{"id":275537,"date":"2019-03-03T16:01:02","date_gmt":"2019-03-03T19:01:02","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=275537"},"modified":"2019-03-03T16:01:02","modified_gmt":"2019-03-03T19:01:02","slug":"o-segundo-assassinato-de-leon-trotski","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-segundo-assassinato-de-leon-trotski\/","title":{"rendered":"O segundo assassinato de Leon Trotski"},"content":{"rendered":"<div class=\"articulo__apertura\">\n<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div class=\"articulo-encabezado-texto\">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\"><em>Historiadores e intelectuais criticam em peso a nova s\u00e9rie biogr\u00e1fica do bolchevique, na Netflix, por consider\u00e1-la \u201cpropagand\u00edstica\u201d<\/em><\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"firma \">\n<div class=\"autor\">\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Mar\u00eda R. Sahuquillo\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/maria_rodriguez_sahuquillo\/a\/\">MAR\u00cdA R. SAHUQUILLO<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"autor\">\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de David Marcial P\u00e9rez\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/david_marcial_perez\/a\/\">DAVID MARCIAL P\u00c9REZ<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<div id=\"videonoticia\" class=\"centro\" style=\"text-align: justify;\">\n<figure class=\"foto  centro\">\n<div id=\"multimediaPlayer_535896845\">\n<div><a class=\"posicionador\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep02.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2019\/03\/01\/television\/1551463847_511468_1551604390_noticia_fotograma.jpg\" width=\"640\" height=\"358\" \/><\/a><\/p>\n<div class=\"seedtag-gohan seedtag-adunit st-in-image\">\n<div class=\"st-container\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/figure>\n<\/div>\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/sigmund_freud\">Sigmund Freud<\/a>\u00a0pousa o bra\u00e7o sobre o ombro de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/leon_trotski\">Le\u00f3n Trotski<\/a>. O revolucion\u00e1rio russo acaba de atac\u00e1-lo durante uma de suas famosas confer\u00eancias na Viena dos princ\u00edpios do s\u00e9culo XX. Agora, j\u00e1 distante da vista do p\u00fablico, \u00e9 o pai da psican\u00e1lise quem o critica. \u201cDurante nosso enfrentamento, notei que suas pupilas se dilatavam. S\u00f3 vi essa rea\u00e7\u00e3o em dois tipos de homens: os assassinos em s\u00e9rie e os fan\u00e1ticos religiosos\u201d, cutuca.<\/p>\n<div id=\"elpais_gpt-INTEXT\" style=\"text-align: justify;\" data-google-query-id=\"CKK0rNbT5uACFch4wQodpAYPcw\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/cultura\/intext_0__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa conversa nunca ocorreu, mas milh\u00f5es de pessoas a viram. \u00c9 uma das cenas de\u00a0<em>Trotsky<\/em>, a s\u00e9rie distribu\u00edda pela Netflix, mas produzida pelo principal canal estatal russo, controlado pelo Kremlin. E \u00e9 assim que ela retrata seu protagonista: como um s\u00e1dico, um completo traidor, um fantoche. Trotski, revolucion\u00e1rio proscrito, chefe do Ex\u00e9rcito Vermelho, demonizado depois como \u201cinimigo do povo\u201d e assassinado por um agente sovi\u00e9tico em 1940 no M\u00e9xico, \u00e9 o vil\u00e3o da sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria. Aparece sob um prisma t\u00e3o negativo que uniu historiadores, estudiosos e a fam\u00edlia do revolucion\u00e1rio em acusar os autores da superprodu\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 de falsear a hist\u00f3ria, mas tamb\u00e9m de utilizar a figura do bolchevique para mandar um recado: que a dissid\u00eancia e as revolu\u00e7\u00f5es s\u00e3o ruins.