{"id":27250,"date":"2013-11-06T10:51:48","date_gmt":"2013-11-06T13:51:48","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=27250"},"modified":"2013-11-06T10:51:48","modified_gmt":"2013-11-06T13:51:48","slug":"habegger-e-barbosa-desconstruir-a-operacao-condor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/habegger-e-barbosa-desconstruir-a-operacao-condor\/","title":{"rendered":"Habegger e Barbosa: Desconstruir a Opera\u00e7\u00e3o Condor"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-27251\" alt=\"ImageProxy (17)\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/ImageProxy-17.jpg\" width=\"212\" height=\"300\" \/><\/p>\n<p id=\"ecxtexto_detalhe\">A \u00faltima fase da Opera\u00e7\u00e3o Condor aconteceu quando as ditaduras come\u00e7aram a retroceder e, em sua retirada, colocaram armadilhas para quem pretendesse conhecer a verdade. Para garantir o esquecimento foram ocultados arquivos, se estabeleceram pactos de sil\u00eancio, foram sancionadas leis de impunidade (Anistia de 1979) e at\u00e9 foram eliminados arquivos vivos como o assassinato, em 1992, do cientista chileno Eugenio Berrios, que desenvolveu o g\u00e1s Sarin para Pinochet, ou a suspeita morte do delegado Sergio Paranhos Fleury, em 1979.<\/p>\n<p>A Comiss\u00e3o da Verdade foi criada em 2011 pela presidenta Dilma Rousseff com o prop\u00f3sito de reconstruir, pena por pena, a Opera\u00e7\u00e3o Condor, o que poderia derivar no esclarecimento da morte do ex-presidente Jo\u00e3o Goulart, encurralado por seus perseguidores brasileiros, argentinos e uruguaios.<\/p>\n<p>Esta semana, no Rio de Janeiro, um importante passo foi dado no sentido de montar as partes da trama da Opera\u00e7\u00e3o Condor, com o in\u00edcio da investiga\u00e7\u00e3o da Opera\u00e7\u00e3o Morcego, atrav\u00e9s da qual foram eliminados os guerrilheiros argentinos que desembarcavam no Rio de Janeiro para depois continuarem viagem a Buenos Aires, onde planejavam executar a &#8220;contraofensiva&#8221; para acabar com a ditadura. Uma das primeiras v\u00edtimas da Condor-Morcego foi o combatente Ernesto Habegger, sequestrado e desaparecido entre julho e agosto de 1978 por um grupo de tarefas brasileiro-argentino no Aeroporto do Gale\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 muitos anos eu n\u00e3o visitava o aeroporto do Rio, onde sequestraram meu pai\u2026 trinta e tantos anos. Em 1978,\u00a0eu estava no M\u00e9xico quando ele viajou ao Brasil. Por alguma raz\u00e3o teve que passar tanto tempo para que finalmente eu me decidisse ver o lugar onde meu pai caiu em m\u00e3os de repressores argentinos e possivelmente brasileiros. Ver este lugar foi forte. Minha m\u00e3e ainda n\u00e3o veio. Talvez algum dia venha, agora que as coisas come\u00e7am a funcionar. Sinto que o Brasil est\u00e1 se mexendo&#8221; declarou Andr\u00e9s Habegger entrevistado por<b>Carta Maior<\/b>.<\/p>\n<p>A luta para dar com o paradeiro de Norberto Habegger foi iniciada em 1978, por sua esposa Florinda, tamb\u00e9m ex-presa pol\u00edtica que, do M\u00e9xico, enviou correspond\u00eancias desesperadas \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es jornal\u00edsticas e \u00e0s autoridades de fato, das quais recebeu respostas evasivas ou c\u00ednicas. Como a que escreveu um funcion\u00e1rio chamado Euclides Pereira de Mendon\u00e7a numa linguagem ir\u00f4nica, afirmando que, dado que o senhor Habegger costumava utilizar documentos falsos, \u00e9 dif\u00edcil determinar onde se encontrava (<a title=\"ver documento aqui\" href=\"http:\/\/www.cartamaior.com\/_cmimagens\/20131104\/01.pdf\" target=\"_blank\">ver documento aqui<\/a>).<\/p>\n<p>Na quarta-feira passada,\u00a0Andr\u00e9s Habegger prestou testemunho sobre o acontecido com seu pai diante da Comiss\u00e3o da Verdade do Rio de Janeiro, a cidade onde se estabeleceu um dos enclaves do Batalh\u00e3o 601 de Intelig\u00eancia do Ex\u00e9rcito Argentino, com conhecimento e colabora\u00e7\u00e3o, \u00e9 claro, de seus pares brasileiros.