{"id":277579,"date":"2019-03-23T11:05:12","date_gmt":"2019-03-23T14:05:12","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=277579"},"modified":"2019-03-23T11:05:12","modified_gmt":"2019-03-23T14:05:12","slug":"os-traumas-vividos-por-pessoas-submetidas-a-suposta-cura-gay","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/os-traumas-vividos-por-pessoas-submetidas-a-suposta-cura-gay\/","title":{"rendered":"Os traumas vividos por pessoas submetidas \u00e0 suposta &#8216;cura gay&#8217;"},"content":{"rendered":"<article class=\"article\">\n<header class=\"article-header article-header--\">\n<div class=\"article-header__container\">\n<div class=\"article-header__content\">\n<h1 class=\"article__title\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"article__subtitle\" style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Sequestros, eletrochoque, jejum, priva\u00e7\u00e3o do sono, custos financeiros e exerc\u00edcios &#8220;para esquecer&#8221;<\/strong><\/em><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"article-header__meta\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"article__author\"><em><strong>Helena Borges<\/strong><\/em><\/div>\n<\/div>\n<figure class=\"article-header__picture\" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"article__picture-image image--loaded\" src=\"https:\/\/ogimg.infoglobo.com.br\/in\/23359340-610-0a1\/GEOMIDIA\/375\/xlgbt3.jpg.pagespeed.ic.GqpwHGPUGA.jpg\" alt=\"A terapia de convers\u00e3o, tamb\u00e9m conhecida como \" \/><figcaption class=\"article__picture-caption\">A terapia de convers\u00e3o, tamb\u00e9m conhecida como &#8220;cura gay&#8221;, pode incluir hipnose e choques el\u00e9tricos e baseia-se na cren\u00e7a de que ser l\u00e9sbica, gay, bissexual ou transg\u00eanero \u00e9 uma doen\u00e7a mental Foto: AFP<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"article__content-container protected-content\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>\u201cEstou naquela dura etapa em que seus pais levam voc\u00ea a um psic\u00f3logo e que um guia espiritual vai &#8216;curar&#8217; sua prefer\u00eancia por mulheres\u201d, escreveu a equatoriana Zulema Constante Mera em sua conta de Twitter. O ano era 2013 e ela tinha 21 anos. Ap\u00f3s contar a seus pais que estava namorando com outra mulher, a rela\u00e7\u00e3o familiar come\u00e7ou a desmoronar. Eles tentaram lev\u00e1-la a um consult\u00f3rio de psicologia na tentativa de reverter sua sexualidade, mas o tiro saiu pela culatra. A profissional repetiu o que a pr\u00f3pria jovem, estudante do \u00faltimo per\u00edodo de psicologia, havia explicado: que orienta\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o \u00e9 doen\u00e7a e que eram os pais que estavam errados ao n\u00e3o aceitar sua sexualidade. Mas n\u00e3o foi o suficiente. \u201cMeus pais declararam guerra a mim. Acharam que tirando tudo de mim iria deixar de ser l\u00e9sbica. Disseram que se eu n\u00e3o aceitasse as regras teria de ir embora de casa com a roupa do corpo e entregar as chaves do meu carro. E assim foi\u201d, publicou a jovem no dia seguinte. Seu pai, Guillermo Mera, passou a amea\u00e7\u00e1-la dizendo que faria com que perdesse o emprego, que a trancaria em casa, que a faria desaparecer. Essa \u00faltima amea\u00e7a se concretizou, tornando-se o mais pol\u00eamico caso envolvendo cl\u00ednicas de \u201crestaura\u00e7\u00e3o sexual\u201d no Equador.