{"id":275273,"date":"2019-02-28T16:29:59","date_gmt":"2019-02-28T19:29:59","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=275273"},"modified":"2019-02-28T16:29:59","modified_gmt":"2019-02-28T19:29:59","slug":"o-silencio-dos-outros-na-zona-zero-onde-a-ditadura-espanhola-enterrava-seus-mortos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-silencio-dos-outros-na-zona-zero-onde-a-ditadura-espanhola-enterrava-seus-mortos\/","title":{"rendered":"\u2018O Sil\u00eancio dos Outros\u2019: na zona zero onde a ditadura espanhola enterrava seus mortos"},"content":{"rendered":"<div class=\"articulo__apertura\">\n<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div class=\"articulo-encabezado-texto\">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\">Diretores do document\u00e1rio que estreia nesta semana no Brasil visitam o Vale dos Ca\u00eddos, s\u00edmbolo do regime de Franco, junto a v\u00edtimas da ditadura<\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"firma \">\n<div class=\"autor\">\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Gregorio Belinch\u00f3n\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/gregorio_belinchon\/a\/\">GREGORIO BELINCH\u00d3N<\/a><\/span><\/p>\n<div class=\"autor-perfiles\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"articulo-datos\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<figure class=\"foto centro foto_w980\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2019\/01\/27\/actualidad\/1548596180_844829_1548597172_noticia_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2019\/01\/27\/actualidad\/1548596180_844829_1548597172_noticia_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2019\/01\/27\/actualidad\/1548596180_844829_1548597172_noticia_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2019\/01\/27\/actualidad\/1548596180_844829_1548597172_noticia_normal.jpg 980w\" alt=\"O sil\u00eancio dos outros document\u00e1rio\" width=\"980\" height=\"654\" \/><\/p>\n<div class=\"seedtag-gohan seedtag-adunit st-in-image\">\n<div class=\"st-container\"><\/div>\n<\/div><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Os diretores do document\u00e1rio &#8216;O Sil\u00eancio dos Outros&#8217;, Robert Bahar e Almudena Carracedo, nas pontas, e Mar\u00eda \u00c1ngeles Mart\u00edn e Jos\u00e9 Mar\u00eda Galante &#8216;Chato&#8217;, v\u00edtimas de crimes do franquismo, no Vale dos Ca\u00eddos.<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">ANDREA COMAS<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Na manh\u00e3 do dia 24 de janeiro, Madri acordou tomada pelo vento. E ainda mais na serra. E muito mais na esplanada de acesso \u00e0 bas\u00edlica do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/valle_caidos\">Vale dos Ca\u00eddos<\/a>, onde repousam os restos de 34.000 pessoas. Entre uma rajada e outra, nos instantes de sil\u00eancio se escutavam os corvos grasnando. O frio, agu\u00e7ado pela atmosfera t\u00e9trica da arquitetura de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/francisco_franco\">Franco<\/a>, congela os ossos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;\u00c9 que o lugar traz isso&#8221;, diz a cineasta Almudena Carracedo com um meio sorriso. Ela e Robert Bahar s\u00e3o respons\u00e1veis por\u00a0<em>O Sil\u00eancio dos Outros<\/em>\u00a0(<em>El Silencio de Otros)<\/em>, document\u00e1rio que estreia nesta semana nos cinemas no Brasil, e que, desde o seu lan\u00e7amento h\u00e1 um ano na\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/festival_berlin\">Berlinale<\/a>\u00a0(onde ganhou o pr\u00eamio do p\u00fablico de melhor document\u00e1rio da se\u00e7\u00e3o Panorama), tem causado pol\u00eamica e aberto o debate sobre o tratamento que a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/espana\">Espanha<\/a>\u00a0d\u00e1 \u00e0s v\u00edtimas dos crimes da ditadura de Franco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bahar e Carracedo, que dedicaram seis anos \u00e0 filmagem e um s\u00e9timo \u00e0 montagem do filme, foram ao Vale dos Ca\u00eddos acompanhados por Jos\u00e9 Mar\u00eda Galante,\u00a0<em>Chato<\/em>, que quando estudante foi torturado por duas semanas na Puerta del Sol por Antonio Gonz\u00e1lez Pacheco, policial mais conhecido como\u00a0<em>Billy el Ni\u00f1o<\/em>, e Mar\u00eda \u00c1ngeles Mart\u00edn, neta de Faustina L\u00f3pez Gonz\u00e1lez, assassinada em 21 de setembro, 1936 em Pedro Bernardo (\u00c1vila), e cujo corpo permanece em uma vala comum debaixo de uma estrada. A m\u00e3e de Mar\u00eda \u00c1ngeles, Mar\u00eda Mart\u00edn, morreu em 2014 sem poder enterrar sua progenitora em um cemit\u00e9rio, e a imagem da mulher idosa doente, apoiada em uma mureta meditando enquanto sussurra \u2013 \u201cQue injustos somos n\u00f3s seres humanos\u201d\u2013 resumo de\u00a0<em>O Sil\u00eancio dos Outros<\/em><em>.