<\/p>\n<div class=\"teads-adCall\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c\u00c9 um exemplo de como n\u00e3o tratar a hist\u00f3ria, em particular a do movimento revolucion\u00e1rio russo\u201d, diz Alexander Reznik, professor da Escola Nacional de Economia da R\u00fassia, que pesquisou a fundo a vida de Trotski. \u201c[A s\u00e9rie] \u00e9 falsa, tergiversa constantemente os fatos conhecidos para construir um \u2018tipo ideal de revolucion\u00e1rio\u2019 [palavras de um dos produtores]: uma imagem clich\u00ea e simplista de um fan\u00e1tico faminto por poder, cego aos sofrimentos de sua fam\u00edlia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A produ\u00e7\u00e3o, de oito cap\u00edtulos, estreou em 2017 na R\u00fassia,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/01\/27\/cultura\/1485531342_170700.html\">coincidindo com o centen\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o<\/a>. Depois deu o salto mundial com a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/netflix\">Netflix,<\/a>\u00a0atrav\u00e9s da qual pode ser vista por mais de 139 milh\u00f5es de assinantes. Um deles foi Esteban Volkov Bronstein, neto de Trotski e guardi\u00e3o de sua mem\u00f3ria. \u201cO personagem que eles fabricaram \u00e9 uma falsifica\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Est\u00e1 a anos-luz do revolucion\u00e1rio marxista que conheci. Um homem de uma intelig\u00eancia extrema, muito cordial, trabalhador incans\u00e1vel, inclinado a educar os jovens e que gerava um ambiente caloroso ao seu redor\u201d, conta ao EL PA\u00cdS no jardim da casa da Cidade do M\u00e9xico onde seu av\u00f4 foi assassinado (e que agora \u00e9 um museu).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os respons\u00e1veis, do diretor para baixo, se defendem alegando que n\u00e3o se trata de uma s\u00e9rie hist\u00f3rica, e sim meramente baseada em fatos reais. \u201cN\u00e3o podemos saber tudo o que aconteceu naquele momento, mas passamos muitas horas com consultores. E sobre a base deste conhecimento e inspirados em v\u00e1rias hist\u00f3rias e fatos os autores teceram uma hist\u00f3ria s\u00f3lida que prende o espectador\u201d, defende Alexandra Remizova, uma das respons\u00e1veis pela produtora Sreda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os herdeiros de Trotski organizaram uma campanha de rep\u00fadio, apoiada por dezenas de intelectuais e figuras p\u00fablicas como Slavoj Zizek, Frederic Jameson e a fil\u00f3sofa Isabelle Garo. Antes, a fam\u00edlia do bolchevique \u2013 exilado errante antes de ir parar no M\u00e9xico \u2013 havia proibido, depois de ler o roteiro, que a casa-museu fosse usada como loca\u00e7\u00e3o para a s\u00e9rie, como desejava a produtora. Entre as muitas falsidades que encontraram naquele roteiro: que Ram\u00f3n Mercader, seu assassino, era amante de Frida Kahlo, que se fez passar por seu bi\u00f3grafo, e que o assassinato ocorreu em defesa pr\u00f3pria (isso deixou Volkov Bronstein especialmente irritado).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c\u00c9, al\u00e9m do mais, um crime contra o M\u00e9xico, que investigou e ditou senten\u00e7a sobre o crime\u201d, aponta Volkov. \u201cMercader foi pouco a pouco ganhando a confian\u00e7a de pessoas pr\u00f3ximas \u00e0 fam\u00edlia. S\u00f3 visitou duas vezes o escrit\u00f3rio do meu av\u00f4, e o matou \u00e0 trai\u00e7\u00e3o. A vers\u00e3o da s\u00e9rie se parece muito com a que foi difundida durante anos pelo stalinismo, segundo a qual tinha sido uma briga com um partid\u00e1rio decepcionado.