<\/p>\n<p>Zulema j\u00e1 estava morando com Cynthia, sua noiva, quando recebeu uma liga\u00e7\u00e3o de seu pai, dias ap\u00f3s as amea\u00e7as, convidando-a para \u201cconsertar as coisas\u201d. O que aconteceu, por\u00e9m, se assemelhou a um sequestro. Guillermo buscou a filha para a tal reuni\u00e3o familiar, mas no meio do caminho freou bruscamente. Assim que outro carro emparelhou com o seu, um grupo de homens arrancou Zulema \u00e0 for\u00e7a do carro de seu pai, que nada fez al\u00e9m de observar. Eles a algemaram e levaram em uma viagem de sete horas at\u00e9 o Centro de Recupera\u00e7\u00e3o Feminina \u201cLa Esperanza\u201d, na cidade de Tena, na regi\u00e3o amaz\u00f4nica do Equador. Ali, havia tr\u00eas regras b\u00e1sicas: era proibido fugir, roubar e \u201cser l\u00e9sbica\u201d.<\/p>\n<p>Nas tr\u00eas semanas em que Zulema ficou escondida no \u201cretiro espiritual\u201d, permaneceu sob vigil\u00e2ncia 24 horas e recebeu rem\u00e9dios como se tivesse uma adi\u00e7\u00e3o qu\u00edmica. Entre as pr\u00e1ticas do tratamento, era obrigada a comer alimentos podres e a ler a B\u00edblia para entender que \u201cDeus nos fez homem e mulher\u201d e que ser l\u00e9sbica era\u00a0 \u201cuma aberra\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Sem receber not\u00edcias, sua noiva e amigos logo come\u00e7aram uma busca pelo paradeiro da jovem. Em quest\u00e3o de dias, a causa j\u00e1 movia a Defensoria P\u00fablica, ONGs, ativistas pelos direitos das mulheres e at\u00e9 o cantor Ricky Martin, que compartilhou a hist\u00f3ria em suas redes sociais. Com tamanha repercuss\u00e3o, o governo local interveio para garantir sua liberdade. Em junho, Zulema estava solta.<\/p>\n<p>A tortura \u00e0 qual a jovem foi submetida e seu caminho para sair da clausura est\u00e3o descritos no livro \u201cO fim do arm\u00e1rio\u201d, escrito pelo jornalista Bruno Bimbi. O texto conta as diversas consequ\u00eancias vividas por pessoas LGBT+\u00a0 que se assumiram para suas fam\u00edlias. Um cap\u00edtulo \u00e9 dedicado especificamente aos que foram submetidos \u00e0 \u201cCura Gay\u201d, como Zulema.<\/p>\n<p>Seis anos depois do epis\u00f3dio de sequestro, a equatoriana evita dar entrevistas sobre o que passou, mas concordou em conversar com a reportagem de \u00c9POCA. Ela conta que tenta colocar a vida de volta aos trilhos, que ainda est\u00e1 casada com Cynthia, mas que por ora as duas n\u00e3o pensam em ter filhos. Apesar de ter falado muito sobre a tortura logo que foi solta, explica ter decidido evitar o tema a partir de ent\u00e3o; falar do assunto a faz reviver as dores.<\/p>\n<p>Seguindo o que escreveu no Twitter logo ap\u00f3s o sequestro, \u201cfam\u00edlia \u00e9 fam\u00edlia\u201d: ela ainda busca ter uma rela\u00e7\u00e3o amistosa com os pais, a quem conta ter perdoado. \u201cO relacionamento com a minha fam\u00edlia foi melhorando pouco a pouco. Me encontro com eles em certos momentos, nem todos como eles gostariam. A verdade \u00e9 que n\u00e3o passo muito tempo com eles, mas estamos sempre em contato, fa\u00e7o visitas espor\u00e1dicas. Viajamos juntos uma vez, at\u00e9. Mas tudo isso sem Cinthya, porque minha m\u00e3e n\u00e3o a aceita por perto, nem aceita muitas coisas minhas, tamb\u00e9m.\u201d<\/p>\n<h3>Cura gay no Brasil<\/h3>\n<p>Hist\u00f3rias semelhantes \u00e0 de Zulema se espalham pelo Brasil. Em 2017, o Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea) divulgou uma pesquisa de campo sobre Comunidades Terap\u00eauticas, casas dedicadas \u00e0 reabilita\u00e7\u00e3o de dependentes qu\u00edmicos, mas que o pr\u00f3prio relat\u00f3rio evidencia que parte delas abre suas portas para outras demandas. O texto aponta que, nesses espa\u00e7os, \u201cquem \u00e9 identificado como homossexual, e consequentemente, como desviante, acaba sendo v\u00edtima de viol\u00eancia\u201d.