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sob a cruz megaloman\u00edaca, Carracedo espera que do Vale seja feito um museu-monumento da mem\u00f3ria: &#8220;Que se explique o que aconteceu.&#8221; E Martin ressalta: &#8220;Mas que se conte a verdade, que a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/historia\">hist\u00f3ria seja reescrita<\/a>&#8220;. Galante explica: &#8220;Fa\u00e7amos um concurso internacional, ressignificar o lugar e lembrar das pessoas que morreram erguendo isto\u201d. O quarteto espera que todos os corpos enterrados sejam removidos e entregues \u00e0s suas fam\u00edlias. &#8220;Os que n\u00e3o forem reclamados&#8221;, diz Galante, &#8220;poderiam ser sepultados em um cemit\u00e9rio onde fossem homenageados, como os que h\u00e1 na Europa com as v\u00edtimas das guerras mundiais&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Espanha \u2013 os espanh\u00f3is \u2013 fracassou com as v\u00edtimas da ditadura de Franco? &#8220;Claro&#8221;, diz Mart\u00edn. &#8220;Come\u00e7ou com um pacto em que nos pediram para perdoar porque sim e esquecer porque sim. E assim os criminosos nunca pediram perd\u00e3o. Para que esta barbaridade de torturados, fuzilados e v\u00edtimas de repres\u00e1lias em\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/franquismo\">quatro d\u00e9cadas de ditadura<\/a>\u00a0nunca mais se repita h\u00e1 uma parte da nossa sociedade que tem de enfrentar seus erros. Sinto que eles n\u00e3o querem se reconciliar &#8220;. Carracedo olha para a porta da bas\u00edlica: &#8220;A Espanha tem uma d\u00edvida com muitas pessoas, que foram os verdadeiros art\u00edfices da democracia, e que deram seus dias, suas vidas em prol da democracia que agora desfrutamos.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos protagonistas do document\u00e1rio me disse: \u201cEnquanto pass\u00e1vamos nossa juventude lutando pela liberdade nunca pensamos que nosso esfor\u00e7o fosse reconhecido, mas jamais ter\u00edamos imaginado que ser\u00edamos ignorados desse jeito. Isso me entristece muito&#8221;. Galante acha que o pacto de sil\u00eancio foi imposto \u00e0 sociedade pelas institui\u00e7\u00f5es e que, portanto, &#8220;a responsabilidade \u00e9 dessas institui\u00e7\u00f5es que negaram os princ\u00edpios da verdade, justi\u00e7a e repara\u00e7\u00e3o sobre os quais fundamentar a conviv\u00eancia democr\u00e1tica. A impunidade pelos\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/delitos_humanidad\">crimes contra a humanidade<\/a>\u00a0est\u00e1 sendo mantida. No entanto, acho que n\u00e3o deixam a sociedade se pronunciar, o que certamente acabaria com essa\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/franquismo\">impunidade do regime franquista<\/a>. Estamos em 2019, e isso n\u00e3o se sustenta mais&#8221;. Mart\u00edn comenta ir\u00f4nica: &#8220;Que incongru\u00eancia, n\u00e3o \u00e9 verdade? N\u00e3o querem tirar este senhor daqui e n\u00f3s n\u00e3o podemos tirar nossas fam\u00edlias.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bahar, norte-americano da Filad\u00e9lfia, diz que neste ano em que acompanhou\u00a0<em>O Sil\u00eancio dos Outros<\/em>\u00a0por meio mundo encontrou um elemento comum: &#8220;O p\u00fablico se surpreende que com o s\u00e9culo XXI j\u00e1 t\u00e3o avan\u00e7ado n\u00e3o deixem os familiares desenterrarem os restos de seus entes queridos, que haja torturadores andando pela rua ou que n\u00e3o se possa investigar o caso dos beb\u00eas roubados. Os estrangeiros ficam indignados com o que acontece depois de quatro d\u00e9cadas de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/democracia\">democracia<\/a>. O tempo est\u00e1 se esgotando.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Galante, em suas queixas contra\u00a0<em>Billy el Ni\u00f1o<\/em>, est\u00e1 otimista: &#8220;Foram abertas brechas legais, duas queixas foram aceitas e os tribunais europeus est\u00e3o pressionando os espanh\u00f3is, que ser\u00e3o for\u00e7ados a aceitar suas senten\u00e7as. J\u00e1 existem movimentos de pessoas&#8221;. Mart\u00edn n\u00e3o tem isso t\u00e3o claro: &#8220;Porque h\u00e1 fam\u00edlias que n\u00e3o querem que seu sobrenome seja manchado com pecados do passado de seus ancestrais. E elas ainda mandam muito. Acho isso muito dif\u00edcil. A recep\u00e7\u00e3o deste document\u00e1rio me d\u00e1 alguma esperan\u00e7a. E, claro, n\u00e3o gostaria de deixar esta heran\u00e7a para meus filhos. N\u00e3o quero falar por mim, porque aqui todos n\u00f3s lutamos por todos\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;\u00c9 que o lugar traz isso&#8221;, diz a cineasta Almudena Carracedo com um meio sorriso. 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