\u201d Mas, diferentemente de outras mensagens propagand\u00edsticas stalinistas, esta s\u00e9rie \u2013 repleta de sexo, viol\u00eancia e efeitos especiais \u2013 custou uns quatro milh\u00f5es de d\u00f3lares (15 milh\u00f5es de reais), levou quatro meses para ser gravada e contou com um grande elenco de celebridades russas, como Konstantin Khabenski. Foi exibida em hor\u00e1rio nobre no principal canal estatal. E colheu importantes pr\u00eamios nacionais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m h\u00e1 duras recrimina\u00e7\u00f5es de quem v\u00ea a s\u00e9rie como mais uma iniciativa de propaganda do Governo russo. Outra forma de assassinar Trotski, desta vez n\u00e3o com uma picareta de montanhismo, como fez Mercader, e sim com a revis\u00e3o da sua mem\u00f3ria. \u201cA mensagem do Kremlin \u00e9 que todas as revolu\u00e7\u00f5es s\u00e3o ruins, e especialmente as financiadas do exterior\u201d, diz a organiza\u00e7\u00e3o de direitos humanos Memorial. Porque outra tese que emana do pol\u00eamico roteiro \u00e9 o suposto apoio financeiro da intelig\u00eancia alem\u00e3 aos bolcheviques. \u201cTrotski continua sendo uma das figuras mais demonizadas da hist\u00f3ria russa, por isso \u00e9 mais seguro fazer um filme sobre ele do que sobre L\u00eanin ou St\u00e1lin\u201d, comenta o especialista Reznik.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trotski desempenhou um papel determinante na revolu\u00e7\u00e3o bolchevique de 1917. Mas o nome e a hist\u00f3ria desse brilhante orador e te\u00f3rico marxista, que teve que se exilar em 1929 por causa dos seus atritos com Stalin, foi tabu durante toda a \u00e9poca sovi\u00e9tica, enquanto se convertia em \u00eddolo da esquerda radical ocidental. Foi reabilitado s\u00f3 depois da queda da URSS. O Leon Trotski da s\u00e9rie \u00e9 um homem obcecado pelo poder, de uma ast\u00facia maquiav\u00e9lica, disposto a matar um militar leal por ci\u00fames, a acabar com a vida de camponeses e milicianos que se opunham a suas diretrizes. Capaz inclusive de usar seu pr\u00f3prio filho como escudo humano. \u201cAs vidas s\u00e3o tijolos no edif\u00edcio da revolu\u00e7\u00e3o, no curso impar\u00e1vel da hist\u00f3ria\u201d, diz o personagem em outra cena da s\u00e9rie, que tamb\u00e9m foi tachada de antissemita (Trotski era judeu).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O revolucion\u00e1rio proscrito, o chefe do Ex\u00e9rcito Vermelho, teve al\u00e9m disso uma vida excepcional. E os criadores da s\u00e9rie exploram motivos \u201cex\u00f3ticos\u201d, como seu romance com a pintora Frida Kahlo, como observa Reznik. Konstantin Ernst, diretor do Canal 1, um dos mais vistos no pa\u00eds, e um homem muito pr\u00f3ximo ao Kremlin, comentou na \u00e9poca da estreia da s\u00e9rie que Trotski \u201c\u00e9 um verdadeiro\u00a0<em>rock star<\/em>. Durante toda sua vida, n\u00e3o s\u00f3 durante a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro. Quando voc\u00ea olha os \u00f3culos, as jaquetas de couro especialmente desenhadas e o trem blindado que foi usado na produ\u00e7\u00e3o\u2026 \u00c9 quase uma hist\u00f3ria ciberpunk. Achamos que \u00e9 um personagem que pode ser compreens\u00edvel para o p\u00fablico mais jovem\u201d. E esse foi o gancho usado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os herdeiros de Trotski n\u00e3o t\u00eam planos de mover uma a\u00e7\u00e3o judicial contra a produtora ou os roteiristas da s\u00e9rie. Na verdade, encaram esta nova pol\u00eamica como uma oportunidade para que sua verdadeira hist\u00f3ria seja reconhecida. No \u00faltimo m\u00eas, o n\u00famero de visitantes \u00e0 casa museu aumentou.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tamb\u00e9m h\u00e1 duras recrimina\u00e7\u00f5es de quem v\u00ea a s\u00e9rie como mais uma iniciativa de propaganda do Governo russo. 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