<\/p>\n<aside class=\"article-related-links \">\n<div class=\"article-related-links__container\">\n<div class=\"article-related-links__content\"><\/div>\n<\/div>\n<\/aside>\n<p>No ano passado, o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, o Mecanismo Nacional de Preven\u00e7\u00e3o e Combate \u00e0 Tortura e o Conselho Federal de Psicologia publicaram juntos um relat\u00f3rio sobre visitas a 28 Comunidades Terap\u00eauticas. Em ao menos 14 das 28 institui\u00e7\u00f5es, \u201cn\u00e3o h\u00e1 respeito \u00e0 diversidade de orienta\u00e7\u00e3o sexual e de identidade de g\u00eanero\u201d. O documento descreve outras viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos em 16 lugares. Entre as pr\u00e1ticas de castigo estavam priva\u00e7\u00e3o de sono e supress\u00e3o da alimenta\u00e7\u00e3o, uso de viol\u00eancia f\u00edsica e trabalhos for\u00e7ados. Em nove cl\u00ednicas era disponibilizado o servi\u00e7o de \u201cresgate\u201d, como o feito com a equatoriana Zulema: internamento for\u00e7ado por meio de uma equipe que vai atr\u00e1s da pessoa e a imobiliza, fazendo uso tanto de viol\u00eancia f\u00edsica quanto de conten\u00e7\u00e3o por meio da aplica\u00e7\u00e3o de medicamentos.<\/p>\n<p>\u201cO resgate virou o disque pizza\u201d, denuncia L\u00facio Costa, membro do Mecanismo Nacional de Preven\u00e7\u00e3o e Combate \u00e0 Tortura. \u201cBasta eu dizer que algu\u00e9m na minha fam\u00edlia \u00e9 usu\u00e1rio de drogas que esse indiv\u00edduo est\u00e1 sujeito a uma a\u00e7\u00e3o com fortes ind\u00edcios de sequestro. Um agrupamento de pessoas que resolvem ir no meio da madrugada \u00e0 casa de algu\u00e9m apontado como poss\u00edvel usu\u00e1rio de drogas e essa pessoa \u00e9 retirada, muitas vezes com viol\u00eancia, e levada para essas comunidades.\u201d Ele lembra de um dos retornos recebidos pelos profissionais que fizeram as visitas: \u201cum pastor tentava convencer que o comportamento [orienta\u00e7\u00e3o sexual homoafetiva] era possess\u00e3o de esp\u00edrito maligno ou Pombagira\u201d.<\/p>\n<p>O grupo de investiga\u00e7\u00e3o visitou tr\u00eas das 78 unidades do grupo \u201cFazenda Esperan\u00e7a\u201d, que est\u00e1 presente em 25 estados e no Distrito Federal, al\u00e9m de mais 36 unidades localizadas em mais de 16 pa\u00edses, tendo um total de aproximadamente 2.500 internados espalhados pelo mundo. Em uma das unidades visitadas, exclusiva para mulheres, a ordem dada \u00e0s l\u00e9sbicas \u00e9 que devem ser \u201ccontrolados os comportamentos e caracter\u00edsticas corporais\u201d. A orienta\u00e7\u00e3o sexual \u00e9 vista como op\u00e7\u00e3o, \u201cque pode ser gerida em busca de identidade sexual feminina\u201d. Na mesma casa, para al\u00e9m de tratamentos de depend\u00eancia qu\u00edmica, foi informado que \u201ca institui\u00e7\u00e3o atende outras demandas\u201d.<\/p>\n<h3>Intoler\u00e2ncia familiar<\/h3>\n<p>O medo do eletrochoque foi um fantasma que assombrou as primeiras sess\u00f5es de terapia de Mauro de Bias, carioca de 29 anos. Aos 14 anos, ele come\u00e7ou a perceber que, apesar de achar mulheres bonitas, se sentia sexualmente atra\u00eddo por homens. \u201cPensei: \u2018meu Deus, eu n\u00e3o posso ser gay!\u2019\u201d, lembra o jovem, criado por uma fam\u00edlia cat\u00f3lica: \u201cEu sofria muito bullying por ser afeminado, era sempre chamado de viado. Ent\u00e3o isso sempre foi martelado forte na minha cabe\u00e7a como algo errado, feio e pecaminoso\u201d.