{"id":27196,"date":"2013-11-06T14:00:30","date_gmt":"2013-11-06T17:00:30","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=27196"},"modified":"2013-11-06T08:49:53","modified_gmt":"2013-11-06T11:49:53","slug":"polansky-e-a-menina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/polansky-e-a-menina\/","title":{"rendered":"Polansky e a menina"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"ImageProxy (14)\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/ImageProxy-14-300x225.jpg\" width=\"300\" height=\"225\" \/><\/p>\n<div>\n<div id=\"ecxcontent\">\n<div id=\"ecxcontent-core\">\n<div>\n<p align=\"LEFT\">Resenha de The Girl: a life in the shadow of Roman Polanski, de Samantha Geimer. Atria Books, New York, 201. Lan\u00e7ado no Brasil como A Menina &#8211; uma vida \u00e0 sombra de Roman Polanski<br \/>\n\u2013\u00a0Somos todos f\u00e3s de Roman Polanski (O beb\u00ea de Rosemary, Chinatown, O pianista), nos deu muita felicidade com os seus filmes. Como conciliar esta simpatia com a vis\u00e3o de um quarent\u00e3o que estuprou uma garota de 13 anos? Claro, porque todos tamb\u00e9m lembram de Polanski por este lado mais escuro, em particular porque tivemos algumas d\u00e9cadas de notici\u00e1rio internacional e nacional, em todas as m\u00eddias, sobre o \u201ccaso\u201d. Com que gosto a m\u00eddia internacional e o sistema judici\u00e1rio americano ficaram se lambuzando, d\u00e9cadas a fio, neste assunto predileto de uma boa parte da humanidade, que \u00e9 de saber quem faz o que com os buraquinhos de quem. Quando se junta fama, ent\u00e3o, ningu\u00e9m resiste. Penetrar na intimidade dos famosos vende bem.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">Quase quarenta anos depois dos fatos, Samantha Geimer, a garotinha, decidiu escrever um livro n\u00e3o para pegar carona na fama que lhe granjeou o caso, mas para denunciar a imensa ind\u00fastria da not\u00edcia, a perversa articula\u00e7\u00e3o da pompa do Judici\u00e1rio com a m\u00eddia indignada, num quadro ideal e lucrativo: poder falar de detalhes sexuais com o peito estufado de \u00e9tica ofendida.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">Coment\u00e1rios sobre o livro s\u00e3o numerosos, tenta-se extrair ainda algumas gotas do assunto. Alguns ainda declaram de forma espalhafatosa que ela \u201cperdoa\u201d o estupro, buscando gerar not\u00edcia. Mas o que temos aqui \u00e9 diferente. Samantha calou-se durante quarenta anos, tentando se esconder da m\u00f3rbida curiosidade mundial sobre como foi sentir a penetra\u00e7\u00e3o anal de um p\u00eanis t\u00e3o famoso. Hoje, casada, com filhos, cinquentona, relata o drama de uma pessoa marcada aos 13 anos para sempre por este fato.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">Ao constatar o teatro jur\u00eddico em que se transformou o seu processo, por \u201csexo n\u00e3o-consensual\u201d, j\u00e1 que n\u00e3o houve viol\u00eancia, e frente a um juiz que n\u00e3o hesitava em consultar amigos jornalistas para saber como achavam que a opini\u00e3o p\u00fablica receberia uma pena mais pesada ou mais leve que ele impusesse ao r\u00e9u, Polanski fugiu dos Estados Unidos e se refugiou na Fran\u00e7a. Com isto, o processo continuou \u00e0 revelia, com pedidos de extradi\u00e7\u00e3o, uma deten\u00e7\u00e3o para averigua\u00e7\u00f5es na Su\u00ed\u00e7a, e a cada pequeno fato jur\u00eddico manchetes mundiais indignadas sobre o cineasta famoso, contra ou a favor, mas sempre manchetes.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">E a cada manchete, voltavam os jornalistas a vigiar a casa da Samantha, telefonar centenas de vezes inclusive para o seu emprego, colocando-o em cheque. Nem os filhos escaparam, emboscados em sa\u00eddas da escola ou da pr\u00f3pria casa. Na rua frente \u00e0 resid\u00eancia, vans estacionadas com vidros pintados, com filmadoras em perman\u00eancia focadas nas janelas, na porta de entrada. Na aus\u00eancia de noticias, inventaram-se entrevistas, declara\u00e7\u00f5es, tudo para alimentar a novela. Nunca a deixaram ter uma vida familiar e profissional tranquila. Samantha n\u00e3o poupa cr\u00edticas. Ela era v\u00edtima, crian\u00e7a, tinha de ter a sua identidade protegida, ter direito a uma vida que lhe permitisse