<\/p>\n<p>&#8220;Me parece \u00f3bvio que este sequestro de Norberto Habberger n\u00e3o se deu s\u00f3 com a participa\u00e7\u00e3o de militares argentinos, tamb\u00e9m teve brasileiros, queremos saber quem foi&#8221; declarou o respons\u00e1vel pela Comiss\u00e3o da Verdade carioca Wadih Damous.<\/p>\n<p>&#8220;Vamos realizar um requerimento para que o juiz que est\u00e1 a cargo do processo (Opera\u00e7\u00e3o Condor) na Argentina inclua uma linha de investiga\u00e7\u00e3o que considere todas as circunst\u00e2ncias que rodearam a desapari\u00e7\u00e3o do jornalista Habegger&#8221;.<\/p>\n<p>O racioc\u00ednio de Wadih Damous, tamb\u00e9m secret\u00e1rio de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil, poderia ser resumido nesta f\u00f3rmula: \u00e9 determinante somar as investiga\u00e7\u00f5es em curso no Rio e no Primeiro Tribunal Federal de Buenos Aires para tirar da sombra o cap\u00edtulo carioca da Opera\u00e7\u00e3o Condor,\u00a0amparado na impunidade que lhe conceda lei de (auto)anistia, promulgada por\u00a0decreto militar de 1979, que pro\u00edbe a Justi\u00e7a de abrir processos contra os agentes da ditadura.<\/p>\n<p>&#8220;Acho que o processo na Argentina, de alguma maneira, vai repercutir aqui. \u00c9 um espelho muito forte. Eu estive este ano na primeira audi\u00eancia do tribunal na causa da Opera\u00e7\u00e3o Condor, quando nomearam os vinte e tantos acusados e, realmente, v\u00ea-los l\u00e1 foi algo muito forte. \u00c9 um avan\u00e7o que tem que ter seguimento aqui porque eram parte do mesmo&#8221; diz Andr\u00e9s Habegger.<\/p>\n<p>&#8220;Se derrubassem a lei de Anistia n\u00f3s, como familiares de Norberto Habegger, estar\u00edamos dispostos a ser parte em um processo aqui no Brasil&#8221;.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o desembarque de Andr\u00e9s no Aeroporto do Gale\u00e3o, \u00e9 esperada a chegada, nos pr\u00f3ximos dias, de Pilar Calveiro, ex-prisioneira na ESMA (centro de deten\u00e7\u00e3o clandestino da Marinha em Buenos Aires) e vi\u00fava do combatente Horacio Domingo Campiglia, capturado nessa mesma base a\u00e9rea em mar\u00e7o de 1980.<\/p>\n<p>As engrenagens com as quais operava a Opera\u00e7\u00e3o Condor brasileira s\u00e3o as\u00a0menos conhecidas na regi\u00e3o, uma circunst\u00e2ncia na qual se apoiam as empresas jornal\u00edsticas, benditas e enriquecidas nos 21 anos de\u00a0ditadura, veja-se a Globo, para sustentar que o regime se envolveu pouco com a parte subversiva sul-americana. Uma tese facilmente contest\u00e1vel.<\/p>\n<p>A trama argentino-brasileira em torno da Opera\u00e7\u00e3o Morcego, subproduto da Condor, por si s\u00f3 sustenta\u00a0que a articula\u00e7\u00e3o na qual participavam os generais brasileiros &#8220;n\u00e3o era algo circunstancial, nem era menor. Porque para que se autorize a aterrissagem de um avi\u00e3o militar, como o que teria levado meu pai \u00e0 Argentina, em um aeroporto internacional, \u00e9 porque houve uma autoriza\u00e7\u00e3o oficial que vem de um n\u00edvel alto do Estado&#8221;, raciocina Andr\u00e9s.<\/p>\n<p>E, apesar de que a opera\u00e7\u00e3o Condor foi concebida por agentes de v\u00e1rios pa\u00edses em novembro de 1975, em Santiago do Chile, pelo coronel pinochetista Manuel Contreras, o Brasil j\u00e1 contava com sua pr\u00f3pria multinacional terrorista pelo menos desde 1970. Ou seja, os ditadores Emilio Garrastazu M\u00e9dici (1969-1974) e Ernesto Geisel (1974-1979), haviam constru\u00eddo uma m\u00e1quina sem fronteiras de sequestrar e matar antes que seus s\u00f3cios Videla, Pinochet e Bordaberry.<\/p>\n<p>Um exemplo: em dezembro de 1970, o acionar coordenado de repressores e diplomatas brasileiros apoiou o sequestro, em Buenos Aires, por parte de policiais locais, do coronel dissidente Jefferson Cardim Osorio, que dias depois seria deportado clandestinamente ao Brasil com o consentimento do embaixador Francisco Azeredo da Silveira, o preferido de Henry Kissinger.