<\/p>\n<figure class=\"article__picture article__picture--square-left\"><img decoding=\"async\" class=\"article__picture-image image--loaded\" src=\"https:\/\/ogimg.infoglobo.com.br\/in\/23543861-868-4ba\/FT460B\/x76866928_Epoca-Rio-de-Janeiro-RJ17-05-2018Cura-Gay-Mauro-de-Bias-teve-de-fazer-terapia-em-um.jpg.pagespeed.ic.rPQCOW880p.jpg\" alt=\"Mauro de Bias teve de fazer terapia em um consult\u00f3rio psicol\u00f3gico que um bispo indicou aos seus pais Foto: Adriana Lorete \/ Ag\u00eancia O Globo\" data-src=\"https:\/\/ogimg.infoglobo.com.br\/in\/23543861-868-4ba\/FT460B\/x76866928_Epoca-Rio-de-Janeiro-RJ17-05-2018Cura-Gay-Mauro-de-Bias-teve-de-fazer-terapia-em-um.jpg.pagespeed.ic.rPQCOW880p.jpg\" \/><figcaption class=\"article__picture-caption\">Mauro de Bias teve de fazer terapia em um consult\u00f3rio psicol\u00f3gico que um bispo indicou aos seus pais Foto: Adriana Lorete \/ Ag\u00eancia O Globo<\/figcaption><\/figure>\n<p>Aos 16 anos, em crise, ele disse a seu pai, ministro de matrim\u00f4nio da igreja local, que era gay: \u201cEu tinha acabado de sair de um encontro da igreja e me sentia construindo uma vida em cima de uma mentira. Sentei no sof\u00e1 e disse: \u2018pai, sou homossexual\u2019. Ele levantou, foi at\u00e9 a cozinha, virou uma dose de cacha\u00e7a, voltou e me disse que n\u00e3o aceitava isso. Come\u00e7ou um discurso sobre Deus e pecado, sempre focando muito que eu iria para o inferno. No dia seguinte, ele me levou \u00e0 igreja com a minha m\u00e3e e disse: \u2018Voc\u00ea sabe que desgosto mata. E essa noite eu e sua m\u00e3e morremos um pouco\u2019. Nessa hora, me foi imposto que, para continuar morando na casa dele, eu teria que aceitar ajuda para \u2018superar isso\u2019. A outra escolha era ser expulso de casa. Foi uma op\u00e7\u00e3o sem op\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Na primeira sess\u00e3o, o psic\u00f3logo indicado pelo padre apresentou para seus pais uma tabela com \u201cgraus de homossexualidade\u201d e explicou que o rapaz ainda n\u00e3o estava nem no primeiro n\u00edvel, porque s\u00f3 sentia atra\u00e7\u00e3o, sem ter tido qualquer experi\u00eancia direta. O que, lembra Mauro, foi um motivo de al\u00edvio. A sa\u00edda seria evitar o assunto ao m\u00e1ximo, at\u00e9 que fosse esquecido.<\/p>\n<p>Seguindo o conselho de um bispo cat\u00f3lico pr\u00f3ximo \u00e0 fam\u00edlia, seus pais contrataram um pacote de dez sess\u00f5es em um consult\u00f3rio de terapia indicado pelo sacerdote. \u201cForam dez sess\u00f5es que me ajudaram bastante a me entender. A princ\u00edpio s\u00f3 eu falava, mas em uma das \u00faltimas sess\u00f5es ele me interrompeu e disse que deveria parar de dizer que eu era homossexual. Foi quando comentou que, caso esses atendimentos n\u00e3o fossem suficientes, eu poderia precisar passar por um tratamento de eletrochoque. Aquilo me deixou sob press\u00e3o. Depois da d\u00e9cima sess\u00e3o eu nunca mais voltei l\u00e1 e menti para meu pai que estava curado, que tinha recebido alta\u201d, lembra o carioca.<\/p>\n<p>Acabadas as dez sess\u00f5es, temendo a prescri\u00e7\u00e3o de tratamentos mais intensos, Mauro resolveu repetir para todos e para si mesmo que n\u00e3o era gay e que, assim, a atra\u00e7\u00e3o por mulheres apareceria em breve. Apesar de ainda desejar homens, engatou em um namoro com sua melhor amiga de classe, com quem conta nunca ter experimentado nada al\u00e9m de beijos r\u00e1pidos. \u201cA gente falava que tinha escolhido esperar\u201d, lembra, aos risos. Esse relacionamento garantiu a paz dentro de casa. \u201cQuando comecei o namoro, meu pai veio comentar comigo, querendo confirmar se \u2018aquele outro problema tinha passado\u2019. Eu s\u00f3 respondi r\u00e1pido \u2018passou, passou\u2019. A gente j\u00e1 tinha perdido tantas noites brigando, aos gritos, por causa da minha sexualidade, que eu s\u00f3 queria viver em paz.\u201d<\/p>\n<p>A partir de ent\u00e3o, Mauro decidiu esconder qualquer tipo de rela\u00e7\u00e3o que tivesse. Chegou a namorar um rapaz, que dizia para os pais ser um amigo. O assunto tornou-se um elefante branco, no qual ningu\u00e9m falava. Apenas aos 25 anos, j\u00e1 formado e empregado, Mauro finalmente conseguiu sair de casa e se assumir como homossexual. Desde ent\u00e3o, ele e o pai n\u00e3o se falam mais.