se reequilibrar, voltar \u00e0 normalidade, sem tanta persegui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">Do lado do Judici\u00e1rio, o comportamento n\u00e3o foi melhor. Na noite do estupro, Samantha contou para um ex-namorado, a irm\u00e3 ouviu a conversa, contou para os pais, que chamaram um advogado, que chamou a pol\u00edcia, originando-se uma den\u00fancia formal, o que levaria a garota, que queria esquecer o assunto, a ser obrigada a repetir para dezenas de autoridades judiciais os detalhes do caso, se ele a for\u00e7ou, como foi o di\u00e1logo, o que bebeu e assim por diante. E naturalmente as penetra\u00e7\u00f5es anais com instrumentos para coleta de material, para verificar a exist\u00eancia de esperma. E n\u00e3o tardaria, naturalmente, o vazamento \u00e0 imprensa do que tinham sido deposi\u00e7\u00f5es cobertas pelo sigilo judicial. Verdade que o juiz encarregado do caso, e que fez a sua fama nas costas dela e de Polanski, terminou completamente desqualificado. Hoje falecido, sobrou-lhe a fama e imagem de falso moralismo e de p\u00e9ssimo juiz.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">No livro, em nenhum momento a autora perdoa o fato Polanski ter se aproveitado, e deixa isto bem claro em v\u00e1rias passagens. Foi estupro, ponto. Como escreve, \u201co perd\u00e3o foi para a minha paz de esp\u00edrito; tinha pouco a ver com ele\u201d. (p.228) Mas o eixo central que ela deixa claro em toda extens\u00e3o do livro, \u00e9 que o aproveitamento do caso pela m\u00eddia e pelo Judici\u00e1rio gerou sofrimento para ela sem comum medida com o que tinha sofrido com o estupro. E mostra e afirma igualmente que o sofrimento, ex\u00edlio, pris\u00f5es e persegui\u00e7\u00f5es que Polanski sofreu tamb\u00e9m foram sem comum medida com o que ele fez. Samantha escreve com raiva sobre famosos comentaristas de TV, em programas de grande audi\u00eancia, apelando para que o p\u00fablico se solidarize com a \u201cpobre menina\u201d. Mais lucro e pontos de audi\u00eancia em nome da \u00e9tica.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">A m\u00e1quina \u00e9 infernal. Os advogados de defesa do Polanski foram naturalmente levados a destruir a imagem de menina abusada por um adulto, jogando aos quatro ventos uma rela\u00e7\u00e3o sexual que tinha tido com o namorado, como prova de que n\u00e3o era inocente. E constru\u00edram uma imagem da m\u00e3e, como piranha que ofereceu a filha para ganhar espa\u00e7o na ind\u00fastria do cinema em Hollywood. Os advogados de acusa\u00e7\u00e3o buscaram naturalmente fazer o semelhante com Polanski. A opini\u00e3o p\u00fablica se dividiu entre os que se solidarizaram com Polanski contra a garotinha perversa e a m\u00e3e piranha, ou os que navegaram na defesa da pobre menina inocente e da m\u00e3e enganada.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">O interessante mesmo, \u00e9 que ningu\u00e9m deu a m\u00ednima para a preserva\u00e7\u00e3o da intimidade e da vida da v\u00edtima, nem para uma justi\u00e7a discreta e eficiente que punisse o que foi um crime. O casamento da grande m\u00eddia comercial com um sistema judici\u00e1rio perverso, no caso, moeu a vida de duas pessoas que mereciam melhor. Nada melhor que a palavra da pr\u00f3pria Samantha: \u201cA raz\u00e3o de ser da justi\u00e7a n\u00e3o \u00e9 o entretenimento ou enriquecimento de funcion\u00e1rios p\u00fablicos, comentaristas e corpora\u00e7\u00f5es da m\u00eddia. Eu n\u00e3o acredito que a puni\u00e7\u00e3o e o espet\u00e1culo possam substituir a justi\u00e7a.\u201d(P.242)<\/p>\n<p align=\"LEFT\">&#8211;<\/p>\n<p align=\"LEFT\">Ladislau Dowbor\u00a0\u00e9 professor de economia nas p\u00f3s-gradua\u00e7\u00f5es em economia e em administra\u00e7\u00e3o da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo (PUC-SP), e consultor de v\u00e1rias ag\u00eancias das Na\u00e7\u00f5es Unidas. Seus artigos est\u00e3o dispon\u00edveis online em http:\/\/dowbor.org<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<div id=\"ecxviewlet-below-content-body\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Resenha de The Girl: a life in the shadow of Roman Polanski, de Samantha Geimer. Atria Books, New York, 201. 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