<\/p>\n<p>Mais detalhes: o coronel democr\u00e1tico Cardim Osorio foi enviado, em avi\u00e3o da Aeron\u00e1utica Brasileira, de Buenos Aires\u00a0ao Aeroporto do Gale\u00e3o, onde ficou detido, como outros militantes brasileiros pr\u00f3fugos<\/p>\n<p>Isto indica que a esta\u00e7\u00e3o do Rio, onde caiu Habegger em 1978, funcionou como centro clandestino desde\u00a01970 at\u00e9 mar\u00e7o de 1980, quando ali raptaram Campiglia.<\/p>\n<p><b>Fala o Ministro Joaquim Barbosa<\/b><\/p>\n<p>&#8220;Considero que em algum momento, com a chegada de novos ministros ao Supremo Tribunal, ir\u00e1 mudando a posi\u00e7\u00e3o atual, que \u00e9 favor\u00e1vel \u00e0\u00a0Anistia\u201d, declarou o juiz presidente do STF, Joaquim Barbosa.<\/p>\n<p>Falou durante uma conversa informal com este rep\u00f3rter, em seu gabinete, depois de oferecer uma entrevista coletiva a uma dezena de correspondentes estrangeiros.<\/p>\n<p>&#8220;Ministro, posso citar seu coment\u00e1rio?&#8221;, perguntei. &#8220;Cite e ponha que me inclino a favor dos julgamentos&#8221; respondeu.<\/p>\n<p>Outro ponto tratado naquele breve di\u00e1logo de 28 de fevereiro foi a desvantagem do Brasil frente a outros pa\u00edses que participaram na opera\u00e7\u00e3o Condor. Na Argentina, por exemplo, v\u00e1rios repressores foram\u00a0condenados.<\/p>\n<p>&#8220;Aqui \u00e9 diferente da Argentina, inclusive do Chile. N\u00f3s estamos em d\u00edvida com o que acontece em toda a regi\u00e3o&#8221;, ponderou o titular do Supremo conversando de p\u00e9, junto a uma janela da qual se divisa, h\u00e1 300 metros, o Pal\u00e1cio do Planalto.<\/p>\n<p>Em 2010, o Supremo brasileiro desafiou a Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) ao declarar a constitucionalidade da (auto)anistia militar. &#8220;Eu n\u00e3o tive a mesma opini\u00e3o que a maioria sobre a decis\u00e3o da CIDH, minha posi\u00e7\u00e3o era minorit\u00e1ria em 2010&#8221;, lembrou Barbosa.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o se aposentaram v\u00e1rios magistrados conservadores, sens\u00edveis ao lobby militar, e foram substitu\u00eddos por ju\u00edzes progressistas como o constitucionalista Roberto Barroso, cuja nomea\u00e7\u00e3o foi avalizada este ano por Dilma Rousseff.<\/p>\n<p>Apesar de que sobrevivem em seu seio algumas m\u00famias, o Supremo renovou praticamente a metade de seus quadros nos \u00faltimos anos, tornando-se mais perme\u00e1vel ao argumento da CIDH sobre a abertura de processos.<\/p>\n<p>Na semana passada,\u00a0depois de quase tr\u00eas anos de rela\u00e7\u00f5es distantes entre o STF e a CIDH, o juiz Barbosa recebeu o titular do organismo hemisf\u00e9rico, Diego Garc\u00eda Say\u00e1n, que manifestou sua esperan\u00e7a de que, mais cedo ou mais tarde, o terrorismo de Estado ser\u00e1 objeto de revis\u00e3o judicial. &#8220;Cada pa\u00eds tem seu tempo para punir seus agentes\u2026 no Brasil h\u00e1 um caminho aberto&#8221; comentou, medindo cada palavra, o peruano Garc\u00eda Say\u00e1n.<\/p>\n<p>A\u00a0(auto)anistia promulgada pelo ditador Jo\u00e3o Baptista Figueiredo, chefe dos servi\u00e7os de intelig\u00eancia e suposto homem do Brasil na Opera\u00e7\u00e3o Condor, conspira ao mesmo tempo contra o esclarecimento da repress\u00e3o interna e as a\u00e7\u00f5es coordenadas com a Argentina, como a Opera\u00e7\u00e3o Morcego, na qual ca\u00edram v\u00e1rios quadros montoneros, o primeiro deles Ernesto Habegger.<\/p>\n<p id=\"ecxtexto_detalhe\">Carta Maior<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00faltima fase da Opera\u00e7\u00e3o Condor aconteceu quando as ditaduras come\u00e7aram a retroceder e, em sua retirada, colocaram armadilhas para quem pretendesse conhecer a verdade. 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