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de Mauro reflete muito a narrativa de \u201cBoy Erased\u201d, livro autobiogr\u00e1fico de Garrard Conley. Ele conta sua experi\u00eancia em uma comunidade evang\u00e9lica que tinha como objetivo \u201ccorrigir\u201d a homossexualidade de seus membros. Assim como Mauro, Garrard tamb\u00e9m tinha uma fam\u00edlia ultra-religiosa e tamb\u00e9m tentou se relacionar com uma menina, mas isso s\u00f3 o fez perceber como n\u00e3o sentia atra\u00e7\u00e3o por mulheres. Foi o ponto de virada que o levou a concordar em participar de um \u201ctratamento para homossexuais\u201d.<\/p>\n<p>Garrard falou a \u00c9POCA sobre seus trabalhos atuais, tamb\u00e9m voltados \u00e0 discuss\u00e3o dos tratamentos chamados de restaura\u00e7\u00e3o sexual. \u201cMe dedico, hoje, a estudar essa quest\u00e3o e j\u00e1 estou fazendo outros livros sobre essa din\u00e2mica anti-LGBTI que tem se formado. Me surpreendeu, quando publiquei o livro, o n\u00famero de mensagens que recebi e de quantos pa\u00edses diferentes as pessoas vinham. Percebo que as estrat\u00e9gias adotadas s\u00e3o muito parecidas em diferentes lugares: as horas sem sono, o tratamento da homossexualidade como um mal espiritual, a culpa e as penit\u00eancias.\u201d<\/p>\n<p>Garrard conta que foi dif\u00edcil lidar com a enxurrada de mensagens logo de in\u00edcio, porque muitas continham ind\u00edcios suicidas e ele sentia um peso de responsabilidade por ajudar essas pessoas a encontrarem auxilio psicol\u00f3gico.<\/p>\n<p>As mensagens vinham de cerca de 30 pa\u00edses diferentes, segundo o escritor. Hoje, ele tem se dedicado a estudar as conex\u00f5es entre diferentes movimentos de cura gay em pa\u00edses distintos: \u201c\u00e9 evidente que h\u00e1 uma rede internacional, quero entender como ela se criou e como funciona\u201d.<\/p>\n<p>Em uma iniciativa parecida com a de Garrard, mas em um meio muito menos formal, o brasileiro Bruno Aguiar resolveu compartilhar no Twitter detalhes sobre sua viv\u00eancia de \u201ccura gay\u201d dentro de uma comunidade evang\u00e9lica. Os mesmos relatos de horas passando fome, noites sem dormir orando, e a final conclus\u00e3o de que \u201csua homossexualidade n\u00e3o vai passar\u201d s\u00e3o tra\u00e7os em comum. \u201cEles me disseram que meu caso seria de \u2018matar um le\u00e3o por dia\u2019 e me proibiram de falar que eu era gay para qualquer outro integrante da igreja. Foi a\u00ed que decidi romper, escrevi um email enorme explicando tudo que me levou a sair da comunidade. Nunca me responderam\u201d.<\/p>\n<h3>Homossexuais An\u00f4nimos<\/h3>\n<p>Jason Antunes, ator carioca de 48 anos, chamou a aten\u00e7\u00e3o de seus pais durante a adolesc\u00eancia: \u201cEles notaram que eu tinha uma tend\u00eancia e me colocaram numa psic\u00f3loga para fazer terapia. Agrade\u00e7o ter encontrado essa terapeuta, porque ela me mostrou um caminho, de forma que eu fiquei muito bem comigo mesmo. Ela perguntava se eu sentia vergonha do que eu era, me ajudou a me aceitar da forma que eu sou, como pessoa. Ent\u00e3o notei que essa quest\u00e3o de preconceito estava muito ligada a mentira e a verdade. Afinal, o que \u00e9 ser um \u2018homem de verdade\u2019? Ent\u00e3o um dia eu cheguei em casa e falei que a doutora tinha me dado alta. Minha m\u00e3e disse \u2018gra\u00e7as a Deus\u2019 e meu pai falou, aliviado, que a psicologia tinha \u2018dado jeito\u2019 em mim\u201d.