhas seguidas, no\u00a0<em>Desassossego\u00a0<\/em>e no poema \u2013 \u201co dono da Tabacaria\u201d e \u201co Est\u00eaves sem metaf\u00edsica\u201d. No caso, trata-se de Joaquim Est\u00eaves, vizinho que frequentava a casa da fam\u00edlia na Rua Coelho da Rocha \u2013 e que morava bem pr\u00f3ximo, na Rua Saraiva de Carvalho 200. Um an\u00f4nimo desses tantos que passam pela vida e n\u00e3o deixam maiores registros. \u201cSem metaf\u00edsica\u201d, dizem os versos. Mas t\u00e3o \u00edntimo da fam\u00edlia que, a seu pedido, foi declarante do Assento de \u00d3bito do pr\u00f3prio Pessoa \u2013 n\u00famero 1.609, hoje na 7\u00aa Conservat\u00f3ria do Registro Civil de Lisboa. E que acabou eternizado pelo amigo poeta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Claro que Pessoa fez essas especula\u00e7\u00f5es todas, aqui sugeridas. S\u00f3 que a partir de pessoas e fatos que estavam em sua volta. Por isso \u00e9 que sua arte foi especial. E ele foi t\u00e3o superior, como escritor. Viva Pessoa. Gra\u00e7as \u00e0s biografias, podemos ent\u00e3o ressuscitar fantasmas do passado. Para que deem brilho renovado \u00e0 l\u00edngua em que escreveram. E voltem a conviver, por um momento breve, com seu povo. At\u00e9 porque, assim escreveu em uma\u00a0<em>Ode<\/em>\u00a0de Reis (30\/7\/1914), \u201cAcima dos Deuses o Destino\/ \u00c9 calmo e inexor\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*<strong>Jos\u00e9 Paulo Cavalcanti Filho<\/strong>\u00a0\u00e9 advogado.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cSe, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 nada mais simples<br \/>\nTem s\u00f3 duas datas \u2013 a da minha nascen\u00e7a e a da minha morte<br \/>\nEntre uma e outra coisa todos os dias s\u00e3o meus.\u201d<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":271640,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-271639","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/fernando-pessoa.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/271639","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=271639"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/271639\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/271640"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=271639"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=271639"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=271639"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}