<\/p>\n<figure class=\"article__picture article__picture--horizontal\"><img decoding=\"async\" class=\"article__picture-image image--loaded\" src=\"https:\/\/ogimg.infoglobo.com.br\/in\/23543822-c07-185\/FT1086A\/652\/x76867074_Epoca-Rio-de-Janeiro-RJ17-05-2018Cura-Gay-Jason-Antunes-passou-por-um-processo-de-tr.jpg.pagespeed.ic._8g4C1ZL-K.jpg\" alt=\"Jason Antunes passou por um processo de \" data-src=\"https:\/\/ogimg.infoglobo.com.br\/in\/23543822-c07-185\/FT1086A\/652\/x76867074_Epoca-Rio-de-Janeiro-RJ17-05-2018Cura-Gay-Jason-Antunes-passou-por-um-processo-de-tr.jpg.pagespeed.ic._8g4C1ZL-K.jpg\" \/><figcaption class=\"article__picture-caption\">Jason Antunes passou por um processo de &#8220;tratamento&#8221; da orienta\u00e7\u00e3o sexual quando era mais novo Foto: Adriana Lorete \/ Ag\u00eancia O Globo<\/figcaption><\/figure>\n<p>Jason manteve seu segredo guardado por muito tempo. Lembra que aos s\u00e1bados ia para boates e aos domingos ia cantar nos cultos da igreja, chorando pela culpa. Logo a mulher do pastor come\u00e7ou a notar suas l\u00e1grimas e o abordou diretamente, perguntando se era gay, e dizendo que \u201caquele com pecado n\u00e3o pode participar da ceia do Senhor\u201d. Se sentindo violentado, Jason disse que n\u00e3o queria conversar com ela e se afastou. Nos dias que seguiram, ele passou a ser perseguido pelas mulheres da congrega\u00e7\u00e3o, que tentavam beij\u00e1-lo e abra\u00e7\u00e1-lo para ver como reagiria. Constrangido, saiu daquela comunidade religiosa e passou a buscar outras, sempre evang\u00e9licas. At\u00e9 que, na terceira tentativa, em 1999, aceitou fazer a \u201ccura interior\u201d. \u201cEu tinha acabado de terminar um casamento homoafetivo e, por isso, estava disposto a virar h\u00e9tero\u201d, lembra.<\/p>\n<p>Por indica\u00e7\u00e3o de um amigo que tamb\u00e9m era evang\u00e9lico, e que tamb\u00e9m era gay, Jason descobriu o GA (Grupo de Amigos). Era um \u201cgrupo de recupera\u00e7\u00e3o para homossexuais\u201d, nos moldes do AA (Alco\u00f3licos An\u00f4nimos): reuni\u00f5es semanais de aconselhamento, com atendimento pessoal, e encontros em grupo aos s\u00e1bados. O formato de atendimento descrito por Jason \u00e9 muito parecido com o que Garrard narra em Boy Erased. \u201cEra muito triste, tinha muito choro. Eles diziam que isso vinha do conceito de pai, que houve falta da presen\u00e7a paterna, que nosso modelo de autoridade passou a ser figura feminina e que, por isso, o feminino come\u00e7ou a influenciar todos os aspectos da personalidade.\u201d<\/p>\n<p>As t\u00e9cnicas de tratamento envolviam horas de jejum, leitura b\u00edblica e esportes. Jason conta que j\u00e1 ficou 72 horas seguidas sem comer e afirma que o objetivo era \u201ca sublima\u00e7\u00e3o\u201d, a canaliza\u00e7\u00e3o da energia sexual pela pr\u00e1tica intensiva esportes, por exemplo. Por dez meses ele seguiu as indica\u00e7\u00f5es dos pastores se perguntando se, um dia, iria parar de sentir atra\u00e7\u00e3o por homens. \u201cSe era mesmo uma cura, eu queria olhar pra um homem e n\u00e3o sentir mais nada. Se era cura, eu queria olhar para uma mulher e sentir tes\u00e3o. At\u00e9 que eles me disseram que n\u00e3o, que eu teria que matar um le\u00e3o por dia. Ent\u00e3o eu respondi que isso n\u00e3o era cura\u201d.<\/p>\n<p>Ao ter essas respostas insatisfat\u00f3rias, Jason decidiu se aceitar: \u201cNotei que todo meu esfor\u00e7o me levava a entender que eu n\u00e3o mudaria. E que eu estava infeliz porque estava tentando ser algu\u00e9m que n\u00e3o era. A minha ess\u00eancia era aquela, n\u00e3o tinha como mudar. Ent\u00e3o, eu apenas n\u00e3o voltei mais\u201d.<\/p>\n<p>Hoje, ele ainda frequenta cultos evang\u00e9licos, especialmente os neopentecostais, mas sem v\u00ednculos diretos com nenhuma igreja, nem participando de grupos espec\u00edficos. Ele afirma que sua sexualidade n\u00e3o interfere seu relacionamento com Deus. \u201cIsso \u00e9 algo inventado pelos homens\u201d, conclui. \u201cHoje eu sou casado, resolvido, realizado profissionalmente. Eu sou mais feliz.\u201d<\/p>\n<p>O formato dos encontros vivenciados por Jason e Garrard tamb\u00e9m foi relatado pelo fisioterapeuta Kleber Rodrigues. Ele frequentou uma casa mantida pelo movimento evangelizador Jocum (Jovens Com Uma Miss\u00e3o), em Belo Horizonte. H\u00e1 12 anos, ele frequentava uma igreja batista em Belo Horizonte quando foi convidado aos encontros realizados no bairro Bonfim. Foi ali que, por dois anos, Kleber acreditou que conseguiria ser curado da homoafetividade.<\/p>\n<p>Ele tinha 20 anos, em 2006, e um novo pastor tinha chegado em sua igreja. Logo nos primeiros dias de comando, o sacerdote tirou o rapaz do grupo de jazz \u2014 que frequentava desde os 16 anos \u2014 e disse que seria bom troc\u00e1-lo pelas reuni\u00f5es da Jocum. \u201cN\u00e3o me pegou de surpresa. Sempre soube que era homossexual, mas naquela \u00e9poca achava que era muito errado. Naquela \u00e9poca eu achava que era muito poss\u00edvel extinguir isso. Vivia em nega\u00e7\u00e3o\u201d, lembra o mineiro,\u00a0 explicando que todos os participantes deveriam fazer ofertas obrigat\u00f3rias, sem um valor espec\u00edfico: \u201cEles diziam que era para dar o quanto voc\u00ea conseguisse.\u201d<\/p>\n<p>Na casa da Jocum, havia atendimentos pessoais uma vez por semana e em grupo a cada 15 dias. Tamb\u00e9m eram realizadas viagens para retiros espirituais, com cerca de 20 outros homens gays que buscavam expurgar o pecado da homossexualidade. Durante uma dessas viagens, Kleber conta que passou tr\u00eas dias em jejum absoluto. \u201cEles n\u00e3o tratavam como doen\u00e7a, mas eram enf\u00e1ticos de que se tratava de um pecado, um esp\u00edrito maligno se apoderando de voc\u00ea\u201d, explica, relembrando as diretrizes. Os participantes n\u00e3o podiam ter contato fora das reuni\u00f5es, caso se cruzassem em um culto, o indicado era fingir que n\u00e3o se conheciam. Nos retiros se ouviam palestras de pessoas que diziam ter abandonado \u201co pecado\u201d.<\/p>\n<p>As reuni\u00f5es de rotina tinham um tom confessional. Os participantes deveriam contar sobre todos os momentos em que tinham sentido desejos por outros homens, mesmo em pensamento, e principalmente se chegaram a se masturbar. Ent\u00e3o eram passadas as solu\u00e7\u00f5es: um banho gelado, passar horas em ora\u00e7\u00e3o e mais jejum. Durante todo o tempo era repetido que, com o tempo e a disciplina, surgiriam desejos heterossexuais. Ele \u00e9 taxativo sobre isso: \u201cNunca me aconteceu\u201d.<\/p>\n<p>Depois de dois anos de fome, banhos gelados e muita ora\u00e7\u00e3o, Kleber percebeu que o sacrif\u00edcio n\u00e3o valia a pena e n\u00e3o apresentava resultados. Resolveu abra\u00e7ar a si mesmo. Hoje ele mant\u00e9m sua f\u00e9 evang\u00e9lica frequentando uma igreja inclusiva. No celular, guarda o v\u00eddeo de seu casamento, realizado no gramado do est\u00e1dio Mineir\u00e3o. Ele e o marido, Wagner Macedo, ambos usando ternos azuis, trocam alian\u00e7as com as m\u00e3os tremendo e os olhos cheios de l\u00e1grimas. Os dois disseram o sim durante uma sequ\u00eancia de tr\u00eas casamentos LGBT+. \u201cEu tenho apoio da minha fam\u00edlia e ele tamb\u00e9m tem da fam\u00edlia dele\u201d, conta sorridente.<\/p>\n<p>Em seu site oficial, a Jocum se apresenta como uma iniciativa internacional que, no Brasil, tem v\u00e1rios objetivos, entre eles \u201co apoio e a recupera\u00e7\u00e3o de dependentes qu\u00edmicos\u201d. N\u00e3o consta na lista nada sobre sexualidade, por\u00e9m, h\u00e1 em outra \u00e1rea do site um texto sobre uma transexual que \u201cse converteu, destravecou-se, homenzou-se do melhor jeito que pode\u201d. H\u00e1 um outro site, por\u00e9m, que apresenta o SOS-sexualidade do Jocum: \u201cum Minist\u00e9rio crist\u00e3o que atua nas \u00e1reas da Educa\u00e7\u00e3o, aconselhamento e terapia da Sexualidade\u201d.<\/p>\n<p>Segundo o mesmo site, \u201cdiante do caos em que se encontra a sociedade no que se refere \u00e0 sexualidade humana\u201d, o objetivo do SOS \u00e9 \u201co enfrentamento de uma sexualidade adoecida, com o intuito de possibilitar solu\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas e eficazes para uma orienta\u00e7\u00e3o sexual saud\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p>Dois outros homens gays ouvidos por \u00c9poca tamb\u00e9m contam terem feito doa\u00e7\u00f5es financeiras, sob press\u00e3o de pastores, para que se vissem \u201clivres do pecado\u201d. Um deles, que pede sigilo de identidade, relata o que aconteceu: \u201cEles chamavam de fogueira Santa. Quando fazem uma fogueira Santa, o pastor convoca a igreja inteira a fazer doa\u00e7\u00f5es. Eu estava recolhendo as doa\u00e7\u00f5es dos outros e ele me interrompeu para dizer que Deus queria que eu doasse dois mil reais. Eu ganhava tr\u00eas mil reais de sal\u00e1rio naquela \u00e9poca. Disse que n\u00e3o tinha esse dinheiro e ele me pressionou, falando que eu n\u00e3o tinha f\u00e9, que minha vida seria cheia de pecado e desgosto. Peguei um empr\u00e9stimo e dei os dois mil reais. Antes disso, eu j\u00e1 tinha doado um laptop rec\u00e9m-comprado numa outra fogueira Santa, para me livrar do \u2018pecado\u2019 da homossexualidade.\u201d Em uma igreja de Santa Catarina, ele era sempre levado ao p\u00falpito e pastores tentavam \u201ctirar o pecado\u201d de seu corpo em sess\u00f5es de exorcismo. \u201cEu me sentia profundamente envergonhado. Eles me empurravam, queriam que eu ca\u00edsse no ch\u00e3o. Tudo na frente da comunidade. Sempre que eu entrava em um culto vinha algu\u00e9m da equipe da igreja rezar na minha volta e j\u00e1 come\u00e7avam a falar no pecado da homossexualidade. Aquilo foi me constrangendo at\u00e9 que me afastei. Hoje moro em outro estado\u201d, conta o jovem de 23 anos que rompeu com o \u201ctratamento religioso\u201d em 2016. (\u00c9poca)<\/p>\n<\/div>\n<section class=\"article-footer\">\n<div class=\"article-footer--container\">\n<div class=\"article-widgets\">\n<div class=\"share-links-widget\">\n<div class=\"share-links__content\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<\/article>\n<aside class=\"extra-content\">\n<nav class=\"article-nav-news\">\n<ul class=\"article-nav-news__container\">\n<li class=\"article-nav-news__before\" style=\"text-align: justify;\"><\/li>\n<\/ul>\n<\/nav>\n<\/aside>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sequestros, eletrochoque, jejum, priva\u00e7\u00e3o do sono, custos financeiros e exerc\u00edcios &#8220;para esquecer&#8221;Helena Borges<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":277580,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[345,6],"tags":[],"class_list":["post-277579","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entretenimento","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/cura-gay.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/277579","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=277579"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/277579\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/277580"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=277579"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=277579"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=277579"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}